Contos da Seleção - Parte Dois
10 A Primogênita - Capítulo 10 - Extra
Notas iniciais
Flashback
America
I
–Sim, sim, sim. E então, quando você for maior, eu vou levar você até o jardim onde a mamãe conheceu o papai. Tem uma grama bem macia e um monte de terra para você se sujar. O papai é que não vai gostar, mas a gente não precisa contar para ele, certo?
–O que é que o papai não vai gostar?
Maxon apareceu, espiando pelo canto do banco da janela. Acenei para que ele sentasse ao meu lado. Tinha os pequenos sapatinhos que usara para lhe contar sobre a gravidez sobre a barriga esticada, brincando com eles.
–Isso é segredo do bebê e da mamãe. Certo, bebê?
Mexi os sapatinhos como se o bebê concordasse. Maxon sorriu e se inclinou para beijar meu rosto.
–Como foi o dia de vocês?
–Foi incrível. Você precisa ver isso.
–Ver o quê?
Peguei a mão dele e a pousei sobre a barriga. Era possível sentir com clareza as costas e os pequenos cotovelos da vida que se formava dentro de mim, a vida que fizéramos juntos.
–Pronto?
Ele assentiu. Cantarolei baixinho uma melodia de natal que costumava cantar na minha casa, na Carolina. O bebê se mexeu, pressionando-se contra a pele da barriga e a mão de Maxon diretamente sobre ela. Seus olhos se levantaram, assustados.
–Isso é normal?
Sorri.
–É perfeitamente normal. Quer dizer que ele está ouvindo. Está interagindo conosco. Vá. Tente falar com ele.
Sorrindo também, ele se aproximou, espalmando as mãos na barriga.
–Olá, bebê. Como vai o mundo aí dentro? Aposto que é quentinho e macio.
Respondendo à voz dele, o bebê se mexeu. Arrumei-me, desconfortável como todo aquele movimento, mas não queria que ele parasse. Maxon levantou os olhos e parecia feliz como uma criança que ganhou um cachorrinho.
–Ele é perfeito.
Peguei o sapatinho cor de rosa e balanço-o a sua frente.
–Ela.
Revelei, mordendo o lábio inferior. Meu príncipe riu e se levantou, beijando-me, não como um amante beija ao outro, mas como um pai beija uma mãe.
II
–Porque ela não abre os olhos?
–Ela está dormindo, Maxon.
–Porque dorme tanto?
–O que mais ela ia fazer o dia todo?
Os olhos curiosos do meu marido perscutam o bebê. Não tenho certeza sequer se ele já viu um bebê pelo jeito estranho que ele está agindo. Ajeito Shae em meu colo e sua boca fica entreaberta.
–Você quer segurá-la?
Maxon olha para mim assustado.
–Eu?
–Não, o verdadeiro pai. É claro que sim.
Ele engoliu em seco.
–É que eu não... Eu não sei fazer isso.
–Não tem segredo. Só apoie o pescoço dela.
Com cuidado, me posicionei para passar o corpinho pequeno e quente para os braços dele. A dor do parto ainda mandava pontadas pelo quarto e eu queria desesperadamente mais sono, mas mesmo aquilo podia esperar para ver Shae nos braços do pai pela primeira vez. Meio desajeitado, Maxon conseguiu acomodar nosso pedacinho do céu e ficava olhando todo bobo para ela.
–Oi, Shae. Você nem sabe que esse é o seu nome, não é? Você lembra-se de mim? Eu sou aquele cara que ficava brincando com você na barriga, lembra?
A mãozinha fechada de Shae se projetou na direção do rosto do pai e se abriu, segurando sua bochecha. Ele olhou para mim, apavorado.
–O que eu faço?
–Nada. – Respondi, orgulhosa. – Só isso já está perfeito.
III
–Não quero irmãozinho! Não quero, não quero, e não quero!
–Mas Shae...
–Não quero, papai!
Nervosa, Shae cruzara os braços e se escondera no topo de uma das estantes da biblioteca. Ela se recusava a descer. Nem eu, nem Maxon e nem ninguém conseguia convencê-la a descer até que o irmãozinho fosse embora.
–Vai ser tão legal, Shae!
–NÃO!
Suspirei, aflita. Se ela pulasse de lá, eu não poderia segurá-la.
–Ele não pode ir embora, filha. Está dentro da mamãe.
–Então cospe ele fora! Ninguém mandou engolir!
Maxon tentou se manter sério, mas posso ver a vontade que ele está de rir. Quero lhe dar um besliscão, mas ele está tentando novamente.
–E se eu prometer alguma coisa bem legal que só você vai ter o seu irmão não?
Shae olhou para baixo, para nós, subitamente interessada.
–Tipo o que?
Maxon pensou.
–Tipo... Um colar. Que tal?
Ela mostrou a língua.
–Não! E a mamãe, o que vai me dar?
Pensei no que faria Shae descer.
–Uma música! Só sua. Que tal?
A menina de seis anos pensou e pensou e pensou. Por fim deslizou até o fim da estante e desceu até a escada deslizante, que rolou até nós. Pulando no chão, a criança sorriu com um dos dentes faltando.
–Feito.
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