Contos da Seleção - Parte Dois
17 O Chefe da Guarda - Capítulo 7
Shae
Sem Dawney. Sem Lorien. Também não podia recorrer à Astra ou tia May porque se eu saísse do castelo pareceria que eu estava fugindo. E eu não tinha certeza se conseguiria falar com meus pais sobre isso. Meus meninos não apareceram à minha porta e eu estava com medo de sair e dar de cara com meu noivo. Ou quase-noivo? O fato de eu não ter dito nada interferia?
Cormier me procurara algumas vezes, mas eu pedir que meus guardas não o deixassem entrar. Depois de muita insistência, eu aceitara ir até a porta falar com ele. Ele parecia ferido com a minha atitude distante.
–O que está acontecendo?
–Eu preciso pensar, Cormie. Não me apresse. Você não devia ter feito isso tão de repente...
–O que há para pensar? Você disse que gostava de mim!
Respirei fundo, assumindo minha pose real.
–Cormier. Por favor. Eu quero ficar sozinha.
Ele assentira, percebendo que estava indo longe demais.
–Quanto tempo?
Comecei a sentir o ar me falar.
–No jantar. Prometo.
O peso do prazo começou a pesar em mim no momento em que fechei a porta atrás de mim. E não conseguia pensar em nada com todos aqueles flashes de câmeras do lado de fora da minha janela. Qual a graça em fotografar um animal enjaulado?
A verdade era que eu gostava, sim, do meu príncipe francês. Quer dizer, ele era lindo e gentil e eu me sentia confortável perto dele. Mas casar... E se eu não gostasse do jeito que ele dormia? Se ele quisesse dormir do meu lado da cama? E se roncasse alto ou falasse? E se eu não gostasse dele a ponto de amá-lo de verdade um dia? E se ele mudasse seu jeito romântico depois do casamento?
Mas, por outro lado, porque eu diria não além do medo? Cormier era maravilhoso e eu veria isso se não estivesse tão apavorada. E eu nem teria que deixar Illéa para casar com ele. Recusá-lo poderia ser o pior erro da minha vida. Até porque minhas opções de casamento eram limitadas pelos muros do castelo. E se eu acabasse sozinha? Comecei a tentar respirar, percebendo aquele aperto no peito da pressão mais uma vez.
Ouvi um bater suave na porta.
–Sim?
–É a rainha, princesa.
–Pode deixá-la entrar.
Minha mãe entrou, toda vestido e realeza, como sempre. Era difícil acreditar o quanto aquela vida tinha mudado a menina selvagem das gravações da última Seleção.
–Você está bem, meu amor? Você não sai do quarto desde ontem depois de Cormier. Café, almoço... Você sequer comeu alguma coisa?
Balancei a cabeça, caminhando em círculos.
–Não consigo. Não desce.
Ela pegou minhas mãos e me levou até a cama, sentando-se ao meu lado. Sinalizou para que eu respirasse fundo com ela.
–Nós já conversamos sobre os seus problemas de ansiedade. Você precisa respirar fundo.
–Eu sei. Eu sei.
Mamãe começou a separar meus cabelos enquanto eu respirava, começando a trançá-los.
–Eu também não amava seu pai quando vim para cá, lembra? Mas decidi dar uma chance a ele.
–Mas é casar, mamãe. Não há Seleção antes disso. Não há test-drive. E desfazer um noivado já feito seria o sonho de consumo da mídia.
Seus dedos hábeis trançavam devagar, distraidamente.
–Esse é o seu medo? Que você se arrependa?
Baixei o rosto.
–Eu não quero me prender a alguém que eu mal conheço. Mas também não quero ficar sozinha.
–Não diga isso! Shae! Você é uma garota incrível e nunca deve ter medo de estar sozinha. Você deve casar quando quiser casar e com quem quiser casar. Mesmo que não encontre a pessoa certa por um tempo, você vai ter a nós. E os seus amigos. – Ela terminou a trança e segurou meu rosto, sorrindo, como se estivesse orgulhosa. – Eu quero ver você feliz, princesa. O que quer que você escolha eu vou te apoiar e o seu pai também. Mas eu quero que você escolha porque você quer e não porque tem medo.
Sorri para ela, embora ainda sentisse as mãos tremerem.
–Você está certa, mãe. Obrigada.
–Não há de quê, querida. Vou deixar você com seus pensamentos, certo?
Ela em abraçou e saiu, tão régia quanto entrara. Aquele curto tempo respondera à mais dúvidas que todo meu tempo sozinha. Era como se mamãe soubesse sempre o momento certo de vir e desfazer os nós que se formavam na minha mente.
E agora só havia uma última coisa a fazer.
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