Notas iniciais
"Eu nunca fui e nunca serei um boa garota' - Aly.

Eu tinha seis anos. Minha mãe era uma mulher animada, o que não batia nem um pouco com minha personalidade depressiva. Estávamos em casa, minha mãe jogando Just Dance enquanto eu estava trancada dentro do banheiro encarando meu pulso cortado. Ela bateu na porta, a música tocando no fundo.

- Aly? — Ela bateu. — Esta tudo bem?

- Sim.

- Venha jogar comigo! Podemos jogar aquela música que você gosta! — Um gato miou. — Medo e Fobia estão te chamando também!

- Já vou!

Fiz um curativo no corte e puxei a manga da blusa para baixo. Limpei o sangue da pia e sai do banheiro. Meus gatos observavam minha mãe dançar de qualquer jeito na frente do kinect. Tentei não rir, mas um sorriso acabou escapando. Dancei uma música e me joguei no sofá. Minha mãe riu e pegou um copo de limonada, sua bebida preferida, e sentou no outro sofá. Ela sorriu para mim e começou a tagarelar. A raiva cresceu dentro de mim. Desviei o olhar para a televisão e vi uma sombra atrás da televisão a me observar. Congelei. A sombra seguiu até a minha mão e a possuiu. De repente, ela parou de falar e me encarou, os olhos fora de foco.

- Mãe?

Ela estendeu as mãos para mim e me puxou pelo cabelo até a cozinha, onde pegou uma faca e a levantou. Podia ver em seus olhos o que ia fazer. No momento em que ela investiu com a faca na direção de meu rosto, coloquei meu braço na frente. Senti a faca ser enterrada em meu braço. A dor era horrível, não consegui segurar o grito. Ela tampou os ouvidos com o meu grito, soltando meu cabelo e me dando uma chance de fugir. Corri pelo corredor até chegar nas escadas. Podia ver a porta da frente semi-aberta. Arranquei a faca do meu braço, o sangue escorrendo e molhando todo o chão. Desci as escadas correndo e sai de casa. No momento em que finalmente pisei no quintal, minha mãe pulou em minhas costas.

- Mamãe! – Gritava enquanto ela arranhava meu rosto. – Pare! Sou eu! Aly! Sua filha! Pare mamãe!

Os vizinhos nos observavam de longe. Vi um deles ligando para a policia. “Não... Eles não entendem é apenas uma sombra. Ela...”. Mordi meu lábio inferior e sem hesitar enfiei a faca em seu abdômen. Ela gritou e caiu para o lado. Minha vizinha, Judy, pegou meu cotovelo e me arrastou para longe de minha mãe. Vi a sombra saindo de dentro dela e entrando dentro de mim. Algo dentro de mim se ascendeu, acordou. Sangue escorreu de meu nariz. Eu sorri e desmaiei.

Estou sentada em uma sala de aula. Todos estão em volta de mim e gritam: “Assassina! Assassina!”. Várias e várias vezes. Alguns puxam o meu cabelo, outros me cutucam. Lágrimas escorrem pelo o meu rosto até finalmente tudo parar e uma chuva de sangue cair sobre nós. Eles não se mexem, apenas continuam a gritar.

Abro os olhos e percebo que estou em um hospital. Tiro tudo que está ligado a mim e saio sorrateiramente do hospital, direto para o cemitério. Minha mãe não foi enterrada ainda, mas eu não ligo, apenas quero ficar entre aqueles que estão perto dela. Quero estar perto dela. Pego uma garrafa de cerveja vazia do chão e a quebro no asfalto. Uso um dos cacos de vidro para me cortar. Observo o sangue escorrer, o que faz lembrar de quando esfaqueei minha mãe. Mordo com força meu lábio inferior até sentir o gosto de sangue. “Desculpe mamãe...”. Uma garrota aparece na minha frente. Ela estende a mão para mim.

- Venha. – Ela sorri. – Nas sombras você não terá que sofrer.

Pego sua mão e vou para o mundo das sombras. Então, uma luz aparece de dentro de mim e finalmente lembro quem sou eu. Sou filha das sombras. A sombra que sempre me perseguiu era meu pai. Sempre. Ele matou minha mãe. Ele me matou por dentro. Eu não sou nada. Eu sou apenas... Sombras.

Caio de cima de um prédio e em vez de me espatifar, meu corpo se transforma em fumaça e então volta ao normal. Dou um sorriso e saio correndo pelas ruas. Um carro para por mim, mas ele me atravessa como se fosse uma nuvem de fumaça. Vejo uma sombra e estendo a mão para ela. Ela se molda e se transforma em uma espada. “Agora assim”. Saio matando as pessoas cobertas por sombras e devoro cada sombra que elas carregam. Após um tempo, meus olhos passam de azul claro para vermelho e por mais que tente voltar ao normal, o máximo que consigo deles é um marrom sem graça. Sou pura sombra.

Notas finais
"Adoro uma dose de vodka depois de algumas sombras" - Aly.