Confissões de Laly

20 17. O Envenenamento


Fernanda aproveitou a ausência de Gabriel para brincar com o Atari dele na televisão da sala — hábito que Gilberto não gostava muito — e não esperava receber nenhuma visita em especial. Sem outra saída, diante do insistente chamado da campainha, levantou-se do sofá para atender a porta, descartando uma visita de Mário, chocada demais ao ver quem aguardava ser recebida no vestíbulo.

― Oi! ― Cumprimentou Milene com uma voz adocicada e afável, portando em mãos um recipiente com vários pedaços de bolo cortados. ― Você me conhece? Se não, eu sou Milene. Milene Moraes. Você me convidaria para entrar?

Gilberto Gallardo gostava de pescar e em algumas ocasiões os filhos o acompanhavam, em outras ele ia sozinho. Gabriel estava no mundo da lua desde que começou a namorar, mas Aimée aceitou o convite de passar o dia fora de casa e pediu permissão para trazer Iury consigo. Não houve objeção, embora Gilberto considerasse um exagero por parte da filha jurar amor eterno para um garoto a quem nem sequer conhecia direito.

Gilberto estava meditando no barco. Não tão longe, Aimée e Iury se beijavam atrás de uma árvore. O jovem, mais desinibido que na noite anterior, agarrava a namorada pela cintura e beijava o pescoço dela, o grande ponto fraco, de todos, determinado a não se contentar com pequenas amostras quando podia ir além dos beijos e abraços. Aquele prazer lhe foi negado por tanto tempo, mas agora que podia deleitar-se dele, queria reviver aquela sensação milhões e milhões de vezes.

― Iury, para. ― Implorou Aimée, tentando recuperar o fôlego e, ao mesmo tempo, rindo: ― Meu pai pode olhar.

― Olhe ele… Não está dando a mínima para nós. ― lembrou Iury.

Para Gilberto a arte da pesca conseguia desconectá-lo das preocupações mundanas, serenando os pensamentos. Costumava encontrar as melhores soluções quando se dispunha a ouvir apenas os sons da natureza ao entorno.

― Ele pode olhar. ― advertiu Aimée.

― Seus beijos não são de quem só quer olhar.

Iury continuava beijando o pescoço de Aimée e a bolinando de forma que a ruiva se excitasse:

― Ora, a barraca está vazia!

Aimée riu de nervosismo com aquela proposta de Iury:

― Você por acaso perdeu o juízo?

― Por você, sim. ― Iury, provocativo, ergueu de leve a regata azul de Aimée: ― Ele sabe?

― De nós, sim. Mas não do resto.

― Vamos, Aimée. ― Pressionou Iury, desesperado para libertar toda aquela energia pulsante dentro de Aimée. ― Quero repetir a noite passada.

― Agora não, Iury.

― Tem de ser agora.

Aimée pressionou o dedo indicador contra os lábios de Iury e a leviandade em seu olhar indicou que não só uma como mais relações amorosas ocorreriam, mas não na barraca, visto que Gilberto costumava dormir um pouco após o almoço.

Iury teve a camisa desabotoada por Aimée, que se despiu em questão de segundos, permanecendo apenas com a parte de baixo do biquíni, admirando as formas femininas e sedutoras de Aimée, intimidando-a, despindo-a com os olhos antes de utilizar o toque.

― Quer que eu mesma tire, não? ― indagou Aimée.

Os namorados se abraçaram e se beijaram encostando-se a uma árvore e se beijando com tanto ardor que poderiam passar o resto do dia sem serem perturbados. O ato foi consumado no mato, totalmente selvagem como os amassos que precederam o clímax, a prolongar a diversão e a vingança contra Laly.

Naira voltou para casa e foi para o quarto sem almoçar.

Emília percebeu que a porta não estava trancada e adentrou o recinto, encontrando-o escuro e Naira chorando em posição fetal. Comovida, sentou-se na cama e fez carinhos nos pés da filha.

― Posso lhe fazer companhia?

Naira se virou para o outro canto, recusando contato. Emília se aproximou mais da filha e coloca um travesseiro no colo para apoiar a cabeça dela.

― Eu sabia que um dia o amor ia chegar para você também, minha filha. Está doendo tanto, não é mesmo?

― Eu não sei o que está acontecendo comigo.

―Eu sei. Chama-se saudade.

―Eu nunca tinha me sentido assim… ― Naira sentou-se na cama, pronunciando com desespero tudo aquilo que Mayra já havia adiantado na hora do almoço: ― Parece que uma parte de mim morreu…

Emília não conseguia sentir nada além da compaixão. Naira não sabia que estava amando.

― Dor de amor. ― Explicou Emília, abraçando com cuidado a filha mais velha, que apesar da determinação, era tão frágil quanto à (não tão) pequena Mayra.

― Não sei como fazer isso passar. Tento não pensar, mas ele está sempre lá…

―É, minha filha, saudade costuma doer assim mesmo. No meu tempo não era muito diferente não. Ficar longe de quem a gente gosta.

―Não quero falar sobre isso.

―Por que tem vergonha de falar comigo? Eu já tive a sua idade, Naira. Eu já passei por tudo que você está passando e por muito mais.

―Eu me sinto tão estranha, não quero que ninguém me veja, não quero sentir isso.

―Minha filha, não tenha medo nem vergonha, você está amando. Que isso tem de errado? Que tem de errado em amar? Vai, me diz…

―Eu não sei se é certo.

―Sofrer é que não é certo. Se Nilton fosse um rapaz mau-caráter que nem o primo dele, que pula de cama em cama e só engana, eu não te deixaria chegar perto dele, mas Nilton é um rapaz tão bom, com um coração tão puro, ingênuo, está gostando tanto de você, querida. É tão lindo isso. Tão lindo e tão difícil de acontecer. Duas pessoas realmente se amarem e poderem se amar, então, minha filha, não deixe que esses medos que te prendem sejam mais fortes que os seus sentimentos. Eu te garanto, minha filha, maior pecado é renegar o amor, fugir dele, matá-lo. Mas tudo bem se você quiser chorar. É bom… É bom botar para fora o que está guardado, o que envenena.

― Vocês gostam de bolo? ― Quis saber Milene por já ter em mente qual seria a resposta de Fernanda.

― Os Gallardo são bons de garfo! Mesa farta é o que há! ― respondeu Fernanda com um largo sorriso ―, aliás, muito obrigada pela gentileza de trazer esse bolo.

― Fiz com todo o meu carinho, espero que você goste.

― Só a sua intenção já vale muito.

― Acontece que é a primeira vez que faço um bolo na vida, estou insegura. Pode não ter ficado tão bom assim.

― Pela aparência parece estar ótimo. Que tal tiramos a prova? ― Propôs Fernanda, fazendo menção de se levantar do sofá e dirigir-se até a cozinha para preparar um café para a visitante inesperada.

― Seria uma grande gentileza, mas não poderei. Recentemente passei por alguns problemas de saúde e por recomendação médica estou evitando o consumo de açúcar, mas sabendo que temos novas vizinhas e amigas, refleti com a May se seria uma boa iniciativa receber as novas vizinhas com um bolo e como a May é mais habilidosa que eu na cozinha, pedi-lhe a receita do famoso bolo de chocolate que nunca tem erro, todo mundo gosta e pede mais. A May disse que o bolo está uma delícia e me mandou trazer para saudar Aimée.

― Saudar Aimée por quê? ― quis saber Fernanda, intrigada.

― Aimée não veio em melhor hora.

Milene, vestindo a máscara da garotinha bondosa, difamou Laly para Fernanda, espelhando as próprias perversidades naquele espelhamento difamatório.

― Venho notando que você e Mayra estreitaram bastante os laços e estão firmando uma grande amizade, mas recomendo que não se abra tanto com ela…

Fernanda continuou fitando fixamente os olhos de Milene:

— É realmente desconcertante adverti-la de que Mayra não goza de uma reputação das mais limpas. A fama de mentirosa a persegue e não é à toa. Ela até hoje tem amigo imaginário e conta tanta lorota lá no colégio que todo mundo morre de ódio dela.

Mayra era muito querida na escola por ser extrovertida e comunicativa. Podia não namorar nem fazer sucesso entre os meninos, entretanto, apesar das brincadeirinhas infantis, os colegas a respeitavam muito, ainda mais por conhecerem a garra da garotinha em recuperar-se com dignidade após o trágico falecimento de Mauro, seu pai.

Milene Moraes era execrada e Laly era a única pessoa que parecia não ter um conhecimento real de quem fosse sua prima.

― Alguma coisa nessa história não bate. A May é tão querida, tão gente boa, tão “para cima”… ― Protestou Fernanda, bastante constrangida por não saber se era pertinente julgar Milene, mas não podia negar a que a presença da garota a confundia.

― Ela e a Laly podem até ser queridinhas no início, mas é praxe de pessoas como elas, seduzirem as pessoas aos poucos até darem o bote. Com o tempo você vai perceber que elas não valem nada.

Milene estudou de antemão a vítima, ciente de que não precisaria se esforçar muito para convencer Fernanda a acreditar nela.

― Fico muito feliz que enfim Iury tenha conseguido livrar-se daquela desequilibrada sem coração.

― Eu não sabia disso. ― murmurou Fernanda, espantada.

― Você não imagina o que é alguém vir e roubar seu amor.

― Devo imaginar o quanto seja ruim.

― Ruim é muito pouco, amiga. É tão triste ver seu amor nos braços de outra. Que Deus nunca te deixe passar por essa situação.

Milene chorou com tanta convicção que aturdiu Fernanda.

― Você é muito jovem, Milene. Não deveria perder seu tempo se lamentando quando há tanta coisa boa para a gente fazer. Dá para se divertir muito, ninguém precisa de namorado para isso.

― Sei que Iury já ama Aimée e fico feliz por isso. Espero de verdade que Aimée e Iury sejam muito felizes juntos. Eles são abençoados por mim, formam um lindo casal. Mesmo que Iury nunca me veja como mulher, sinto-me de alma lavada porque ele enxergou que tipo de lambisgoia a Laly é e deixou de ser otário.

― Minha irmã merece muito ser feliz. Ela já sofreu muito por canalhas.

E hoje mesmo vai para o inferno, pensou Milene, imaginando a dolorosa e imediata morte de Aimée, deixando escapar uma risada percebida por Fernanda. Não me importo se ela for acompanhada. Ela e essas moscas-mortas.

Pobre coitada. Não parece ser muito certa das ideias, pensou Fernanda. No entanto, dez minutos após Milene ir embora, Mayra chegou e soube da estranha visita da prima de Laly.

― O que ela queria com você? ― pressionou Mayra, irritada, mas também assustada.

― Milene tem uma mente meio fantasiosa. ― atalhou Fernanda.

Meio fantasiosa? Milene é completamente louca!

― Sério? Ela até chorou me contando umas histórias…

― Que histórias?

― Nada de importante.

― Se for algo que envolva o meu nome e o da Lalinha, eu tenho o direito de saber.

Fernanda ponderou muito se deveria dar prosseguimento aos relatos ou deixar o assunto morrer ali para evitar mais desentendimentos, uma vez que só confirmaria se Milene falava a verdade, permitindo que o tempo a mostrasse quem merecesse sua confiança.

― Mudando de pato para ganso, tive um pressentimento engraçado de que você viria, por isso mesmo trouxe bolo.

― Bolo? ― Mayra reparou no recipiente com bolo de chocolate na mesa.

― Obrigada, amiga. De coração.

― Bolo? Que bolo? ― Mayra redarguiu, franzindo o cenho. Se tivesse trazido bolo para a amiga, nunca pediria para Milene entregá-la.

― Como “que bolo”? O bolo que você fez e pediu a Milene que entregasse.

― Eu não fiz bolo nenhum, Fernandoca ― negou Mayra.

― Não?

― Não, mas estou com uma fome tão grande. Não faz mal se eu pegar um pedaço? Só um pedacinho, vai, uma lasquinha de nada.

― Fique à vontade, May. Pode pegar quantos pedaços quiser. Você está em casa, amiga.

Mayra apanhou do armário dois pratinhos de bolo, dois garfos e dois guardanapos de papel e serviu Fernanda.

― Acho que hoje vai chover. Milene fazendo bolo.

― Até que ela fez uma ótima ação, pois eu estava com muita vontade de comer bolo. ― Confessou Fernanda. Tanto ela quanto Mayra ingeriram um pedaço de bolo cada e voltaram a prosear, jogar videogame, embora o veneno já estivesse fazendo efeito sem que soubessem.

― Amiga, se importa se eu for para casa mais cedo? ― Perguntou Mayra já pálida e com sudorese. ― Sei lá, não estou me sentindo muito bem.

Fernanda estava um pouco tonta e não se sentiu disposta para se levantar do sofá e acompanhar a amiguinha até a porta, pelo menos.

― Não estou me sentindo muito bem…

― Tudo bem, eu também não estou. Não se importa se eu não puder ir até a porta, não?

Mayra só teve tempo de voltar para casa, pois assim que Naira abriu a porta, a menina desmaiou em seu colo.

Fernanda estava febril e gemia de dor no sofá. Gilberto, que foi pescar com Aimée e Iury, teve intuição de voltar antes. Eles encontraram a filha do meio num estado lastimável.

― Pai… ― delirou Fernanda.

― Fernanda. O que houve? ― Aimée se dirigiu até o sofá e se horrorizou por confirmar a quentura da testa da irmã. De manhã ela estava alegre, consciente, sem nenhum sintoma incômodo.

Eu vou morrer.

― O que você tem, Fernanda? Fala para a gente, por favor. ― pediu Aimée.

― Eu vou morrer. ― Fernanda murmurou com o pouco de voz que lhe restava.

― Não vai, Fernanda. ― consolou Gilberto, colocando a filha no colo para levá-la até o hospital mais próximo, sugestão de Iury que foi prontamente atendida. Lá eles se encontraram com Emília e Naira também dando entrada com Mayra desacordada.

― Eu vou ficar aqui com você. ― Iury apertou a mão de Aimée, que o abraçou e ensopou a camiseta dele chorando muito pela irmã, temendo que esta não sobrevivesse.

Gilberto voltou para casa a fim de avisar Gabriel sobre o mal-estar de Fernanda, mas não o encontrou, decidindo então lavar a louça suja, percebendo algo anormal ao encontrar o recipiente aberto com o bolo de chocolate. Ao utilizar a faca para cortar um pedaço, é indescritível a reação do homem ao constatar veneno de rato na cobertura.

(continua)

Notas finais
Iury gostou mesmo do borogodó... hahahahahaha Sem palavras sobre a Milene, mas nos comentários vocês podem esculhambar a bruaca, acho que isso pode, né? Porque vocês não estão falando de uma pessoa real, mas de uma personagem...