Contos Fragmentados

8 Mente Perturbada - Não mais... Nunca mais.


Notas iniciais
Éramos grandes amigos, e sempre fomos unidos. Desde quando tudo aconteceu, ela sempre esteve ao meu lado, mas o tempo se passou. Suas emoções acabaram se atrapalhando, e acabamos nos afastando. Porém, uma grande amizade não acaba, mesmo que ambos os corpos morram. Logo no colegial, nos unimos de novo, pareciam ser infinitos os dias em que conversávamos sobre nossas brincadeiras antigas. Entretanto os infinitos diminuíram a cada nova dor que surgia nela. Seus desabafos soavam como se ela quisesse a atenção do mundo, e não somente a minha. Suas lágrimas eram constantes como se dissessem "Olhem para mim, estou chorando.". Minhas ajudas, meu ombro e meu abraço só serviram para que ela se afogasse mais e mais em demônios imaginários. E antes de dizer, adeus, lhe olhei nos olhos e disse: "Você pediu, e aqui está, diga 'Oi' para a consequência de navegar em dores!”.

Antes de iniciar o vídeo, olhei nos olhos negros do velho. Sua expressão ainda era de pavor, mas se escondiam atrás de suas olheiras após uma hora de descanso.

A segunda morte não feriu apenas o velho e sua família, mas também o meu vazio coração. Sem dizer nada,dei inicio ao vídeo.

“O quarto era iluminado pelo extenso sol laranja que iniciava um novo dia. A garota dos cabelos negros se encontrava em uma cadeira no meio do cômodo.
Avistava-se no canto esquerdo minha fina silhueta apoiada na parede com a perna esquerda, flertando o corpo inconsciente.

Recordo-me daquele momento. Uma certa dor me invadiu antes de leva-la para casa amarela. Era como se eu estivesse matando a mim mesmo. Mas eu havia ido longe o bastante para me arrepender, e seria mais fácil matar quem eu amo antes de querer se iniciar no ramo dos “Serial Killers” deste maldito país.

Agora a garota já estava se recuperando da droga injetada em sua veia. Seus curtos movimentos me fizeram despertar, e caminhei até ela, a qual reagiu de forma desesperada ao ver meu rosto.

–Antônio? –disse ela em um tom baixo.

–Bem-vinda ao meu mundo, Isadora. –disse erguendo os braços.

–Por que estou aqui? Qual é o seu jogo? –disse ela rindo.

–O jogo começou há um ano, quando a garota dos cabelos ruivos foi assassinada por mim.

–Pera foi você que... –começou a garota.

–Não importa. –consegui dizer colocando um pano em sua boca.

A garota começou a se debater na tentativa de escapar, mas seria em vão. Olhei em seus olhos negros, e senti vontade de acabar com aquilo, duvidei dos meus limites, mas me mantive intacto e comecei a dizer:

–Talvez, você esteja aqui pelo simples fato de querer estar aqui. É realmente muito confuso, mas eu me lembro de cada dia em que você menosprezou todos os meus abraços, lencinhos e conselhos. –fiz uma pausa para respirar. – Você, a qual tanto sabe de minha dor, disse coisas que foram ridículas para mim. Coisas pequenas que você transformava em monstros. E eu lhe pergunto: qual o tesão de viver em problemas? Qual é o prazer em chorar pelos cantos dizendo que é incapaz de resolver aquilo que não é um problema, e sim uma solução?

Um extenso silêncio manteve o clima pesado. A garota continuava com sua cabeça baixa.

–Olhe para mim, Isadora, olhe, veja o que você fez! –a garota ergueu seus olhos encharcados, sua expressão era incompreensível. –Você pediu a morte, e me ganhou. Deus é realmente bom, não é?”

Pausei o vídeo. O velho se manteve calado o vídeo inteiro. Sua expressão não era mais de pavor, nem de medo, apenas estava sério.

Seus olhos se ergueram até mim, e com um simples gesto pediu para que eu prosseguisse, e sem palavras, fiz a vontade dele.

“O vídeo se iniciou, e a cena já era diferente. A noite já havia chegado, e a garota estava com algumas marcas roxas em seu rosto fino.

Entrei pela porta do quarto carregando uma bandeja, na qual se encontrava biscoitos de trigo, os mesmos biscoitos que o senhor Figueiredo adorava.

Lhe estendi um, e com sua mão direita, Isadora jogou o pequeno biscoito contra a parede, o qual se desfez em pedaços. Seus olhos fuzilavam meu curto sorriso de satisfação, minha bondade já havia se encerrado, meu arrependimento tinha sumido, e minha sede de tocar em seu coração era grande.

Sem muita conversa, prendi suas mãos no encosto da cadeira, peguei o bisturi que se encontrava jogado na estante, caminhei até a garota, e dei início à última fase daquele “jogo”.

Com um simples movimento, rasguei seu peito, e continuei até poder ver os ossos de sua costela.

Isadora segurou a dor até o seu limite, algo que nunca havia feito antes, sua lágrimas escorriam com o mesmo fluxo que o sangue jorrava de seu peito, e aos poucos seus gritos foram se calando.

–Isto é morrer, minha querida amiga, isto realmente é morrer. –consegui sussurrar em seu ouvido.

Logo, a garota apagou, e sua pele foi perdendo a cor, mas ainda sim consegui retirar do grande buraco, o seu coração ainda pulsando. Corri até a estante e guardei o coração de Isadora em um recipiente de vidro.

Agora seu coração estaria seguro, estaria comigo, e não sofreria mais.

Não mais.

Nunca mais.”

Olhei para o velho, percebi uma pequena lágrima escorrendo em sua bochecha esquerda. Ele abaixou sua cabeça e deixou as outras escorrerem.

Cheguei perto dele, e lhe apliquei uma pequena dose de flunitrazepam, a qual fez o velho dormir a noite inteira.

Sentei-me na cama, e bebi um pouco do velho whisky que ele me deu no dia do meu aniversário.

O líquido queimou minha garganta, e evitou que as lágrimas descessem. Me encostei na cama de solteiro, e adormeci pela primeira vez após a morte de Isadora.

Notas finais
"Como alguém citou no passado: A dor nos cega, acaba nos levando ao egoísmo, e quando tu perceber isso, será tarde demais."