Notas iniciais
Numa mesa estão sentados para a ceia pessoas que já se enfrentaram como inimigas. Se encontram juntas desfrutando do companheirismo que uma refeição assim proporciona, mas todos tem uma história de superação para contar. Desencantos, desilusões, encontros e amores que salvam. Estão todos ali. Venha! Vou contar-lhes um pouco de nossas histórias.

A vida é um desafio a ser vivido, mas talvez nunca compreendido. Pode-se passar por ela com a certeza de que algo está faltando, mas não saber o que falta. Mesmo sentindo a ausência do que não sabemos o que seja, vivermos bem. Embora com a sensação de que se está sempre em suspense aguardando por algo. Porém, quando encontramos, temos a certeza de que não poderemos mais viver sem. Um desespero assalta quando privados desse elemento que nos completa. E se por desventura a decepção ou tragédia nos privar dessa presença, o ódio e o desejo de vingança poderá corroer alma de tal forma, a perder-se da realidade e do que é correto.

Estavam todos sentados à mesa. Olhava-os e trechos dos últimos meses invadiam a memória. Incrível! Tanta coisa acontecera que o tempo transcorrido parecia maior. Estava diante de mim o resultado final de grandes emoções antagônicas e conflituosas que chegaram àquele ponto de forma harmoniosa. Todos tinham motivos para serem gratos a vida e a Deus. Haviam percorrido caminhos tortuosos e aprendizagens difíceis, mas saíram-se muito bem.

O sorriso largo nos rostos dos meus pais nem de longe lembrava os momentos de desespero e angústia pelos quais passaram. Primeiro a decepção da minha mãe quando terminei meu noivado. Eu não gostava da moça. Meu compromisso com ela se dera pela insistência da minha mãe, que pensava que a tal, era a nora perfeita. Mas durante todo o tempo em que esse compromisso durou, não consegui sentir nada além de desassossego. E até um certo desespero diante das nossas inúmeras diferenças. Nossas conversas eram insonsas. Muitas cobranças. Sentia-me prisioneiro desejando desesperadamente a liberdade. Mas a coragem para um rompimento me faltava. Não queria entristecer minha mãe e seguia num marasmo de aceitação complacente. Porém, numa tarde aconteceu. Certos olhos me tiraram da minha estagnação. Terminei o compromisso, pois nada me unia àquela pessoa. Minha mãe ficou tão decepcionada, que ficou dias sem falar comigo.

Uma atitude de ingratidão terrível da senhora que fora patroa dos meus pais durante praticamente toda a vida, e minha também, causou mais angústias e tristezas. E o descontentamento com minhas escolhas e o resultado delas, os destroçou e os fez irem para longe durante um tempo. Esse distanciamento afligiu a nós três de forma cruel e difícil, mas trouxe a compreensão para eles que eu precisava fazer as minhas escolhas baseado no que era melhor pra mim, e não no que eles achavam que deveria ser. Eu aprendi que mesmo sendo difícil não deveria esconder as coisas debaixo do tapete. Melhor é conversar e explicar os motivos. Ser sincero, mesmo que o preço seja desagradar. Agora, finalmente eles estava de volta em casa. Tudo seguia um curso mais suave e da forma como minha mãe sonhara o meu futuro.

Do outro lado da mesa minha sogra espalhava sorrisos e palavras amáveis a todos. Fora a última a chegar acompanhada de seu, agora, namorado. Ele contribuíra para muitas mudanças em sua vida. Ela era uma mulher amarga e prepotente. Na realidade ela se escondia ferida, atrás dessa fachada de mulher impossível, para se defender das dores que a vida lhe causava. Culpava minha esposa, sua filha caçula, por seu casamento ter desandado e o marido ter tido vários relacionamentos extraconjugais. Por acaso, o começo dessas atitudes de meu sogro, coincidiram com a gravidez da minha esposa. E depois foram muitos os casos que ele tivera sem nunca fazer muita questão de esconder da esposa. Quando conheci minha esposa, soube depois, que estava exatamente acontecendo a tempestade de descobrir que o marido havia tido um filho com a última amante amante. A mulher era conhecida e tolerada como se não soubesse, mas o filho foi um golpe terrível e inesperado. Sua maldade com minha esposa tomara proporções de violência psicológica. Mas a vida, em seus caminhos tortuosos, providenciou uma tragédia que fez tudo mudar. Meu cunhado morreu num acidente e o fato transtornou minha sogra. O apoio de minha esposa foi fundamental para ela começar a superar a dor da perda. Nesse trajeto mãe e filha acabaram diminuindo suas diferenças e dores mútuas.

Na outra ponta se encontrava meu irmão de consideração. Cresci como o filho da empregada em sua casa, mas dividíamos as coisas como irmãos. Estudávamos na mesma escola. Praticávamos esportes juntos. Fizemos juntos o mesmo curso universitário. Depois nos separamos. Ele seguiu para a Europa para se especializar. Eu fiquei. Fiz minha especialidade por aqui mesmo, enquanto aprendia a gerir os negócios da poderosa família. Dediquei muito tempo e empenho. Valeu a pena. Ocupei o cargo de gestor de todos os negócios do grupo. E sonhava com o dia quando meu irmão retornaria, pois assim, estaria livre para realizar meus próprios sonhos. Porém, quando retornou, ainda não estava pronto. Queria apenas aproveitar a vida. Festeiro e namorador não tinha ambição de cuidar dos negócios da família. Sua avó impôs a condição de cuidar de uma das lojas do grupo para adquirir experiência antes de assumir o grupo todo.

Acabamos trocando de identidade. Na manhã em que ele deveria começar, cheguei antes e me deparei com uma equipe de fiscalização que entrara minutos antes de mim. Vi o pânico nos olhos dos funcionários. Eu estava acostumado a gerir crises. Assumi o controle. Contornei a situação para que os fiscais demorassem no salão do restaurante, enquanto organizava o resto. Quando finalmente foram embora, nossa licença de funcionamento estava renovada. Felipe só chegou depois de tudo resolvido e os fiscais terem ido embora. Ao chegar se enterou do que ocorrera. Os funcionários acreditavam que eu era o patrão, pela forma como assumi o controle da situação. Então, ele teve a brilhante ideia de trocarmos de lugar. Foi o princípio de uma grande confusão e problemas enormes. Ele passou a figurar como meu assistente. E todos achavam que eu era o herdeiro que esperavam. Aquela situação inicial fez com que todos passassem a me respeitar. Ele desenvolveu um cotidiano de passear pela loja. Observar as pessoas e empregados. E aconteceu. Se encantou por uma das funcionárias. Mas a princípio ocorreu uma implicância mútua, que acabou em um amor irresistível. Depois de ela vencer uma paixonite aguda por mim, que não foi correspondida, pois eu me apaixonara por minha esposa, que também trabalhava na loja. A avó descobriu tudo e coloco-o contra a parede. Infelizmente ela perdeu. Meu amigo escolheu o amor e abandonou a avó e a fortuna. Também precisou enfrentar a amada e trabalhar para alcançar seu perdão. As mentiras por fim foram reveladas, muito choro, incertezas, um breve período de separação, mas no final meu amigo e irmão, acabou se emendando. Pediu perdão. Ela o perdoou. Ele se entendeu com a avó que percebeu, que o amor era verdadeiro e foi benéfico para o neto. Ele amadureceu. Assumiu suas responsabilidades. Passou a gerir os negócios com competência. O amor o transformou.

Minha esposa. Doçura e meiguice em forma humana. Mas firme e inabalável como uma rocha, quando se trata de defender seus pontos de vista. Nos encantamos um pelo outro, mas o caminho percorrido até ficarmos juntos, foi muito longo. Quando nos conhecemos ela me evitou, pois sabia que a amiga estava interessada em mim. E Cássia era a única amiga de verdade que possuía. Não queria desapontá-la. Foram dias de martírio. Vê-la tão perto e não poder chegar perto me frustrava. Quando Cássia percebeu meu interesse por Débora, fez um escândalo. Nos afastamos, mas não havia como ficarmos longe. Ela até chegou a pedir demissão, mas quando Cássia soube, insistiu para que ela ficasse. Aos poucos nos reaproximamos. Saímos juntos os quatro. Fomos a um parque de diversões. Nos esbarrávamos seja por ato falho ou descuido mesmo, mas só havia pegado em sua mão. Até o dia em que saímos sozinhos. Por mais situações que tenham propiciado momentos que eu podia ter beijado ela, não o fiz até aquela noite. E foi mágico. E a magia acabou minutos depois, quando lhe contei quem eu realmente era. Não podia esconder-lhe algo tão importante. Passei do céu ao inferno na distância de poucos minutos. Uma noite de pesadelo e o perdão que eu precisava chegou no dia seguinte junto com Débora, na minha casa. Meus pais se apaixonaram por ela, assim como eu. Infelizmente não fui tão condescendente com ela como ela foi comigo.

Mal havíamos nos acertado e a fatalidade nos alcançou com a morte do irmão dela. Estávamos juntos quando ela recebeu a notícia. Ela saiu correndo e não quis que eu a acompanhasse. Eu queria estar com ela. Procurei por seu endereço na loja, mas não havia. Não sei como a contrataram. Sua ficha cadastral tinha apenas o primeiro nome. Felipe acompanhou a avó a um velório. E descobriu quem Débora era, mas não me contou. Deixou que ela me procurasse e o fizesse. Ela fez. Após enterrar o irmão ela me procurou e contou que não era pobre. Sua família era dona de muitos empreendimentos na cidade e no país. Disse que desejava que amassem pelo que ela era e não pelo que o patrimônio da família representava. Mas meu orgulho ferido a fez rejeitar. De uma forma tola me sentia traído. E não conseguia perdoar. Vi em seus olhos a dor de animalzinho ferido que eu causara, mas não me importava. Fiquei enfurecido e rancoroso. Queria vingança.

Por quê? A avó de Felipe me chutara da empresa porque achava que eu tinha sido desonesto na história da troca de identidade com ele. Não quis me ouvir. Foi injusta com meus pais, pois achava que eles sabiam de tudo. Eles ficaram magoados comigo, pois acreditaram que eu estava sendo desonesto. Sem trabalho foram embora da cidade para o interior, na casa de parentes. Com a revelação de Débora me sentia traído de muitas formas. E não conseguia mais raciocinar. Como não podia fazer nada contra a avó de Felipe e contra o amigo, a vítima seria Débora.

Soube por um conhecido do meio empresarial que um executivo com minha experiência estava sendo procurado. Enviei meu currículo e minutos depois a resposta foi positiva. Uma entrevista foi marcada para o dia seguinte e ao final dela estava contratado. Uma reunião com os acionistas do grupo e executivos havia sido convocada para que eu fosse apresentado. Quando entrei na sala estavam lá minha sogra com sua empáfia, minha cunhada com ar de desespero, meu sogro sorridente com a certeza de que havia surpreendido a todos e Débora. Ela não chegara a dizer o nome da família a qual pertencia. Eu descobrira através de Felipe. A expressão em seu rosto era de completo desamparo, angústia, solidão. Mesmo percebendo tudo isso meu coração não se comoveu. Ignorei-a. Eu seria seu chefe na empresa. Ela não estava mais na loja. Agora assumira um lugar no grupo da família, já que o irmão morrera e o pai resolvera que ela deveria auxiliar na administração dos negócios ao seu lado, como a irmã. Essa era uma raposa. Sabia de meu envolvimento com Débora, mas não nos delatara. Devia ter algo em mente. E tinha.

Minha sala e a de Débora ficavam lado a lado. Paredes de vidro. Posso dizer que foi um sofrimento mútuo, embora eu não admitisse. Sabrina, irmã de Débora começou a se insinuar pra mim. Dei corda. Queria magoar a irmã. As visitas a minha sala eram cada vez mais frequentes e demoradas. Provoquei. Queria ver dor. E vi tanto a dor, como o desencanto cada vez que a irmã mais velha entrava na minha sala. Depois de uma discussão que tivemos sobre um projeto que desenvolvíamos juntos, votei para minha sala furioso, pois quase a beijara. Não admitia que essa atração continuasse tão forte. Sabrina me procurou para convidar-me para um almoço com cliente. Como sempre ela provocou um clima. Se insinuou e pude ver Débora se encolhendo na sua sala. Não pensei. Apenas beijei A irmã mais velha. O que vi quando levantei a cabeça atingiu-me como um soco na boca do estômago. Nunca pensei que uma expressão de dor no espírito pudesse ser tão grande. Dor misturada com terror. Levou a mão a boca como se fosse vomitar e saiu correndo em direção ao banheiro. Um lampejo de memória me ocorreu.

Num domingo que saímos os quatro e fomos para a casa de campo da família de Felipe. Ela deixara escapar que tinha convivido com a competição constante com os irmãos. Era a mais nova e precisava se esforçar para ser tão boa como eles. Ela considerara que tinha perdido a batalha de vez. Corri tentando alcançá-la. Não queria mais vingança. A queria em meus braços para consolá-la. Eu a amava e não havia lógica no que estava fazendo. Ao machucá-la prejudicava a mim mesmo. Não a alcancei. Remoí o resto do dia o meu comportamento nas últimas semanas. Ao final do expediente dirigi até a praça que beirava o mar. Muitas vezes havíamos ido até ali pra conversar. Quando desci do carro vi a figura esguia e escura contra o pôr do sol. Era minha chance. Aproximei-me sem pressa.

Esperava não ter destruído tudo. Quando sua cabeça virou um olhar vazio me encontrou com lágrimas que escorriam pelo rosto. Não pude suportar. Estendi meu braço e levemente fui enxugando o rosto com minhas mãos. Mais gotas percorriam aquela face tão querida. Beijei sua testa e o caminho de cada nova lágrima. Soluços sacudiram seu corpo e de minha garganta apertada saiu um pedido de perdão. A cada lágrima e a cada beijo um novo pedido de misericórdia. Não merecia, mas suplicava a Deus nesse instante, que não fosse tarde demais. Abracei-a. Os soluços em meu peito aos poucos silenciaram. Olhos inquisidores exigiam que eu falasse alguma coisa. Bejei-os.

— Fui um louco desvairado nas últimas semanas. Deixei que o ressentimento por muitas coisas que aconteceram recaísse apenas em você. Mas não posso mais. Amo você desesperadamente. E não sei o que farei se você não conseguir me perdoar.

Ela apenas me fitou longamente. Não disse nada. Depois esticou-se na ponta dos pés e beijou-me de forma tão cálida, que ao mesmo tempo eu sentia o perdão e dor do arrependimento. Ficamos assim abraçados por um longo tempo. Isso ocorrera quatro semanas antes. Estamos casa há quinze dias. Os mais felizes da minha vida.

O abraço que ela e a mãe trocaram a poucos instantes. Indicava que ali também o perdão ocorrera. Lembrei-me de um jargão popular que parafraseio “Só acaba quando tudo termina bem.” Eu iria além dizendo que, só acaba quando oportunidades de novos recomeços são oportunizadas. Era o fim de uma etapa e o começo de outra com novos desafios. Nessa noite ao redor daquela mesa muito se aprendera sobre perdão e recomeço.

Notas finais
O fim de cada dia encerra uma jornada permitindo um novo recomeço. Cabe a cada um refletir sobre o hoje e decidir sobre o amanhã. Se necessário é possivel fazer diferente e melhor no próximo amanhecer.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.