Consciência assassina

2 Entre Grades e Lealdades


O ar na sala do Delegado parecia mais denso do que o corredor — uma mistura de ozônio, café velho e o perfume metálico das luzes de segurança. A mesa diante de Patrício era longa e feita de um material que lembrava aço escovado, refletindo as luzes em faixas brancas. Painéis de vidro curvo exibiam dados em cascata: histórico criminal, níveis de consciência, porcentagens de risco. O som distante dos gritos das celas chegava como um pano de fundo, amortecido mas insistente, lembrando a todos por que o prédio existia.

Dark ainda estava com o corpo em tensão, o rosto duro, as narinas dilatadas. Seus olhos negros focavam Patrício como se pudessem rasgar a imagem do homem e encontrar algo por trás — vergonha? medo? cálculo. As algemas brilhavam levemente nos pulsos; mesmo ali, a pele parecia um pouco pálida pelo frio da sala.

Laarý apertou a ponta do colete com as mãos trêmulas, os dedos deixando marcas temporárias no tecido azul. Ao seu lado, a colega — cujo nome era Amara, uma voz baixa até então — mantinha os braços cruzados, a expressão fechada, como se tentasse não ceder ao desconforto que o confronto exalava. O silêncio que se seguiu foi pesado: apenas o tráfego remoto da cidade e o zumbido eletrônico dos monitores.

— Senhor Dark — disse Patrício, inclinando-se para trás na cadeira com o ar de quem saboreia cada palavra —, você conhece as consequências. Não é pessoal. É... o bem maior.

Smith sorriu de canto, um sorriso liso que não chegava aos olhos. Seu uniforme vermelho parecia uma provocação na sala monocromática. Ele se inclinou para frente, como se quisesse sussurrar um segredo ao ouvido de Dark, mas o som que saiu foi alto e teatral.

— O bem maior exige sacrifícios, doutor amável — disse Smith. — E alguns de nós... aceitamos o que é necessário.

Dark riu, um som curto e sem humor, e foi como uma faísca numa sala seca.

— Sacrifício? — repetiu, a voz cortando o ar. — Vocês chamam de sacrifício transformar gente em bichos que obedecem? Em marionetes com placas de patente? Patético.

Patrício apoiou o queixo na mão, ajeitando os óculos com o dedo. Seus olhos claros mantinham um brilho calculista.

— Não é "transformar", Dark. É aprimorar. Controle é segurança. Você sabe disso. Você sabe o que sua sentença é.

A menção à sentença fez o corpo de Dark tremer por um instante — não por medo da morte em si, mas pela humilhação de perder escolhas. Ele fechou os olhos por um segundo, e quando os abriu de novo, havia uma calma fria.

— Eu não sou propriedade de ninguém — murmurou. — E não vou ser vendido por um distintivo ou por promessas vazias.

Patrício sorriu, dessa vez sem afeição.

— Então vamos facilitar. Smith, mostre a ele.

Smith deu um passo adiante. Nas palmas das mãos, pequenos pontos luminosos surgiram — dispositivos que lembravam microagulhas, encapsulados por um campo translúcido. A sala inteira pareceu inclinar-se, como se respirasse junto com o movimento. Laarý recuou, instintivamente; Amara permaneceu imóvel, os olhos apertados.

— Não — disse Laarý, a voz falhando. — Patrício, isso é... nós temos protocolos.

— Protocolos — repetiu Patrício, como se o termo fosse uma prece que poderia absolver qualquer coisa. — E ordens superiores. Você é perigoso, Dark. Nós controlamos o dano.

Smith aproximou-se. Seu sorriso era agora apenas uma máscara de preto-escuro. Ele segurou o braço de Dark com mãos experientes; por baixo do contato, os pontos luminosos tocaram a pele. Um clique quase inaudível encontrou o ar e, por um segundo, tudo se congelou: os monitores, os passos no corredor, até a respiração de Amara.

Dark tentou puxar o braço, mas as algemas — ou o que funcionava como elas — comprimiram-se com um aperto sutil, como se sincronizadas a um comando remoto. Uma corrente de luz percorreu o pulso de Dark, subindo pelo antebraço em linhas finas que se apagavam como cicatrizes elétricas.

— Não! — Laarý estava a ponto de avançar, mas Amara a segurou pelo ombro com firmeza. — Laarý, não — murmurou ela, quase sem som, mas a culpa já havia murchado no rosto da ruiva.

Dark respirou, fundo. Seus olhos se estreitaram e, por um segundo, o sorriso malicioso reapareceu — não de diversão, mas de desafio.

— Acham que eu não sabia? — disse, a voz baixa, cortante. — Acham que não vi as marcas nos que voltaram? Nos que obedecem? Vocês mesmos. Vocês são o disfarce.

Smith encolheu os ombros, a expressão de quem não tem remorso.

— Sobrevivência, meu amigo. Você vira aliado ou vira estatística. Você prefere qual?

As palavras do delegado foram um martelo. Por trás delas, algo maior se insinuava — uma rede de interesses, uma hierarquia invisível que transformava homens em peças. A sala cheirava a conspiração.

Dark fechou os olhos por um instante e então fez algo que ninguém esperava: sorriu. Um sorriso pequeno, tenso, mas carregado de propósito.

— Não vou ser cachorro de ninguém — murmurou. — Mas também não vou entregar tua cara a quem te quer manter limpo. Patrício, sua história tem um fim — e não é o que você pensa.

Antes que alguém pudesse reagir, os sistemas do colete de Smith e de Patrício piscaram simultaneamente — um sinal que Laarý não notou de imediato, mas que Amara captou com a ponta dos dedos. Ela franziu o cenho. Alguém fora do prédio poderia ter se conectado. O telefone confidencial do delegado vibrou em um tom baixo; Patrício pegou, a expressão mudando por um micro segundo.

— O quê? — murmurou ele, e a cor no rosto mudou.

Smith usou aquele instante. Com uma fluidez que contradizia sua postura relaxada, ele tocou um painel ao lado do monitor. As portas da sala se cerraram instantaneamente, as proteções magnéticas ativaram um bloqueio. Laarý deu um passo à frente, pálida.

— O que está fazendo? — perguntou, a voz trêmula.

— Mantendo a conversa privada — respondeu Smith, calmo. — Não era essa a sua intenção, delegado? Saber quem é confiável?

Patrício ergueu o olhar, agora sério. Havia algo nos olhos dele que lembrava aço frio, uma decisão que não aceitava recuo.

— Quem você acha que é para sequestrar minha sala? — rosnou.

— Alguém com uma oferta — disse Smith, e os cantos da boca brincaram com ironia —. Você pode escolher. Ou transforma o Dark em um de nós e recebe favores que só o topo pode pagar, ou mantém sua ética e... bem, você acha que vai haver promotores interessados em "protocolos" quando vazarem o que aqui se decide?

A tensão na sala atingiu um ápice palpável. Laarý e Amara trocaram um olhar — medo e dúvida. Dark, por sua vez, observava cada movimento com a serenidade tensa de quem planeja um contra-ataque.

— Isso não é uma escolha — murmurou Dark, quase para si. — É uma armadilha.

E, enquanto as luzes dos monitores piscavam, uma sensação começou a se formar no peito de Laarý: a de que nada naquele prédio era o que parecia — e que a verdadeira prisão talvez não fosse feita de vidro e metal, mas de decisões que transformavam homens em peças.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.