Conto de Duas Galáxias
1 Capítulo 1 - Viagem a Daxam
Notas iniciais
— Lena —
Oito anos desde a morte de Kara se foram em um piscar de olhos, Lena pensava consigo mesma olhando pela janela. As pessoas diziam para ela que ficaria mais fácil com o passar dos anos, mas não ficou. Na verdade, tudo ficou mais vazio e frio em sua volta, e as coisas tinham cada vez menos cor.
— James e eu vamos sair para beber algo hoje a noite, você quer vir junto? — Winn tirou Lena de seus pensamentos, ele passou mais papéis para ela.
— Eu prefiro não, eu ando um pouco cansada. — Aquela era sua desculpa usual a oito anos, seria apropriado encontrar outra para evitar convívio social. Ela folheou os documentos que recebeu. — Mais autorizações para a fabricação de armas hibridas de culturas alienígenas e terráqueas? Onde isso vai parar? — Lena resmungou, estava cada vez mais difícil controlar o fluxo de armas, caso não entrassem de forma legal no planeta, iriam vir ilegalmente.
— Não é só isso, nós estamos passando por um pico de imigração incomum. Nossa capacidade para receber refugiados está quase no limite, talvez seja a hora de erguermos barreiras, ao menos temporariamente. — Ela o olhou com desaprovação.
— Nós continuaremos fazendo o possível para ajudar quem chega a nosso planeta, Winn. Até que eu decida o contrário. — Seu tom não foi rude ou grosso, apenas direto e pontual.
— Afinal, você é a Imperatriz terráquea, mas eu sou seu conselheiro é meu dever dizer aquilo que você não quer ouvir. — Lena suspirou, era inegável que a quantidade de aliens subia desproporcionalmente ao recursos do planeta relacionados a comida e empregos, mas como ela com uma filha mestiça que tinha sangue kryptoniano e terráqueo, podia negar a entrada dessas pessoas ali? Ela não iria negar um recomeço para eles, uma chance de sentir esperança novamente.
— Senhorita Luthor, ligue a TV agora! — A secretária adentrou no recinto sem nem mesmo bater. A mulher correu até o controle do aparelho, ao ver a imagem que se formou a sua frente Lena entendeu a pressa.
— Estamos ao vivo da baia de Gotham City, onde hoje uma garota que aparenta ser uma seguidora, ou quem sabe parente de Supergirl ajudou a policia ao lado de Batgirl a prender um carregamento de drogas, vindas direto de um planeta desconhecido. Vejam as imagens. — O que foi apresentado aos olhos de Lena a seguir não era algo que ela esperava ou desejaria ver, nem mesmo em um milhão de anos.
— Eu vou matar Lori, eu juro que essa garota só sai do quarto dela agora quando completar 18 anos. — Lena resmungou furiosa.
— Ao menos no fim, tudo acabou bem. Elas resolveram tudo, sem baixas ou casualidades. — Winn tentou argumentar.
— Baixas ou casualidades? Ela tem 14 anos, Winn! A única baixa que ela deve se preocupar, é a baixa que terá na mesada após isso. — Lena apontou para a TV. E a imagem a acertou como um raio, Lori não teria confeccionado aquele uniforme sozinha. Ela olhou para Winn. — Você tem algo para dizer? — Winn afastou-se, Lena podia ser um tanto selvagem, quando se tratava da segurança de sua filha.
— Eu não sei nada a respeito disso. — Ele sabia, Lena tomou mais um pouco de seu espaço pessoal, até que ele batesse de encontro a mesa.
— Ela pode ser muito persuasiva, tudo bem? Eu não resisti. — Lena revirou os olhos, aquilo só podia ser brincadeira. Sua seguinte reação foi dar as costas e sair. — Onde você vai? — Winn gritou.
— Ter uma conversinha com Lori e quando eu voltar, será a sua vez. — A porta foi batida deixando Winn para trás.
— Ela vai me matar. — Ele sussurrou.
— E eu vou adorar assistir. — A secretária falou quase sorrindo.
Lena já estava frente ao prédio esperando seu motorista, seria difícil convencer uma adolescente de 14 anos com poderes quase que ilimitados, que sua decisão foi errada. Lori, era extremamente parecida com Kara, tanto fisicamente quanto emocionalmente. A impulsividade de ambas e a índole tão gentil que as vezes chegava a ser irritante, estavam tão presentes na garota quanto em sua mãe kryptoniana. Chegando na residência Lena desceu do carro rapidamente, ela sabia que Lori estaria enfiada em seu quarto.
— O que aconteceu? — Lilian vendo a filha chegar indagou preocupada.
— Fique fora disso, mãe. — A mulher voltou ao seu escritório, ela sabia que a filha viria até ela, caso precisasse.
Lena tentou abrir a porta do quarto, mas estava trancada. Logo investiu três batidas contra a porta, elas foram mais furiosas do que ela queria que parecessem. A garota andava do outro lado da porta apreensiva, ela estava com problemas.
— Lori, abra está porta agora. — Lena continuava a bater.
— Você está brava? — A menina indagou do outro lado.
— Sim, eu estou, mas será que você poderia abrir a porta para nós resolvermos isso? — A mãe foi respondida com silêncio, mas logo ouviu a porta começar a se abrir. Lori apresentou-se em um traje que lembrava o de Kara, mas definitivamente tinha o seu senso de moda. Seu primeiro instinto foi abraçar a filha. — Você podia ter se machucado, não faça isso novamente. — A menina se desvencilhou da mãe.
— Porque não? — Ela indagou.
— O mundo já tem heróis demais, ele não precisa de mais uma. — Lena entrou no quarto.
— Qual a graça de ter todos esses poderes se eu não posso usar? Se eu não posso ser igual a ela? — A mesma ruguinha formou-se no rosto de Lori, onde formava-se no rosto de Kara quando ela estava brava.
— Você não precisa ser igual a ela, meu amor. — A menina deu de ombros.
— Todo mundo fica repetindo para mim o quanto eu pareço com ela e que um dia, eu vou ser tão poderosa quanto ela. Quem sabe mais... — Era difícil para Lena ver sua filha tentar se igualar a uma imagem que era quase santificada no planeta.
— Você está falando da Supergirl, querida. Kara era muito mais do que ela, ela era muito mais do que poder... — Lena tocou o ombro da filha.
— Como era ela? Como Kara Danvers era? — A pergunta veio em um tom furioso, Lena abriu e fechou a boca, mas nada saiu. — Viu? Você não consegue, você costumava falar comigo quando eu era menor, você costumava me contar sobre ela. Eu não posso forçar você a falar, mas isso não é justo comigo, mãe. Ela era sua esposa, eu sei que doeu perder ela, mas ela era minha mãe também. — Lena não conseguia falar a respeito de Kara, era impossível para ela fazer sem chorar, o que a fazia se sentir patética.
— Você está de castigo, caso coloque os pés para fora dessa casa sem minha permissão, você irá passar alguns meses em Krypton com seus avós. — Ela bateu a porta antes que a filha pudesse questionar suas ordens.
Lena foi até seu quarto, ela precisava se acalmar antes de voltar ao trabalho, não era bem o que ela pensava que aconteceria com sua vida quando aos 21 anos, casou-se com a bela oficial a Armada Kryptoniana. Ela não se arrependia de sua decisão, apenas de uma, ter decidido morar na terra, caso tivesse optado por Krypton sua esposa ainda poderia estar viva.
— Flashback —
Ela gostava de culpar Kara pela personalidade de Lori, mas não era bem verdade. Lena havia sido uma adolescente bem mais teimosa e irritante do que Kara.
— Onde você acha que vai? — Lilian interceptou a filha já na porta de saída.
— Pescar? — Lena sorriu cinicamente.
— Não teste minha paciência, Lena. Você sabe que irá a Daxam em nome da nossa família e a oficial que irá escoltar você já está aqui. — Lena suspirou.
— Porque não Lex? Ele leva muito mais jeito para política. — A mãe ignorou a pergunta da filha e começou a empurra-la em direção ao seu escritório.
Uma oficial que nem mesmo aparentava ser mais velha que ela se encontrava lá, ela reconheceu o símbolo da roupa logo que viu, tratava-se de uma El, eles eram basicamente a maior família em Krypton.
— Lena, essa é a Tenente Kara Zor-El. Ela está aqui para leva-la a Daxam. — Lilian apresentou as duas.
— É uma prazer, senhorita Luthor. E é uma honra servir como intermediária entre essas negociações. — A garota parecia um robozinho com cachos de tão rígida que era. Lena conteve um riso.
— Não seja boba, eu só vou acenar um pouco e tomar sorvete com o príncipe regente. — A tenente assentiu, nem mesmo um sorriso, ela era realmente séria. Lena pensou consigo mesma.
— Senhorita, nós partiremos ao entardecer. Eu aconselho que faça as malas. — Kara advertiu em tom sério, como se aquilo fosse o assunto mais urgente do universo.
— Tudo bem, eu devo ir ao escritório. — Lilian manifestou-se. — Você cuide-se bem, entendeu? Obedeça a todos os protocolos e fique sempre perto da tenente. Eu amo você, tudo bem? — Lilian depositou um beijo na bochecha da filha e segurou seu rosto. — Olha só você, indo para sua primeira missão diplomática fora da terra. — A mãe estava genuinamente orgulhosa da filha.
— Mãe, você está me envergonhando. — Lena olhou para Kara que não demonstrava nenhuma reação.
— Eu sinto muito se não sou tão descolada quanto você. — Lilian beijou novamente a bochecha da filha e assentiu para a tenente, assim se foi.
— Eu amo você também. — Lena disse antes que a porta se fechasse.
— Então, você quer testar seus poderes? — Ela aproximou-se da tenente.
— Nós não devemos nos vangloriar de dons temporários, senhorita. Logo que eu deixar esse planeta, eu os perderei. — Aquilo só podia ser piada.
— Você tem que fazer tudo que eu mandar, certo? — Lena indagou.
— Desde que não coloque sua segurança em risco, senhorita. E testar esses poderes definitivamente colocaria, então devemos evitar. — Lena suspirou, seria impossível convencê-la do contrário. Aparentemente militares eram entediantes em todas as galáxias. — Senhorita, posso fazer uma perguntar? — A tenente seguia Lena pela casa.
— Sim, e por favor me chame de Lena. — Ela subia as escadas em direção ao seu quarto.
— É protocolo, eu prefiro segui-lo, não é adequado chama-la pelo primeiro nome. O que é sorvete? Você disse que iria toma-lo com o príncipe de Daxam. — Lena virou-se imediatamente. Kara assustou-se.
— Você nunca provou sorvete? — A tenente negativou com a cabeça. Lena começou a fazer o movimento inverso e descer a escadas, ela puxou Kara pela mão, de imediato a jovem tenente pensou se deveria adverti-la que existia uma regra da qual proibia toques, mesmo que sutis entre militares e pessoas das quais tomavam conta da segurança. Por fim decidiu não fazê-lo. — Você vai adorar, vem comigo. Eu vou te fazer provar todos os sabores existentes. — Ela só esperava que a tal comida fosse gostosa, pois na verdade estava com um pouco de fome.
Logo lá estavam elas em uma sorveteria, o lugar estava quase vazio, não fossem pelo casal em uma das mesas.
— O que você achou? — Lena perguntou para Kara a respeito do lugar.
— Bom, é bem colorido, senhorita. — Ela limitou-se.
— Você pode fazer melhor, Tenente. — Lena provocou, esse parecia ser seu esporte favorito. Kara a viu pegar uma colher e mergulhar em dois sabores distintos. — Aqui, prove. — A colher estava apontada para sua boca, ela se sentiu envergonhada, mesmo que não houvesse ninguém olhando.
— Eu consigo comer sem ajuda. — Ela relutou. Lena empurrou a colher para mais próximo de sua boca.
— Cala a boca e prove, é uma ordem. — Sua vontade foi recusar de imediato, apenas pela audácia de sua protegida, mas por fim se rendeu. O sabor da comida não era parecido com nada que ela já havia provado, era delicioso.
— Grande Rao! — Kara sussurrou.
— Lucius, eu quero uma grande quantidade de sorvete, você pode levar para minha mesa usual lá fora? — Lena se dirigiu ao atendente que mexia despreocupado em seu telefone.
— Claro, Lena. — Ele respondeu. Lena fez sinal para que Kara a seguisse. As duas sentaram em uma mesa na área externa, o ambiente era silencioso e calmo. Kara estranhamente se sentia à vontade com Lena, mesmo que suas atitudes fossem contra todo tipo de protocolo.
— Então, eu sou sua primeira missão? — A jovem indagou curiosa, seus olhos verdes eram firmes ao olhar para Kara, ela apesar de estudar em escolas militares desde criança odiava contato olho a olho, logo abaixou a visão.
— Sim, senhorita. É a minha primeira missão fora do meu planeta. — Ela respondeu. De repente, sua visão começou a variar um pouco, ela não sabia o que estava acontecendo. Era como de ela estivesse enxergando mais do que deveria e logo descobriu que estava. Quando fechou seus olhos firmemente e os abriu de novo estava encarando o seios de Lena, mas eles não estavam cobertos. Ela tentou tapar os olhos, mas não funcionou. Seu próximo reflexo foi fecha-los e tapa-los com as duas mãos. — Me desculpe, eu não fiz por mal. — Lena não entendeu o que acontecia. Ela puxou as mãos da tenente e a fez abrir os olhos.
— O que houve? — Ela ainda segurava os pulsos da garota.
— Eu vi os seus... — Kara apontou para o decote de Lena, o tom de sua pele ficava cada vez mais vermelho.
— Eu ofendi você? Meu decote está exagerado? — Lena indagou sem entender.
— Não, eu vi... — Kara suspirou. — Eu vi dentro da sua roupa, seus... — Ela fez um gesto levando as mãos aos próprios seios. — Eu estou envergonhada, eu não queria. — Ela olhava para baixo, mas agora na direção dos próprio pés. Lena tentava segurar o riso, mas foi uma tentativa vã, logo ela estava gargalhando.
— Você gostou do que viu? — Ela brincou com a situação, o que fez com que a tenente cruzasse os braços e voltasse a corar.
— Por favor, não brinque com isso. Eu sou tímida. — Sua voz foi suave e extremamente embaraçada.
— Não é um problema, nós podemos deixar isso fora do seu relatório oficial. Mas nós vamos ter que testar em que essa sua visão funciona. — Kara assentiu, não restava muito a se fazer, a não ser concordar com a garota.
— O sorvete está vindo! — Lena apontou para o garçom que vinha em direção a elas.
Ela agradeceu, pois finalmente ia comer, mas não deixou de lhe acorrer que apesar de como havia acontecido, ela gostou da visão que teve. O momento de interação seguiu tranquilo, Lena se apresentava muito interessada nas culturas Daxamita e Kryptoniana. Antes que percebessem era hora de voltar para a Mansão Luthor para pegar as malas de Lena, pois elas finalmente iam partir. Em pouco tempo, elas estavam no ponto de partida, Lena ficou maravilhada com a nave que encontrou. Kara não conseguiu deixar de achar aquilo adorável, ela não fazia questão alguma de esconder seu fascínio e deslumbramento.
— Isso é tão lindo, mas eu odeio voar. — Lena sussurrou no ouvido de Kara quando elas adentraram na nave.
— Será um lançamento tranquilo, senhorita. Eu garanto. — A jovem sentou-se e Kara colou o cinto nela, como se fosse uma babá alienígena e sentou-se logo ao seu lado.
A medida que a nave começava a se mexer a dar sinais de lançamento, Lena encolhia-se na cadeira. Quando sentiu o levantar voo, ela enfiou seu rosto no ombro de Kara que apenas aceitou, afinal estava ali para proteger a terráquea.
— Me avise quando for seguro abrir os olhos. — Lena resmungou próximo ao ouvido de Kara.
— Nesse momento é seguro, você vai adorar a visão. — Kara sussurrou, Lena abriu os olhos e deu de cara com os olhos da alienígena. De fato, ela estava adorando a visão. A tenente apontou para a janela, onde era possível ver a terra. Aquilo era magnifico. — Bem, aparentemente eu encontrei algo que pode deixar você sem palavras. — Lena sorriu desconcertada.
— Por que nós estamos parados? — Lena indagou.
— Devemos esperar algumas naves amigas que seguirão viagem conosco. — Kara respondeu.
— Eu quero ir lá fora. — Lena de imediato falou, como se aquilo fosse uma passeio turístico.
— Não era você que tinha medo de voar? — Kara retrucou.
— Tecnicamente eu não estaria voando, e sim flutuando. — Ela tinha argumento para tudo, lidaria bem com os Daxamitas.
— Tudo bem, eu devo ir ver se é seguro para você lá fora. Então, eu volto e você pode ir. — Lena assentiu como uma criança.
Ver aquele trajes mordemos fez com ela sentisse que vivia na idade da pedra na terra, era tudo tão sofisticado. A tenente adentrou dentro de uma das roupas e logo estava acenando para Lena lá de fora, aquilo era também um sinal para que ela pusesse sua roupa e fosse, ela o fez. Kara estava lá fora para recebe-la. Olhar para a vastidão lá fora a fez sentir pequena, mas quando pegou a mão da tenente, foi como se juntas elas se tornassem grande o suficiente para habitar aquela imensidão. Kara falava, mas ela não conseguia ouvir, alguma má função no conector de áudio, ela fez sinal de que não podia ouvir. A tenente fez o mesmo. Ambas prosseguiram em silencio, apenas aproveitando a sensação.
— Bem, eu vou aproveitar que você não pode me ouvir para dizer que... você é a humana mais bonita que já conheci, você fala demais. No entanto, eu não diria que é um defeito. — A tenente falou e Lena imediatamente sorrio, pois ela havia encontrado seu botão para ligar o áudio há alguns minutos, ela tateou o uniforme de Kara a procura do mesmo botão.
— E você pode ser a primeira alien que vejo, mas tenho certeza que é a mais bonita que vou ver. Você deveria sorrir mais, porém isso não é defeito. A raridade dos seus sorrisos torna eles bem mais gratificantes. — Lena sussurrou de volta.
— Eu acho que realmente estou batendo minha cota de situações embaraçosas com você. — Lena apenas sorriu.
De volta a nave Kara decidiu que era hora de levar Lena para a cama, não que ela tivesse alguma autoridade sobre a terráquea, mas ela realmente parecia cansada.
— Caso precise de algo eu vou estar no meu quarto, senhorita. Fica ao lado. — Ela assentiu com a cabeça e a porta foi fechada.
No auge dos seus 17 anos aquela era a primeira vez que Lena dormia tão longe de casa, tão longe de sua mãe e irmão, ela não podia evitar se sentir sozinha. E com certo medo, já que flutuava em um monte de metal em volta da terra. Ela não iria conseguir dormir sozinha, levantou-se arrastando consigo o cobertor que trouxe de casa e dirigiu-se até o quarto da tenente. Ela bateu a porta.
— Tem algo errado, senhorita Luthor? — Kara atendeu a porta rapidamente.
— Eu posso dormir com você? Eu não consigo dormir? — Lena segurava seu cobertor com as duas mãos, como uma criança assustada.
— Claro, eu posso dormir no sofá, fique à vontade. — Kara já se dirigia para pegar seu cobertor.
— Não, você pode dormir comigo. Eu vou me sentir... menos sozinha. — Lena fez uma careta envergonhada. Kara deitou-se ao seu lado.
— Vai ficar tudo bem, senhorita. Você não precisa sentir medo ou ansiedade, sua visita é aguardada em Daxam. — Kara tentou reconforta-la.
— Não é isso, quer dizer... eu só não quero decepcionar minha mãe. Ela depositou muita confiança em mim. — Lena deitou-se de frente para Kara.
— Eu entendo, mas eu estarei lá para ajudá-la a corrigir qualquer erro que venha a ser cometido. — Kara sorriu pela segunda vez aquele dia, seus sorrisos eram difíceis, mas aquele fez com que Lena se sentisse extremamente confiante.
— Obrigada. — Ela limitou-se a dizer o mais sinceramente que conseguiu.
Aquela foi a primeira vez que Lena teve Kara ao seu lado, ambas duas adolescentes e ambas querendo agradar e fazer com que seus pais se orgulhassem. Não havia um segundo interesse aquela noite, apenas uma busca por segurança. Um porto seguro que foi encontrado e se tornou morada se um amor verdadeiro e resistente, que superou todas as barreiras que lhe foram impostas.
— Fim do Flashback —
— Lena, querida. — Lena acordou com uma mão tocando seu ombro.
— Mãe? — Ela sentou-se abruptamente na cama. — Que horas são? Eu devia ter voltado ao trabalho. — Ela levou as mãos a cabeça.
— Eu tenho certeza que eles vão sobreviver um dia sem você. — Lilian sentou-se ao lado da filha. — Você está bem, Cookie? — Quase como de reflexo Lena deitou-se no colo da mãe.
— Eu estou tão cansada, mãe. E eu estou com tanta raiva... — Ela suspirou. — Eu não consigo superar a morte da minha esposa, eu não consigo me entender com a minha filha e o mundo... O mundo está todo errado. Cheio de ódio e xenofobia, quanto mais eu luto para as pessoas que chegam aqui tenham uma boa vida, uma vida decente mais parece que as coisas pioram. — Lilian levou as mãos aos cabelos da filha.
— Você se lembra do dia em que Lori nasceu? — Lena confirmou com a cabeça. — Você entrou em trabalho de parto no meio de um discurso para a Comunidade Galáctica, nós estávamos tentando conseguir um acordo para a entrada de dois mil refugiados em Daxam, você conseguiu dar à luz a Lori e ainda negociar a salvação daquelas pessoas no mesmo dia. Então, nem por um minuto pense que o que você faz não trás resultados. Você não pode salvar todos, Lena. — Lena também lembrava daquele dia como o dia em que ela quase atira Kara no vácuo do espaço por ela perder o nascimento da própria filha. E claro, também seu discurso extremamente inspirado, vindo direto de uma cama de hospital.
— Esse dia foi realmente marcante. — Lena animou-se um pouco ao lembrar daquilo.
— Eu conversei com, Lori. Você deveria conversar um pouco mais com ela a respeito da outras mãe dela. — Kara e Lilian tinha um relação complicada.
— Eu prometo tentar. — Lena sabia que era o melhor a se fazer, mesmo que fosse difícil falar a respeito de seus momentos com Kara.
Um longo banho se foi, até que Lena tomasse coragem para ir até o quarto de sua filha conversar. Ela não sabia o que dizer, nem mesmo por onde começar, Lori apenas tinha convivido com Kara até seus 6 anos de idade, suas memórias eram vagas e limitadas. Lena lembrava claramente do dia do funeral de Kara, um caixão vazio, sem corpo para enterrar e quando a pequena pediu para que abrissem o caixão, pois queria ver sua mãe novamente, ela se viu obrigada a negar o pedido, não havia nada ali para ver. Tudo aquilo era apenas uma cerimonia. O corpo de Kara vagaria para sempre pelo universo, sem um lar, sem parada, apenas flutuando pelo vazio.
— Lori, eu posso entrar? — Ela bateu a porta.
— Sim... — A menina respondeu rapidamente.
— Eu trouxe algo para você. — Lena entregou uma foto que a garota jamais tinha visto.
— Nossa, ela era realmente parecida comigo. — O encantamento dela com a foto atingiu Lena de forma direta.
— Eu sinto muito, querida. Eu não queria que fosse assim. — Lena falava como se fosse sua culpa a morte de Kara.
— Você não podia fazer nada para impedir. Agora me conte sobre a foto, mãe. — Lori bateu na cama para que a mãe sentasse, ela aconchegou-se em seu ombro.
— Bom, esse dia é conhecido como o dia em que nós contamos para sua avó que iríamos casar. Eu tinha 21 anos e sua mãe 22. No ano seguinte você nasceu, uma linda pentelha de olhos verdes e cabelos loiros. — A menina não parava de olhar para foto.
— Vocês parecem tão felizes, você está sorrindo, acho que nunca vi você sorrindo. Quer dizer, não desse jeito. — Lori tinha o modo direto de falar de Lena.
— Talvez eu deva tentar sorrir mais, você merece muito sorrisos.
— Mãe?
— O quê? — Lena fazia de tudo para ser uma boa mãe, mas talvez nos últimos anos não estivesse sendo.
— Me desculpe por te colocado aquele uniforme e ter ido para as ruas, eu sei como você tem medo de me perder, assim como perdeu ela. — A garota parecia realmente arrependida.
— Não importa, eu tenho uma proposta para você. Em três semanas, eu irei fazer uma viagem para alguns planetas, eu quero que você venha comigo. Veja as possibilidades, veja que não precisa vestir uma roupa de heroína para ajudar as pessoas. Caso sua ideia se mantenha intacta, quando voltarmos podemos pensar nessa coisa de heroína. Mas você não será treinada por Clark, eu quero que você seja treinada por alguém do disciplina e compromisso. Talvez Diana ou Batwoman. — Era difícil para ela dizer isso, mas quando se nasce com aquele tipo de desejo nada pode impedir, então seria mais fácil se ela ajudasse.
— Sério? Eu posso levar Barbara? — Barbara era a melhor amiga de Lori e ela a levaria para qualquer lugar, mesmo contra a vontade da mãe. Lena confirmou com a cabeça.
— Obrigada, mãe. Eu sei o quão difícil é para você dizer isso. — Lori beijou o rosto da mãe.
— Você sabia que eu e Kara nos conhecemos em uma viagem para Daxam? — Lori ficou ainda mais empolgada o que parecia impossível.
— Me conte a respeito, por favor... — Ela ainda segurava a foto e olhava vez ou outra.
— Bom, nós tínhamos 17 e 18 anos respectivamente, então.... — Lori ouvia tudo de forma atenta, ela queria saber mais. Queria entender como suas mães se apaixonaram, queria saber mais do que estava escrito em jornais velhos e mais do que as pessoas contavam. Quanto a Lena, ela finalmente estava entendendo que compartilhar seus momentos felizes a ajudaria a aprender a viver sem Kara.
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