Contos da Seleção - Parte Dois
8 A Primogênita - Capítulo 8
Notas iniciais
Shae
–Shae? Achei que só voltaria tarde.
–É. Eu também.
Suspirei, cruzando os braços. Tristan, sozinho à minha porta, pareceu preocupado. Dei de ombros.
–Os rebeldes não quiseram negociar comigo. Aquele líder deles me chamou de criança.
Tristan segurou o riso.
–É quase como se te conhecessem.
Mostrei a língua para ele.
–Onde está o Charlie? Só ele me entende.
–Nas garagens. Teve alguma bagunça lá. Não se preocupe. Já vão mandar outro guarda para cá.
–Certo. E a sua busca pela garota ideal?
Ele deu de ombros.
–Indo. Ainda não encontrei, mas sei que continuo perto.
Tentei sorrir, apesar da sensação pesada no estômago.
–Não esqueça de me apresentar.
Estava prestes a entrar no quarto quando Tristan segurou meu braço e sorriu, encorajador, para mim.
–Não se preocupe com a negociação, S. Vai dar tudo certo.
–Claro. Claro.
Dawney e Lorien não apareceram, provavelmente prevendo, assim como Tristan, que eu ficaria na negociação até tarde. Sem ninguém para conversar, tentei estudar e depois, sem sucesso, tentei ler. Meu coração continuava acelerado e meus ouvidos atentos me assustavam a cada ruído.
Levantei-me para guardar meu livro na estante e, atrás de mim, a porta das serventes se abriu. Suspirei, aliviada por não estar mais sozinha.
–Ah, Dawney, até que...
Senti um beijo gelado sob o queixo. Uma lâmina. Meu corpo se tencionou, atento a tudo. O sujeito era mais alto e mais forte. Homem, com certeza. Não poderia dar conta dele, mas talvez Trist poderia. Só precisava ganhar tempo para poder chamá-lo.
–Você não é Dawney.
–Não. Desculpe. Mas vida longa à rainha de qualquer modo.
Sua faca se apertou, prestes a deslizar quando, sem pensar, projetei a perna para trás, chutando seu amigo viril e escapando do seu abraço enquanto ele gritava de surpresa e de dor.
–Tristan.
Gritei, sentindo o sangue escorrer do corte que a faca me fizera no pescoço. Ele invadiu o quarto no instante seguinte, sacando a arma do coldre. Empurrou-me para trás dele no momento em que o rebelde se atirava na direção dele com a faca apontada para nós. Tristan atirou e eu fechei os olhos. Acima de nós, em toda parte, as sirenes dos antigos ataques voltaram a tocar pela primeira vez desde antes de eu nascer.
Eu e Tristan ficamos parados, ofegantes, enquanto o rebelde morria. Vida longa à rainha. A família real. Era o que eles queriam. Meu pai. Eu. Shalom!
–Tristan! Shalom!
Corri para fora do quarto, correndo na direção do quarto do meu irmão. Ouvi os passos de Tristan atrás de mim e logo ele estava ao meu lado, com a arma mirando o horizonte do corredor largo de pedra.
–Você precisa ir para um abrigo! Agora!
–Não sem o meu irmão!
Gritei, acima das sirenes.
Descemos as escadas, ouvindo tiros ao longe. Chegamos ao terceiro andar, correndo até chegar à porta de Shalom. As portas estavam escancaradas. Entramos correndo. O rebelde estava rendido sob as armas dos guardas.
–Shalom. – Eu disse, sem fôlego. – Onde ele está?
–Não sabemos.
Respondeu Callaway, sem desviar os olhos do rebelde. Shalom ficava no quarto durante a tarde. Sempre. Revirei os olhos, abrindo a porta do closet. Encolhido perto dos animais de pelúcia antigos, Shalom tremia. Corri até ele, segurando seu rosto para verificar se tinha algum ferimento.
–Está machucado?
Ele balançou a cabeça, tremendo.
–Nós precisamos ir. Vem. De pé.
Peguei sua mão. E embora o medo enchesse seus olhos jovens, ele me seguiu.
O abrigo não era usado desde o último treinamento, que devia ter acontecido dois anos atrás, no mínimo. Tinha cheiro de medo e de coisas antigas e não serviu de consolo algum quando colocamos os pés nele.
–Shae! Shalom!
Nossa mãe correu na nossa direção, nos abraçando. Ela beijou o topo da cabeça de Shalom várias vezes.
–Eu estava tão preocupada com vocês...
–Nós estamos bem, mãe. Graças à Tristan. – Assegurei, embora o corte na garganta ardesse. Ela beijou minha testa, acariciando meu rosto. – E o papai? Ele já está aqui?
A rainha fez uma careta infeliz.
–Ainda não. – Percebendo nossos olhares de preocupação, mamãe se apiedou de nós, fazendo o possível para se mostrar forte. – Sejam fortes minhas crianças. Vai acabar logo. Eu prometo.
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