Contos Para Quem Já Amou

1 Coleção de Cicatrizes (1)


Notas iniciais
Gênero: Romance/Drama/Universo alternativo

Sinopse: Em uma sociedade cujos relacionamentos são tão importantes quanto a própria vida, Ivan luta para conseguir ser aceito, sendo considerado uma vergonha para todos ao seu redor, por ostentar sete cicatrizes ??” marcas obrigatórias deixadas por cada relação frustada. Quando há a esperança de conseguir se livrar delas e poder encontrar um "novo" amor, resta-lhe a dúvida: seria o certo a se fazer?

A primeira veio de Alex — meu primeiro amor e, simultaneamente, relacionamento — que terminou com ele alegando que queria conhecer "novas pessoas" e que uma cicatriz não seria tão vergonhosa. Escolheu marcar meu ombro esquerdo que, segundo ele, era a parte que mais lhe atraía no meu corpo.
A segunda foi de Pedro — o garoto que jogava futebol na esquina de casa —, que não queria me assumir para os amigos e terminou a relação quando o questionei sobre. Ele escolheu marcar meu abdome, que tanto o excitara outras vezes.
A terceira foi dolorosa. Veio de Gab— o garoto da floricultura —, que eu amei de maneira inocente e incondicional, enquanto ele me via apenas como objeto sexual. Marcou parte dos meus testículos. A dor foi literal e figurada: doeu em meu coração, ser usado e jogado, doeu nos meus genitais de forma arrasadora.
A quarta marca veio de Leo — o bobão —, o único relacionamento de onde eu saí mais feliz do que quando entrei. Leo não me amava, nunca me amava; me usava para conseguir presentes, dinheiro e esse tipo de coisa. Eu descobri que ele me traía. Eu podia pedir o término e o marcar onde quisesse, outrossim, deixei que ele o fizesse, como um aprendizado. Ele, como vingança por um término rancoroso, marcou minha bochecha.
A quinta foi Eduardo. Nunca fui bom o suficiente para ele — que adorava deixar isso claro. Vivia me chamando de burro, que não era inteligente o bastante e ficava me pressionando com palavras árduas para que me isolasse do mundo e focasse apenas na faculdade. Ele terminou comigo depois que o fiz engolir a nota máxima em uma prova — literalmente. Ele marcou minhas mãos, pois dizia que elas foram seu objeto de maior foco e interesse — dizia que se excitava quando me via escrevendo, bobagem.
A sexta foi a mais delicada e perigosa: bem no meu pescoço. Feita pelo meu cônjuge com quem tive o relacionamento mais ardente: Ramon. Era bombeiro e tinha apenas três cicatrizes. Quando os colegas de quartel descobriram que ele namorava um homem que carregava seis, tanto fizeram pressão até que ele terminou.
A sétima veio de Bruno — o cantor cafajeste. Ele dizia que me amava. A dor do corte para deixar sua marca não doeu tanto quanto a dor de descobrir que ele amava somente a si mesmo, naquele palco, naquele bar, quando ele me expulsou de lá — do show que eu mesmo consegui para ele — para se vangloriar e receber os aplausos.

A oitava, até agora, não veio.
Para os padrões da sociedade sou um "vadio" pelo simples fato de amar demais — e sempre ser abandonado por qualquer percalço que seja. Um relacionamento sem nenhuma marca é o ideal para alguém ser considerado "de bem". A partir da primeira marca, como consequência do primeiro término, começa-se a cair, degrau por degrau, nível por nível, a "qualidade" da pessoa. Bem, tive sete relações e tenho sete marcas, o que me torna um vadio, um rodado e me impede de conseguir amar — novamente. Ninguém quer amar um vadio. E eu preciso amar para ser feliz.

"Dois cafés pretos, por favor" disse ao balconista da cafeteria, enquanto lia alguns artigos da faculdade no banquinho do balcão. Aguardava uma pessoa.
"Com ou sem açúcar?" o balconista perguntou sem sequer me olhar nos olhos, com uma expressão de nojo atenuado à vergonha. Ele me odiava, mas precisava me atender, ainda que ferisse seus princípios conservadores. Para ele e tantos outros os Vadios são como prostitutas, como mendigos, como doentes, como negros, como mulheres, como gays: indesejáveis; apenas a minoria que era obrigada a se submetera maioria. E quando fazia parte de três desses grupos — sendo eu gay, negro e vadio — seria o objeto de ódio perfeito. O balconista me desprezava, mas eu não precisava que ele gostasse de mim. Ri em tom de deboche.
"Com" respondi "Em ambos". Ele me deu as costas e foi preparar os cafés na cafeteira.
Aproveitei o momento sozinho para observar melhor minhas cicatrizes. As deixadas por Eduardo tinham uma forma horizontal, como se o horizonte fosse o ponto de partida e ponto de declínio — o que de fato era, já que o conheci enquanto via o por do sol em uma praia. A de Ramon tinha um tom irônico. O conheci justamente em um dia que meu maior desejo foi o de atravessar uma navalha nas veias do meu pescoço e deixar esse mundo, outrossim, ele me impediu, me fez forte, me fez feliz, para depois me ferir e me abandonar, deixando uma marca justamente onde haveria outra, não fosse seu impedimento.
"Desculpa o atraso" ele disse com um sorriso. Era um rapaz de olhos mel, com cabelos encaracolados loiros e pele rosada. Usava uma camisa xadrez moderna azul e preta. Ele sentou à minha frente. "Tava terminando uma dissertação. Você disse que queria falar comigo...?" questionou curioso. Eu sorri vendo seu rosto inocente, parecia um ursinho. Ele não fazia ideia de meus próximos passos. Estava apreensivo, mas era agora (ou nunca). Peguei sua mão e apertei com delicadeza, olhei no fundo de seus olhos e sorri, arqueando as sobrancelhas.
"Quer namorar comigo, Gabriel?" pedi. Todos da cafeteria se levantaram e aplaudiram, como mandava o costume. Gabriel corou em um tom carmesim surpreendente. Pensei que ele ia sorrir, mas não sorriu. Ele puxou a mão das minhas, irritado, e fez uma expressão hedionda.
"Não posso namorar com você, Ivan. Você não entendeu? A gente só ficava" ele respondeu irritado. As pessoas que antes aplaudiram se sentaram, quietas. Lhe olhei incrédulo. Mantivemos uma relação estável por meses, faltava apenas a oficialização. Eu já o amava e ele... "Você tem sete marcas. Eu tenho apenas cinco" ele sussurrou em um tom bastante audível "Não podem me ver com você. O que meus pais pensariam?" ele questionou. Senti meu mundo desabar como um castelo de cartas sobre a ação do vento. Meu coração estava acelerado como mil motores, tanto sangue em minhas veias ardia, meus poros se abriram e minha pele começou a coçar — e nada disso era pior que aquilo que eu sentia: vergonha, medo, dor, desamor, raiva, paixão, amor, tesão... Havia uma tormenta de sensações no meu subconsciente — e eu, infelizmente, era um rapaz de garoas.
"Pensariam que você me ama, apesar de todas as cicatrizes" foi tudo que consegui dizer. Ele riu de uma maneira que me feriu mais que as próprias palavras.
"Vadios não nasceram para serem amados" ele disse por fim. E saiu. Me deixou ali, na cafeteria, só com meus pensamentos, minhas cicatrizes e dois cafés doces demais para um momento tão amargo.
Não chorei. Não foi a primeira vez que vi essa cena — e é muito provável que não seja a última. Ele tinha razão. Vadios não nasceram para serem amados, mas eu precisava disso, precisava muito. Era o que a tradição dizia: uma pessoa só pode ser feliz com outra, por isso as relações eram levadas tão a sério a ponto de haver a necessidade de que fossemos marcados a cada término, como vergonha, para que todos vissem a cicatriz, rissem, xingassem, batessem. Eu era uma vergonha para tudo e todos. Eu era um vilão, cujo único pecado foi amar — demais.

Dulce me aguardava na portaria da faculdade como de praxe. Era minha melhor — e talvez única — amiga. Seus cabelos trançados tocavam as costas e podiam tapar magicamente suas duas únicas cicatrizes. Estava no seu terceiro relacionamento e por isso todos a tratavam bem, mas ela odiava as pessoas. Ela odiava falsidades, ainda mais vindas de quem outro dia lhe maldizia às costas e agora lhe rasgava elogios. A aula tinha acabado e desde o dia anterior não falei mais com Gabriel — e é provável que nunca mais fale, afinal, ele me bloqueou de todas as redes.
"Esquece o idiota" ela disse. Ela chamava todos os homens de idiotas "Foca no futuro, bebê. Você tá quase se tornando, vai ser neurocirugião... que chique!" ela afirmou quando me aproximei. Estava apático, não completamente triste ou feliz, mais para meio a meio, quando a gente se acostuma com a dor, bem, ela não se torna grande coisa mais. Dulce percebeu que não estava bem e me abraçou "Você era bonito demais para ele também. Sempre disse isso."
"Eu achava ele lindo do jeito dele" respondi ainda em um tom apaixonado "Mas eu acho todo mundo lindo, então não posso dizer nada."
"Verdade, se você achou o Eduardo bonito... Jesus Cristo, dá até tristeza lembrar dele" ela afirmou. Dulce nunca gostou do Edu.
"Você só não achava ele bonito porquê ele é branco!" afirmei. Ela fez um expressão de ofendida, mas sorriu.
"Verdade." respondeu. "Olha pelo lado bom... se você tivesse namorado o idiota lá você poderia ter sua oitava cicatriz agora. Melhor não terem nem começado, não é?" ela tinha razão, mas eu tinha minhas necessidades, me sentia vazio.
"Só queria ser amado" respondi. Ela me abraçou novamente.
"Você é amado, bobão" ela afirmou convicta. Ela me amava, mas o amor de amizade não me preenchia.

Nenhum amor além do de alguém me deixava menos vazio. Apenas o amor de um relacionamento fazia tudo ter sentido. Estando solteiro me sentia perdido, como se o mundo girasse e girasse, mas eu me mantivesse estático; como se as luzes da cidade se extinguissem e não houvesse sequer a luz da lua para me nortear; como se nenhuma ciência, nenhuma religião, nenhuma mitologia pudesse explicar a vida. Vivia um teatro da felicidade falsa (cujo ator principal, diretor, elenco seria eu).

Estávamos na biblioteca da faculdade. Dulce terminava de redigir um trabalho de economia e eu rabiscava rostos conhecidos em um caderno enquanto a aguardava. Fazia frio. Meu moletom não foi o suficiente para me conseguir calor. Sentia falta de um abraço, talvez isso fosse o suficiente para me acalentar. Gab tinha os melhores e mais demorados abraços; Bruno tinha uma certa timidez para toques; Leo era seco, seus abraços me davam mais frio que calor.
Ninguém se sentava na mesma mesa de um vadio. Estávamos eu e Dulce, sozinhos. Tinha sorte por ela não me ver como uma vergonha para a sociedade.
"Oi gente" Sofia, nossa colega de classe, nos cumprimentou quando sentou-se à mesma mesa, porém um pouco afastada. Havia algo de estranho na garota de cabelos curtos e olhos castanhos. Tentei por longos instantes discernir o que havia de diferente, mas fora em vão. Era a mesma garota, com algum detalhe a menos...
"Terminei" Dulce afirmou, aliviada. Ela se espreguiçou na cadeira e bocejou. Também havia terminado de desenhar os rostos; sete rostos; sete amores; sete desamores. Um por um, um por cada, um rosto, uma dor, um amor e uma decepção. As vezes acreditava ter cometido um grande pecado ao amor em alguma vida passada e, como punição, teria a cina de amar demais e ser amado de menos. "Oi Sofia, desculpa não ter respondido aquela hora. Tava concentrada" ela disse. A menina sorriu para nós dois com um olhar simpático.
"Tudo bem" as maçãs do rosto eram rosadas tal qual pêssegos. A pele das bochechas era delicada e lisa — até demais. Sim. Óbvio! Por que não percebi antes? A diferença era que algo faltava... uma cicatriz em baixo do olho direito. Justo aquela que ela mais alisava durante as aulas e sempre ficava triste e chorosa depois. A marca de um amor acabado. A marca de sua vergonha para a sociedade. A marca de sua derrota... havia simplesmente sumido, como se fosse uma espinha após ser espremida. Não pude acreditar no que meus olhos viam. Fiquei sem palavras, sem atos, sem sensações. Como ela pôde? Como ela conseguiu? Como eu poderia fazer também?

Não tirei mais a cicatriz de Sofia — ou no caso a ausência dela — da cabeça naquele dia. Ainda estava surpreso demais para comentar com Dulce aquilo, afinal, parecia que apenas eu tinha reparado. É fato, muito provavel que ela sequer soubesse que Sofia tinha uma cicatriz a baixo do olho, afinal, só enxergam nossas marcas àqueles que querem se afastar de nós, se aproximar, ou aqueles como eu, que quando viam rostos marcados se perguntavam como aquele amor acabou. Também não a confrontei. Ela sempre pareceu muito frágil quando o assunto era aquela marca em específico. Provavelmente ela guardava outras, mas não tão doloridas como o "x" na bochecha direita.

Já era manhã de outro dia. Terminava meu café preto, sem açúcar para combinar com meus sentimentos, na cafeteria do outro dia. O garçom continuava a me desprezar e eu continuava a ignorar. Ainda que eles nos odeiem, não podem nos segregar.
Havia recebido um email da minha irmã mais cedo, informando que ela e meus pais vinham do interior para me fazer companhia durante as festas que se aproximavam, o que pareceu deixar meu dia mais feliz — ainda que pouco. Agora procrastinava, bebericava o café, entrava nos apps de pegação e pensava como sentia falta de ser amado. Sentia falta de tudo em um relacionamento e parecia que nada poderia me emergir em sentimentos tão profundos quanto o mar que é o amor. Nada me importava. Nem mesmo a premissa de que eu acabasse me afogando.
Foi quando Sofia entrou, calma, com suas bochechas perfeitas e rosadas, sem marcas. Ela me cumprimentou, pediu um café e se sentou na bancada. Ela estava tão feliz... de um modo que nunca a vi antes. Não podia aguentar de curiosidade... se alguém conseguiu se livrar de uma marca, por que não eu? Talvez com uma ou duas a menos pudesse encontrar um amor novamente e assim poder ser feliz. Me levantei e sentei à seu lado. Ela sorriu.
"Aconteceu algo, Ivan?" ela questionou sorridente. A olhei com curiosidade, tentando não fixar meus olhos onde antes havia a cicatriz, mas não consegui: fitei a bochecha lisa, ela percebeu e virou o rosto tentando disfarçar.
"Como você fez isso?" questionei sem maiores rodeios. Ela engoliu seco.
"Não sei do que está falando" ela respondeu.
"Sim, você sabe. Como você apagou sua..." ela sibilou 'xiu' e puxou meu braço, me levando para fora da cafeteria.
"Ninguém pode saber disso." ela afirmou "É contra a lei."
"Eu sei, só quero saber como você fez" supliquei, com esperança nos olhos. Ela tirou um papel do bolso, escreveu um endereço e me entregou.
"Não te disse nada. Diz que uma amiga que indicou" e tentou sair, mas antes puxei seu ombro e olhei no fundo de seus olhos.
"O que aconteceu de tão ruim nessa cicatriz?" questionei. Ela engoliu seco. Seus olhos ficaram úmidos em lágrimas.
"Ele me estuprou." afirmou e correu dali.

Ainda digeria as três últimas palavras de Sofia quando a noite caiu. O cara, quem quer que ele fosse, quando a pediu em namoro devia a respeitar, devia a ajudar, devia a compreender... não a destruir como fez. Era a lei do amor, a lei que definia nossa felicidade, a lei que nos obrigava a cortar-nos uns aos outros quando ela era quebrada... a lei era justa? O amor era justo?
Não dormi pensando naquilo e naquele endereço no papel. O que me aguardava lá?

Era manhã. Novamente bebia meu café amargo, como o que sentia, vivenciava o desprezo do garçom conservador e entrava nos apps de pegação. Outrossim, meus pensamentos se voltavam unicamente para o endereço e para a premissa que o envolvia: apagar minhas marcas, minhas cicatrizes, poder ter, novamente, um amor e ser feliz. Não seria mais um vadio, um objeto de desprezo do garçom e da sociedade geral. Seria apenas eu.
Mas eu passei tanto tempo sendo um vadio... quem seria eu, de verdade?
"Quer outra coisa?" o garçom questionou com um olhar de nojo. Sorri para ele.
"Não, obrigado" e saí, com o papel com o endereço entre os dedos.

Nem eu mesmo acreditava que estava aqui, diante de um casebre amarelo com a placa de um tatuador sobre a porta. Era o endereço indicado por Sofia, do outro lado da cidade.
Se adentrasse por aquelas portas não havia volta. Sairia com uma marca a menos, no mínimo. Não seria mais um vadio, o Ivan das sete cicatrizes, a vergonha de tudo e todos, a puta que não consegue segurar um amor, aquele que foi traído, enganado, mal amado, violentado, deixado, machucado, pressionado, mudado...
"Mudado..." repeti em voz alta "Mudado" novamente repeti "Mudado" continuei repetindo para mim mesmo, várias e várias vezes, como se fosse uma melodia linda, que clareava meus pensamentos a cada vez que ditas... "Mudado... aprendido" e eu olhei ao redor. Os vi. Todos aqueles casais perfeitos, todos eles, que tanto se amam, andando de mãos dadas, se beijando, se abraçando, se acariciando, mas não amando, não o suficiente. Não era amor, não se a sociedade te obrigava a fazer isso para ser normal, para ser 'feliz', eles disseram. Não era amor se acabava. Mas tudo acaba. Pessoas acabam, porque relações não? Sofia teria que continuar com aquele que a estuprou, simplesmente porque todos diziam que ela era feliz? Mas ela não era. Eu não era. Eu nunca fui amado. Eu amei demais, mas fui amado de menos. Eu não fui amado. Eu fui..
"Mudado. Eu fui mudado" antes de tudo, antes de Alex, de Gab, de Bruno, Leo... todo amor que conhecia era o dos meus pais e da minha família por mim... depois, todo amor pareceu só vir deles, de mais ninguém.
Cada marca, cada cicatriz, cada história, cada falso amor... não passavam de nada, outrossim, do nada se constrói tudo. Quando se cai da bicicleta e se rala o joelho, a cicatriz que fica serve para te alertar o que acontece quando se pedala rápido demais... As marcas que me deixaram serviam apenas para dizer que eu precisava "me ajustar" e que no fim alguém me amaria, mas ninguém me amou. Ninguém amava as marcas. E eu percebi, no ultimo instante, que as marcas não são sobre melhorar a si mesmo, mas sim sobre aprender... aprender a diferenciar o que é certo e o que te dizem que é o certo. Sofia apagou a própria marca porque achava que era um defeito, quando a marca servia para ensiná-la mais sobre as pessoas. Sobre os corações. Sobre os amores ruins. Sobre a dor sob o amor.

"Vai querer algo?" o homem tatuado disse entre as portas do casebre amarelo. Sorri.
"Por enquanto, não. Aprendi muito até agora" afirmei. Ele fez uma expressão confusa. Dei-lhe as costas e me fui, convicto.

"Então, você podia apagar suas marcas, mas preferiu não? Por que?" Dulce me questionou, no outro dia, quando estávamos na biblioteca. "Você disse que queria ser feliz e para isso precisava de alguém..."
"Quem disse?" questionei.
"Você. Várias vezes, aliás."
"Não isso... quem disse que eu preciso de alguem para ser feliz?" ela ficou sem palavras "Pois é. Posso ser feliz sozinho, só demorei para perceber."
"Percebeu rápido demais" ela afirmou "Mas e as marcas? Por que não quis tirar?"
"Justamente por isso, boba. Cada uma me ensinou uma coisa sobre as pessoas e juntas elas me mostraram que, bem, relacionamentos doem. Não preciso de mais dor para ser feliz" respondi.
"Então tudo isso foi porque você agora é um solteiro convicto?" nós rimos.
"Não. Isso tudo é porque eu preciso sim de amor, mas não preciso que me machuquem muito, para me amarem pouco. Cada marca me mudou, Dulce, me moldei dia-pós-dia para me encaixar dentro de vários corações, quando todo esse tempo eu tinha minha própria forma. Não preciso me deformar para que alguém goste de mim. Eu preciso gostar de mim. E as marcas, ou minhas deformações, me mostraram isso" ela sorriu e olhou a cicatriz no braço, que tinha escondido com a manga da blusa.
"Mas mudando de assunto... Você soube que a Sofia voltou com o ex?" ela questionou. Meu sorriso esmaeceu. Isso era o que acontecia quando se apagava as marcas por completo: esquecemos do perigo que elas representam.
"Boa sorte para ela" respondi.

Estava novamente na cafeteria. Vestia regata branca, deixando no máximo que podia minhas cicatrizes à mostra. Bebia um café doce. Ignorava o desprezo do garçom e digitava uma mensagem no celular:

"Estou ansioso para que vocês cheguem. O amor de vocês é tudo que eu preciso. Beijos pai, mãe, Isa."