Conflito de Ideais
1 Capítulo Único
As tensões no extremo oriente aumentavam, toneladas de refugiados espalhavam-se para a Europa e América do Norte. Chegavam por balsas e barcos clandestinos sem nenhuma segurança, procurando qualquer lugar que lhes dessem abrigo. Expulsos de suas casas, de suas terras, como insetos indesejados em nossa cozinha. Na América, encontraram asilo, capitaneados pelo o desejo de cooperação do antigo Presidente. Entretanto, o cenário político mudara. As eleições presidenciais trouxeram novas preocupações, à medida que o novo líder da nação cercava o movimento imigratório, ameaçando deportação imediata de todos. O sentimento de medo novamente aflorava em dezenas de famílias que viam a possibilidade de retornar para as zonas de guerra, lugares os quais sacrificaram tudo ficarem distantes.
Um protesto foi organizado, uma marcha de simpatizantes por toda a extensão da avenida principal culminando na prefeitura de Metrópolis. Um de muitos que estavam ocorrendo simultaneamente em todo o país. Centenas de vozes em uníssono pedindo compreensão e ajuda. Kara Denvers tinha apresso pelos refugiados. Afinal, não eram tão diferentes. Assim como ela, eles estavam deslocados, tentado uma nova vida no desconhecido. Lembrava-se de Kripton, seu planeta natal. Onde crescera e se desenvolvera até fugir das guerras e subsequente destruição. Ela caminhava a frente do protesto, mas não como uma pessoa normal. O maiô branco, luvas e botas azuis, a capa vermelha, presa em um ombro só, balançando com o vento. A Power Girl era uma espécie de guia, um símbolo para que todos se sentissem seguros e soubessem que não estavam sozinhos. Ela simbolizava esperança para todos aqueles que lutavam por algo melhor.
Do alto do prédio prefeitura, uma figura solitária vigiava a todos. Seu olhar caia sobre todos como chumbo, pesando nos ombros. A mera aparição de sua sombra causava apreensão nos cidadãos. O protesto diminuiu o passo, talvez com receio de se aproximarem do que muitos chamavam de um novo Deus. Como a Power Girl, o Superman também era um símbolo. Entretanto, o S vermelho estampado com orgulho no peito perdera todo o significado original de esperança, transformando-se em um sinônimo para força. Kara revivia as histórias contadas pelo próprio Superman, em sua mente. Como poder e corrupção andavam lado a lado, separados por uma linha tênue. Os pesares de seu primo. O quanto tinha medo de sucumbir à tentação e acabar se tornando algum tirano, de usar seus poderes para o mal. Esse medo, hoje o fez tornar-se um escravo do governo, um capacho submisso a mercê de decisões de líderes que não tinham medo de usar esses poderes. O Sentinela da Justiça limitava-se, atualmente, a ser apenas um símbolo do poder do governo sobre seu povo... ou o poder que ele quer ter sobre esses.
...
Boom. E uma torrente de fogo ascendeu ao céu. Boom. E a terra tremeu. Boom. E pessoas aprenderam que podiam voar. Boom. E tudo ficou em silêncio exceto pelos estouros das explosões em sequência. O prédio da prefeitura virara escombros.
Subitamente, Kara foi retirada com violência de seus devaneios, trazida de volta a realidade. Foram de segundos que pareceram uma eternidade. A fumaça cinza densa subia no céu em contraste com o azul claro da manhã. Os gritos ecoavam, reverberando nas paredes dos prédios à volta. Em poucos segundos, toda a organização desmoronava e no cenário em volta reinava o caos. Algumas pessoas corriam desesperadas procurando um lugar seguro para se protegerem, outras invocavam um tipo de espírito heróico, talvez baseado em seus ídolos, e tentavam ajudar os feridos que se multiplicavam ao longo do caminho. Tentava discernir sobre o acontecimento: O protesto, a sequência de explosões, o terror e os feridos. Era tudo muito programado para ser amador ou até mesmo de última hora. A certeza era de que o que seria um momento de reflexão acabara transformando-se em puro horror.
Sua superaudição captou gritos abafados vindos da sua esquerda. O barulho vinha de um carro próximo danificado tombado. O para-brisa estilhaçado não foi obstáculo para sua força, um puxão e o objeto já estava no chão, fora do caminho. No banco da frente, um corpo inconsciente jogado por cima do volante, uma senhora aparentando sessenta anos. Não existia respiração, não era possível sequer ouvir batimentos cardíacos. Estava morta. Entretanto, batidas lentas e ritmadas foram percebidas por Kara. As batidas pareciam falar com ela, diziam que tinham medo. Vinham do banco de trás, onde encontrou uma menina de no máximo sete anos desmaiada. Rapidamente, alcançou a parte de trás, rasgando o cinto de segurança e retirando-a do veículo, voando velozmente para as equipes médicas que chegavam com prontidão ao local. Todavia, tarde de mais, mesmo com todo o esforço, o coração foi perdendo força até parar completamente. Sangue sujava a camisa que a menina usada, de dentro para fora, lentamente formando um círculo. Não fora notado antes, mas um pequeno pedaço de metal desgrudara-se do carro, ferindo a menina na altura do abdômen, atingindo um órgão vital. De nada adiantara os esforços das equipes para salvar a jovem.
Olhou para baixo, a mancha viva vermelha do sangue da inocente menina manchava o manto branco de Power Girl. O rubro espalhou-se por toda a sua pele. Fervia por dentro. As lágrimas secavam tão logo caiam de seus olhos. A raiva a tomava por possessão, direcionada ao ser que aterrissava ao seu lado.
— Vejo que continua sendo um cachorrinho do governo, primo. Seus amigos devem estar muito felizes nesse momento. – As palavras saiam entre os dentes serrados, quase cuspidas.
— Kara, esse não é nosso planeta. Devemos respeitar as organizações e decisões de seus lideres. – Sua fala era mansa e sem emoção.
— Não é nosso planeta? Exato, está correto. Nós também somos refugiados. Nosso planeta foi destruído pelas decisões de nossos próprios lideres. Não consegue enxergar? Não estamos lutando contra um mal externo. Estamos lutando contra nós mesmos. – Os braços abertos faziam menção ao cenário destruído em volta.
— Eles estão transgredindo as leis. A ordem é a única coisa que nos separa dos animais.
— Leis que não os protegem, leis que os subjugam. Eles foram expulsos de suas terras por causa de uma guerra ridícula. Terras essas que viraram o campo de batalha do joguinho preferido dos seus amiguinhos do governo. Fico me perguntando o que faria se fosse você a ser expulso da terra. – A última frase fora dita com ênfase. Os olhos serrados o desafiavam.
— Olhe a sua volta, o caos. São terroristas e não medem esforços para espalhar destruição. Eles fazem isso a si mesmos.
— Não pode estar falando sério. Até onde sei o ataque muito bem poderia ter vindo do seu lado. – Falou Kara.
— Não há a mínima possibilidade.
— Como tem tanta certeza?
— Você me conhece Kara, confie em mim quando digo que não temos nada a ver como essa situação. – Clark continuava sério, a fala rígida como se tivesse sido ensaiada.
— Não, Clark. Eu achava que lhe conhecia, parece que me enganei. Não posso fazer parte disso. Não farei.
— Você não me deixa escolha então. – Os olhos fechavam-se. Aquilo não o deixava feliz, mas não tinha escolha no momento.
— Como quiser. – Falou Power Girl.
Foi instantâneo, o impacto de pele contra pele. A bochecha contraindo-se de forma anormal, sendo pressionada pelo punho fechado. A cabeça foi jogada para trás, levando o corpo consigo até ser parada por uma parede de concreto metros a frente. Lascas desprendiam-se, farelos caiam e a poeira alastrava-se. Uma cambaleante Power Girl tentava recuperar o equilíbrio, mas sem tempo de defender o próximo golpe que a atingiu em cheio na barriga. Outro golpe, de cima para baixo, com os punhos unidos, a jogou no chão. Superman parou a sua frente. Do chão só podia ver suas botas lustradas vermelhas. Vermelhas do mesmo tom do sangue da menina em seu uniforme. A raiva lhe deu forças. Com um impulso, levantou-se, agarrando os pés do Homem de Aço, girando e lançando-o como se fosse um disco de encontro a diversos carros estacionados. De dentro da lataria retorcida, saia Clark sem nenhum arranhão. Em velocidade estupenda, investiu contra sua prima com fúria jamais vista. Power Girl defendeu o golpe com os punhos cruzados, o impacto a arrastou por alguns centímetros fazendo seus pés afundarem, quebrando o asfalto da rua.
— Você ainda pode dar um fim nisso e lutar pelo lado certo. – Falou Kara, investindo contra o Homem de Aço.
O punho cerrado atingiu em cheio o pescoço do Superman. Cada golpe desferido criava um impacto no ar, um estrondo percorria os céus como um trovão. A terra assistia apreensiva o embate entre dois titãs, cujo simples estalar de dedos poderia aniquilar qualquer coisa. Clark contra-atacou. O ar escapou do corpo de Kara com o impacto da joelhada em suas costas que a jogou ao chão. Sem forças para se mover, ficou inerte, de cara para o piso, entre o asfalto destruído da rua. Sentiu ser virada e erguida, uma mão agarrando seu pescoço com força. A visão não era mais do negro do asfalto. Entre os cabelos desgrenhados, via-se na altura dos olhos castanhos escuros de seu primo. Estava a mercê dele. Não, ele não a mataria. Clark nunca faria isso? Será? Nesse momento, tinha dúvidas. O ser imponente a sua frente poderia muito bem parecer com Clark, poderia há muito tempo ter sido o valoroso Superman, mas agora, não passava de uma caricatura mal feita do que antes fora o que todos queriam ser. Então, estavam ali, como se o tempo estivesse congelado, um encarando o outro, tentando enxergar no fundo um da sua alma do outro.
Algo se chocou nas costas do Homem de Aço, parecia uma pedra ou outra coisa qualquer, não importava. Num movimento rápido em preciso, os raios vermelhos de seus glóbulos incineraram a ameaça. O corpo carbonizado fumegava parado como uma estátua de mau gosto, o braço para frente, acusador, apontado diretamente para ele. O que fizera? Num impulso de raiva e ódio jogara todo o seu poder sobre um cidadão indefeso, cidadão que um dia sujara defender. Mais pedras voavam pelo céu como flechas atingindo-o. Diversas pessoas, refugiados ou não, juntavam sua ira contra o Superman. Os objetos não o machucavam, sequer rasgavam o tecido de seu uniforme. Mas, por que então doíam tanto? A risada da Power Girl, ainda agarrada pelo pescoço, era pior do que Kriptonita.
— Eu lhe avisei primo, estava lutando do lado errado. Mas, conseguiu o que eu lutei tanto e não tive sucesso: Você os uniu. – A voz era fraca, cansada, porém as palavras rasgavam afiadas.
As mãos soltaram Kara, que caiu num baque forte espalhando poeira. A expressão de Clark era indistinguível. Raiva? Incompreensão? Vergonha? Talvez, um misto de todas juntas. Seu corpo estava intacto e sua adversária destroçada aos seus pés. Mas, então por que ela é quem estava rindo? Por que sentia que mesmo ganhando a luta, ainda assim saíra derrotado? Só agora percebera que seu medo de que seu imenso poder o corrompesse o cegara, fazendo-o entregar seus dons a quem não tinha medo disso. Saltou o mais alto possível, desaparecendo no céu. Talvez para a Fortaleza da solidão, cujo nome parecia propicio para o que queria agora. Uma jogada de dados inesperada do destino. Os povos deixando suas diferenças por conta de um inimigo em comum. Ali, deitada entre o chão em ruínas, Power Girl fechava os olhos porque precisava descansar, mas fazia isso sabendo que tinha cumprido sua missão, mesmo não tendo saído exatamente como planejado.
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