Contos da Seleção - Parte Dois
30 O Piloto - Capítulo 10 - Extra
Notas iniciais
Shae
–Oi para você também.
Levantei os olhos do livro que estava lendo. Tristan invadira o quarto e ficara andando de um lado para o outro sem nenhuma razão aparente, como um animal enjaulado. Não era do seu feitio entrar sem ser anunciado, de forma que eu senti uma de minhas sobrancelhas se erguendo ao ver sua expressão ansiosa.
–Oi. Quer dar uma volta?
–Eu já estou de pijama, Trist.
–Ótimo. Te vejo na garagem me meia hora.
Uni as sobrancelhas.
–Eu não conhecia esse seu lado mandão. Vem cá, Woodwork.
Agitado, ele veio até mim e sentou na ponta da cama. Segurei seu rosto, franzindo o cenho, analisando-o.
–Você está aprontando.
–Estou?
–Está. Adoro. – Beijei a ponta do seu nariz. – Meia hora, então.
–Então... Onde estamos indo?
–Shae, tire os pés do painel. Isso é um carro oficial.
–Eu sou a maldita princesa, Trist. Esse é o meu carro oficial. – Ainda assim, fiz o que ele pediu, cruzando as pernas sobre o banco. Olhei pela janela. – É a Twenty Five, não é? Não vou lá desde aquela noite...
–É, eu sei.
–Ah, eu esqueci. O seu dever é monitorar todos os meus passos.
Ele me dirigiu um sorriso nervoso.
–Precisamente.
Fiz um biquinho. Mal me lembrava da Twenty Five direito. Só lembrava-me da bagunça, do calor e da música. Seria legal ir lá com Tristan depois de todo aquele tempo, considerando que aquele tinha sido o lugar que tinha nos unido.
–Trist?
–Hum?
–Há quanto tempo nós estamos juntos?
Ele nem precisou pensar.
–Dois anos e meio.
–Dois anos? Uau. Parece tão menos...
–Isso é bom.
–É claro que é. Eu nem vi o tempo passar.
Finalmente, ele me dirigiu um sorriso sincero. Sua agitação parecia ter diminuído um pouco.
–É bom saber disso.
–Ah, o cheiro do suor alheio...
Suspirei, alcançando a caneca de cerveja do barman que nem me olhou das vezes ao meu servir. Era tão bom ser invisível, para variar...
–Talvez eu cante hoje... O que você acha, T?
Virei-me para ele, mas Trist tinha saído do seu lugar.
–Tristan?
Ouço o microfone ser testado. Percebo que a música anterior acabou e que é hora de uma nova performance. Virei-me sem acreditar.
–Ai, Tristan Woodwork... – Sussurrei, vendo-o no palco. – Você é um péssimo cantor.
Olhando na minha direção, Tristan esperou a introdução da música e começou a cantar. Ele não era nada bom, embora não fosse totalmente péssimo como eu me lembrava. O público não foi nada gentil, mas Tristan não desviou o olhar de mim nem por um segundo.
Sua música falava sobre o sentimento de estar constantemente de volta à primeira vez, de se sentir tão especial que seria capaz de fazer loucuras — como dispensar um príncipe francês – só para ter mais e mais daquele sentimento. Eu ri da sua vergonha e da insistência em ir até o final. Tristan odiava se expor, mas imaginei que estava fazendo aquilo para que eu tivesse uma noite divertida.
–Antes de me julgarem. – Ele disse, ao fim da música. – Tem algo que eu preciso dizer.
O povo, com o cinco já formado nos lábios, parou, confuso e eu fiz o mesmo. O que Tristan poderia querer dizer para toda aquela gente?
–Tem uma garota, nesse salão, que eu conhecia há dois anos atrás aqui mesmo, nesse palco. E desde então a minha vida não foi a mesma.
Eu não podia acreditar. Todos estavam ouvindo, procurando o alvo dessa declaração. Alguns fixaram o olhar em mim, percebendo o olhar de Tristan direcionado para mim.
–E eu tenho certeza que a dela também não foi. E eu sei porque estive lá o tempo todo e quero continuar estando pelo resto das nossas vidas.
Ergui uma das sobrancelhas.
–Eu sempre ouvi dizer que precisamos fechar ciclos. No fim, devemos voltar ao começo. E, nesse fim e novo começo... Não consegui pensar em nenhum lugar melhor.
Fim?
–S... – Ele pediu, com o cuidado de não dizer meu nome e iniciar uma loucura. – Você quer se casar comigo?
Minhas mãos cobriram meu rosto. Se para impedir um coração fujão de escapar pela boca ou esconder a intensidade do vermelho que tinha tomado minha pele, eu não sabia. Nada mais parecia fazer sentido. Nada mais além de Tristan.
E não foi como no momento em que Cormier me pediu. Eu não fiquei totalmente paralisada pela surpresa. Na verdade eu já mal podia esperar que ele pedisse de uma vez. Corri na direção do palco, tendo o caminho aberto para mim e pulei direto nos braços dele.
–Você está brincando?! É claro que sim!
Ele me abraçou com força e o público bateu palmas alucinadas. E aquele foi o DOIS mais merecido da história daquele lugar.
–Eu preciso?
–Sim.
–Mas...
–Tristan.
–Shae.
–É só o meu pai. Você fala com ele sobre a guarda o tempo todo.
–Não sobre você. Não sobre... Casar. E se ele ficar tipo... Super bravo e me perseguir por aí com um martelo?
–O meu pai? Sério, Tristan? Ele nem deve saber o que é um martelo...
Dei de ombros, soltando um suspiro. Eu entraria numa sala cheia de homens armados por ela, mas pedir ao rei a mão de sua princesa em casamento? Isso era muito mais difícil. Shae estendeu a mão e pegou meu rosto.
–Você está pensando demais, Trist. Para variar. Ele não é o rei de Illéa. É o meu pai. Ele brincou com você quando você era molequinho. Você se lembra?
–Certo. Certo.
Soltei o ar, ainda sem me mexer.
–Você tem que parar de achar que é menos que eu, Tristan. Que qualquer um de nós. Você não é. Especialmente se for mesmo casar comigo e se tornar um de nós.
Olhei para ela, de cima. Como era possível que alguém não pequena pudesse contar todo o amor que eu sentia por ela? Abracei-a, buscando forças no cheiro doce do seu cabelo.
–Eu vou entrar. Fique perto.
–Sempre, Trist.
Shae bateu na porta do gabinete e seu pai e nós entramos. Era o fim alaranjado da tarde e o rei estava esparramado na sua cadeira, assistindo-o pela sua imensa janela. A rainha estava em pé atrás da cadeira, brincando tranquilamente com o cabelo dele, com a tranquilidade de quem ama.
–Oi, mãe. Oi, pai.
–Oi, querida.
A rainha sorriu para nós e o rei se levantou para abraçar Shae. Ele beijou o topo da cabeça dela e tocou seu rosto.
–É a minha menina. – Seus olhos se levantaram para mim e ele assentiu. – Tristan.
–Senhor.
Ele confia em mim e nem faz ideia... Bem, acho que é agora ou nunca... Foi uma vida boa. Será um bom adeus.
–Hum... Há algo que eu queria... Que eu queria dizer.
–Ora, não me deixe te assustar. Vá em frente. É sobre a guarda?
–Não. Não, senhor. – Repirei fundo e Shae me olhou de canto, entretida. Ela estava gostando daquilo. Reprimi a vontade de beliscá-la. – Eu... Há dois dias atrás, eu levei Shae um lugar especial e... Eu pedi a ela que fosse minha esposa.
A rainha América arregalou os olhos, olhando para nós como se quisesse uma confirmação do que tinha acabado de ouvir. O rei Maxon permaneceu sério, impassível e não disse nada. Decidi prosseguir.
–E ela disse sim. Apesar disso, nós viemos até aqui para que eu pudesse pedir a permissão de você. Porque eu sei que... O único bem que eu posso oferecer para Illéa é manter sua rainha feliz e segura. Mas é exatamente o que eu gostaria de fazer.
Shae pegou minha mão e sorriu para mim. Respirando fundo, nós olhamos para os seus pais. A rainha reprimia uma risada, olhando para a expressão do rei.
Por algum tempo, ele ficou olhando de forma séria para mim, de forma que me fez querer sair correndo. Por fim, um sorriso cruzou seu rosto e ele explodiu em risadas.
–O que foi?! – Perguntou Shae, estarrecida. – O que há de engraçado?
–Eu só estou surpreso que vocês levaram tanto tempo!
–Pai!
Ele reprimiu o riso.
–Desculpe, princesa, mas... Nós sempre soubemos. Desde pequenos, vocês dois. Sempre vocês dois. Se metendo em confusão, fazendo barulho. – Ele se aproximou e pousou uma mão no meu ombro e uma no de Shae. – Tristan, eu já o amo como a um filho. E, Shae... Você sempre soube que as regras funcionam diferentes para você. É você quem as faz. Sempre foi.
O rei beijou a testa dela e se afastou para que a rainha pudesse vir correndo e nos dar um abraço apertado.
America
Shae e Tristan saíram, todos bobos, da sala. Talvez eles esperassem que os proibíssemos e agora se sentiam mais leves. Talvez só fosse o efeito que um tinha no outro. Sorri, lembrando-me da sensação borbulhante de ser amada pela primeira vez.
Maxon continuava parado no mesmo lugar, com a expressão confusa de um cãozinho que foi derrubado do caminhão de mudança e não consegue encontrar sua família. Apiedando-me dele, fui até o seu lado, tocando-o de leve no ombro.
–Maxon?
Seus joelhos pareceram falhar e precisei apoiá-lo antes que ele caísse no chão.
–Maxon!
–Desculpe, querida. Acho que preciso me deitar um segundo.
–Você acha?
Ajudei-o a chegar até o divã do outro lado da sala e o deitei com cuidado, com o coração apertado. Estendi a mão para soar o sino da criadagem, mas Maxon dispensou o gesto com um aceno e me chamou de volta para perto dele.
Sentando-me no pequeno pufe de apoiar os pés, peguei sua mão entre as minhas, preocupada, depositei um beijo nela. Quando levantei os olhos, seu sorriso era tranquilo.
–Nossa menininha vai se casar.
–Eu sei. Não é incrível? Parece que foi ontem que ela saiu gritando do quarto quando viu que Shalom era um menino.
Nós rimos juntos, lembrando da expressão de horror no rosto dela quando tiramos a fralda. Sorrindo, Maxon estendeu a mão e acariciou o meu rosto.
–Muito obrigado, minha querida.
–Pelo que?
–Por tudo.
Tristan
–Coitado do meu pai... Vai levar algum tempo até cair a ficha de verdade. – Dentro do closet, Shae se desfazia do vestido com a ajuda de Lorien e eu tentava desesperadamente não pensar nisso. – Mas foi melhor do que eu esperava. Quase como se fôssemos pessoas normais.
–Nós somos pessoas normais.
–Você entendeu o que eu quis dizer.
Já de roupas de dormir, Shae deixou o closet, dispensando Lorien com um sussurro suave. A garota passou pela porta dos criados e desapareceu. Shae veio até mim e aproveitei o momento para tirar a caixinha do bolso.
–O que é isso?
Ela perguntou, erguendo uma das sobrancelhas.
–Bem... É uma aliança. De casamento.
–Ah.
Shae pareceu surpresa. Estendi a caixinha e ela a abriu, curiosa. Sua expressão se iluminou.
–Tristan! É linda!
–Veja a inscrição.
Sorri ao ver sua expressão feliz. I have no use for rings of gold.
–I care not for your poetry.
Ela recitou, de cor.
–I only want to hold your hand.
–I only want you near me.
Eu procurara por uma aliança antes mesmo de ter tomado coragem para pedi-la. Era divertido para mim imaginar o rosto de Shae ao ver qualquer uma delas. Na maioria dos cenários, ela franzia o nariz, ou fingia gostar para não ferir meus sentimentos. Em alguns ela me perseguia com um martelo. Mas no momento em que vi aquela, sabia que era a escolhida.
Era formada pelo encontro de três fios de outro brando de espessura média que se entrelaçavam e envolviam uma pedra transparente. O poema, Shae recitara para mim um dia, dizendo ser a única poesia que ela conhecia que não era horrível.
–Você gostou?
Ela assentiu, sem desviar os olhos. Peguei o anel e deslizei pelo seu dedo. Com um pulinho animado, ela pegou a minha e a deslizou pelo meu dedo.
–O que você acha que sua mãe vai dizer?
–Provavelmente vamos nos abraçar por uma meia hora e dar alguns gritinhos no processo.
Ela se apoiou no meu peito e eu a envolvi com os braços.
–Mal posso esperar.
–Amanhã?
–Amanhã.
Assenti, beijando o topo da sua cabeça.
–Eu vou indo, então. Boa noite, Shae.
Ela se afastou um passo para que eu pudesse ir até a porta. No meio do caminho, sua voz me chamou de volta.
–Trist?
Olhei para ela por cima do ombro. Shae estendeu a mão e eu ainda estava perto o bastante para alcançá-la. Foi o que fiz.
–Sim?
–Você não precisa ir embora. Não hoje.
–Shae... –Engasguei com minha própria desculpa, porque ela estava tão linda e tão simples e tão desgrenhada que quero dar a ela tudo que ela quer. – S-s-seus p-p-p-ais. Eles confiam em nós...
–Trist. Nós somos adultos. Por favor. Fica?
Não cedi, mas também não disse nada. Shae se aproximou e tocou meu pescoço com a mão quente. Levei a mão até ela e a beijei.
–Shae...
Ela calou o que quer que eu fosse dizer ao ficar na ponta dos pés e me beijar. Seus dedos se envolveram no meu cabelo. Inconscientemente, minhas mãos desceram pelas suas costas pequenas. No seu pescoço, a pele se arrepiou pelo contato.
Inclinei-me para frente, aprofundando o beijo, deslizando as mãos até a sua cintura e depois à parte interna nas suas coxas, içando-a até que estivéssemos na mesma altura. Shae soltou uma risadinha.
–Tristan...
Percorri o quarto, procurando o apoio de uma parede. De alguma forma, acabamos na cama dela. Livres, minhas mãos percorreram seu corpo e as mãos delas não se mostraram mais tímidas, lutando contra o uniforme da guarda.
–Eu sempre achei que vocês usavam roupas demais...
Reclamou ela, jogando o casaco longe. Minhas medalhas fizeram barulho ao cair no chão. Deslizei as mãos pela parte de dentro da camisa do seu pijama. A pele era macia e cheirosa e incrível de tocar.
–Shae, eu...
Ela assentiu e voltou a se aproximar, mantendo meus olhos presos nos seus.
–Eu também te amo Tristan. – Ela sussurrou, envolvendo meu rosto com as mãos. – E eu mal posso esperar para que você seja só meu.
–Eu sempre fui. – Sussurrei em resposta, tirando o cabelo ruivo do seu rosto. – E sempre serei.
Fale com o autor