Há certos dias que não conseguimos parar de pensar. Esse era um desses.

Mas não, esse conto não é sobre pensamentos, embora pudesse ser, não o é, é sobre ações, o pensar veio depois.

O dia. Passou rápido, como um furacão, o ônibus da avenida 939.

— Eu dei sinal, mas que saco, esse motoristas não prestam — a reclamação de uma mulher postada atrás de mim foi seguida de murmúrios afirmativos de outras pessoas no ponto.

Mais pelo menos 40 minutos aqui eu ficaria.

— Ei! Psiu! Vem cá! — uma mulher me chamou.

Eu estava próxima a um terreno abandonado, com parede separando-o da rua, e a voz veio de um buraco na parede.

Eu não sei bem porquê, mas me aproximei da mulher.

— Fala para a minha mãe que eu não posso ir.

— O qué?

— Minha mãe! Ela está a minha espera, eu atrasei da escola.

Essa mulher tinha pelo menos cinquenta anos e um olhar vazio.

— Eu falo para ela — eu respondi.

— Obrigada, fica com deus.

O que eu poderia fazer? Fiquei ao lado do muro observando a mulher se afastar, andando no meio da grama que cresceu sobre os destroços do terreno.

Ninguém mais a viu.

Eu voltei a atenção para o ônibus.

Ele parou, 30 minutos depois, e eu entrei.

Paguei sem ver e sentei em um banco.

— Os caminhos são fechados para quem não vê.

— O que o senhor disse? — eu perguntei.

— Que os caminhos são fechados para os cegos da alma. Boa sorte menina, enfrentar o mundo não é fácil, quando você enxerga demais, a luz ofusca.

Ele desceu logo no próximo ponto.

Pronto, as pessoas estavam a dizer coisas sem nexo para mim.

Por que aquela mulher disse que voltava da escola? Não estava muito consciente, mas por que eu? Por que a mãe? Por que a escola?

E esse negócio de caminho e enxergar?

Eu não entendi é nada.

Mas não consegui colocar o fone; na verdade, sequer lembrei. Minha mente estava cheia de pensamentos.

Cheguei em casa e vi no noticiário que um professor havia morrido atropelado no centro da cidade; mostraram a foto e lá estava ele, o senhor do ônibus, não poderia esquecer seu rosto. Na foto ele sorria.

Nos próximos dias que esperei o ônibus no ponto, não encontrei mais a mulher, que se tratava de uma moradora de rua local.

Ambos tinham escolhido a mim para se despedir.

A mulher me dera um aviso.

E o professor um conselho.

Levaria anos para que entendesse o significado, mas ele veio.

Notas finais
Muitas vezes as palavras que ouvimos não são para o momento, são para compreendermos depois. Não há nada sem aprendizado, por mais banal que seja. Sem reclamações, tudo tem a sua hora e a sua vez.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!