Contos De Uma Vilã
30 Procurando a Louise parte II
Notas iniciais
P.O.V Sean
Eu estava praticando tiros com lança quando Isac e Emily apareceram no centro de treinamento da Academia. Sorri ao vê-los se aproximarem e abaixei a lança que estava segurando. Emily estava saltitando, parecendo uma criança feliz, como sempre.
–Sean, eu tive uma visão! – Ela anunciou, animada.
–Sobre a Louise? – Perguntei, imaginando se a animação de Em tinha a ver com essa visão ou se era só parte de sua personalidade alegre. Emily chacoalhou a cabeça de maneira afirmativa depois parou, franzindo o cenho.
–Mais ou menos. – Ela respondeu. Isac ergueu as sobrancelhas para ela, como se a incitasse a explicar melhor. Emily notou o gesto e pareceu entender, pois continuou: — As visões que eu tenho são sempre muito vagas, então eu não sei ao certo se era sobre a Louise, mas tenho quase certeza.
–E como era a visão? – Incentivei, largando a lança no chão e indo para um lugar mais reservado, porque tinha percebido que algumas pessoas no centro de treinamento tinham parado o que estavam fazendo para prestar atenção na gente.
–Ah... começou com um garoto trancando umas meninas em um compartimento de metal no meio de um laboratório, e ele disse “Eu sou o Benjamin” – Ela imitou uma voz masculina e eu tive que conter uma risada. – E aí mudou de cenário e esse Benjamin estava mexendo em alguns computadores e uns brutamontes entraram na sala onde ele estava e ameaçaram ele. Depois a cena mudou de novo e eu vi a Louise sendo arrastada por um corredor por uns brutamontes com trajes parecidos com os homens que ameaçaram o Benjamin. Eu não consegui ver a logotipo nos uniformes deles, mas aí surgiu o nome de um lugar e então acabou.
–Como assim, “surgiu o nome de um lugar”? Que nome era esse? – Isac perguntou antes que eu pudesse.
–Eu não sei explicar como surgiu o nome, do nada eu pensei nele. – Em se defendeu. – O lugar... eu não lembro direito. Era uma cidade, eu acho, ou um estado. – Ela fechou os olhos para se concentrar e cerrou os pulsos. – Ah! Ah, sim... Colorado.
–Colorado é um estado bem grande, Emily. – Falei, tentando lembrar alguma informação importante sobre o estado. – E em grande parte deserto.
–Lá tem um grande número de ocorrências de tornados, também. – Isac comentou. Emily o olhou com cara feia. Ele ergueu os braços em uma postura defensiva. – Mas já é alguma coisa. Obrigado, Em.
Ela sorriu com as últimas palavras dele e beijou-lhe a bochecha. Isac passou a braço em volta dos ombros dela e a guiou para fora do centro de treinamento, me deixando sozinho novamente.
A visão de Emily ainda me perturbava. Louise sendo arrastada por brutamontes era uma cena bastante difícil de imaginar. Além do mais, tinha esse tal de Benjamin. Em dissera que na visão ele trancava umas meninas em um compartimento de metal. Uma das garotas eu presumi que era a Louise, obviamente.
O que mais me confundiu foi que os mesmos brutamontes que estavam carregando a Louise foram os que ameaçaram o Benjamin. Quer dizer... numa hora ele mandava os caras atrás da Lou e trancava ela em um compartimento e na outra os seus homens o ameaçavam?
Desisti de tentar entender todo esse complexo e saí em busca das salas de pesquisas. Por enquanto eu havia decidido resolver o que realmente estava claro para mim: Louise provavelmente estava no Colorado. Eu iria pesquisar cada canto montanhoso e desértico daquele estado até encontrar alguma pista que me levasse a ela.
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Meus olhos estavam cansados depois de duas horas de pesquisa. Eu não tinha encontrado muita coisa, pra falar a verdade. Levantei-me da cadeira onde estava e saí da cabine, me espreguiçando. Minha mente pesava e um princípio de dor de cabeça estava me incomodando e atrapalhando meus pensamentos.
Pensei em sair para a área externa da Academia, onde provavelmente eu encontraria alguém para jogar bola e espairecer um pouco. Porém desviei do meu caminho quando passei por uma câmara de simulação. Ela estava ocupada por três ou quatro pessoas que estavam espalhadas por uma savana, se escondendo umas das outras.
Encontrei uma outra câmara de simulação, essa estava vazia, e entrei nela, indo até o painel de controle e digitando os comandos para mostrar o cenário que eu quisesse. Optei pela imagem de uma praia com falésias enormes que iam até onde a vista alcançava.
Os objetos começaram a se formar ao meu redor e toda a câmara tremeu enquanto as falésias cresciam. Elas se ergueram ao meu lado e me fizeram perder o equilíbrio e cair na areia que agora estava sob meus pés. Sorri ao ver o mar a minha frente. Aquele lugar me lembrava muito da minha infância, quando meu pai me levava, todo verão, para um pequeno chalé nas falésias e ficávamos o dia inteiro na praia abaixo.
Senti meu sorriso morrer ao lembrar do meu pai. Ele era uma das principais razões para eu ter me convertido ao mundo dos vilões. A sua morte, na verdade. Ele era meu ídolo, sempre o achei uma pessoa muito boa. Mas então veio a CIA, acusando-o de coisas horrendas. Ele me protegeu, mas não havia ninguém para proteger ele. Mataram-no na minha frente.
Dias depois eu estava na delegacia, atrás das grades. Elas não me prenderam, que pena. Não prenderiam de qualquer jeito, afinal eu só tinha 13 anos. Mas desde então nenhuma grade conseguiu me prender. Mesmo agora, quatro anos depois.
Sacudi a cabeça como se isso fosse me livrar do passado e, quando não deu certo, mergulhei na água gelada do mar.
O mais divertido era que eu podia mergulhar completamente vestido porque aquela água era apenas um holograma (muito bem feito, por sinal).
Fiquei um bom tempo ali, mergulhando, até me lembrar que uma pesquisa me aguardava. Saí da câmara, indo de volta para a sala de pesquisa, mas fui interrompido quando o furacão April quase me atropelou.
–Sean, eu estava procurando você. – Ela disse, afobada. Pude notar grandes olheiras debaixo de seus olhos, que estavam arregalados e as pupilas dilatadas de alguém que tomou muito energético, além de seu cabelo que estava uma bagunça e suas roupas amassadas. Ela parecia uma louca ou uma pessoa muito cansada. Ou os dois.
–April, você está bem? – perguntei preocupado, ao que ela respondeu acenando a cabeça de maneira veemente.
–Eu não durmo há alguns dias, mas não tem problema. Eu consegui decifrar o código! – Ela falou entusiasmada. Ergui as sobrancelhas.
–Isso é maravilhoso, April. – Falei, segurando seus braços quando ela se desequilibrou. – Mas você não acha melhor dormir um pouco antes de me contar?
Ela riu alto e sacudiu a cabeça.
–Sean, eu tomei umas dez latinhas de Red Bull só hoje, não acho que vou conseguir dormir agora. – Ela falou, me fazendo arregalar os olhos. – Vem, as gravações estão com Cooper.
Ela me puxou pela mão e saiu correndo, fazendo com que eu tivesse que correr também.
Encontramos Cooper e Damien em uma sala de aula qualquer. A sala estava vazia, a não ser pelos dois ali dentro. Eles estavam com o tablet do Cooper na mão e o encaravam, concentrados. Quase nem perceberam que tínhamos entrado na sala. Mas não é possível não perceber quando o furacão April chega em algum lugar.
–Deixem o Seanito ver. – Ela falou, empurrando Damien e dando espaço para que eu olhasse o que se passava no tablet.
De quatro câmeras diferentes, pude ver Louise caindo direto em um colchão inflável na câmara antigravidade. Então alguns homens que mais pareciam armários carregaram ela para fora, quando ela já estava inconsciente. Um dos homens, no entanto, parecia bem mais jovem que o resto e apenas disse comandos aos outros. Em pouco tempo eles desapareceram.
–Conseguiu ver a logo, Sean? – Perguntou Damien. Eu nem tinha prestado atenção nisso, honestamente. Balancei a cabeça negativamente.
–Tem como dar zoom? – April perguntou, se escorando em meu ombro para poder ver também o tablet. Coopper repassou o vídeo novamente, parando em uma parte e dando zoom como April estava ordenando. Infelizmente, a logo não pôde ser desvendada. Suspirei, me sentindo um pouco derrotado.
–Ei, que cara é essa? – April chamou minha atenção. – Eu vou levar isso para casa de novo e vou conseguir ver a logo, okay? Pode deixar que até hoje à noite eu tenho uma resposta.
E ela piscou pra mim com um sorriso encorajador que eu retribuí.
Nesse momento, Lizzie entrou de supetão na sala, assustando a todos.
–O que vocês descobriram? – Ela perguntou, parecendo aflita. Damien lhe contou que eles ainda não conseguiam ver a logotipo da empresa, mas que April daria um jeito nisso. Eu aproveitei e relatei a todos, mas principalmente a Lizzie, o que havíamos descoberto com a visão da Emily. Lizzie ainda parecia impaciente, mas um pouco mais calma.
–Bem, que tal irmos lá na cozinha roubar alguns doces e depois podemos começar mais um capítulo de buscas sem fim pela nossa querida Louise. – Sugeriu Cooper, empurrando todos nós para fora da sala de aula.
–Por mim tudo bem, desde que tenha sorvete. – Damien falou, fazendo-nos rir.
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P.O.V Louise
Eu mal tinha acordado quando fui arrastada para fora da cela de metal. Ouvi Ayesha me chamar por entre as grades enquanto eu era levada para Deus sabe onde.
Benjamin não estava com os dois brutamontes que praticamente me arrastavam pelos corredores, mas o encontramos em uma sala separada.
–Bom dia, flor do dia. – Ele disse com seu usual sarcasmo. – Você está linda hoje.
–Ah, vá para o inferno. – Falei, matando-o com os olhos. – Por que vocês capturaram a Ayesha também?
–Você já sabe a resposta pra isso. – Ele respondeu. Depois acrescentou, debochado: – Não acha legal ter uma amiguinha aqui?
Eu ia responder não, mas sabia que a pergunta era retórica, então fiquei quieta.
–Bem, então vamos lá, hoje você terá um dia cheio. – Ele sorriu com escárnio e eu estremeci, não querendo nem imaginar o que me aguardava.
Benjamin nos guiou a uma sala com pé direito alto. Em um lado havia algo parecido com uma roleta daquelas de programas de tv, onde você gira a roleta e ganha prêmios, só que essa era de madeira e eu não acho que ganharia um prêmio se a girasse. Do outro lado da sala havia alguns alvos e, na parede oposta, uma mesa com várias armas em cima.
–Tiro ao alvo? – Perguntei, desdenhosa. Aquilo era tão simples e fácil, o que eles queriam que eu provasse?
Ben sorriu com malícia, negando. Fez um gesto para os guardas ao meu lado e, de repente, meus pés não estavam mais no chão e sim meus cabelos. Fiquei cara-a-cara com os sapatos lustrosos de um dos homens que me carregavam. Ficar de cabeça para baixo parecia estar se tornando algo comum na minha vida.
Segurando-me pelos tornozelos, os homens-armário me levaram até a roleta e me prenderam a ela com tiras de couro. Com pernas e cintura amarradas, apenas meus braços estavam livres, e eles pendiam dos lados da minha cabeça.
À minha frente estava o alvo. Foquei nele enquanto o sangue descia para a minha cabeça causando uma sensação bastante desagradável. Benjamin pegou uma arma de fogo pequena na mesa e veio até mim, se agachando para nivelar nossos olhos.
–Não achou que seria tão fácil, achou? – Ele perguntou, parecendo falsamente decepcionado. – Mas, acredite, é bem divertido. Para mim, pelo menos.
Ele colocou a arma nas minhas mãos e se afastou.
–E se eu não quiser fazer isso? – Perguntei, teimosa, mas ainda segurando a arma.
Ele riu
–Você sabe o que vai acontecer. – Depois se virou para um dos homens, que estava segurando a roleta. – Gire-a.
Senti uma vertigem quando a roleta e, consequentemente eu, começou a girar.
–Agora, Louise, tente atirar no centro do alvo. – Ele ordenou.
O alvo era um borrão na minha frente, apesar de eu não estar girando tão rápido. Com dificuldade ergui os braços a minha frente e tentei mantê-los o mais firme possível, me concentrando no centro do borrão que era o alvo. Atirei, mas não consegui ver onde a bala tinha acertado.
–Quase lá. – Ouvi Benjamin ironizar.
Continuei atirando, mais para provar a mim mesma que eu conseguia fazer aquilo do que para provar a Benjamin. Não era fácil e eu não fazia ideia se eu estava atingindo o alvo.
Com o canto do olho eu conseguia ver o sapato e as pernas de Benjamin. Abaixei a arma que estava na minha mão quando comecei a ficar nauseada. Então tive uma ideia que me fez sorrir maldosamente. Calculei o tempo do giro e apontei minha arma para um dos lados do meu corpo. Atirei e pude perceber que a roleta imediatamente parou e um dos homens tirou a arma das minhas mãos. A bala tinha acertado um ponto bem próximo aos pés de Benjamin, e ele me analisava de olhos cerrados.
–Por que fez isso? – Ele desafiou.
–Porque estou me sentindo enjoada. – Respondi simplesmente, com um sorriso falsamente meigo no rosto.
Benjamin revirou os olhos.
–Então gire-a para o outro lado. – Ele ordenou, e assim foi feito.
Comecei a protestar, mas sabia que era inútil. E, mais uma vez, a arma estava nas minhas mãos e eu atirava no alvo.
Decidi que meu alvo não precisava ser necessariamente aquele na minha frente. As lâmpadas, pensei, são bons alvos.
Benjamin xingou quando comecei a acertar as lâmpadas, mas isso não me parou. Foi só quando faltavam umas três delas finalmente tiraram a arma da minha mão.
Dessa vez, Benjamin não fez nenhum comentário, ele apenas gesticulou para um dos homens e este bateu no meu rosto com a coronha da arma. Cerrei os dentes
por causa da dor, imaginando se o hematoma que se criaria na minha bochecha seria muito grande.
Ao olhar para Ben, vi que ele não exibia nenhuma expressão de desdém ou deleite por causa da minha dor. Na verdade, ele estava bem indiferente. Resolvi provocar alguma reação nele e mostrei minha língua, como uma criança desobediente. Ele apenas balançou a cabeça levemente, do jeito que as pessoas fazem quando querem dizer “você é um caso perdido”.
Ouviu-se um beep baixo na sala, que vinha do pulso de Benjamin. Ele franziu o cenho e olhou para um relógio que ali estava e suspirou.
–Bem, eu preciso ir. – Disse como se fosse algo lamentável. – Mas podem continuar se divertindo.
Então foi andando até a porta.
–Ah, e... Louise? – Ele se virou antes de ir embora de vez. – Não tente mais nada ou vamos ter que tomar medidas um pouco drásticas. – E fechou a porta atrás de si.
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P.O.V Sean
Depois de muitas pesquisas infrutíferas sobre o Colorado, lembrei que Emily tinha mencionado um Benjamin, e lembro que ele havia aparecido duas vezes em sua visão, o que significava que ele devia estar envolvido nessa coisa toda. Então comecei a pesquisar sobre Benjamin na seção de notícias. Eu juro que nunca conheci nenhum Benjamin na minha vida, mas a internet conseguiu encontrar pelo menos 396 deles só nas notícias do Colorado.
Se eu pelo menos soubesse o sobrenome dele facilitaria muito a busca. Mas, já que não sabia, resolvi ir eliminando as opções menos prováveis (como crianças ou idosos ou fazendeiros ou pescadores ou médicos ou bibliotecários ou defuntos).
No final da tarde, eu já tinha lido tanto esse maldito nome que, quando April chegou ainda parecendo uma maluca, eu acabei chamando-a sem querer de Benjamin.
–Quem é Benjamin? – Ela perguntou, mas não deixou que eu respondesse, foi logo falando: — Consegui ver claramente a logo.
Nesse momento, Lizzie, Damien e Isac, que estavam pesquisando outras coisas também ali por perto, se aproximaram, curiosos.
–E o que estava escrito nela? – Lizzie perguntou, agitada.
–DEC. – Respondeu April, como se isso esclarecesse muita coisa.
–Ah, sim. – Retrucou Damien, sarcástico. – os Dançarinos Estonteantemente Cretinos.
Isac riu baixo e eu não pude esconder um sorriso, porque era realmente muito ridículo, ao que April respondeu bufando.
–Não, idiota. Você não me deixou terminar. – Ela disse, impaciente. – Eu pesquisei o que significa em uns documentos meio secretos e achei o nome de uma empresa.
–Que seria...? – Isac questionou.
–Departamento de Experimentos Científicos. Fica no Colorado. – Ela acrescentou sugestivamente.
–Então é lá que a Louise deve estar. – Isac disse.
–Provavelmente. – Respondi. – Temos que pegar armas e nos preparar para uma longa viagem. Sairemos em três dias, no máximo.
–Yay! – Exclamou April, batendo palminhas – Mas agora eu vou dormir, não aguento ficar mais nem um segundo em pé.
Dito isso, ela foi embora. E eu voltei para o computador, para pesquisar sobre DEC e começar a planejar o resgate da Louise.
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