Contos Fragmentados
8 Mente Perturbada - Não mais... Nunca mais.
Notas iniciais
Antes de iniciar o vídeo, olhei nos olhos negros do velho. Sua expressão ainda era de pavor, mas se escondiam atrás de suas olheiras após uma hora de descanso.
A segunda morte não feriu apenas o velho e sua família, mas também o meu vazio coração. Sem dizer nada,dei inicio ao vídeo.
“O quarto era iluminado pelo extenso sol laranja que iniciava um novo dia. A garota dos cabelos negros se encontrava em uma cadeira no meio do cômodo.
Avistava-se no canto esquerdo minha fina silhueta apoiada na parede com a perna esquerda, flertando o corpo inconsciente.
Recordo-me daquele momento. Uma certa dor me invadiu antes de leva-la para casa amarela. Era como se eu estivesse matando a mim mesmo. Mas eu havia ido longe o bastante para me arrepender, e seria mais fácil matar quem eu amo antes de querer se iniciar no ramo dos “Serial Killers” deste maldito país.
Agora a garota já estava se recuperando da droga injetada em sua veia. Seus curtos movimentos me fizeram despertar, e caminhei até ela, a qual reagiu de forma desesperada ao ver meu rosto.
–Antônio? –disse ela em um tom baixo.
–Bem-vinda ao meu mundo, Isadora. –disse erguendo os braços.
–Por que estou aqui? Qual é o seu jogo? –disse ela rindo.
–O jogo começou há um ano, quando a garota dos cabelos ruivos foi assassinada por mim.
–Pera foi você que... –começou a garota.
–Não importa. –consegui dizer colocando um pano em sua boca.
A garota começou a se debater na tentativa de escapar, mas seria em vão. Olhei em seus olhos negros, e senti vontade de acabar com aquilo, duvidei dos meus limites, mas me mantive intacto e comecei a dizer:
–Talvez, você esteja aqui pelo simples fato de querer estar aqui. É realmente muito confuso, mas eu me lembro de cada dia em que você menosprezou todos os meus abraços, lencinhos e conselhos. –fiz uma pausa para respirar. – Você, a qual tanto sabe de minha dor, disse coisas que foram ridículas para mim. Coisas pequenas que você transformava em monstros. E eu lhe pergunto: qual o tesão de viver em problemas? Qual é o prazer em chorar pelos cantos dizendo que é incapaz de resolver aquilo que não é um problema, e sim uma solução?
Um extenso silêncio manteve o clima pesado. A garota continuava com sua cabeça baixa.
–Olhe para mim, Isadora, olhe, veja o que você fez! –a garota ergueu seus olhos encharcados, sua expressão era incompreensível. –Você pediu a morte, e me ganhou. Deus é realmente bom, não é?”
Pausei o vídeo. O velho se manteve calado o vídeo inteiro. Sua expressão não era mais de pavor, nem de medo, apenas estava sério.
Seus olhos se ergueram até mim, e com um simples gesto pediu para que eu prosseguisse, e sem palavras, fiz a vontade dele.
“O vídeo se iniciou, e a cena já era diferente. A noite já havia chegado, e a garota estava com algumas marcas roxas em seu rosto fino.
Entrei pela porta do quarto carregando uma bandeja, na qual se encontrava biscoitos de trigo, os mesmos biscoitos que o senhor Figueiredo adorava.
Lhe estendi um, e com sua mão direita, Isadora jogou o pequeno biscoito contra a parede, o qual se desfez em pedaços. Seus olhos fuzilavam meu curto sorriso de satisfação, minha bondade já havia se encerrado, meu arrependimento tinha sumido, e minha sede de tocar em seu coração era grande.
Sem muita conversa, prendi suas mãos no encosto da cadeira, peguei o bisturi que se encontrava jogado na estante, caminhei até a garota, e dei início à última fase daquele “jogo”.
Com um simples movimento, rasguei seu peito, e continuei até poder ver os ossos de sua costela.
Isadora segurou a dor até o seu limite, algo que nunca havia feito antes, sua lágrimas escorriam com o mesmo fluxo que o sangue jorrava de seu peito, e aos poucos seus gritos foram se calando.
–Isto é morrer, minha querida amiga, isto realmente é morrer. –consegui sussurrar em seu ouvido.
Logo, a garota apagou, e sua pele foi perdendo a cor, mas ainda sim consegui retirar do grande buraco, o seu coração ainda pulsando. Corri até a estante e guardei o coração de Isadora em um recipiente de vidro.
Agora seu coração estaria seguro, estaria comigo, e não sofreria mais.
Não mais.
Nunca mais.”
Olhei para o velho, percebi uma pequena lágrima escorrendo em sua bochecha esquerda. Ele abaixou sua cabeça e deixou as outras escorrerem.
Cheguei perto dele, e lhe apliquei uma pequena dose de flunitrazepam, a qual fez o velho dormir a noite inteira.
Sentei-me na cama, e bebi um pouco do velho whisky que ele me deu no dia do meu aniversário.
O líquido queimou minha garganta, e evitou que as lágrimas descessem. Me encostei na cama de solteiro, e adormeci pela primeira vez após a morte de Isadora.
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