Contos da Seleção - Parte Dois

2 A Primogênita - Capítulo 2


America

O dia que passei à janela do Salão das Mulheres passou mais rápido do que eu imaginava que passaria.

Depois daquela manhã, pedi que Silvia remarcasse todos os meus compromissos e avisasse à Maxon que eu não almoçaria com ele. E embora eu soubesse que estaria preocupando a todos e que estava agindo como uma criança assustada, eu não sabia mais o que fazer. Precisava de um tempo. Havia muito no que se pensar.

Tinha pensado em ir até a casa da minha família, que não era muito longe, mas só o pensamento de ver pessoas já me embrulhava o estômago. E, quando dei por mim, o dia já tinha acabado, e o medo não tinha diminuído. Ajeitei a caixinha sobre o colo. Tinha pedido à Marlee que a providenciasse para mim, mas não fizesse perguntas. Eu sabia que ela sabia, embora fôssemos amigas o bastante para que ela me desse o tempo que fosse necessário.

Eu imaginei que, tendo-os à mão, tornaria tudo aquilo mais real. Porém, a simples ideia que fora plantada na minha cabeça naquela manhã parecia tão impossível e irreal quanto me casar com o príncipe de Illéa. Eventualmente, eu acabaria me acostumando com a ideia. Mas não seria fácil.

Saí do Salão das Mulheres, andando tão distraída até o 4º andar que quase tropecei pelas escadas várias vezes e tive que ser socorrida por guardas. Respirei fundo antes de abrir a porta do meu quarto. A porta que separava nossos quartos estava fechada e eu suspirei. Mais uma porta para abrir. Será que eu teria coragem?

Andei até a porta e a entreabri. Maxon estava sentado na nossa cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos. Estava tenso. Atrás dele, nosso imenso mural de fotos me chamou a atenção. Precisaríamos começar um novo. Talvez eu devesse usar essa abordagem para contar a ele. Ou talvez não...

O barulho da porta se fechando chamou a atenção do meu marido, que olhou para mim com os olhos torturados. Fiz o possível para sorrir, embora estivesse aterrorizada. Fui até ele, com a caixinha segura entre os dedos.

–Silvia me disse que você adiou o dia todo. – Assenti, calada. – Você está bem?

Voltei a balançar a cabeça afirmativamente. Sentia vontade de vomitar. Ou de me esconder. Ou talvez as duas coisas.

–Eu fui até o doutor Ashlar hoje. Você sabe, rotina.

Devido à morte repentina do meu pai, Maxon e eu concordáramos – veja só! Que milagre! – que era importante monitorar mensalmente qualquer alteração no meu sistema circulatório.

–E...

–E... – Sentei-me ao lado dele, encarando a caixa. – Tinha uma interferência estranha. Então nós decidimos checar.

Ele respirou fundo e passou as mãos pelos cabelos de forma nervosa.

–Podemos ir direto ao ponto?

Assenti, entregando a caixa a ele. Senti-me receosa por me separar dela, mas esse era o seu propósito desde o início. Maxon olhou para a caixa e depois para mim, sem entender.

–Abre.

Incentivei, unindo minhas mãos suadas em expectativa. Ele abriu a caixa com cautela, como se tivesse medo do que quer que estivesse dentro dela. Encarou o conteúdo, sem entender.

–Isso é.

–Sim. É.

–America...

–Eu sei.

Peguei sua mão e esperei que ele conseguisse encontrar suas palavras. Eu mesma tivera um dia inteiro e ainda não sabia exatamente o que dizer ou pensar. Dentro da caixa, os sapatinhos nos encaravam como a notícia ineroxável caía com o peso de uma bigorna sobre nós dois.

Ele olhou para mim, tentou abrir a boca, mas não conseguiu articular nenhuma palavra. Seus olhos estavam nublados de lágrimas. Estendi a mão para acariciar seu rosto.

–Está pronto?

Maxon sorriu e me abraçou com força. E eu sabia que tudo ficaria bem.

Notas finais
:3333