Confissões de Laly
14 12. Tarde de terror (Laly)
Notas iniciais
Terceira pessoa off/Laly on
Gustavo Figueira Antares temendo uma represália passou o dia me fazendo companhia, melhor dizendo, atrapalhando os meus afazeres diários, tarefas que ainda eram incumbidas a mim. Sem assunto, emendava algumas futilidades para não entediá-lo, torcendo sempre para que a qualquer momento o mauricinho olhasse de relance para o relógio Rolex e resolvesse partir para algum compromisso mais relevante que ver uma garota torcendo panos molhados e esfregando o chão com sabão em pó.
― Eu embarco para Curitiba nesse final de semana.
― Para onde? Posso saber?
― O vestibular é no próximo final de semana.
― Que vestibular?
― Como assim, qual? O da Federal.
Ele deu de ombros.
― Quero que saiba que não pega nada bem para a futura esposa de Gustavo Figueira Antares ser flagrada flanando sem a presença do seu homem.
― Não me diga que preciso pedir permissão a você para fazer vestibular? Voltamos à década de 1950 e ninguém me avisou? Porque, até onde eu sei, estamos em 91, eu sou livre para ir e vir, ralei muito para pagar essa inscrição e vou fazer essa prova.
― Ainda com essa ideia de vestibular, Laly? Até quando? ― Indagou ele, horrorizado porque certamente minhas vontades iam contra o fluxograma maligno em que fui inserida até ser usada à exaustão, sem direito de resposta, sem férias nem adequada remuneração.
― Até quando você vai sustentar essa farsa, Gustavo? Será que você não percebe que essa obsessão não te leva a nada? Eu não te amo, você também não me ama. Não é justo com ninguém. Eu quero fazer faculdade, trabalhar, não quero me casar, ter filhos.
― Por que tem de ser jornalismo?
― E eu te pergunto: por que comigo?
Abraçando-me por trás com segundas intenções, Gustavo me impedia de continuar passando rodo no chão da cozinha.
― Me larga, Gustavo. Não está vendo que eu estou ocupada? ― reforcei o tom de voz como se implicitamente também deixasse claro que era contra aquele comportamento perverso e doente com que se apossava de mim.
― Aposto que se fosse o caixoteiro você tirava a roupa agora mesmo, não é? ― Gustavo ironizou agarrando minha cintura, sem qualquer pudor.
― Vê se me respeita, hein. Você trate de me respeitar porque eu não sou propriedade sua, não. Você não pode falar e fazer o que quer comigo, não. Baixa essa crista, cara.
― Por que não deixa de marra e faz amor comigo, hein? Sou seu homem, não sou?
― Nojento.
A entonação nefasta de Gustavo me enojou a ponto de empurrá-lo contra o fogão o fazendo cair no chão molhado. Corri para o quarto onde coloquei uma cadeira contra o trinco da porta. Insistente, o mauricinho socou com violência a porta do dormitório.
― Abre essa porta, Laly!
Gustavo esmurrou a porta.
― Vá embora! ― Gritei o mais alto que podia, na esperança de afugentá-lo, o que nunca aconteceu.
― É melhor que abra essa porta por bem ou eu mesmo abrirei.
― Faça o que quiser, mas vá embora!
― Meu bem, facilite as coisas...
― Se você não parar de me perseguir eu vou te denunciar. Eu vou te denunciar.
Silêncio total no recinto.
Suspirei aliviada e me sentei na cama para recuperar o fôlego e a tranquilidade. No entanto, a porta foi arrombada alguns segundos depois. Aos chutes, vindo abaixo. Gustavo, com o cinto por entre as mãos, mostrava ter pique de sobra para me vencer. Desesperada, corri para pular a janela e pedir socorro, mas não tive sequer a sorte de colocar uma das pernas para fora. As mãos dele correram pelo meu braço e o torceram com violência.
— Repete, putinha. — vociferou Gustavo, ofegante de tanto ódio: — Vai me denunciar, é?
Meu rosto se virava para o lado oposto em função do hálito fétido dele que entendendo meu gesto como uma afronta me acertou com o cotovelo.
— Denuncie-me agora se for capaz!
A pele do rosto queimava com as tantas bofetadas, o silêncio acentuava o desejo dele por retaliação, sendo a minha humilhação o mais estimulante dos temperos afrodisíacos em voga.
Segurando-me pelo braço machucado, Gustavo me atirou contra a cama, calando-me com insultos pesados demais para descrever, despindo-me a custo de bofetadas, deitando-se de bruços, com uma das mãos segurando o meu pescoço, a fim de penetrar-me pelo ânus, por mais que meus últimos urros de desespero clamassem por um pouquinho de piedade por parte daquele que desconhecia o significado literal de tal vocábulo.
Minutos depois, já recomposto, Gustavo Figueira Antares tirou de dentro da jaqueta uma Glock a qual mirou em minha testa.
— Não crie problemas, querida! Ninguém deve saber o que aconteceu aqui entre nós. Não queira que pensem que além de puta você é louca também. Gosta de segredinhos, não gosta? Pois bem... Guarde mais um...
― Filho da mãe. Um dia você vai pagar por todo o mal que está me causando.
— Que mal? — quis saber Gustavo. — Você devia me agradecer por te tirar dessa pocilga imunda e te fazer gente.
— Imundo é você.
Gustavo brincava com a arma com o intuito de me intimidar.
― Eu não gosto de resolver meus problemas com armas e só o faço em última instância. Por favor, meu bem, não faça mais com que eu perca a paciência. Sou um homem muito gentil e bondoso.
Gustavo se levantou da cama já vestido e percebeu que eu ainda estava chorando.
― Está chorando por quê? ― O mauricinho debochou, olhando-me por cima dos ombros, como se eu fosse uma maluca qualquer a inventar uma situação que nos colocasse em poses assustadoras.
― Ainda pergunta?
― O que eu fiz de errado? Até parece que eu sou um monstro para que você tenha medo de mim...
A campainha tilintou.
Aflita, vesti-me depressa e tentei sair do quarto para atender a porta. Gustavo me arremeteu contra a parede.
— Onde é que você pensa que vai?
— Atender a porta. Estou na minha casa, não se lembra?
― Deixe que eu atendo. ― Sorriu Gustavo, passando de inescrupuloso estuprador ao noivo apaixonado em questão de segundos.
― Mas eu estou em casa.
― Não, não, não... ― censurou Gustavo. ― Eu atendo...
― Pode ser a May. Deixe que eu vá atender...
Gustavo saiu do aposento batendo raivosamente a porta como se fosse dono da propriedade e era assim que se julgava possuidor de todos nós, meros súditos predestinados a viver fazendo seus caprichos.
Trancou-me pelo lado de fora.
Pelo timbre de voz era Mayra quem havia vindo me visitar. Ao que se entendia, Gustavo a estava enxotando da minha própria casa.
― Não é bom que uma mulher casada como Laly fique proseando com pirralhas. Por que não vai brincar de boneca, hein? Vá procurar sua turma e deixa a Lalinha em paz, pirralha chata!
― E por que você não vai procurar outra mulher para importunar, hein, seu tarado desgraçado? Sei muito bem que você está fazendo a Lalinha sofrer... A LALINHA NÃO TE AMA!
― Não me faça sujar as mãos de sangue!
― Suje e vai para a cadeia, seu monstro.
― Comporte-se mal e eu vou ter uma conversinha com D. Emília, sua mãe. Insolente como é, está fazendo por merecer umas palmadas para deixar de ser enxerida e procurar a sua turma!
― Pode ter certeza que minha mãe não vai acreditar em um mentiroso como você.
― A fedelha não sabe com quem está falando... ― Quando ele se voltava a alguém com a entonação de ameaça, eu sabia que ele era capaz de tudo para que seu sobrenome continuasse sendo a referência de moral.
Mayra era a única que parecia enxergar a verdade, então resolvi apelar para os gritos esmurrando a porta e utilizando toda força que tinha nos pulmões e garganta, chorando como se fosse à última vez que o faria. De frente para um Gustavo fora de si, a morte era dada como certa. Se não fosse aquele dia, seria em breve.
― Me tira daqui, Gustavo. Tira-me daqui. Alguém, por favor, me ouve.
― Me deixa entrar e falar com a Laly. ― implorou a garotinha.
― Não... Melhor não... ― Gustavo desconversou, como se eu não passasse de um objeto nas mãos dele, um brinquedo o qual lhe interessava muito desmontar.
Assim que Mayra retirou-se, Gustavo retornou ao meu quarto, despiu-me com violência outra vez e me surrou de cinto. Minhas costas mal haviam se recuperado da última surra de papai e já estava levando outra e o que é mais tenebroso: do homem que dizia me amar mais do que a própria vida.
Mais um estupro.
― Quanto mais gritar, mais forte irei te surrar.
― Me mata de uma vez. Eu não aguento mais isso.
― O melhor que faz é resistir... Eu sou seu noivo, tenho desejos e você como minha mulher é obrigada a satisfazê-los, goste ou não. ― E sussurrou: ― E vai ser assim até o fim...
Quando ouvi meus pais voltando para casa, torci para que Edílson o flagrasse me violentando para a polícia ser chamada e o drama acabar, mas ao invés disso Eleonora quis companhia para comprar alguns ingredientes para o jantar, o que deu tempo para Gustavo arquitetar um enredo perfeito para subir nos conceitos de Edílson.
Coberta até o nariz em meu leito cheirando a suor de Gustavo, o próprio com pesar no olhar e na voz, avisou a meu pai:
― Encontrei Iury e Laly discutindo muito severamente. ― Lamentou o noivo, detalhando a briga com requintes horrorosos, descrevendo os golpes de Iury contra mim, as palavras de baixo calão e todas as minhas inexpressivas tentativas de me desvencilhar do tal relacionamento doentio o qual eu queria colocar fim, não aceito pelo surfista revoltado, que abriu a primeira gaveta do armário da cozinha, desarrumou os talheres e ameaçou meu noivo com uma faca.
Da maneira com que Gustavo se expressava, tinha-se mesmo a impressão de que eu lhe devia a vida e um pouco mais. Segundo o próprio, Iury me abusava emocional e fisicamente desde o início do namoro, o que acentuou o antigo ódio já cultivado por Edílson.
Ao analisar os hematomas horríveis pelo meu corpo, Edílson consternou-se. Eleonora era alheia à situação, apenas figurando o ambiente, como se o ar pesasse com minha presença.
― Mentiroso! ― Contestei aos berros e só não levei um soco no rosto porque o próprio Gustavo conteve os braços de meu pai no referido instante.
― Senhor Edílson, por favor... É normal que Laly tente defender o ex-namorado. É um comportamento natural de quem sofre abusos. Ela não consegue enxergar a realidade da mesma forma que nós, não nos cabe julgá-la. Ela acredita que a violência seja uma forma de expressar amor e nosso dever é mostrar-lhe o contrário.
― E depois ela queria trazer esse monstro pra nossa casa. ― revoltou-se o pai de fachada.
― Não é assim não...
Com a voz engrolada por conta dos tranquilizantes, tentei dar meu parecer acerca da situação porque Iury podia ter muitos defeitos, mas da referente acusação eu tinha de defendê-lo e, sobretudo a mim, a minha ida para Curitiba, minha última esperança.
― Olhem só o estado deplorável o qual a garota está? Vocês irão mesmo deixá-la viajar para Curitiba nessas condições? ― Gustavo gesticulou com indignação.
― Laly não irá para Curitiba nem hoje nem nunca. ― Edílson reforçou sua opinião, tratando aquelas palavras com muita responsabilidade, fazendo delas um ultimato que afetava (e muito) o meu futuro.
― Pai... ― gemi, decidida a ser ouvida. ― Meu vestibular é a minha vida. Preciso ir, não importa de que forma.
― Eu já disse e não se fala mais sobre esse assunto dentro dessa casa.
― Pai... ― O choro poderia comovê-lo, o que obviamente não era cabível naquela conjuntura em que me inseriram, onde qualquer um decidia meus passos sem levar em conta o meu parecer.
― Não ouviu o seu pai, mocinha? Nada de vestibular. Mulher casada não faz vestibular. Mulher virtuosa se dedica ao marido e aos filhos, essa é a verdadeira vocação da mulher. ― Eleonora intrometeu-se passando os braços em volta dos ombros de papai.
― Eu quero fazer o vestibular. Eu tenho esse direito. Eu não quero ser mulher virtuosa.
― Você não vai fazer vestibular coisa nenhuma. Nem chance tem de passar, como assim? Você vai ficar aqui, se curar desses hematomas horríveis e, se possível, casar-se com Gustavo o quanto antes. É o melhor para você. É o melhor para todos nós. A mulher sábia edifica a sua casa, lembre-se do que está na bíblia, já que você se acha melhor do que Deus e peca tanto. Deus está te dando uma chance de redimir das tantas vergonhas que já fez seu honrado pai passar. Fornicação é pecado, você sempre foi criada dentro da igreja, sabe disso e pecou com o caixoteiro durante três anos. Deveria agradecer que um sujeito distinto como o Gustavo, mesmo sabendo que você não é digna nem pura, ainda quer te desposar e te dar uma vida de princesa. Sua consciência é quem sabe...
― Laly é apenas uma adolescente revoltada... ― concluiu Gustavo. ― Em questão de tempo a colocarei nos eixos. Por enquanto vamos deixá-la repousar, ela acordará mais calma e reconsiderará tudo que foi dito, saberá que esse negócio de vestibular é uma bobagem...
― Deus te ouça, meu filho... ― murmurou Edílson, acompanhando meu noivo até a porta do quarto.
O vestibular seria dentro de dois dias. A passagem já estava comprada. Eu poderia muito bem entregar os pontos e ser a senhora Figueira Antares por toda a vida, mas fui destemida o bastante para arrumar minha mochila e partir rumo à rodoviária. Beijando o bilhete, consegui encontrar um canto confortável onde cochilei e despertei já em Curitiba, três horas e nenhum sonho depois.
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