Confusão
2 O assombro de Catarina
Notas iniciais
Catarina assombrou-se quando percebeu a fragilidade das coisas pela primeira vez.
Viu sua mãe desfalecer sob seu olhar. Ela lutou e lutou e lutou. Os cabelos caíram, o pai vendeu o carro para pagar o tratamento. Depois o menino que passeava com o cachorro da família foi despedido para cortar gastos. Catarina saía toda noite para correr com o animal de estimação. E aí o médico apareceu na porta da sala de exames e disse para a mãe:
— O esperado é que você tenha mais seis meses.
E a mãe apareceu na porta do quarto da filha e disse:
— O esperado é que eu tenha mais seis meses.
E riu porque o prazo para o fim de sua vida agora era um evento marcado no calendário.
—Um pouco mórbido, Catarina. Eu nunca escolheria a medicina como profissão nessa vida.
Talvez se você tivesse escolhido a medicina, a menina pensava, a medicina teria escolhido você. E pensava em realidades alternativas em que a mãe tinha sobrancelhas e cílios cheios. Sonhava com uma floresta que escondia a cura. Ela se tornava um ser humano por inteiro, e escondia-se por trás das árvores. Catarina sabia que nunca poderia encontrá-la, por mais que tentasse.
Era um pesadelo sem fim.
O fim, porém, chegou. Encontrou a mãe numa manhã gelada. Catarina estava de meias quando escorregou para chegar ao sapatos no fim da escada. Rolou pelos dez degraus e aterrissou sobre a mão direita. Foi ao hospital para se despedir da mãe e para engessar os dedos.
O velório foi aterrorizante. As lágrimas e depois a repentina apatia do pai foram aterrorizantes. Ele passou a vagar pela casa como se estivesse procurando algo o tempo todo. A insônia de Catarina pareceu constante.
O tempo, porém, não esperou pai e filha. E enquanto os meses corriam e escorriam, ela viu o pai desesperar-se.
Desesperou-se.
O rosto dela parecia desconexo, então o pai revirou todos os álbuns de fotos que mostravam a esposa. Expôs as fotografias na mesa da sala, colocou vários em porta-retratos. A Catarina, porém, chegou à conclusão, incrédula, de que as fotos não tornavam a imagem da mãe mais clara em sua mente; serviam apenas para torná-la uma figura cada vez mais distante. Assistiu aos vídeos que gravara com a mãe, porque o tom e o ritmo de sua voz estavam, pouco a pouco, perdendo-se em sua cabeça. Com o pai não era diferente.
— Como era aquela música que sua mãe cantava, filha?
— Eu não sei, pai.
Os dois ficavam em silêncio até que o pai estivesse suplicando.
— Eu nunca vou conseguir lembrar se você não me ajudar. Por favor, Catarina.
Mas ela não sabia o que dizer.
Não existia nada que pudesse trazer de volta a sensação dos dedos curtos de sua mãe passando por seu cabelo, ou as batidas do coração dela quando envolvia Catarina com os braços e seu cheiro.
Seu cheiro.
Foi aí que ela percebeu. Quando encontrou o pai sentado em frente ao armário com a blusa de algodão de sua mãe enrolada em suas mãos e encostada em seu nariz. Ele queria o cheiro dela de volta. E quanto mais o tinha, mais ausente ele se tornava. As roupas da mãe passavam a tomar o cheiro do armário e logo do mofo. Quanto mais eles a queriam, mais ela desvanecia no ar.
Essa era a fragilidade, Catarina sabia. O reconhecimento de que tudo era finito, e não havia nada que ela pudesse fazer. Em um momento – meses atrás! – sua mãe existia; de um dia para o outro, fora levada, e nada nesse mundo poderia trazê-la de volta. Só restava a eles, humanos, conviver com as carcaças, os restos jogados ao acaso. Restava entrar em desespero porque o cheiro esvai-se e as memórias falham, transmutam-se, traem.
E depois, cada um deles – humanos – são esquecidos.
[A humanidade é frágil, Catarina escreveu na folha de redação, e depois apagou.
Seres humanos são a fragilidade.
Tirou o lápis do papel ao notar o olhar da professora. O tempo estava passando, e a garota tinha uma linha escrita. Fechou os olhos e lembrou-se:
Seres humanos são frágeis. Não conseguimos manter aqueles que mais amamos porque estamos nós mesmos em processo de ruína.
E então escreveu.]
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