Confusions In The Enchanted World
6 Convites, encontros e situações desconsertantes
Notas iniciais
Terça-feira, de manhã
Katherine Frost
OK, nada de pânico Kath. Não é nada de especial. É só um convite para jantar, nada demais. Apenas um convite normalíssimo, para um jantar normalíssimo em casa dos Safiris.
Mentira. Este tipo de jantar não pode ser considerado normal a partir do momento em que se destina a festejar o aniversário de Caleb, que por acaso é nada mais nada menos, que a minha paixão platónica (e secreta) desde criança. Só para não mencionar o facto de ele ser irmão da minha suposta melhor amiga.
– Katherine!! – ouço chamar.
– O que é? – pergunto. Hannah tem de parar de ser tão brusca.
– Parece que ficaste paralisada de repente – ralha-me — É só um convite para um jantar estúpido está bem? Não és obrigada a ir. Para além disso, acho que Caleb nem ia sentir a tua falta – remata, tão delicada com o espinho de uma rosa.
– Pensei que ele gostasse de mim.
– E gosta. Mas vocês não são assim tão chegados não é? Acho que ele só te convidou para que eu não me sentisse sozinha naquele jantar de gentinha do basquete.
Esqueço-me frequentemente de que Hannah não sabe nada sobre o tempo que passo com Caleb quando ela está ocupada.
Por exemplo, quando estamos a fazer um trabalho para a escola, e ela sai a meio do projeto. Ou quando me deixa plantada no meio do centro comercial. Ou quando liga a cancelar os nossos planos, tipo cinco minutos antes da hora marcada.
Geralmente diz coisas deste tipo para justificar: “ Tu percebes não é Kath? Preciso de ir ter com James. Não o posso deixar na mão”.
Eu respondo qualquer coisa dizendo que não há problema, e ela agradece: “Obrigada! És a melhor. Eu depois compenso-te, juro!”.
Ultimamente tem passado tanto tempo de volta de James Notre Dame, o namorado, que parece não ver nada para além dele. E eu, a amiga mostro-me sempre compreensiva.
Continuando, é nessas alturas que eu e Caleb aproveitamos para nos conhecer-mos melhor.
Às vezes vou ter com ele ao estábulo da casa dos Safiris, pois ele passa lá a maioria do tempo que está em casa. Eu fico sentada numa cadeira perdida que por lá ficou, enquanto ele trata de Embers, o cavalo dele.
Noutras circunstâncias, Caleb encontra-me no ringue de patinagem no gelo da cidade (projeto da minha mãe), e espera que eu acabe o treino para irmos dar uma volta por aí.
O melhor de estar com Caleb é que ele sabe sempre a coisa certa a dizer. Com ele a conversa acaba sempre comigo a rir de algo que ele disse, na maioria só para animar o meu estado de irritação para com Hannah.
No entanto, acho que ela é capaz de estar certa. Caleb provavelmente só me vê como a amiga da minha irmã. O pior é que não sei se consigo lidar com isso.
Terça-feira, à tarde
Letícia Dunbroch
Para variar, ele estava atrasado.
Não sei porque é que ainda tento, Jason é sempre o mesmo. Duvido que algo que eu faça vá mudar isso.
Tínhamos combinado às cinco horas, à entrada da floresta. Como de costume, o desgraçado deixou-me imenso tempo à espera, e o mais provável é não ter uma boa justificação para isso. Ou seja, fez-me faltar à última aula para nada.
Bom, já que ele não vai aparecer, eu vou sozinha. Não é nada a que não esteja habituada, caçar já faz parte da minha rotina há muito tempo, ainda que eu não faça de um modo convencional.
Levanto-me do pedregulho onde estava sentada e volto a montar Shadow, o cavalo de Ino.
Não era suposto eu andar com o cavalo dela, mas a ruiva minha irmã ficou doente e não tem vindo à escola estes dias. Assim pelo menos não tenho de ir a pé para todo o lado como seria normal (a minha mãe não confia em mim o suficiente para me deixar ter o meu próprio cavalo, ainda que seja eu quem faz a maioria do trabalho de estábulo do castelo).
Começo com um passo lento, já que este lado da floresta está cheio de armadilhas, e podemos tropeçar a qualquer momento.
Quando o caminho se torna mais amplo, apresso Shadow, para que comece uma passada mais rápida.
Continuo assim durante um tempo, sentindo um vento forte contra a minha cara, que acaba por desfazer o coque do meu cabelo, deixando-o solto e rebelde.
De repente, algo vindo de trás passa rente à minha orelha esquerda, e espeta-se numa árvore mais á frente. Uma flecha.
Viro a minha cabeça, para encontrar Eric Hood, aramado com um arco, também ele a cavalgar, uns metros trás de mim.
Faço Shadow abrandar o passo, e em seguida parar, para que o moreno nos consiga alcançar.
– Não era preciso ser tão brusco – digo enquanto, arranco a seta do tronco, e lha entrego.
– Não seria, se tivesses ouvido quando te chamei umas trinta vezes – replica com um sorriso irónico – o que fazes por aqui, ainda por cima sem a companhia do teu amigo macaquinho?
– Vim só dar uma volta. E Jason não e nenhum macaquinho – digo irritada – Não sei porque é tao difícil aceitar que ele simplesmente gosta de subir ás arvores.
Desde sempre que as pessoas julgam Jason por causa do modo como ele age. Eu admito, ele é meio excêntrico, sempre irrequieto, e eu diria que as suas tendências primatas são um pouco perturbadoras. No entanto não é razão para estarem constantemente a atirar-lho à cara.
– Pronto já cá não está quem falou – diz ele, levantando as mão em sinal de rendição – que tal uma corridinha. E deixo-te ganhar, para me redimir?
– Ná, não me parece. Acho que vou só ficar por aqui mesmo. – não vou nem comentar o facto de ele ser um convencido.
– Ok em então. Nada de corrida. Mas há um sítio por ali que te quero mostrar – diz apontando o dedo, para o que seria o atalho para o tal “sítio” – é um descampado enorme e verde. O meu pai costumava levar-me a mim e a Jake para lá, quando eramos mais novos. E tem um lago pequeno lá perto. A água costuma estar quente.
Jake é o irmão mais velho de Eric, mas só o conheço de vista lá da escola.
– Vamos lá então. Não é como se tivesse algo melhor para fazer.
Ele vai à minha frente para mostrar o caminho, e eu sigo-o.
Eric parece-me mais calmo que o normal. Como passei o verão fora da cidade, só voltei a vê-lo quando as aulas recomeçaram, e mesmo assim quase nem nos pudemos falar. Talvez seja só impressão, mas não é provável. O Eric de quem me tornei amiga antes do verão, não era assim. Ainda que as roupas de rockeiro o fizessem parecer pouco amigável, Eric era super atencioso. Andava sempre a cantarolar qualquer coisa, e sorria para toda a gente.
Este Eric que se encontrava à minha frente, não sei, tinha qualquer coisa de diferente.
Acho que me cabe a mim fazer o papel de amiga prestável desta vez, e perguntar-lhe o que se passa.
Depois das Aulas
Seth Malefic
– O que achas? Branco ou rosa? – pergunta Alyssa.
– Escolhe o que mais gostares.
– Mas o presente é para Lena.
– Então leva o que ela mais gosta.
– Mas eu não sei qual é que ela mais gosta.
– Então não sei – digo perdendo a paciência que me restava.
– Deixa lá. Volto cá depois – diz de ar desanimado.
Não acredito nisto. Trinta minutos a encarar a mesma prateleira, para no fim não dar em nada.
Pelo menos estamos a ir embora.
– Afinal porquê tanto desespero para comprar alguma coisa para Lena? Ela não fez anos ou fez?
– Não, mas tem andado muito em baixo – responde-me – Achei que fosse animá-la, mas se não encontro a prenda perfeita então mais vale não oferecer nada.
– Em baixo porquê? – Lena é das meninas mais alegres que conheço, não me lembro da última vez que a vi triste. E eu vejo-a muitas vezes.
– Coisas de mulheres, não ias entender.
– Hugh, imagino que não — Com certeza não quero ouvir falar do período menstrual da irmã da minha melhor amiga.
– Não é esse tipo de problema! – reclama Aly indignada – as mulheres têm mais preocupações para além disso sabias?
– Não imagino o quê – replico – Tais criaturas sempre me pareceram limitadas a pensar em flores e ciclos de fertilidade – pisco o olho em seguida para que perceba que estou a brincar.
Alyssa dá um sorriso mínimo e continua a andar em direção a casa.
– Como conseguiste que Edward não te seguisse hoje? – mudo de assunto.
– Tem estado entretido com Lena estes dias. E como sabia que vinhas comigo, achou que eu estava fora de perigo. Parece-me que ele não te vê como meu possível pretendente – Explica ela.
– Bom saber que o teu irmão só me vê como o teu amiguinho gay. – o que não deixa de ter alguma verdade. Quer dizer, eu não sou gay ou coisa do tipo, mas não podia estar menos interessado numa relação romântica com Alyssa.
Como Aurora e a minha mãe, Maléfica, sempre foram chegadas, eu e todos os herdeiros Montgomery crescemos juntos. E por isso, digamos que ter uma imagem clara de como Aly era quando usava fraldas, anula qualquer tipo de atração que pudéssemos vir a sentir um pelo outro.
É uma pena que minha mãe não esteja interessada em divulgar verdadeira história da Bela Adormecida. Ela diz que não se importa com o que os outros dizem, porque as pessoas que valem a pena, saberão ignorar os boatos, e procurar saber a verdade. Mas se seguirmos esse raciocínio parece que ninguém vale a pena, já que o circulo social da minha mãe continua limitado aos Montgomery e às criaturas de Moors.
– Vemo-nos amanhã? — diz Aly parada à soleira da porta do seu palácio.
– Ya claro – nem dei pelo tempo passar – Espero-te no portão da escola pode ser?
Ela acena e sorri em despedida, entrando de seguida.
Volto-me na direção oposta à cidade e corro um pouco para ganhar velocidade. Abro as minhas asas que até então tinha mantido escondidas, lançando-me num voo a alta velocidade de regresso a casa.
Quarta de manhã
Erika Safiris
Depois de um pequeno almoço particularmente sombrio, em que a minha mãe insistiu em lembrar-me da minha falta de amigos, boas notas, educação e bom humor, estou a caminho da escola, para mais um dia entediante.
Toda esta agitação escolar de gentinha mimada e de vida perfeita irrita-me profundamente. Meninas ricas a chorar a aqui, e meninos idiotas a arranjar o cabelo acolá. Este tipo de ambiente não é para mim, mas acho que sou a única que percebe isso.
Toda a gente me diz para fazer um esforço para me integrar, e que assim as coisas correrão melhor. Dizem que se eu for mais simpática e delicada, talvez as pessoas deixem de ter medo de mim.
No entanto é bem óbvio que isso não vai acontecer. Quer dizer olhem para mim: aparência de gótica frustrada, sem perspetivas de uma vida prometedora e feliz. Condenada à infelicidade de um final infeliz, traçado devido aos laços de sangue que partilho com a minha mãe., a Rainha Má.
É claro, os meus irmãos também são filhos dela e nem por isso são tão problemáticos. Mas a verdade é que eles são meus meios irmãos, frutos da única relação saudável que a minha mãe já teve com algum homem, que mais tarde encontrou o seu próprio final feliz, bem longe da nossa família. Acho que isto tem algo a ver com genes, e enquanto que os meus ficaram condenados a toda esta tragédia, Caleb e Hannah, ainda podem ter esperança.
No meio destes pensamentos chego ao inferno disfarçado de instituição de escolaridade, onde serei obrigada a permanecer pelo menos até à hora do almoço.
Até agora descrevi os hábitos e acontecimentos normais do que é um dia normal na minha vida, e continuaria se não fosse pelos acontecimentos dos cinco minutos seguintes.
Porque aquela estúpida tinha mesmo que vir contra mim. A idiota da Torkin não podia escolher outro alvo para empurrar e derramar sumo de laranja em cima.
Não demorou nem dois segundos e eu já a tinha deitado ao chão, e prendido os seus braços e pernas com os meus, tal como as horas de treino me educaram a fazer.
A criatura estava atónita, e á beira das lágrimas.
Claro que tal imagem não me comoveu nem um pouco. Pelo contrário, deixou os meus instintos de predadora mais acesos.
Teria com certeza deixado a cara da loira roxa se alguém não me tivesse arrastado de cima dela bruscamente, mesmo no preciso instante em que o meu punho descia até à cara de Clary.
– Calma Safira – ouço uma voz conhecida sussurrar ao ouvido. Como eu odeio que me chamem pelo meu segundo nome – se continuares a irritar-te desta maneira, ainda vão pensar que tens problemas de raiva.
Viro-me de frente para o dono da voz, encarando-o. Este afasta-se de mim e dirige-se à loira que ainda estava estendida no chão, ajudando-a a levantar-se com todo o cavalheirismo do mundo. O filho da mãe, mesmo de braço engessado conseguiu ser mais educado que qualquer um dos que estava a observar a cena.
A minha respiração que estava já acelerada, devido ao susto e raiva, não melhorou nada depois da piscadinha que William me mandou quando passou por mim, de braço dado com a loira.
É por isto que não tento ser simpática com as pessoas. Sou empurrada para o chão e encharcada de sumo de laranja em seguida, e a única coisa que ganho em consolação é uma piscadela de olho presunçosa, enquanto que a loirinha das maravilhas ganhou um “novo amigo”.
Se as coisas funcionam assim, para quê tentar?
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