Contos da Campânula
1 Os Segredos da Rainha Olívia
Notas iniciais
Henrique não esperava presenciar um assassinato naquela tarde. Muito menos que a assassina fosse sua esposa e a vítima, o amante. Andando de um lado ao outro em seu escritório, o monarca se perguntava como proceder após ter presenciado tal cena.
Mais cedo o rei havia feito uma caminhada pelos jardins da Mansão Mondragon na companhia de sua irmã, a princesa Felícia. Era um dia calmo e, embora nublado e feio, começara bem. Quando a princesa precisou retirar-se para resolver assuntos pessoais, Henrique decidiu continuar o passeio sozinho. Após passar por uma cerca viva que separava o jardim florido dos canteiros onde o jardineiro produzia mudas, ele escutou uma voz familiar. Curioso como era, abaixou-se para esconder-se atrás de um arbusto e espiou a discussão. A rainha conversava com um rapaz jovem vestido com uma blusa de mangas compridas cor creme e uma calça marrom com a barra suja de lama.
— Se Vossa Majestade não se recorda de nossa promessa e faz questão de não cumpri-la, temo que não me resta escolha a não ser revelar seus segredos. — Os olhos verdes estavam marejados de lágrimas e sua expressão era um misto de mágoa e desgosto.
— Veja bem, Roger. Não é de agora que me ameaça com esses tais segredos que nem eu sei do que se trata. Nunca te prometi nada. E já lhe dei um cargo de respeito em Quatheria, o que mais deseja? Só peço que vá embora e não me procure mais. — Olívia estava agitada, as mãos que erguiam a saia do vestido estavam trêmulas.
O rei arregalou aos olhos ao escutar aquele nome. Roger. Era o mesmo nome do amante que assinava as cartas de amor destinadas à rainha. Henrique as encontrara no porta-joias da esposa quando resolvera fazer uma surpresa – um colar de rubi — para tentar conquistar sua atenção, penosa de se obter. O mesmo colar de rubi que a rainha usava naquele momento, contrastando com o vestido verde jade. Seria precipitado dizer que ele ficara triste ou ofendido, afinal, não havia amor no casamento, apenas interesses políticos. Intrigado e preocupado descreveriam melhor as emoções confusas do monarca ao ler as declarações de amor intercaladas com cobranças de promessas de títulos e ouro em troca de silêncio. Ah, o que Henrique não daria para saber quais segredos a esposa possuía, conhecia nada sobre seu passado. Aceitara se casar com a moça por ser filha do duque e duquesa de Quatheria e porque a união supostamente colocaria um fim em um embate político entre a baixa nobreza e a corte.
Perdido em pensamentos, Henrique não percebeu quando a conversa entre os amantes tornou-se uma discussão acalorada. Na verdade, deu-se por conta de que algo grave estava acontecendo apenas quando escutou a voz rouca e baixa de Olívia murmurar uma sentença de morte. Nem deu tempo de reagir àquelas palavras, pois logo em seguida a rainha golpeou o rapaz com uma pá. Atônito, o rei mal pôde reagir. O corpo magro do rapaz caiu no chão espirrando água e lama no vestido da rainha, que jogou o objeto no chão.
— Tão belo... Mas lhe faltou inteligência para seguir meus conselhos... — Ela agachou-se ao lado da cabeça do rapaz. Os olhos arregalados e a boca semiaberta como se estivesse prestes a dizer alguma coisa.
Olívia pegou o queixo pontudo do amante com os dedos, tirando os fios castanhos sujos de lama e sangue do seu rosto. Do corte na cabeça jorrava sangue sujando seus braços, mas ela continuava impassível.
— Sinto muito, mon amour. Mas minha reputação como rainha vale mais que a sua. — E virando o rosto de forma a encarar os olhos verdes sem vida do rapaz. — Foi muito tolo da sua parte cometer o mesmo erro de Liv. Pelo menos agora vocês dois poderão finalmente ficar juntos.
O rei permaneceu calado enquanto observava a cena. Não mexeu um dedo quando sua esposa beijou a bochecha do cadáver, nem quando ela enterrou o corpo do rapaz em uma cova profunda destinada à compostagem e despejo do lixo da cozinha. Mesmo quando a rainha já havia saído dos jardins, o rei permaneceu imóvel em seu esconderijo. Em choque, ficou um tempo processando o que presenciara até que sentiu as primeiras gotas de chuva molharem seu rosto. Quem era Liv? Que segredos a rainha mantinha a ponto de matar um amante?
Agora, em seu escritório, o rei finalmente decidiu procurar a rainha e questioná-la sobre as cartas que encontrara. Tentaria não demonstrar estar ofendido, apenas preocupado com a reputação da família real. Mas manteria o assassinato em segredo, o nome dos Mondragon não poderia ser manchado.
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