Constante De Laura
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Laura esperava a carona já do lado de fora da casa. Era sexta-feira e fazia um pouco de frio, coisa típica em Curitiba. Pelo menos não estava frio e chovendo, pensou ela. Estava um pouco encolhida, segurando uma caneca térmica cheia de café com leite, enquanto mordiscava um pão de queijo. Um carro preto se aproximou, e Laura bebericou o café.
Ela abriu a porta e se sentou no banco, ao lado de Catarina. Não exatamente ao lado, porque pelo menos duas sacolas repletas de roupas masculinas separavam as duas. Catarina deu um sorriso para Laura e depois fechou a cara e encostou o rosto no vidro, o que bagunçou seus cabelos curtos e loiros. Laura não entendeu o motivo de a amiga estar emburrada, e então resolveu voltar ao seu café. Quando o fez, percebeu que não era a mãe de sua amiga que dirigia o carro, mas sim Henrique. Quase engasgou depois disso.
– E ai Laura?- Henrique espiou a garota por cima do ombro.- Coloque o cinto e aproveite a viagem.
Laura equilibrou a caneca nos joelhos e mordeu o último pedaço do pão de queijo, enquanto prendia o cinto. Ao seu lado Catarina resmungava alguma coisa. Henrique, por sua vez, ligou o rádio, e deixou que uma música um tanto quanto melancólica tocasse. Laura gostava dela, mas não achava que combinasse com aquele dia frio e muito menos com o garoto que dirigia. A menina desceu os olhos para as sacolas, e não resistindo a curiosidade, pegou uma casaco de moletom azul escuro que estava dobrado por cima de outras peças.
– Então quer dizer que você e minha irmã arrumaram tempo para boa ação?- Henrique disse.
Laura olhou para a amiga, que nada disse, apenas cantarolava bem baixinho a letra da música.
É. –Laura respondeu.
***
– Minha mãe vai passar a metade da semana indo nessa nova sede da empresa, então... Henrique vai nos levar para o colégio por uma semana. Sinto muito.
– Ah. Ok. É carona.
–Ah, sorte sua que ele não é seu irmão.
Laura e Catarina estavam no sótão. Tinham chegado do colégio carregando as sacolas com as roupas antigas de Henrique. Laura as considerou bonitas e bem conservadas. Claro que Catarina tinha feito Skylar provar algumas delas, que o garoto fez, meio a contragosto, como Laura não tinha deixado de perceber. Agora ele estava no banheiro, que no momento servia como vestiário, trocando um suéter preto por uma camisa xadrez de flanela e o casaco de moletom que Laura tinha visto naquela manhã. Skylar abriu a porta e se dirigiu para o meio do sótão, onde as duas garotas estavam sentadas no chão. Laura fitou o garoto, que tinha ficado muito bem nas roupas de Henrique, então notou sua expressão emburrada.
– Ok.- Ela disse.- Acho que todas elas servem. Está confortável?- Laura resolveu livrar Skylar das exigências de Catarina.
Ele balançou a cabeça, afirmando. Assim como já tinha visto Laura fazer quando queria dizer que sim. Ela sorriu para ele e então olhou para Catarina, que tinha uma expressão de analise. A menina loira fez um bico, mas não disse nada, e se levantou. Laura fez o mesmo, e os três se dirigiram para a sala. Catarina começou a tagarelar sobre coisas aleatórias, e Laura estava feliz por ter contado à amiga sobre Skylar. Agora elas só tinham que planejar o que iriam fazer no domingo. Catarina se jogou no sofá de canto, e encarou Laura e Skylar, olhando de um para o outro.
–Bom... já disse para os seus pais que vamos fazer um trabalho, né Laurie?
– Não. Ainda não...
–Você precisa dizer! Tipo... hoje. E daí eu venho até aqui buscar vocês. Claro, vamos ir de ônibus até o cinema. Sabe que filme está em cartaz?
–Ei... espera um pouco aí Cat. Eu tenho que pensar em um jeito de tirar o Skylar do sótão, sem que meus pais vejam ele. E depois tenho que traze-lo de novo.
– Tá. Eu vou tentar pensar em alguma coisa. Eu preciso ir agora, prometi que ia comprar um vaso de flores novo para a minha mãe. É que eu... joguei uma bola de tênis para acertar a cabeça de Henrique, mas eu acertei a vaso da mesa da cozinha... Enfim.
–Ok. Obrigada Cat, apesar de sua mira ser horrível você é uma ótima amiga. – Laura se adiantou para a garota e a abraçou.
– Tchau Laurie. Tchau Skylar. Até domingo.
Skylar sorriu para a menina, que saiu pela porta e correu até o portão, com a mochila pendurada sobre os ombros. Antes que Laura torna-se a fechar a porta, Dom se esgueirou para dentro de casa e parou bem na frente dela, lambendo a pata esquerda, como os gatos fazem. Laura deu um risinho ao ve-lo fazer isso, empurrou delicadamente com pé par ao lado do sofá e finalmente fechou a porta.
***
Laura e Skylar estavam sentados no sótão novamente, um de frente para o outro. O garoto estava com um dos livros didáticos de Laura, mais especificamente o de História. A menina fazia anotações em seu caderno de biologia. Enquanto escrevia um paragrafo sobre as pesquisas com as ervilhas de Mendel, ela divagava sobre alguns assuntos. Skylar era uma boa companhia enquanto ela estudava. Bom, ele não a incomodava, o que era ótimo, já que demorava muito para se concentrar em um assunto só. Mas mesmo assim ela parava de dez em dez minutos para pensar um pouco sobre os acontecimentos da semana.
Laura teve que desenhar um esquema sobre genética, e se sentiu a pior desenhista do século, e começou a rir das ervilhas achatadas e das flechas tortas. Skylar ergueu os olhos do livro e encarou Laura curioso. A menina se recompôs, e fechou o caderno. Encarou Skylar e deu um longo suspiro.
– Me desculpe. Eu devia mesmo me concentrar em meus estudos. E deixar você ler esse meu livro...
– Você quer ficar sozinha? Eu posso...
–Não. De maneira alguma, você não me atrapalha... em nada. O problema sou eu.
– Queria que fosse verdade. Que eu não atrapalhasse.
– Você não atrapalha Skylar. Eu... eu é que tenho um problema com os estudos.
–Não é disso que eu estou...- Skylar tentou dizer, mas Laura o impediu.
– Você não tem com o que se preocupar. Nossa, você é tão bonzinho, se preocupa tanto com coisas que não devia...
Skylar ficou em silêncio, apenas encarando a menina à sua frente. Ele estava realmente incomodado por estar complicando as coisas para Laura. Mas depois ficou pensando na sorte que teve depois que ela entrou na Tempestris IV, e em como ela uma garota atenciosa. Ele se sentiu egoísta também, e se repreendeu.
– A gente vai ter que ir no cinema no domingo, Catarina está decidida.- Laura continuou a falar, desviando o assunto.
– O que exatamente é um cinema?- O menino perguntou.
– Ah. É um lugar onde se assiste filmes.
– Então você tem um cinema?
– Não.- Laura segurou o riso.- É bem maior que a minha sala, e melhor também. Não é na televisão sabe? É numa tela bem grande, com uma qualidade de som incrível, e com poltronas almofadas e confortáveis, os filmes são inéditos e tem pipoca quentinha.
–Parece incrível.
–É. Geralmente é.
– Estou... ansioso.
Laura riu. E Skylar voltou a ler o livro de História, mas dessa vez quem não se concentrou foi ele. Depois ficaram conversando sobre coisas aleatórias, e Laura ouviu atentamente quando Skylar começou a contar uma outra história que ele se lembrou, uma que ele escutava quando pequeno. Um conto sobre como as estrelas foram parar no céu. Laura começou a imaginar como teria sido a infância de Skylar. E sentiu um aperto no peito ao constatar que nem mesmo ele tinha ideia. Ela deitou no chão fechou os olhos e ficou esperando pelo final da história, enquanto imaginava estrelas no céu. Se perguntou silenciosamente como eram as estrelas vistas de Gliesse. Se eram iguais na Terra, ou se era tudo mais bonito. Depois se lembrou de uma viagem que fez para o interior do estado, e que no meio da noite ela viu os pontos brilhantes que quase nunca apareciam no céu encoberto da cidade grande.
Quando abriu os olhos percebeu que Skylar estava com um olhar distante, parecendo perdido, abraçando os joelhos, como no dia em que o encontrou na Tempestris. Ela se sentou novamente, apanhou o caderno de biologia e suspirou.
– É lindo Skylar. É uma história bonita.- De repente Laura se lembrou de um livro com mitos e lendas de diversos povos que a mãe dela tinha comprado.
Skylar deu um meio sorriso, mas continuou distante. A garota apanhou os outros materiais escolares do chão e se dirigiu a mesa, se sentindo incomodada por não estar conseguido ajudar em nada.
– Como é no colégio? – Skylar perguntou de repente.
– No colégio? Ah, normal.- Ao dizer isso Laura franziu a testa, o que seria normal para Skylar?- Bom... eu tenho aulas, que geralmente são chatas. Estudo numa sala de aula com outros vinte e nove alunos, estão nos preparando desde já para o vestibular. Às vezes visitamos museus, feiras de profissão... às vezes fazem festas idiotas...coisas de escola. Você estudava em Gliesse, né?
– É. Estudava. Mas eu não me lembro de ir em... ah.
– Museus? Feiras de profissão? Festas? Acho que não perdeu muita coisa, principalmente porque eu não consigo aproveitar esse tipo de coisa. Museus podem ser legais, mas os monitores não. Feiras de profissões são inúteis pra mim, eu nem sei o que quero da minha vida... e as festas... bom, não me vejo indo nelas e também não acho nada demais...
– E o que as pessoas fazem em festas?
– Elas... sei lá. Dançam? Escutam música alta e geralmente ruim, jogam conversa fora e às vezes passam dos limites... acho que isso.
–Ah. Parece ser mal.
–É.
Skylar encarou Laura, que não conteve o riso.
– Elas não são sempre ruins. Tem as de criança, que tem bolo e brigadeiro. E às vezes tem música boa em algumas delas, e depende da companhia também, eu já fui em festa de aniversário de pessoas da minha idade que não foram tão horríveis...
Skylar assentiu, mas seu olhar deixava claro para Laura que ele não estava entendendo nada. Laura ainda dava alguns risinhos baixos, enquanto organizava suas coisas para voltar para o quarto. Não precisou olhar duas vezes pelo vidro da janela. O carro de sua mãe já estava quase dobrando a esquina.
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