Contos da Casa da Bruxa

3 Capítulo III - Sinfonia da Floresta


Dia 27 do mês do Leão (07) do ano 2015 6° Era.

Entrebosques, aldeia no interior do Principado da Carinthia.

Os zumbis, se é que podiam ser chamados assim, vagavam como sonâmbulos sem rumo, com que a espera de ordens ou um alvo e demorou bons segundos para o primeiro deles notar os irmãos parados na porta da capela, com o bando gradualmente se virando em direção deles e entrando num estado de fúria animalesca que os fez avançar contra o prédio, empurrando uns aos outros como uma manada em debandada na tentativa de subir os degraus estreitos da escada.

Lysander moveu ambas as mãos num gesto de empurrar, jogando uma dúzia deles metros para trás de costas no chão. Porém a massa continuou investindo e Alyssa moveu a varinha para conjurar uma barreira arcana, uma espécie de parede invisível que bloqueou completamente a passagem e segurou os agressores tempo o suficiente para Lysander fechar as portas e atravessar uma tábua de madeira poder dentro dos puxadores.

— Ótimo. — bufou Alyssa. — Agora quem vai nos pagar?

— Era uma quantidade de merda mesmo, não faz diferença. — respondeu Lysander sentindo o coração acelerado dentro do peito. — Quantos minutos consegue manter a barreira levantada? — a irmã levantou três dedos. — Então não temos muito tempo. Seja o que for que acabou de acontecer Berchta sabe que estamos aqui. Precisamos subir para o segundo andar e pular a janela.

— E os nossos cavalos?

— Não vamos fugir. Vamos entrar na floresta e matar essa crona. Se fizermos isso as pessoas vão ficar livres do controle dela. Ou morrer. Não tenho certeza. Vem. — Lysander segurou a irmã pelo braço e a puxou pela nave, passando ao lado do pedaço de espelho que Humbert havia deixado cair. Sem parar de andar ele gesticulou e o objeto veio levitando até sua mão, com a qual envolveu e enfiou no bolso do sobretudo. — O que aconteceu com as pessoas daqui? Tem alguma ideia?

— Fantochismo. O conceito é bem simples, mas é difícil de executar. Você só precisa fazer um boneco de madeira, porcelana ou pano e colocar nele parte do corpo de alguém. Cabelo, dente, unha, qualquer dessas coisas serve. Então dá para controlar a pessoa usando o boneco. — ao tentar sem sucesso abrir a porta trancada no fundo da nave Alyssa puxou sua varinha, murmurou algumas palavras e a fechadura explodiu. — Cronas são boas em fazer isso, muito boas em fazer isso.

— E podem controlar uma aldeia inteira?

— Se todas as pessoas deram cabelo ou unhas para ela, sim. — atrás da porta havia um curto corredor e no final uma escada de madeira em caracol levando ao nível superior da capela. — Vai na frente, vou colocar outra barreira aqui. — ouviram barulhos altos de socos contra a madeira e de repente um barulho alto de coisa se partindo conforme os zumbis arrombavam a entrada da construção. — Anda logo Lys.

O rapaz riu com a irmã dando as ordens e correu em direção as escadas, ouvindo os passos dela vindo atrás pouco depois. E escada levava à uma espécie de sótão, com mobília coberta por lençóis e uma quantidade inacreditável de poeira ao ponto de algumas partes formarem bulbos quase sólidos. Ambos gêmeos sentiram os olhos arderem e lacrimejarem, e tiveram de avançar pelo ambiente escuro até encontrarem uma pequena janela que Lysander quebrou com telecinese.

— Vou amarrar a carda, olha para ver se não tem nada nos esperando ai em baixo. — Lysander levou a mão para dentro do sobretudo, tirando o rolo de corda preso ao seu sinto e com agilidade nas mãos fez um nós ao redor de uma das vigas de sustentação do teto, jogando o resto pela janela. — Eu vou primeiro. — disse para Alyssa, temendo que pudesse haver algum tipo de armadilha mundana ou arcana posta pelo pastor nas imediações da capela. O rapaz suspirou, sentou na beirada da janela e envolveu a corda com as mãos, começando a deslizar lentamente os quase oito metros até os pés tocarem o chão. — Tá limpo, pode vir.

— Qual o plano agora? — perguntou Alyssa ao chegar ao chão.

— Não podemos sair por ai massacrando os aldeões, mesmo sendo controlados. — disse Lysander, puxando a irmã para as sombras. — Pegou todo seu equipamento. — ela assentiu silenciosa. — Então não tem jeito, vamos entrar nessa floresta agora.

— E o taverneiro? Ele não deu cabelo nem unhas, pode não estar sendo controlado.

Lysander respondeu sem nem pensar.

— Não vamos arriscar nossas vidas por isso.

— Mas ele nos ajudou!

— E o melhor jeito de retribuirmos é libertando essa aldeia inteira.

Alyssa crispou os lábios, claramente não à vontade com a opção do gêmeo. Todavia ela sabia que, embora não fosse a mais bondosa a se fazer, era a mais certa e o código dos aventureiros dizia que eles sempre deviam presar por salvar o maior número de vidas possíveis, mesmo que isso significasse sacrificar algumas, inclusive de pessoas com quem se importassem.

— Tem razão...

Se esgueirando pelas sombras e com ajuda do feitiço passos silenciosos que diminuía imensamente o som feito ao caminhar os irmãos se esgueiraram pelas choupanas, evitando as hordas de zumbis, até chegaram à orla da floresta de Entrebosques, uma mata densa, sombria e não mapeada, lugar perfeito para prosperarem toda a sorte de monstros e esconderijo perfeito para seres inteligentes e macabros como as cronas. É bem verdade que ser localizada no interior de um principado rico e bem desenvolvido impedia seus povoados de serem alvos de hordas de goblins, jovens dragões ou clãs de gigantes, embora fosse de conhecimento geral que cocatrizes, basílicos, trolls, bulletes e mesmo quimeras viviam naqueles oceanos verdes, esperando suculenta carne humana para consumir.

— Esse é o lugar mais atormentado no qual é estivemos. — comentou Alyssa, recuando alguns passos para longe da orna, onde as árvores eram bem menos por terem sido cortadas e replantadas pelos lenhadores ao longo dos anos. — Sente toda essa energia? Talvez devêssemos pedir ajuda...

— Vamos ficar bem sozinhos.

— Você nunca dá bola para a minha opinião.

— Eu dou, mas fomos encurralados. Ela jogou a isca e nós engolimos o anzol. — Lysander mantinha os olhos fixos no horizonte, sentindo a presença gélida vinda das árvores, uma espécie de vento sobrenatural que atravessava a pele e se agarrava aos ossos e juntas, causando dormência e rigidez muscular. Primeiro pensou que podia ser somente psicológico, a ansiedade frente ao desconhecido, porém logo passou a considerar a presença de fantasmas, termo genérico para qualquer alma humana que após a morte não pode ser alcançada por Salazar, o Deus da Morte, e permaneceram presos ao Mundo Material, vagando sem propósito ou assombrando lugares até que os “obstáculos” que os impedissem de ascender fossem eliminados. — Você é a feiticeira. Tem algum conselho sobre como enfrentar cronas?

— Ficar perto um do outro. Elas têm poderes meméticos mexem nossos sentidos. Podem imitar vozes, esconder a aparência com ilusões e fabricar sons. Usuários arcanos são mais sensíveis, então fica com um olho em mim... deixa para lá, tu tá sempre fazendo isso mesmo. — Lysander riu, tendo de aceitar ser verdade e a menina sacou a varinha, balançando devagar até a ponta se iluminar na forma de um esfera dourada, tirando da escuridão um área de uns cinco metros de raio ao redor deles. — Vou na frente.

Os gêmeos adentraram na mata e gradualmente a apreensão cresceu, mesmo ambos tendo quase três anos de experiência como aventureiros e outros quase três sendo treinados por seus pais, o paladino Leon e a feiticeira Marcelinne. Não existia qualquer trilha no bosque e as árvores pareciam distorcidas, com troncos de madeira quase negra, castas apodrecidas, folhas em um tonalidade de verde musgo e espinhos surgindo nos galhos e raízes de plantas as quais não eram para ter espinhos. O chão instável e afundava os pés, corujas, com seus grandes olhos reluzentes, encaravam os invasores humanos de seu território, lobos uivavam ao horizonte e morcegos revoavam pela copa das árvores, tão densas que se entrelaçavam criando uma gigantesca cúpula que impedia a luz tanto solar quanto lunar de entrar, tornando também difícil se guiar pela ausência de referencial nas estrelas.

— Sabe para onde ir, não sabe?

— Sim. O rastro é fraco, mas consigo sentir a mesma energia do crânio indo para lá. — disse apontando para a escuridão absoluta com a ponta reluzente da varinha. — Cinco ou seis quilômetros, eu acho.

Lysander ouviu a irmã e conforme avançavam viu um vulto em sua visão periférica, virando o rosto para acompanha-lo e então dando um sobressalto em pânico, fazendo-o puxar a espada da bainha num reflexo tão ligeiro que seus músculos pareciam incapazes de realizar.

— Deuses, o que foi?

— Minha sombra. Ela... ela não estava me seguindo.

Alyssa se virou, apontando a varinha para o chão e as sombras jaziam uma ao lado da outra, perfeitamente normais. A garota franziu o cenho e colocou a mão nas costas no irmão.

— Ei, Lys, se acalma. Foi só um sustinho.

— É, tem razão. — respirando ofegante ele abaixou a espada e suspirou, esfregando a testa com a mão livre. — Só coisas da minha cabeça, vamos em frente.

Tudo ficou calmo nas centenas de metros seguintes, mas então foi Alyssa quem sentiu algo estranho. Parecia que algumas das árvores tinham rostos talhados em seus troncos, rostos horrendos com olhos profundes e dentes pontudos e que estes acompanhavam o irmão conforme caminhavam, os olhando pelas costas, sussurrando através de seus galhos, arrepiando a espinha. Nesse momento ela quem começou a suar frio, sentia a mão ficar úmida ao redor do cabo da varinha branca.

— Algo errado?

— Não. — disse sem nem pensar. — Tudo... tudo em ordem. — ela fechou os olhos, aumentando o brilho de seu feitiço, para mais da floresta sair da penumbra. Com a claridade súbita dezenas de morcegos abriram as asas e revoaram em direção dos jovens aventureiros, batendo em seus rostos e corpos. Alyssa, acuada, moveu a varinha e acertou feitiços em alguns deles, cujos corpos caíram sem vida aos pés de Lysander. — Desculpa.

— Tudo bem. — disse contornando o cadáver. — Tudo bem... — repetiu dando uma risada nervosa. — Vamos só... vamos só continuar. — Alyssa engoliu em cesso e assentiu, apontando a esfera de luz para o horizonte. Nesse momento parecia que as árvores a frente deles tinham mudado de lugar, tornando-se mais densas em uma direção e formando uma espécie de caminho para noroeste. — Viu isso também?

— Vi o que?

— As árvores... elas mudaram de lugar.

— O que? Não seja boba, árvores não mudam assim de lugar. Nem com magia.

— Eu sei, mas... mas eu vi. — ela levou uma mão até o chapéu, o ajeitando na cabeça. — Certo, certo, poderes meméticos, poderes meméticos. É tudo nossa imaginação. — É tudo nossa imaginação. — repetiu para si mesmo, pondo as duas mãos no rosto para esfregar os olhos. — Lys, nós podemos fazer uma paus... — Alyssa girou sobre os calcanhares, mas atrás dela não havia ninguém — Lys? — falou mais alto, com os olhos indo para todas as direções. — LYS! — gritou bem alto, sentindo lágrimas já começando a se acumular. De repente ouviu risadinhas infantis e travessas vindas do meio das árvores. — Quem está ai? — ela se virou para todas as direções, apontando a varinha e quando ouviu as risadinhas novamente conjurou uma bola de fogo em direção de onde pensou ter vindo o som. — LYS!

Os gritos, vindo ásperos do fundo da garganta, se perdiam na floresta infinita e Alyssa ouviu barulhos de passos em suas costas, virando bem a tempo de ver três silhuetas, pequenas e femininas, se movendo entre as árvores, repetindo as risadinhas de poucos minutos atrás. A feiticeira olhou ao redor novamente, a procura do irmão, e sem qualquer sinal dele decidiu correr em direção às figuras, confrontá-las.

— Ei, voltem aqui! — ordenou, vendo as garotinhas paradas voltarem a correr conforme se aproximava. A mão segurando a varinha tremia, com os dedos formigando para atacar, mas o coração mandando-a se acalmar. Sua mãe já tinha ensinado que feitiços são coisas perigosas, mortais e destrutivas, e que não deviam ser usados levianamente. — Só quero conversar! — as meninas foram mais para dentro da mata e Alyssa começou a se emprenhar entre os troncos, com os espinhos de um dos galhos cortando a pele rosada nos braços e bochechas. Ela gemeu de dor, sentindo o sangue quente escorrer, mas quando o pensando de recuar lhe veio à mente o corpo simplesmente não reagiu, como se fosse impulsionado a seguir em frente. — Voltem aqui.

Alyssa atravessou vários metros de raízes e galhos, ficando com os braços repletos de cortes finos, porém profundos, e finalmente emergiu cambaleante numa clareira onde vislumbrou um caldeirão de ferro, grande o suficiente para um homem adulto caber dentro, sendo mexido em sincronia pelas três garotinhas que havia seguido, uma de cabelos castanhos, outra ruiva e a terceira com cachos cor de mel caindo sobre os ombros. O aroma da mistura era ao mesmo tempo agradável e nauseante, como se tivesse misturado várias ervas, extratos e temperos com algo... algo a mais.

— Bem-vinda Alyssa. — disseram em uníssono, com as vozes em perfeita harmonia. — Mamãe disse que viria. — a menina castanha, parada no meio, tirou do caldeirão a grande colher de madeira que usava para mexer, estendendo um pouco para mostrar o líquido de coloração vermelho rosado. — Quer provar? É uma delícia. — continuaram dizendo como só uma entidade. — Só uma colherada.

— Eu não quero isso! — ela berrou, segurando a varinha com as duas mãos e apontando para o trio, tremendo e com as gotas de seu sangue caindo sobre a grama morta. — Onde está o meu irmão? Onde tá o Lysander. — as meninas se entreolharam, dando gargalhadinhas maliciosas. — Falem!

— Mamãe quer falar com ele. Mamãe tem uma proposta para ele. E para você também.

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Quando Alyssa mencionou que as árvores tinham mudado de posição Lysander tentou acalmá-la, dizendo que era apenas a mente pregando peças em uma paisagem escura com poucos pontos de referência, mas ela se recuou a ouvir e correu desesperada na direção do caminho que supostamente havia se aberto após a mudança.

— Alyssa! Espera! — o rapaz temeu pela segurança da irmã, poucas vezes tinha a visto num estado tão fragilizado, e não perdeu tempo em segui-la. — Vai mais devagar! Alyssa. — ele nunca tinha visto a irmão, pequena e de pernas finas, ir a uma velocidade tão alta, quase sobre-humana, e quando virou à esquerda para acompanhar a curva das árvores ela tinha sumido de vista. — Alyssa! — gritou em desespero. Sem a luz da varinha a única fonte de claridade eram os finíssimos raios prateados capazes de penetrar a copa das árvores e, sendo generoso, iluminava apenas alguns palmos à frente, deixando tudo além do alcance de um braço na completa escuridão. — Alyssa, responde!

Certo desespero começou a tomar conta. Tinha a irmã caído em uma armadilha? Tinha sido inconsequente o suficiente para correr sozinha sem espera-lo? Teria ele virado para a direção errada no caminho? Ou era vítima de uma ilusão sonoro e visual criada pela crona. Nenhuma das opções era reconfortante e quando deu meia-volta para refazer seus passos na esperança de encontrar Alyssa nas redondezas sentiu o corpo inteira bater contra algo duro e então a pele das mãos e bochechas ser perfurada, o fazendo sangrar.

— Que merda. — resmungou enquanto levava uma das mãos até as costas, pegando a tocha que trazia amarrada junto à bainha da espada. Pegou uma pederneira do sinto e raspou as duas partes até produzir uma faísca que incendiou o tecido embebido em óleo, o tirando as cegueira. — Puta que pariu. — faram as únicas palavras capazes de sair de sua boca quando viu uma parede de espinhos diante dos olhos. Tinha pelo menos cinco metros de largura, cobrindo toda a trilha e entrando alguns metros entre as árvores, sem mencionar os quatro metros de altura, tornando impossível pular para o outro lado. — Floresta maldita. — a reação natural foi aproximar a tocha dos ramos, nas esperança de incinera-los, mas as chamas simplesmente não aderiam. — Merda.

Com a mão livre segurou a espada capaz de ferir demônios e golpeou as vinhas com raiva, incapaz de sequer arranhar o material. Repetiu os golpes de novo, de novo e de novo, e mesmo conseguindo cortar algumas elas rapidamente se reatavam, voltando cada vez mais fortes e com espinhos mais afiados.

— Bosta! Bosta!

Desistindo do aço apelou para a telecinese que também se mostrou inútil, não fazendo pressão o suficiente para a densa muralha ceder. Numa última tentativa pegou os frascos de coquetel explosivo de seus bolsos e jogou contra o obstáculo, provocando uma explosão que iluminou a floresta como uma estrela por milissegundos, mas então cessou, deixando apenas um punhado de ramos chamuscados.

— Isso... isso é poder demais. — murmurou com as chamas refletindo na íris e na pupila e o suor escorrendo pelo rosto pelo calor das chamas. — Nós temos chances.

Exaurido de opções para desafiar a imponente muralha de vegetação tudo que podia fazer era seguir o caminho aberto e rezar para encontrar sua irmã sã e salva, o aguardando sentada debaixo de uma árvore ou algo assim. Porém, e se ele estivesse sob influência da crona e Alyssa andava desesperada pelo bosque em busca do irmão desaparecido, apenas para encontrar aquela parede de espinhos entre eles. Engoliu sem seco, sentiu o oração apertado. A incerteza era agonizante, o sentimento de impotência pior ainda.

— Você pode! Você pode fazer isso. — reunindo coragem para a mente, aura para o espírito e adrenalina para os músculos ele se aventurou pela trilha, gradualmente ficando mais estreita até os imensos carvalhos, olmos, sabugueiros e acer formarem somente um corredor com menos de um metro de largura, o suficiente para passar, mas apertado demais para correr ou poder reagir caso algum perigo aparecesse. Com a tocha tendo pano e óleo o suficiente para queimar por cerca de quatro horas não tinha medo de ficar no escuro, porém o pavor de se perder era real e palpável, já que somente Alyssa era capaz de sentir o rastro de aura, com um cão farejador. — Deus. — disse em voz alta, como se só assim eles fossem ouvir. — Por favor, me ajudem.

Ele prosseguiu em linha reta sabe-se lá por quantos minutos e gradualmente a floresta foi ficando mais pantanosa, com o solo começando a ficar macio, depois lamacento e finalmente alagado, com as botas de Lysander entrando um palmo dentro de uma água espessa e amarronzada. A vegetação também foi mudando, dando lugar a árvores ribeirinhas com grandes raízes brotando do chão, cortando os veios de água que emergiam do solo saturado. Mosquitos e sapos tornaram-se então presente, e podia jurar ter visto cobras rastejando pelos troncos.

— Isso não é natural. — resmungou com certo desprezo. Carinthia inteira era uma região temperada e Entrebosques existia não muito longe da base de montanhas nevadas, numa altura já expressiva de seiscentos metros acima do nível do mar, sendo impossível às condições para um pântano úmido e abafado como aquele existirem naturalmente, ainda mais com répteis. — Isso não é.

Lysander tinha tido somente uma experiência com pântanos na vida, quando Leon havia o levado para os pântanos ao sul de Astúrias, e não tinha sido especialmente agradável. Ao menos, naquela época, tinha a companhia do imenso e todo poderoso pai, e não tinha sido arrastado para as entranhas do território de uma crona poderosa o bastante para controlar uma aldeia inteira usando apenas mexas de cabelo.

Ele andou pelo que pareciam ser círculos infinitos naquele pântanos, vendo de relance sombras, criaturas escuras voando entre as copas das árvores, cobras em seus pés e sons vindo de suas costas. Quando se sentia prestes a abandonar todas as esperanças os olhos roxos distinguiram uma forma destoando do ambiente, uma construção de dois andares e teto triangular, feita de pedra crua coberta por musgo e madeira escura.

A casa da bruxa.