Conspiração

44 Escolha e Sacrifício


Notas iniciais
Um agradecimento especial aos leitores GabbySaky, LVUzumaki, Gutor e Vivi Pearl que comentaram o último capítulo. Agradeço também a todos que leram. Espero que gostem da atualização.

Vila do Sol — 6 de julho de X792

— Sou Ulric. Um mago de criação de gelo, como pôde ver — após cercar Gray, Juvia e Flare com a imensa parede de gelo negro, o inimigo se apresentou, antes de unir novamente as mãos e declarar: —Ice Make: eruption.

Com a ordem, diversos pontos do muro congelado que os rodeavam, começaram a estourar em estilhaços, que voavam na direção de Gray, que desviou, com facilidade da maioria dos ataques, imaginando que, por enquanto, o oponente apenas testava seu tempo de reação.

Ou a capacidade dele de lutar enquanto protegia Juvia.

Contudo, o período de teste não durou muito.

— Ice make: hurricane! — gritou Ulric, ao mesmo tempo em que uma espiral de gelo negro crescia ao redor do mago da Fairy Tail.

Fullbuster chegou a rodopiar uma ou duas vezes junto à estrutura, mas logo valeu-se das paredes dela para correr em trajetória elíptica e impulsionar-se em um salto mortal de costas para fora, durante o qual gritou:

— Ice make: Ice Bringer! — as duas espadas de gelo surgiram durante a queda nas mãos do mago da Fairy Tail que, ao aterrissar, cruzou-as à sua frente para partir a estrutura construída pelo outro.

Estilhaços de gelo negro choveram pelo local e, antes que Juvia e Flare pensassem em se proteger, perceberam que, em algum momento, uma fina camada de gelo translúcido crescera sobre elas, impedindo que fossem atingidas.

— Gray-sama… — a maga da água murmurou, impressionada, por sequer ter percebido o momento em que ele invocou a proteção.

Com uma breve olhada de esguelha, Gray constatou que as magas permaneciam no mesmo estado desde que a peleja começara. Os cabelos flamejantes de Flare continuavam dançando ao redor dela e de Juvia, garantindo não apenas proteção adicional, como fornecendo certa iluminação ao ambiente, pela qual, o mago da Fairy Tail era grato.

Afinal, Ulric tinha vantagem tática, uma vez que conjurava um gelo tão negro quanto a noite que caía sobre eles e, portanto, de difícil constatação.

Isso significava que, nos pontos que a magia de Flare ou a lua cheia não iluminavam, Gray mais ouvia que via os ataques.

— Parece que suas prioridades mudaram — a provocação de Ulric chamou a atenção de Gray. — O instinto paterno finalmente despertou?

Os olhos acinzentados de Gray se tornaram tão frios quanto o elemento de sua magia.

— O quê? Surpreende saber que fizemos uma pesquisa cuidadosa a respeito dos nossos alvos? — o inimigo continuou. — A gravidez da sua namoradinha não é novidade para nenhum de nós. O que surpreende é você ter começado a se importar com isso — alfinetou. — Não foi o que observamos nos últimos meses.

— Gray-sama, não deixe ele perturbá-lo! — Juvia gritou, tentando impedir que o jogo mental se estendesse.

— Oh querida, você acha que eu estou tentando desestabilizar a mente dele? — Ulric respondeu. — Não. Estou apenas exibindo fatos: ele começou a se importar com você tarde demais e isso será irrelevante, no fim. Porque vocês dois morrerão aqui — declarou.

— Quero ver você tentar, desgracado! — Gray bradou, correndo em direção ao inimigo. — Ice Make: Death Scythe! — gritou e, quando a enorme foice de gelo materializou-se em suas mãos, não tardou a girar a lâmina em direção ao adversário, que saltou habilmente para trás e aterrissou agachado, próximo à parede, as mãos unidas.

— Ice Make: watterfall! — enquanto proferia a magia, Ulric abriu os braços e, com as mãos viradas para trás, tocou a parede às suas costas.

De imediato, um tremor iniciou e, nos instantes seguintes, bilhões de fragmentos de gelo, lapidados em diamantes, começaram a encher o vale formado pelas paredes que Ulric construíra.

Quase soterrada pelos cristais, Juvia gritou e não cessou mesmo quando flare a agarrou e içou ambas, com seus cabelos, em direção ao topo das paredes que, entretanto, se desfragmentaram em inúmeros outros cristais.

— Ice make: wall! — Ulric conjurou uma nova barreira ao redor, fazendo com que os três outros magos entendessem que caíram num ciclo: sempre que se valessem das paredes na tentativa de se salvarem, elas se despedaçariam e se juntariam aos bilhões de cristais diamantes que continuavam a subir, enquanto novos muros cresceriam ao redor.

— Ice make: floor! — Gray proferiu, moldando duas superfícies de gelo sobre os cristais crescentes, uma para ele e outra para as garotas.

Ulric abriu um sorriso zombeteiro, antes de erguer uma das mãos, estalar os dedos e dizer: Ice Make: sand storm!

Os inúmeros diamantes, então, se desfizeram em pó, e começaram a voar por toda parte, em velocidade vertiginosa.

As plataformas conjuradas por Gray caíram violentamente contra o chão e os três gemeram, quando despencaram sobre os estilhaços.

— Argh! — Fullbuster gritou, ao sentir os olhos serem atingidos.

Por mais que os lamentos de Juvia tornassem difícil para ele se concentrar, o discípulo de Ur tentava entender o que raios Ulric havia feito, para conseguir que toda aquela areia de gelo se movesse daquela maneira.

Aparentemente, ele havia usado o conceito de gelo móvel de Lyon para dar movimento ao seu feitiço. A técnica era falha, pois enfraquecia exponencialmente os produtos moldados, mas Gray tinha que reconhecer que a ideia tinha seus méritos, se o objeto a ser criado não precisasse ser forte, em primeiro lugar.

Como a areia congelada que os atingia naquele momento, uma criação conceitualmente insignificante, mas potencialmente destrutiva, quando usada nas condições certas.

— Você foi vergonhoso não apenas para seu filho, para a mãe dele e para a sua mestra — Ulric declarou. — Você é uma desonra para todos os magos do gelo que um dia sonharam em ser como a Ur.

— Eu não posso lidar com mais um fanático — enquanto tentava se reerguer, Gray desdenhou, embora a declaração o tivesse atingido pessoalmente. Era uma ferida fácil de reabrir, afinal.

— Fanático? Não — Ulric comentou. — Eu diria que sou uma pessoa que, mesmo de longe, decidiu honrar o legado que a Ur deixou. Coisa que seus amados discípulos não se importaram em fazer — explicou. — Sabe, nem todos os membros da Signum Sectionis nasceram lá dentro. Muitos, como minha mãe, vieram de fora e trouxeram com eles histórias fantásticas. Como a história da maga de gelo excepcional que estava prestes a se tornar a próxima Maga Santa, cuja admiração que minha mãe nutria por ela, rendeu meu nome — completou.

— Ulric… — Gray repetiu, testando a sonoridade para constatar que a história do outro fazia sentido, mesmo se não fosse verdadeira.

O mago da Fairy Tail tentava se manter em pé, o corpo ferido, pelas repetidas batalhas, próximo a ceder pela exaustão.

Ele podia não ter enfrentado oponentes fortes antes, mas derrotou muitos, o que implicou em uma queima rápida de magia, que certamente não foi reposta a um nível satisfatório, antes que ele enfrentasse Ulric.

— Essa admiração fez com que, na juventude, eu desafiasse minha organização e, em um ato rebelde, partisse em uma jornada de treinamento, para encontrar a maga que habitava as histórias incríveis da minha mãe, apenas para encontrá-la na forma de uma montanha de gelo que selava uma das aberrações criadas por Zeref — o inimigo continuou. — A frustração foi imensa, especialmente quando eu soube que um dos discípulos de Ur foi o catalisador para esse evento vergonhoso. Mas sabe o que eu percebi? Que desde que eu conseguisse derrotar os demônios de Zeref sem sucumbir, eu poderia superá-la — concluiu.

— A mesma lógica estúpida do Lyon — Fullbuster debochou, enquanto tentava abrir os olhos que, no entanto, permaneciam turvos e doloridos, como se centenas de grãos de areia os tomassem.

Isso era mal. Como ele protegeria Juvia se não pudesse vê-la?

— Porém, mais respeitosa — Ulric pontuou. — Então eu voltei para a minha crença e me uni aos meus irmãos a fim de impedir que o pior demônio de Zeref nasça nesta Terra. E você, tenta defendê-lo, desonrando o sacrifício de sua mestra, que você mesmo acarretou — acusou. — É por isso que você vai morrer aqui, humilhado e impotente, sabendo que nada pôde fazer para salvar sua mulher e filho, que irão em seguida — declarou, antes de agarrar o pescoço de Gray e empurrá-lo de volta para o chão.

A visão afetada e os reflexos lentos pelos ferimentos, impediram que Gray se desvencilhasse. Inevitavelmente, o mago da Fairy Tail caiu de costas e sentiu todo o ar deixar seus pulmões, que foram impossibilitados de se preencherem com mais oxigênio, já que os dedos enormes de Ulric pressionavam seus pescoço, bloqueando suas vias aéreas.

Com a força exercida, Gray sabia que Ulric provavelmente quebraria seu pescoço antes de sufocá-lo.

Apesar do zumbido em seus ouvidos que cresceram desde o impacto, ele ainda conseguia ouvir os gritos desesperados de Juvia.

Gray queria acalmá-la. Queria mostrar que poderia ser a garantia de segurança dela, mesmo que tivesse agido como como um idiota nos ultimos meses. Mas o ressentimento e as vontades, escureciam pouco a pouco, assim como sua mente.

O que não impediu que ele tentasse falar, enquanto as palmas de suas mãos deslizavam pelo gelo amaldiçoado abaixo.

— O quê? Está tentando dizer suas últimas palavras? — Ulric debochou, afrouxando um pouco o aperto.

Com a pouca folga oferecida, Gray tentou desesperadamente respirar.

— V-você não deve falar coisas assim, a menos que seja a pessoa mais forte do local — com o pouco fôlego reunido, Gray praticamente cochichou sua zombaria, entre ofegos.

— Você é mesmo um idiota arrogante por dizer isso em tais condições — Ulric declarou, antes de retomar a pressão em torno do pescoço do rapaz, decidido a quebrá-lo.

— Eu não falava de mim — em seu último fôlego, Fullbuster declarou, sorrindo.

O estranhamento pelo sorrir em uma situação daquela veio tarde demais e, antes que Ulric percebesse, o gelo amaldiçoado que recobria o chão da área em que estavam derreteu e ergueu-se ao seu redor em uma barreira líquida, ao passo que Gray foi afastado de suas mãos por uma onda constituída da mesma água.

O homenzarrão tentou transpô-la, mas a água tornou a converter-se em gelo amaldiçoado, selando-o lá dentro.

— Gray-sama! — Juvia correu em direção a Gray, que ofegava audivelmente, numa tentativa desesperada de estabilizar a respiração, os olhos feridos ainda fechados.

— Aqui, deixe-me ajudar — a mulher chuva passou as mãos sobre os olhos do rapaz, usando os últimos resquícios de seu poder para invocar um pouco de água e livrá-los dos grãos ofensivos.

Após piscar dolorosamente, as orbes cinzentas finalmente focalizaram na jovem de cabelos azuis.

— Se você não tivesse me entendido… Eu realmente estaria morto agora — após alguns minutos, ele finalmente falou, enquanto se sentava.

Desfazer o gelo amaldiçoado havia sido um tiro no escuro, mas felizmente, Juvia havia tido o bom senso de manipulá-lo como água, já que Gray mal havia entendido o suficiente da maldição para derretê-lo e congelá-lo novamente. Talvez, com o tempo, aprendesse a criá-lo.

— Foi tudo o que Juvia pôde fazer com a pouca magia que conseguiu reunir — lamentou. — Está esgotada agora — completou.

— A minha também — Gray afirmou, olhando para o próprio braço direito, que agora encontrava-se totalmente negro.

Os olhos de Juvia se arregalaram ao perceber o fato.

— O braço do Gray-sama! — esganiçou.

— Está tudo bem — disse ele. — A magia já está recuando. O que quer que seja ela — afirmou, observando que a negritude de seu braço regredia para novamente se limitar apenas à tatuagem tribal negra de antes.

A maga da água suspirou aliviada.

Um gemido chamou a atenção dos dois.

Poucos metros dali, uma Flare semi-consciente lutava para abrir os olhos.

— Precisamos buscar ajuda. Ela bateu a cabeça quando caímos — a mulher chuva explicou.

Gray estava prestes a sugerir que tentassem adentrar as cabanas novamente, quando o barulho de gelo se estilhaçando cortou seu raciocínio.

Ele havia cometido um erro de cálculo por não considerar que Ulric, como membro da Signum Sectionis, poderia, de alguma maneira, conjurar e quebrar o gelo amaldiçoado.

E pagaria por isso.

Sem forças e sem magia, tudo o que o mago de gelo da Fairy Tail pôde fazer para proteger o corpo de Juvia, que já não podia se desfazer em àgua por causa do bebê e certamente seria atingido pela estaca que o inimigo projetava em sua direção, foi utilizar a si próprio como escudo.

Gray achou que não levaria mais que milésimos de segundos para ser atingido no momento em que cobriu o corpo de Juvia com o próprio, mas em vez da dor lancinante da perfuração, o que sentiu, foi um terceiro corpo empilhar-se sobre eles.

Perturbado, remexeu-se até sair de cima de Juvia e livrar-se do peso que estava sobre ele que, descobriu, tratar-se do corpo sem vida de Ulric.

— Céus! — Juvia exclamou, cobrindo a boca com as mãos em seguida, em choque.

O que era compreensível, já que estavam diante de um cadáver empalado por uma lança feita do mesmo gelo amaldiçoado que cobria toda a vila.

— Quem… — ainda perplexo, Gray olhou ao redor, em busca do homicida, mas dentre os rombos provocados pela batalha na parede de gelo negra invocada por Ulric, tudo o que podia ver, era a floresta congelada.

— Foi um homem de armadura — Flare falou com dificuldade, enquanto tentava se sentar. — Ele atingiu Ulric pelas costas, quando ele estava prestes a matar vocês — explicou, esfregando os olhos a fim de tirar os grãos remanescentes, que ainda os arranhavam.

Com muitas dúvidas e poucas respostas, Gray não se afastou quando Juvia o agarrou e chorou contra o seu peito, sobrecarregada com a experiência de quase-morte.

Em vez disso, envolveu-a em um abraço, que tanto a confortava, quando o aliviava, por perceber que haviam escapado e estavam bem.

Magnolia — 6 de julho de X792

Com todo caos que envolvia a cidade naquele momento e, ciente que nenhum segundo deveria ser desperdiçado, Doranbolt teletransportou-se diretamente ao gabinete de comando da Subseção do Conselho Mágico de Fiore em Magnolia, assim que recebeu a convocação do presidente do referido órgão.

Considerando os acontecimentos recentes, ele sabia exatamente a razão de ter sido chamado ali. E o olhar austero que o holograma de Gran Doma exibia, demonstrava que não adiantaria argumentar, por mais que desejasse.

— Senhor — cumprimentou, reprimindo a raiva latente resultante do fato de ter sido manipulado como um boneco nos últimos meses, para atuar numa teia de mentiras.

— Doranbolt — o homem devolveu o cumprimento, com um aceno de cabeça. — Como integrante das forças militares do Conselho Mágico, presumo que já fez um reconhecimento do conflito que ocorre na sede da Fairy Tail neste momento — comentou.

— Sim senhor — o moreno confirmou.

— Isso poupa tempo — declarou, satisfeito. — Então lhe resta cumprir a missão para o qual foi designado e trazer Lucy Heartfilia sob custódia, já que ela violou a liberdade condicional — determinou.

Doranbolt cerrou os punhos, tentando evitar que sua indignação transparecesse em sua expressão.

— Com todo respeito, senhor, a Fairy Tail está sob ataque. Se Lucy Heartfilia violou a liberdade condicional, foi em legítima defesa — sustentou.

A expressão de Gran Dona sequer vacilou, o que transmitiu ao outro homem toda a insignificância de seu apelo.

— Não existe “se” aqui, meu rapaz — a autoridade respondeu com calma, no entanto. — O outro guarda designado para escoltá-la, testemunhou o momento em que ela invocou seus espíritos celestiais. Além disso, cerca de quarenta minutos atrás, recebemos um relatório de rompimento das algemas inibidoras de magia — narrou.

— Como eu disse, foi um ato desesperado de defesa, já que a Fairy Tail encontra-se sob ataque — Doranbolt insistiu.

— A deliberação quanto a eventual violação em legítima defesa se dará única e exclusivamente no tribunal — redarguiu. — Por isso, enfatizo que a sua missão se limita a trazer Lucy Heartfilia, enquanto os questionamentos devem ser deixados para as autoridades competentes — acrescentou.

— Há uma barreira em torno da Fairy Tail, senhor — o moreno alegou, como último recurso. — Estive observando desde que ela foi erguida. Magos que não são da guilda não conseguem transpassá-la e nenhum ataque mágico causou avarias.

— A barreira não vai durar para sempre — o velho observou, com descaso.

— Durou sete anos em Tenroujima!

— Sim, com magos praticamente congelados em estado de criogenia. Aqui, falamos de uma barreira contendo dezenas de pessoas feridas, que eventualmente sucumbirão à sede e à fome, talvez aos próprios ferimentos. Claro, isso implica num espaço de dias, mas considerando que a barreira foi erguida há pouco, mas você tinha a missão de trazer Heartfilia sob custódia assim que tomou conhecimento da violação da condicional, o que poderia ter feito facilmente com sua habilidade de teletransporte, sugiro que encontre uma maneira de cumprir minhas ordens antes disso — aconselhou. — Particularmente, eu tentaria com afinco, se meu pescoço estivesse em jogo — ameaçou.

— A única razão de eu não ter agido antes, foi porque as forças do Conselho Mágico receberam ordens de não interferir no conflito — exasperou-se, sua compostura desmontando-se lentamente.

— Sua função foi precisa desde o começo, Doranbolt. Você não vai conseguir usar as ordens que dou aos meus subordinados contra mim — Gran Dona respondeu, com indiferença.

Os olhos azuis de Doranbolt queimaram, enquanto ele fitava o líder, que permanecia inabalável.

Mais um sinal de sua insignificância .

Mais um sinal de que não havia o que fazer, além de seguir as ordens do presidente do Conselho Mágico, para seu próprio bem.

Os gritos, explosões, tinidos de lâminas contra lâminas e assobios de magias lançadas eram constantes e denunciavam que tudo aquilo ocorria muito perto. No entanto, uma breve espiada pela janela do corredor que dava acesso à enfermaria, evidenciou para Porlyusica que o feitiço de proteção invocado por Lucy Heartfilia permanecia intransponível.

Depois que a Fairy Sphere foi invocada, o escudo que começou na maga estelar se expandiu, ignorando os membros da guilda e empurrando os inimigos para fora, até se estabelecer em uma redoma dourada que protegia toda a área da sede. Além da proteção óbvia contra invasões, ataques ataques físicos e mágicos, uma das propriedades da magia que puderam constatar, naquela noite, é que ela facultava aos integrantes da Fairy Tail entrarem e saírem livremente, o que permitiu que Erza e Laxus reorganizassem os membros que estavam na sede em uma força de repressão aos inimigos remanescentes, a qual atuava naquele instante.

— Eu só espero que isso dure tempo suficiente para que aquela criança nasça em paz — murmurou a curandeira, antes de desviar os olhos da janela.

— Vai aguentar — com a fala ainda debilitada, Makarov, que encontrava-se sentado no corredor, garantiu. — Talvez o potencial de invocação em Tenroujima tenha sido maior ao ponto de fazer com que o feitiço aguentasse um ataque de Acnologia e os anos que se seguiram, mas já que as magias dos inimigos remanescentes aqui e dos soldados do Conselho Mágico, somadas, são ínfimas perto do poder daquele do dragão, sou capaz de estimar que esse escudo pode durar dias. Talvez semanas — conjecturou. — Uma pena não termos provisões para tanto — lamentou.

— Não é esse o problema aqui — Porlyusica redarguiu, ciente que o Conselho Mágico provavelmente abriria fogo contra eles no momento em que a barreira caísse.

Todavia, o gemido sôfrego de Heartfilia vindo do interior da enfermaria, atraiu sua atenção e a obstou de aprofundar o assunto.

— Contudo, não é o infortúnio com o qual devemos nos preocupar também — admitiu a velha, antes de ajeitar os cobertores que vinha segurando, preparando-se para retomar seu percurso em direção à enfermaria.

— Mestre! — a voz alarmada de Cana não impediu que a conselheira médica seguisse seu caminho. Porém, a distância não foi o suficiente para que ela deixasse de ouvir: — Doranbolt está aqui. Ele quer negociar a rendição da Lucy. — As notas de ódio eram evidentes no timbre da cartomante.

Com um suspiro, Porlyusica afastou isso de sua mente e entrou na enfermaria. No momento, ela não podia se dar ao luxo de se preocupar com qualquer outra coisa que não fosse garantir que um bebê dragon slayer prematuro nascesse com vida.

Porque, aparentemente, a natureza dos poderes da criança não constituíam desafio suficiente para aquele parto. Ela tinha que se adiantar, de todas as possibilidades.

Era filha de Natsu, afinal.

Como esperado, encontrou uma Lucy suada e ofegante sentada contra a cabeceira do leito mais próximo à porta, os espíritos de Virgem e Leão postados, um de cada lado, segurando suas mãos.

— Quanto isso ainda vai durar? — Loki parecia perturbado. — Ela está nisso há horas!

Um espírito masculino certamente não seria a primeira opção de Porlyusica para acompanhá-los naquele momento, mas a velha sabia que ele era o único capaz de aguentar anos longe de seu mundo original, caso necessário e, portanto, o mais adequado para proteger a loira de maneira ininterrupta.

— Na primeira gestação de uma mulher, o trabalho de parto pode durar dezoito horas ou mais — respondeu a velha, enquanto depositava os cobertores na cama ao lado.

— Embora isso me alivie por ganhar tempo para o Natsu chegar, eu não acho que posso aguentar dezoito horas disso — Lucy choramingou.

— Acredite em mim, você pode — a curandeira encorajou mas, pela primeira vez em sua vida, não estava tão confiante em suas palavras.

Pois o ideal, para um bebê prematuro, era poder contar com um parto cirúrgico como medida alternativa, e ela não dispunha de equipamentos para fazer isso na sede da Fairy Tail. Dadas as circunstâncias atuais, tampouco poderiam remover Lucy para um local adequado, ou contar que Wendy ou Chelia chegariam a tempo para oferecer suporte de cura.

Não. A criança teria que nascer de maneira convencional e valer-se da sorte para sobreviver.

Ao menos a ausculta revelou que o bebê estava na posição correta, o que os poupou do risco adicional de um parto pélvico.

Controlando o próprio estresse, a velha concentrou-se em conferir a parturiente apavorada, sem descurar que Loki desviou o olhar, respeitosamente, durante o processo.

A expressão preocupada que Porlyusica exibiu enquanto ajeitava a saia da maga estelar, acendeu um alerta na mente desta.

— O que aconteceu? — a loira indagou, em pânico.

— O trabalho de parto está evoluindo mais rápido do que eu calculei — respondeu a velha, enquanto estimava o tempo desde o último exame. — Se continuar nesse ritmo, pode ser que termine no início da madrugada.

— Mas… — Lucy choramingou. — Se for assim, talvez Natsu não chegue a tempo.

Apesar de sua situação dolorosa e lamentável, a maga estelar não perdeu nenhum dos olhares penosos lançados em sua direção.

— Lucy, ninguém conseguiu contatar o Natsu. E considerando que já confirmamos que os magos da Fairy Tail foram atacados em vários pontos, não há como prever se ele chegará ou não — Porlyusica argumentou.

— Você está insinuando… — A mente afetada pela descarga hormonal de Lucy, tratou imediatamente de presumir o pior.

— Que ele pode estar ocupado e incomunicável — a conselheira médica esclareceu.

Apesar da justificativa lógica, Heartfilia estreitou os olhos castanhos.

Entretanto, em seguida, suspirou, retomando a calma.

— Está tudo bem, Porlyusica-san. Eu sei que ele vai chegar a tempo. E eu posso gerenciar isso para aguentar até lá! — apesar da garantia, o timbre de Lucy não transmitia confiança, mas uma obstinação baseada na esperança frágil de que atrasar um parto fosse algo plausível.

— Lucy… — Loki tentou, apenas para ser interrompido.

— Eu vou aguentar!!! — a loira berrou, os olhos transbordantes de ira.

— Certo — Porlyusica limitou-se a responder, torcendo para que conseguisse persuadir Lucy antes que chegassem à fase expulsiva do parto.

Doranbolt contemplava a redoma dourada que protegia a sede, quase hipnotizando por seu brilho. Ao seu redor, um pequeno grupo de soldados se mantinha em alerta, caso um dos remanescentes da Signum Sectionis resolvesse atacar.

Todavia, a maior parte das forças inimigas era contida, naquele momento, por dois pequenos grupos liderados por Laxus e Erza, de modo que acabavam por avistar apenas um ou outro desertor, tentando fugir da derrota certeira.

De fato, a Fairy Sphere havia sido uma virada de mesa que desestabilizara complemente as forças inimigas.

— Então você veio para negociar a rendição de Lucy Heartfilia — a conhecida voz, geralmente imponente, mas, no momento, debilitada, chamou a atenção do oficial do Conselho Mágico.

Doranbolt voltou-se para ela e estudou a pequena figura de Makarov, constatando que a batalha havia cobrado seu preço do corpo do homem velho, que encontrava-se com feridas profundas espalhadas por seu torso e membros, todas expostas por grandes rasgos em suas vestes típicas.

— Sim senhor — foi o que o membro do Conselho respondeu. — Se entregarem Lucy Heartfilia agora, estou autorizado a conceder aos demais membros da Fairy Tail, isenção de eventuais acusações criminais, por terem acobertado uma criminosa em violação de Liberdade Condicional — propôs.

Em reação, o mestre apenas esboçou uma expressão cansada.

— Filho, você sabe a nossa resposta — respondeu. — Qualquer pessoa, que conheça o mínimo da história da Fairy Tail, saberia. Nós tentamos resolver os maus entendidos de maneira honesta, dentro da Lei de vocês, mas não vamos seguir com isso se for colocar em risco a vida de qualquer um dos nossos — afirmou.

— Senhor — Doranbolt adotou um timbre de advertência. — Essa é mesmo sua palavra final? Mesmo ciente das consequências dessa escolha? — alertou.

— O quê? Tornar-nos uma guilda das trevas? — o pequeno homem desdenhou. — Seria das trevas segundo quem? O Conselho corrupto que tenta lançar as garras sobre este reino? — indagou. — Você pode dizer a Gran Doma que nós não vamos compactuar com o plano dele, seja entregando Lucy Heartfilia, seja permanecendo omissos enquanto ele aplica seu golpe de estado — completou, sem se abalar com os murmurinhos assustados que começaram a vir dos guardas de olhos arregalados que acompanhavam Doranbolt. — Oh, parece que não são todos os membros do Conselho que estão cientes dos planos em andamento. Isso quer dizer que você e sua magia tem um trabalho a fazer — concluiu o mestre, antes de retornar ao interior da barreira.

Com um gemido de frustração, Doranbolt extravasou sua revolta pela decisão que considerava estúpida e preparou-se para alterar as memórias das poucas testemunhas daquela conversa, sem sequer permitir que sua consciência pesasse.

Já estava muito envolvido, afinal.

— Lucy, por que não se levanta um pouco? Deixe a gravidade ajudar no processo de dilatação — Porlyusica aconselhou.

Eles ainda precisavam de um centímetro. Apenas mais um.

Porém, a distância que os separava do nascimento do bebê, parecia muito maior que isso.

— Está tudo bem. Assim conseguimos tempo para o Natsu chegar — entre ofegos, a loira respondeu, antes de gritar com uma nova contração. Elas vinham com menos de dois minutos de intervalo agora.

A curandeira encarou a figura da loira, com piedade. Na última hora, Lucy deitou-se no leito e recusou-se a andar, fazer exercícios ou qualquer outra coisa que pudesse ajudar no desenvolvimento do processo do parto e, cada tentativa de convencê-la do contrário, era solenemente ignorada.

Era como se estivesse vivendo em negação, o que pegou a conselheira médica desprevenida.

Nos últimos meses, Lucy esteve muito ciente de sua situação. Do que significava ser ré em um processo criminal em que era acusada por traição. Do que poderia lhe acontecer caso fosse condenada. Mesmo que as pessoas ao seu redor insistissem que superaria isso, Heartfilia nunca perdeu de vista a possibilidade de que o pior poderia acontecer, mas fez de tudo para garantir que, se fosse o caso, sua filha estaria bem. Todos estariam preparados para recebê-la e ajudar Natsu a manter o juízo para ter condições de cumprir a missão de criá-la.

Foi forte a cada instante e então, repentinamente, o puerpério fez com que o peso daquela situação terrível a arrastasse como uma enxurrada.

Ela já não era a forte Lucy.

Era Lucy, uma garota de dezenove anos, acusada injustamente de um crime que não cometeu, prestes a dar à luz sozinha, em um parto prematuro, sem saber se o pai da criança estava vivo ou morto.

Mesmo Porlyusica, famosa por não ser a pessoa mais paciente do mundo, tentava levar a situação com cautela.

No entanto, o tempo estava acabando.

Se Lucy não decidisse cooperar logo e, sem a possibilidade de um parto cirúrgico ou usuários de magia de cura por perto, ela não sabia se poderiam salvar a criança.

Ou mesmo, a mãe.

— Lucy — a velha chamou, pacientemente. — Está quase na hora. Preciso que você se prepare mentalmente para um parto sem o Natsu — pediu, com sinceridade.

— Não — Lucy choramingou, virando o rosto como uma criança.

— Lucy — Loki chamou. — Natsu conhecerá a criança quando chegar — tentou.

— Até lá, ajudaremos você, Hime — Virgo continuou.

— Nenhuma criança sai enquanto o Natsu não passar por aquela porta — a loira declarou, apontando para a entrada e, mesmo em seu estado suado, com os cabelos úmidos colados na testa e os dentes cerrados de dor, conseguiu transmitir toda a ferocidade que pretendia.

— Eu não tenho certeza se acordei em uma boa hora — a voz alheia chamou a atenção do pequeno grupo, que voltou os olhos para a direção do leito mais distante, onde puderam avistar um Macao completamente confuso, sentado de lado sobre o colchão.

— Macao! — Porlyusica, Lucy e Loki exclamaram em uníssono, todos estupefatos em vê-lo consciente.

— O bebê da Lucy e do Natsu já está nascendo??? Eu dormi por quatro meses inteiros??? — o mago indagou, atordoado.

— Dois, na verdade. É um bebê prematuro. — A experiência médica fez com Porlyusica se recuperasse primeiro do choque.

O que a espantava, realmente, era o fato de, por algumas horas, ela ter se esquecido completamente que Macao estava na enfermaria, quando ele tinha sido seu paciente regular por todos os dias nos últimos meses, graças à maldição que, por alguma razão, não permitia que ele acordasse e atrasava a cicatrização do ferimento em seu peito.

Se não fosse pela necessidade de monitorar Macao constantemente, a curandeira provavelmente nem estaria na sede da Fairy Tail durante o ataque da Signum Sectionis, e certamente não acudiria Lucy a tempo.

— Parece que eu estou com um rombo no peito — o mago de meia-idade constatou, passando as mãos sobre as faixas que contornavam seu torso. — E que o mundo está acabando lá fora — acrescentou, afastando a cortina para espiar o exterior.

— Não se mexa muito. Sua condição exige exames, mas… — a venha médica começou a explicar, porém interrompeu-se, voltando os olhos para Heartfilia.

Que de imediato soltou um grito ensurdecedor, ao mesmo tempo que embalava a barriga contraída.

— Nunca pensei que diria isso, mas que falta as meninas estão me fazendo! — exclamou a velha, lamentando a ausência de Wendy e Chelia.

— Bem, você tem dois minutos agora para dar uma olhada no Macao — com o passar da contração, Lucy brincou, voltando os olhos para o mago mais velho, que ainda mantinha a feição espantada, desde seu último berro.

— Talvez seja melhor conseguir outro lugar para você descansar — Porlyusica decidiu, voltando-se para Macao. — Loki, ajude-o — pediu.

— Ok — o espírito de leão falou simplesmente, antes de caminhar até o mago e ajudá-lo a subir em suas costas. — Não é o melhor transporte para um paciente, mas terá que servir — desculpou-se.

— Há algo que eu possa fazer por você, Lucy? — um tanto sem jeito, Macao perguntou, quando estavam prestes a cruzar a porta.

— Você pode trazer a bunda flamejante do Natsu até aqui, para que eu possa chutá-la pessoalmente? — indagou a loira, entredentes.

O homem abriu um sorriso amarelo.

— Considerando que preciso ser carregado por um homem menor que eu, acredito que não — respondeu, com pesar.

— Então não, obrigada! — choramingou a maga estelar.

A velha os observou fechar a porta e aguardou que os passos de Loki se tornassem mais distantes, antes de voltar-se para Lucy e falar:

— Temos cerca de uma hora. Talvez um pouco mais.

A loira soluçou, enquanto Virgo apressou-se em limpar-lhe a testa com uma toalha úmida, para diminuir o desconforto Áries materializou-se com um pedido estridente de desculpas, para assumir o lugar de Loki.

— Natsu… — resmungou a maga estelar, enquanto grossas lágrimas abandonavam seus olhos castanhos para escorrer sobre as bochechas sujas. — Apenas venha, droga!

Do telhado de uma das torres da Catedral Cárdia, Niall contemplava, transtornado, o caos que se instaurara em torno da redoma dourada que cobria a Fairy Tail.

Segundo as pesquisas meticulosas realizadas pela Signum Sectionis para planejar o ataque, aquilo não podia ser outra coisa, senão uma das três magias sagradas daquela guilda: a Fairy Sphere.

E os membros da guilda confiavam na impenetrabilidade do feitiço de defesa tanto quanto o garoto loiro sabia que estavam certos: afinal, aquele mesmo artifício havia aguentado um ataque devastador de Acnologia e suportado, por sete anos inteiros, a pressão da água para manter os integrantes da Fairy Tail a salvo.

E por se tratar de um feitiço de defesa absoluta, Niall sabia que, mesmo que ele tivesse tempo e cobertura para escrever novas runas ao redor do domo, sua magia jamais o anularia ou causaria qualquer efeito em seu interior.

Sabia também que, naquelas condições, não conseguiriam erradicar as fadas, como planejaram a princípio. Ele possuía invejável talento analítico, do contrário, não teria angariado uma posição tão alta em sua organização, apesar de sua juventude.

É por isso que todo o ataque da Signum Sectionis havia se baseado na premissa de que as runas de gelo de Niall conteriam a Fairy Tail e a impossibilitaria de reagir com qualquer magia. No entanto, Juvia, maga da água da Fairy Tail, que certamente não estava ali quando o ataque começou, atingiu diretamente a fraqueza de seu feitiço: o fato que só poderia ser destruído por fora, quebrando o que era quase impenetrável como se fosse caramelo. Agora ele entendia a razão de a mulher ser chamada “das profundezas”, já que parecia ter surgido diretamente do inferno para estragar um plano tão complexo como se não passasse de brincadeira de criança.

Ninguém deveria ter voltado a tempo. Eles foram cuidadosos em se certificar da divisão da Fairy Tail em grupos enviados para longas distâncias e, ainda assim, Juvia os alcançou, de alguma maneira.

Ciente que não adiantava se ressentir do que havia ocorrido (mas ainda torcendo para que, qualquer de seus colegas que encontrasse com a maga da chuva, lhe concedesse um triste e doloroso fim), Niall desviou os olhos da sede da Fairy Tail para se concentrar na nova tarefa que tinha em mãos: matar Natsu Dragneel.

Se as informações que o Líder da Signum Sectionis, Absolut Zero, lhe passaram telepaticamente estivessem corretas, nenhum de seus comparsas teria condições de deter o dragon slayer do fogo.

O próprio Niall, apesar de sua alta patente dentro da organização, não era adepto do combate direto. Inferno! Se seu próprio líder não conseguira deter Natsu, não havia muito o que ele poderia fazer além de confiar no poder de suas runas.

Mesmo que o preço, no fim, fosse a própria destruição.

Todavia, não era o momento de hesitar. Ele havia sido criado e doutrinado para isso. Para impedir o retorno de E.N.D., mesmo que tivesse que sacrificar a própria vida no processo.

Não que Niall fosse cego pela causa. Não, aquele não seria um sacrifício movido por uma crença fervorosa.

Ele apenas tinha sido criado para aquilo. Durante toda a vida, lutou e matou em nome da Signum Sectionis. Não seria de tremenda hipocrisia negar-se a morrer pelo mesmo motivo?

Afinal, o campo de batalha não lhe era estranho, mesmo que ele fosse um combatente de retaguarda. A morte o espreitou em cada combate, e ele sempre esteve bem com isso. Tudo estaria bem, desde que houvesse a possibilidade de voltar.

Bem, não havia agora.

Porque a hipótese de desobedecer às ordens do líder e não cumprir com a missão designada, culminaria em sua purificação, e ele dificilmente sobreviveria ao processo.

Miori havia conseguido, de alguma maneira, mas Maurice não. Maurice que fora um guerreiro forte e natural.

Que chance teria Niall, um adolescente franzino?

Amargurado, pensou que talvez Miori tivesse sobrevivido por não terem sido tão severos com ela, dada a posição que o pai dela ocupa na organização.

Mas ele não tinha ninguém. Só a vovó.

— Sinto muito, vovó. Não vou conseguir voltar para te buscar — declarou, antes de unir o indicador e o dedo médio da mão direita e passá-los sobre a testa.

De imediato, runas de gelo se formaram e brilharam sobre a pele do local.

Niall gritou ao sentir o gelo começar a congelar seu cérebro de maneira impiedosa. O processo era lento e de um sofrimento excruciante, mesmo que a transformação não fosse imediata. Num último momento de raciocínio coerente, já que a dor começava a impedi-lo de formular pensamentos, Niall divagou que seu coração seria congelado em seguida, e então o sangue.

Esse era o efeito de quebrar o tabu das runas de gelo e usá-las para se tornar um demônio. Mesmo que seu corpo fosse recuperado, suas memórias e sentimentos ficariam congelados eternamente.

Ao menos, confortou-se no fato de garantir a morte de Natsu Dragneel, pois se as informações de seu líder estivessem corretas, nada menos que o próprio E.N.D. voava em sua direção.

Mas Niall garantiria que não passaria dali.

Notas finais
Gente, eu cheguei a ter pesadelos com essa parte da batalha do Gray, porque eu odeio escrever combates. Por isso, não esperava que me divertiria tanto escrevendo esse trecho. No fim, ficou coerente na minha concepção, e acho que isso que importa. E também foi legal ver o Gray levar a surra que todo mundo queria dar, hehe. Próximo passo: me desesperar com a batalha iminente do Natsu. Socorro! Gente, essa parte do Niall foi planejada, replanejada, eu mudei a natureza dos poderes dele umas três vezes e, quando o capítulo estava pronto e eu já tinha decidido a deixar para lá, eu não fiquei tranquila, por sentir que o Natsu merecia uma batalha. Na verdade, ele merecia era chegar em paz para o nascimento da filha dele, mas vocês entenderam o que eu quis dizer. O contexto meio que pedia por isso. Assim, gambatte, Lucy, o Natsu está tentando (coitado, só foi mencionado no capítulo). E eis que Macao ressurge, para amarrar uma das pontas soltas da fic. Desde que ele se machucou eu estava tentando pensar em uma maneira de trazê-lo de volta e então ele vai e acorda com os gritos da Lucy. Nada glamouroso, hehe. Alguém mais tinha reparado que desde o ferimento, não foram dadas explicações sobre ele? Para falar mais sobre o capítulo, digo que foi como um quebra cabeça. Eu escrevi as partes em outra sequência, e as reordenei algumas vezes, até que ficasse satisfeita. Inclusive, tem uma dica no texto sobre uma parte que antecipava a outra, mas como não chegou a ser um furo, eu deixei como estava. Falei muito sobre tudo e pouco sobre a Lucy surtando. Tadinha. Só posso dizer é que nessa situação, por ela eu passo pano, varro e tiro o pó dos móveis. O drama do nascimento do baby dragon continua nos próximos capítulos, e espero que eu possa contar com vocês até lá. Não se esqueçam, se vocês gostaram do capítulo, me deixem saber comentando. É isso. Até o próximo! P.S.: eu quase, quaaaase escrevi e revelei por acidente o nome da bebê diversas vezes durante este capítulo. P.P.S.: alguém reparou na referência do spin-off “100 Years Quest” na batalha do Gray? Tem um combate no spin-off, em que ele revela pensar em si mesmo como o mago mais fraco da Fairy Tail. Mas claro, isso é muita modéstia e forçação de barra por parte do autor, mas o Gray de Fato acredita nisso. A magia de um inimigo revelou. P.P.P.S.: por falar em reparar, alguém percebeu que este capítulo tem o mesmo nome de um dos capítulos de “Vínculo Mágico”? Achei o nome muito condizente com todas as partes deste capítulo, então quis aproveitar e fazer uma pequena referência à história que começou tudo.