Confusões no resgate do Papai Noel
1 Capítulo Único
Polo Norte, 23 de Dezembro de 2013.
Uma figura sinistra se esgueirava pelos corredores da enorme mansão, usava uma roupa completamente preta, de modo a se misturar com as sombras. Com rapidez e agilidade se movia de forma silenciosa pelo local, até parar diante de uma grande porta pesada, olhou para os lados se certificando de que ninguém passava por perto e abriu a porta devagar.
As dobradiças rangeram anunciando a sua entrada que deveria ser silenciosa. Eles não colocam óleo nessas portas não? Felizmente o barulho não pareceu alarmar o alvo, a pessoa que a figura procurava estava de costas enquanto levava alguns papeis para um grande arquivo no final do espaçoso escritório.
— Ah Léo, estava mesmo querendo falar com você, que bom que pôde vir tão rápido. — O alvo disse enquanto tentava organizar o gigantesco arquivo.
Era evidente que o velhinho estava pensando que quem havia entrado pela porta era Léo, e nem se preocupou em se virar para conferir, aparentemente estava tendo trabalho para achar algum lugar vago para os novos papeis. Nem desconfiava do perigo que se aproximava.
A figura aproveitou para se encaminhar o mais silenciosamente possível, percorrendo em alguns passos a distância que o separava de seu alvo, parou a um passo de sua vítima e apreciou o momento.
— Que... Arquivo... Velho. — Falava o velho aos arquejos enquanto tentava fechar uma gaveta entupida de papeis usando a força.
— Quer ajuda? — Indagou a figura.
Havia esperado por muito tempo, planejado com muito cuidado o que faria, e adorou particularmente a reação de sua vítima. O velhinho se virou abruptamente agora que percebia que não esteve o tempo todo na presença de seu assistente pessoal, mas sim de uma figura vestida inteiramente de preto.
— Você não é Léo. — Disse o alvo.
— Desculpe decepciona-lo. — A voz da figura soou baixa, porém, perigosa.
— Onde está Léo? — O velhinho questionou preocupado.
— No mesmo lugar para onde você vai agora. — Respondeu em tom sombrio.
A figura saltou sobre sua vítima, derrubando-a, os olhos do velhinho encararam-no arregalados de espanto, o impacto das suas costas contra o chão causou-lhe certa dor, mas a figura sobre ele tinha olhos perturbadores demais para poder se importar com isso.
— Você vai fazer exatamente o que eu disser e vai vir comigo. — Sibilou a figura estreitando os olhos.
E se tudo correr bem, quem sabe eu lhe poupe.
***
Polo Norte, 14 de Janeiro de 2014.
A paz daquele lugar afastado estava sendo interrompida por uma imensa e intensa movimentação de agentes de campo agasalhados dos pés à cabeça, a cada minuto chegavam mais reforços e todas as autoridades do mundo já haviam sido avisadas do ocorrido pouco antes dos noticiários espalharem a notícia para o mundo.
Do alto, helicópteros sobrevoavam toda a área em um raio de cinco quilômetros ao redor da enorme mansão que fervilhava em atividade, podia-se ver o movimento de carros escuros com identificações de todas as agências de segurança do mundo.
Lá em baixo, peritos, técnicos e investigadores vasculhavam cada canto da monumental construção, procuravam vestígios ou qualquer coisa que indicasse o que houve exatamente.
No comando de toda essa operação estava Turner Simkins, um homem que levava seu trabalho extremamente a sério, mas que naquele momento estava tendo um conflito interno pelas ordens que recebera de seu superior. Encontrar um velhinho pançudo que só usa vermelho e um monte de presentes? Não podem estar falando sério.
— Senhor, os repórteres estão querendo novidades, não param de fazer perguntas sobre o desaparecimento do... — Um agente chegou dizendo.
Simkins massageou suas têmporas tentando controlar sua raiva, o agente parou imediatamente de falar, era um fato conhecido entre muitos agentes que aquele simples gesto queria dizer: Eu vou contar até três e se não calar a boca...
— Papai! — Exclamou a filha de Simkins: Hanna.
Também era um fato conhecido que Hanna era a única que ignorava o gesto de explosão iminente do pai, apenas ela tinha coragem para tagarelar com o pai nas horas mais inoportunas.
— Só um instante Hanna. — Simkins disse e encarou o agente.
— Papai! — Ela voltou a chamar mais alto enquanto fazia uma expressão mais irritada ainda do que seu pai em seus piores momentos.
Hanna era muito impaciente e intolerante com esperas, para muitos era a cópia em miniatura do pai, só que bem mais assustadora quando ficava realmente irritada.
— Contenham a mídia. — Disse Simkins ao agente e foi até a filha. — Posso saber o que foi agora?
— Esse lugar é uma chatice, não acontece nada aqui! — Ela reclamou.
— Estou trabalhando, o que você queria? — O pai cruzou os braços.
— Algo mais legal do que um bando de caras de preto andando para todos os lados com objetos inúteis! — Hanna disse ríspida.
— Ah pelo amor de Deus, por que você veio então? — Simkins indagou.
— Porque é o caso mais legal da história dos melhores casos de investigação! Poxa, aqui é o Polo Norte, estamos na mansão do Papai Noel, e tanto ele, quanto os brinquedos sumiram! Eu pensei que iria ter mais ação por aqui, mas tudo que vi até agora foi essa chatice! — A garota estava inconformada.
— Devia ter ficado em casa então! — Simkins disse tão irritado quanto sua filha.
— Não suporto mais ficar naquela casa de jeito nenhum! — Hanna disse entredentes.
— Então faça o que quiser, só não me incomode. — Simkins declarou.
Hanna deu as costas para o pai, logo um sorrisinho de canto surgiu em seu rosto, ela havia conseguido o queria: uma autorização para fazer o que quisesse, dada pelo pai, que comandava as investigações ali, ou seja, ela poderia bisbilhotar tudo.
Já havia tentado isso mais cedo, mas foi impedida por alguns agentes que disseram que ela não poderia entrar na mansão, ela havia ficado muito irritada e agora com a autorização ela estava livre para explorar o lugar.
Encaminhou-se até a entrada da frente, onde os mesmos homens que a impediram mais cedo se puseram a sua frente bloqueando a passagem. Ela manteve a expressão calma diante da parede humana a sua frente.
— Vocês ouviram, eu posso fazer o que quiser. — Ela sorriu de canto.
— Isso é uma área de investigação, senhorita. — Um dos homens falou impassível.
— Eu vou entrar e vocês vão sair da minha frente, meu pai me deu autorização para fazer o que eu quisesse e o que eu quero agora é entrar na mansão. Mas quem sabe um de vocês prefira ir falar com ele sobre isso, fiquem a vontade. — Hanna disse em tom calmo.
Os agentes espiaram na direção onde Hanna estava a pouco, seu pai continuava lá, discutindo com um agente, que visivelmente se encolhia com o que Simkins bradava irritado. Voltaram sua atenção para Hanna e depois se entreolharam, não era uma boa ideia incomodar o chefe agora, então imediatamente abriram passagem para a garota.
— Obrigada. — Ela disse sorrindo sarcasticamente e entrou.
Tudo dentro da mansão era tão impressionante quanto do lado de fora, a decoração natalina e até as cores das paredes davam a impressão de que o Natal era eterno naquele lugar. Hanna olhava tudo com atenção enquanto se embrenhava cada vez mais para dentro.
Com os esforços concentrados naquele momento em verificar os arredores da construção que se destacava naquele mar de branco, a mansão se encontrava agora quase deserta, mas Hanna escutou um ruído, e intrigada, se encaminhou na direção que ele pareceu vir.
Deparou-se com um extenso corredor de portas, o ruído pareceu vir da última delas, uma grande porta de madeira que se destacava das outras por ser a maior de todas, estava no final do corredor e foi para lá que Hanna se encaminhou.
Abriu a porta de uma vez e levou um susto com o que viu...
***
Em um pequeno cômodo se encontravam duas pessoas amarradas ao encosto das cadeiras em que estavam sentadas, de costas uma para a outra, a diferença entre essas duas pessoas poderia ser vista de longe. A primeira delas era um velhinho de cabelos e barbas brancas, de vestes vermelhas e bem conhecido pelo mundo: o Papai Noel. A outra pessoa não era tão conhecida, seu tamanho diminuto dava-lhe um ar amigável e de fato era uma boa pessoa, tratava-se do anão e assistente pessoal do bom velhinho: Léo.
— Me desculpe, é tudo culpa minha, eu o deixei entrar. — Léo dizia pela milésima vez.
— Não é culpa sua, Léo, nós dois fomos enganados. — Noel disse na esperança de fazer seu assistente parar de se culpar.
— Que comovente, acho que vou chorar. — Ouviu-se a voz da figura de preto. — O que me faz lembrar que foi uma pena que não tenha sido o Natal dos sonhos. Quem poderia ter acabado com o Natal assim? Ah é, lembrei, eu!
A risada sinistra ecoou pelo pequeno cômodo.
***
Hanna mal acreditava no que seus olhos viam...
— O que pensa que está fazendo? — Ela praticamente gritou para o garoto que estava caído do lado da janela.
— O mesmo que você, investigando o local. — O garoto disse enquanto se levantava e limpava a roupa com as mãos.
— Eu não pulei uma janela e invadi uma área de investigação! — Hanna bradou.
— Você tem seus métodos, eu tenho os meus... Aliás, como você entrou? Têm homens de preto por todos os lados. — O garoto encarou Hanna.
— Meu pai está no comando dessa investigação, tenho autorização para entrar e sair de onde eu quiser. — Hanna disse de forma superior.
— Tudo bem senhora "eu posso fazer o que eu quiser", meu nome é Jack, Jack Carter... — Apresentou-se o garoto com um sorriso de canto.
— Então senhor "eu invado o que eu quiser", acho que vai gostar de ser arrastado daqui por alguns agentes quando eu contar ao meu pai sobre sua pequena proeza. — Hanna disse e deu-lhe as costas.
— Seu pai está bem ocupado no momento senhorita... Hanna Simkins. — Jack disse as suas costas e Hanna se virou no mesmo instante.
— Como sabe meu nome? — Ela perguntou estreitando os olhos.
— Sei tudo sobre você e muitas outras pessoas. — Jack disse desafiando-a.
— Prove. — Hanna se aproximou com o mesmo olhar de desafio.
— Você nasceu no dia 26 de Fevereiro de 2000. Morou até os três anos em Washington, depois cinco anos na Flórida e está atualmente de volta à Washington. — Falou Jack.
— Isso qualquer um pode saber. — Hanna não queria dar o braço a torcer.
— Então acho que o fato de ter sido pega saindo com um Hacker possa fazê-la acreditar em mim. — Jack sorriu vitorioso.
Hanna prensou-o contra a parede, seus olhos faiscavam, apesar da aparência, ela não era tão frágil quanto parecia, Jack constatou isso. Que garota forte, caramba.
— Como sabe disso? — Ela sibilou perigosamente.
— Será umas das próximas... Matérias da minha mãe. — Disse sufocando.
— Um filho de repórter, eu não mereço. — Hanna revirou os olhos dando um passo para trás.
Quando Jack pôde novamente respirar ele massageou o pescoço dolorido. Que fera... Tá aí, gostei dela.
— Ok. Você vai sair daqui agora, apagar essa matéria do computador da sua mãe e eu não digo que você entrou aqui. — Hanna disse em tom sério.
— Posso fazer melhor. Eu posso fazer uma cópia e postar na internet com antecedência, ou você pode parar de bancar a chefona e me deixar ficar, aí quem sabe, eu repense sua oferta. — Jack disse de forma calma.
— Não faço acordos com chantagistas. — Hanna disse.
— Então tudo bem, eu saiu e posto diretamente a matéria assim que chegar até o computador da minha mãe. — Jack disse e virou-se para a janela.
— Tá legal, você fica, mas vai apagar aquilo depois, ouviu bem? — Hanna o fuzilou.
— É um prazer negociar com você. Temos um acordo. — Jack disse e virou-se novamente com um sorriso convencido.
***
Léo teve um arrepio quando escutou a risada de quem fez tudo aquilo, acabar com o Natal, com as expectativas de tantas crianças inocentes, aquilo era inacreditável. Monstro!
Mas apesar de considerar a mente por trás disso tudo monstruosa, ele também se culpava, havia o deixado entrar, se não tivesse acreditado nas palavras daquele monstro o Natal teria corrido bem, mas infelizmente ele acreditou e o deixou entrar...
— Eu tenho uma reunião com o senhor Noel. — Dissera o ser aparentemente inofensivo.
— Não me lembro de ter marcado nada na agenda do Papai Noel para esse horário. — Respondeu o assistente conferindo seu cronograma.
— Foi de última hora, ele mesmo marcou comigo.
— Então entre, por favor, vou avisa-lo... — Foi dizendo e deu passagem para a figura...
Lembrava-se do arrependimento segundos depois quando foi atacado por aquilo, amarrado e depois jogado naquele lugar com o Papai Noel. Por sua culpa o Natal havia sido destruído.
***
— O que está procurando? — Questionou Hanna sentada enquanto observava Jack dando uma de perito.
— O mesmo que eu encontrei do lado de fora, perto da porta dos fundos, se eu encontrar a mesma coisa minhas suspeitas serão confirmadas. — Disse Jack sem olha-la.
— E o que te faz pensar que pode encontrar algo que os peritos já não tenham encontrado? — Hanna o desafiou.
— Eu sei o que estou procurando... — Disse o garoto e logo se ergueu. — Achei, bem aqui!
— O quê? — Hanna se levantou e foi até Jack, espiando por sobre o ombro do rapaz. — Eu não vejo nada.
— Talvez isso ajude. — Disse se abaixando e pegando algo do bolso.
O rapaz trazia um grande rolo de fita transparente, ele colou um pedaço da fita no chão, improvisando algo parecido com o que os peritos usam para retirar impressões digitais de superfícies, depois retirou cuidadosamente, erguendo a fita contra a luz bem na frente do rosto de Hanna.
— É uma impressão de uma... — Hanna não conseguia acreditar no que via.
—Eu vi uma dessas na neve lá fora, estava bem apagada, mas eu pude identificar, também fiquei chocado quando vi. — Ele disse analisando a impressão.
Hanna encarava aquilo surpresa, não era nem de longe o que esperava, entretanto, antes que pudesse falar mais alguma coisa escutou um barulho do lado de fora.
— Se esconde. — Ela empurrou Jack para debaixo da grande mesa do escritório.
Bem a tempo Jack se escondeu, um instante depois dele se esconder agachado atrás da grande mesa escutou a porta se abrir, passos soaram pela sala e ele se apressou em guardar a impressão que havia encontrado.
— O que faz aqui Hanna? — Uma voz de homem soou, não estava repreendo-a, parecia um tom... Carinhoso.
— James, estava só dando uma volta. — Ele escutou Hanna dizer e depois ouviu uma risada que parecia ser do homem.
— Sei, atormentou seu pai tanto que ele te deu permissão pra bisbilhotar foi? — O tom do homem era divertido.
— Não me venha com as suas. Cada um tem seu modo de dobrar o chefe Simkins. — A garota disse e Jack quase pôde imaginar seu sorrisinho ao dizer isso.
— Tudo bem, só não tire nada do lugar. — O homem disse ainda rindo.
Novamente ouviram-se passos e a porta se fechando, segundos depois Hanna puxou Jack para fora do esconderijo.
— Essa foi por pouco. — A garota suspirou.
— Quem era o cara? — Jack indagou.
— Pensei que conhecesse todo mundo. — Hanna provocou-o.
— Eu não vi o cara, como vou saber quem é? — Jack argumentou.
— Era James, um agente, às vezes parece que ele é mais meu pai do que o próprio chefe Simkins. — Hanna revirou os olhos fazendo Jack rir.
— Cada um tem sua babá. — Jack disse e Hanna fez careta.
— Odeio admitir, mas você tem razão. — A garota disse e pareceu lembrar-se de algo. — A impressão...
— Estou com ela. — Disse Jack retirando-a do bolso.
Jack havia colado outra fita atrás da fita com a impressão, para que ficasse visível sem grudar em nada, era uma técnica simples e improvisada, mas ainda assim funcionava.
Ambos encararam a impressão, não era uma impressão de dedos, mãos ou uma pegada, era na verdade a impressão de uma pata, uma pata de um animal também tão conhecido quanto a imagem do Papai Noel.
— É melhor levarmos isso até os peritos. — Disse Hanna.
— Nem pensar, eu quero encontrar pessoalmente o Papai Noel. — Disse Jack.
— Você não é um investigador. — Hanna disse encarando-o.
— Se o mistério vem até você, porque recusa-lo? — Jack sorriu.
— Ah não, você ficou maluco! Procurar sozinho um sequestrador não é uma boa ideia. — Hanna disse realmente nervosa pela primeira vez.
— Eu não vou estar sozinho, vou estar com você. — A boca de Hanna se escancarou quando Jack falou isso.
— Eu não vou, não vou...
[...]
— Eu não acredito que estou indo. — Disse Hanna bufando.
Hanna só estava indo porque não confiava nem um pouco no garoto e queria se certificar de que ele cumpriria o acordo, assim que terminassem com aquilo ele seria obrigado a cumprir sua parte, e Hanna queria ter certeza de que ele faria isso.
— Silêncio. — Jack sinalizou os agentes no corredor.
Ambos espiavam pela porta entreaberta do escritório, precisavam sair e não poderia ser pela janela, pois lá fora estava cheio de investigadores a essa altura.
— Não começa a querer mandar em mim. — Hanna grunhiu.
— Ok. Faça sua parte e me ajude a sair desse escritório, precisamos chegar à porta dos fundos. — Disse Jack revirando os olhos.
— Eu não preciso te ajudar a sair. — Falou Hanna.
— Beleza, eu posso até ver o título da matéria: "Filha de chefe da CIA é pega com Hacker". O que você acha? — Jack abriu um sorriso.
— Tá, eu te tiro daqui. — Hanna odiava cada vez mais aquele garoto.
Contrariada ela saiu pela porta e foi na direção dos agentes, distraindo-os enquanto Jack saia de fininho do escritório, ela observou a direção que ele tomava com o conto dos olhos, e depois que ele sumiu de vista, ela se despediu dos agentes e seguiu na mesma direção.
Hanna acabou dando com o lado de fora quando saiu pela porta dos fundos, observou em volta, mas não via nem sinal do garoto irritante e metido ali.
— Aqui! — Ouviu um chamado um pouco mais a frente.
Era Jack, ele havia saído de detrás dos arbustos onde se escondia. Hanna seguiu até ele com os braços cruzados, continuava a não gostar do garoto e parecia que a cada minuto detestava-o mais ainda.
— Agora que estamos aqui, qual o próximo passo, Sherlock? — Hanna questionou erguendo uma sobrancelha.
— Tá vendo aquela marca na neve? — Jack apontou para uma pegada já quase apagada.
— Sim, eu não sou cega. Mas e daí? — Ela perguntou grossa.
—Daí que aquilo aponta para esse lado. — Jack indicou a direção.
— Os agentes já vasculharam isso tudo num raio de vários quilômetros, não acho que vamos encontrar nada. — Hanna falou.
— Você falou a mesma coisa quando eu estava procurando pistas. Mas eu achei. — Jack falou convencido.
— Golpe de sorte. — A garota estava tentando pensar em alguém mais irritante, metido e chantagista do que Jack, mas não conseguia pensar em ninguém.
— Golpe de sorte ou não, nós vamos procurar. — Disse Jack já tomando a frente.
Hanna queria estrangular esse garoto, seus olhos faiscaram quando ele lhe deu as costas e foi andando na direção que apontara a pouco. Sem alternativa, ela o seguiu, era melhor do que ficar para trás. Essa eu quero ver, ele vai quebrar a cara quando não encontrar nada.
— O que estamos procurando, Sherlock? — Hanna questionou depois de alguns minutos de caminhada.
— Vamos saber quando encontrarmos. — Disse Jack.
Hanna se enfureceu, eles estavam se distanciando da casa e tudo que se via pela frente era neve, ela estava ficando cansada. Apressou o passo e passou à frente de Jack.
— Aqui não tem nada, desis... — Hanna sentiu o chão ceder abaixo de seus pés e ela despencar.
O buraco onde caíra não era muito fundo, mas a queda deixou-a toda dolorida. Ela praguejou olhando para cima, Jack estava com um enorme sorriso no rosto.
— Você dizia... — Ele estava se divertindo com a situação.
Hanna se levantou apoiando as mãos na parede de terra escavada ao seu lado, enquanto tirava a neve da roupa viu Jack saltar para dentro do buraco e cair ao seu lado.
— Droga de buraco. — Ela resmungava.
— É uma toca. — Corrigiu Jack.
— Toca, buraco, dá no mesmo. — Hanna disse mal humorada.
— Acho que encontramos o que procurávamos. — Jack falou olhando para o local em que estavam.
***
Dentro de pequeno cômodo onde o Papai Noel e Léo estavam amarrados ouviu-se um barulho, ambos lançaram um olhar para a entrada, que parecia mais uma pequena porta de casa da árvore.
— O que foi isso? — Indagou Léo.
— Não faço ideia. — Respondeu Noel.
— Deve ser alguém. — Os olhos de Léo brilharam de esperança. — Socorro!
***
Jack e Hanna franziram o cenho ao mesmo tempo quando ouviram um chamado abafado, parecia vir de uma pequena porta na parede de terra escavada, era uma entrada, ambos se entreolharam.
— Socorro! — Ouviu-se outro grito abafado.
— Parecem duas vozes gritando. — Observou Hanna apurando os ouvidos.
— E estão atrás dessa porta. — Jack se aproximou da pequena entrada.
— Dá para abrir? — Hanna se aproximou por trás de Jack.
— Está trancada. — Bufou Jack.
— Tem alguém aí? — Gritou Hanna.
— Sim, estamos presos! — Respondeu uma voz abafada lá de dentro.
— Como vamos entrar? — Hanna perguntou encarando Jack seriamente.
— Eu talvez possa ajudar. — Disse uma voz sombria.
Ambos levaram um susto e olharam para a abertura da toca na neve, a figura de preto os encarava. Em um salto estava dentro do buraco, pouco a frente dos dois que se ergueram rapidamente.
Olhando desse ângulo podiam ver que a figura era baixinha, mas não tinha uma postura muito amigável, e sua identidade estava oculta por um capuz.
— Esse tampinha não assusta ninguém. — Hanna prendeu o riso.
Em um salto ágil a figura prensou Hanna contra o chão, a garota não conseguiu reagir devido ao susto, percebeu logo que de inofensivo aquilo não tinha nada.
— Tem certeza? — Perguntou a figura ainda sobre Hanna.
— Larga ela. — Disse Jack.
— Todo mundo quer ser herói hoje em dia. — A figura disse em tom de desdém.
O sequestrador tirou um pequeno objeto de sua roupa e jogou no chão, imediatamente um gás vazou sufocando Hanna e Jack. A figura observou tranquilamente enquanto os dois desfaleciam...
[...]
— Acordem. — Cantarolou uma voz.
Hanna e Jack acordaram resmungando pelas dores no corpo, tentaram se mexer, mas assim que perceberam que estavam amarrados a memória do ocorrido voltou.
Hanna tentou soltar-se das amarras apertadas das cortas que a prendiam à cadeira, sem sucesso percebeu que não conseguiria nada além de se cansar. Jack estava amarrado ao seu lado.
—Que grupo de resgate mais incomum, devo dizer que chegaram mais perto do que aqueles agentes idiotas, uma pena que o resgate não saiu como planejavam. — Discursou o sequestrador.
— Solta a gente! — Esbravejou Hanna já bem desperta.
— Afinal o que você quer? — Jack encarou o sequestrador.
— Ainda não entenderam? — Se aproximou a figura.
Apesar do pouco tamanho, aquela criatura que poderia ser comparado a um anão em altura, era sinistra. Aproximando-se lentamente ele retirou seu capuz revelando as longas orelhas, o focinho e os olhos brilhantes.
— E eu que sempre pensei que coelhos eram fofos. — Disse Hanna.
Aquela criatura pequena, que deveria ser fofa, tinha os olhos encantadores e brilhantes, ao mesmo tempo em que pareciam sinistros e ameaçadores.
— Esse coelho é mais traiçoeiro do que pode parecer. — Os olhos de Léo faiscavam encarando o coelho.
— Alguém guardou ressentimentos. — Cantarolou o ser.
— Ressentimentos? Você nos sequestrou e acabou com o Natal! — Vociferou Léo.
— E deu incrivelmente certo, tanto, que vocês têm mais dois amiguinhos para choramingar pelo Natal perdido. — Disse o sequestrador debochando dos quatro.
— Afinal, por que acabou com o Natal? — Jack questionou.
— Estava apenas consertando uma injustiça. — O coelho disse naturalmente.
— Injustiça?! E as crianças que ficaram sem presentes, sem o Papai Noel e sem o Natal? — Disparou Hanna.
— Injustiça sim! As pessoas mandam cartas para esse velhote, enfeitam a casa inteira para a sua chegada, se fantasiam como ele! E eu? Sou só o coelhinho da Páscoa! — Bradou o coelho, inconformado.
— Então é essa a questão? Inveja? — Hanna não conseguia acreditar.
— Reconhecimento! — Corrigiu o coelho.
— Esse coelho tem um sério problema de atenção. — Jack cochichou para Léo, que assentiu.
— Mas eu logo vou ter o que mereço. — Disse o coelho com um estranho brilho nos olhos.
— O que pretende com tudo isso? — Se manifestou o Papai Noel.
— Primeiro: Livrar-me de você e depois... Bem... Eu não planejava ter visitas, mas talvez esses dois possam ser úteis aos meus planos. — Sorriu o ser.
— Você não vai conseguir nada do que quer! — Cuspiu Hanna.
— É aí que você se engana minha cara, logo vou ter a atenção do mundo todo quando eu acabar com todos vocês. — Falou o coelho.
— Você é maluco! — Esbravejou Léo.
— Acabei de mudar de ideia, vou acabar com você primeiro. — Disse o sequestrador se aproximando.
Léo sentiu sua espinha gelar enquanto observava a figura se aproximar. O coelho deu a volta até estar atrás do anãozinho e soltou a corda que o prendia à cadeira, mas sem soltar os pulsos que estavam presos às suas costas.
— Levanta e vem comigo. — Ordenou o coelho e Léo obedeceu. — E é melhor não tentar nenhuma gracinha.
O coelho foi empurrando Léo até um canto do cômodo e tirou do bolso um controle remoto, acionou um botão que fez com que uma passagem se abrisse no chão.
— Entra aí. — Mandou o coelho.
— O que tem ai dentro? — Léo percebeu que um líquido escuro cobria aquilo até quase a borda, deixando apenas menos de meio metro visível.
— Entra logo! — Bradou o coelho e empurrou Léo.
O anão caiu lá dentro e quase ao mesmo tempo o coelho acionou novamente o botão fazendo com que a abertura se fechasse. Depois virou-se calmamente para as expressões atônitas.
— O que você vai fazer com ele? — Perguntou Hanna assustada.
— O mesmo que farei com vocês depois. — Sorriu o coelho acionando outro botão.
***
Léo havia caído em um líquido quente, mais denso que água e de aroma doce. Chocolate?
Não teve tempo para processar a informação, pois viu a passagem por onde havia sido empurrado se fechar prendendo-o. Ele não tinha como sair, então parou para analisar onde estava.
As paredes a sua volta eram estreitas e feitas de metal pesado, parecia um cilindro gigante. Seus pés não tocavam o fundo daquilo, o que o obrigava a tentar não afundar, nadando.
Segundos depois ele começou a sentir que o nível do chocolate estava aumentando rapidamente, e de fato, o espaço com ar ia sendo ocupado aos poucos. Eu vou me afogar em chocolate se não sair daqui.
***
Os instantes iam passando e os três que continuavam amarrados ficavam mais tensos a cada segundo sem saber o que estava acontecendo com Léo. Mas de repente foi ouvido um estrondo alto...
A porta foi aberta em um rompante, o som assustou a todos, que lançaram um olhar imediatamente na direção do barulho, pela porta entrou um verdadeiro batalhão de... Galinhas, isso mesmo.
— Peguem ele! — Gritou a que parecia estar à frente.
O que se passou a seguir não poderia ser descrito, tudo o que Jack, Hanna e o Papai Noel viram foi um bando de galinhas atacando o coelho e depois muitas penas voando pelo ar.
No meio da bagunça eles sentiram as cordas serem afrouxadas, a mesma galinha que gritou a pouco soltou-os e eles puderam enfim se levantar. Os músculos de todos estavam dormentes pelo tempo que ficaram amarrados.
— Temos que soltar o Léo. — Disse Hanna se abaixando e entrando no meio da confusão de galinhas e penas.
A garota voltou com o controle do coelho em mãos, no meio daquela algazarra havia o encontrado no chão, não perdeu tempo e apertou o botão, a passagem se abriu e logo todos foram até lá.
— Será que é tarde? — Indagou Jack.
De um salto algo se atirou para fora do chocolate, olharam aliviados para Léo que estava coberto de chocolate, o anãozinho puxou o ar com força recuperando o fôlego.
— Me ajude a tira-lo daí. — Disse o Papai Noel para Jack.
Os dois pegaram cada qual um dos braços de Léo e o puxaram para fora, com certa dificuldade conseguiram retira-lo dali, Léo estava simplesmente coberto de chocolate.
— Você tá legal? — Perguntou Hanna encarando Léo.
— Estarei melhor quando sairmos daqui, vamos. — Disse Léo se levantando com a ajuda de Jack.
Todos se encaminharam para a saída, Hanna foi a primeira a sair pela pequena porta, sendo seguida de Jack, Léo e por último o Papai Noel que ficou entalado na passagem estreita.
— Vamos puxar. — Disse Hanna e os três se juntaram para puxar.
— 1, 2, 3! — Contaram e puxaram, Noel não saiu do lugar.
— De novo... 1, 2, 3! — Novamente tentaram.
Quando o Papai Noel desentalou da passagem todos caíram para trás sentados, a galinha que os soltou saiu logo depois.
— Acho que vou fazer uma dieta depois dessa. — Falou Noel.
Cobertos de penas e sujos de chocolate por toda a roupa os quatro saíram do buraco da entrada da toca para o ar livre, tentaram limpar com as mãos suas vestes e encararam a galinha que os acompanhara.
— O que foi aquilo? — Questionou Hanna para a galinha.
— Algo que esperávamos há tempos. Finalmente conseguimos pegar aquele coelho e agora ele vai aprender. — Disse a galinha.
— O que ele fez pra vocês? — Questionou Jack.
— Apropriação indevida do nosso trabalho. Aquele coelho traiçoeiro se apropriou de algo que só nós fazemos. — Falou a galinha.
— Que seria... — Quis saber Hanna.
— Pôr ovos! Ele nem sequer é uma ave, como pode aparecer por aí com ovos? — Disse a ave gesticulando.
— Mas são de chocolate. — Observou Hanna.
— Está defendendo ele? — A ave encarou seriamente Hanna.
— Não. — A garota tratou de negar.
— O que vão fazer com ele? — Perguntou Noel.
— Joga-lo aos lobos. — Disse a galinha e todos se espantaram. — Brincadeira, mas ele vai ter uma boa lição.
— Fiquem a vontade. — Sorriu Léo.
A galinha desapareceu na entrada do buraco indo se juntar às outras. Os quatro deram de ombros e seguiram na direção da mansão ao longe.
— Espera, e os presentes? — Estacou Hanna.
— Pegamos mais tarde, vamos deixar as galinhas se divertirem um pouquinho primeiro. — Falou Léo, fazendo Hanna rir só de imaginar o que estava rolando lá dentro da toca.
Prosseguiram sua caminhada calmamente, não tinham pressa de voltar, afinal teriam que dar longas explicações e queriam curtir um pouco a paz no caminho.
— Eu estou congelando depois desse banho de chocolate. — Reclamou Léo.
— Com certeza. — Concordou o Papai Noel.
— Não pense que eu me esqueci do nosso acordo. — Cochichou Hanna para Jack.
— Tudo bem, eu tenho uma matéria muito melhor agora: "Confusões no resgate do Papai Noel". — Disse Jack sorrindo largamente.
— Essa com certeza vai ser um sucesso. — Riu Hanna.
— Só pule a parte em que eu fiquei entalado na porta, meu jovem. — Pediu Noel.
— Pode deixar. — Jack concordou.
— Quando chegarmos, vocês aceitam um lanche? — Indagou Léo.
— Bolos, pães, qualquer coisa menos chocolate. — Falou Hanna fazendo careta.
— Eu não vou comer chocolate por um bom tempo. — Falou Jack imitando a careta de Hanna.
— Nem me fale, a gente passou esse tempo todo comendo só chocolate e agora pouco eu quase me afoguei em chocolate, eu não aguento mais. — Reclamou Léo.
— Ho-Ho-Ho... — Gargalhou o Papai Noel.
E assim eles seguiram entre risadas e palhaçadas até a mansão, onde responderam com bom humor a todas as perguntas para espanto dos agentes.
Na noite daquele mesmo dia, com a ajuda de todos os agentes, o Papai Noel pôde finalmente entregar os presentes atrasados e afinal aquele grande mistério teve a sua solução, não da forma mais tradicional, mas tudo acabou bem.
Quanto ao Coelho da Páscoa... Bem... Isso é uma outra história e apenas as galinhas sabem o que aconteceu, mas é certo que ele não virou comida de lobo... Dessa vez.
Fim.
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