Confissões Adolescentes
5 No escurinho do cinema
Notas iniciais
Do Contra chegou do colégio com um sorriso nos lábios naquela segunda, abriu a porta e deu de cara com seu irmão Nimbus sentado no sofá da sala assistindo uma coisa sem graça qualquer.
— Viu o passarinho verde, maninho? – Perguntou debochado.
— Não enche! Só aconteceu uma coisa... Diferente! – Respondeu.
— Nossa, tá ficando previsível, hein? Claro que aconteceu algo diferente para você tá assim!
— Mãããããããããe! O Nimbus tá me enchendo aqui! Até me ofendendo... Ora, previsível! – Saiu jogando uma almofada no rosto do irmão e indo irritado para seu quarto.
Jogou-se na cama e ligou a televisão para ver seu filme preferido que estava pausado, “O Palhaço e a Panqueca” ainda era um clássico que ele jamais cansaria de assistir. Um tempo depois seu celular deu um alerta de mensagem, ele pegou rapidamente e viu que era dela, seu “motivo diferente”.
Qualquer um poderia dizer que uma outra garota afim dele não era uma coisa diferente, e realmente, o ato em si não era uma coisa incomum, mas sim a pessoa que não era qualquer uma. Mônica não sabia, mas Do Contra a vira crescer, enquanto os outros a achavam esquisita por não sair de casa, ele sempre pensou na palavra “interessante”, tinha muita vontade de conhecê-la e entender os motivos que a prendiam ali.
O rapaz lembrava claramente de um dia tê-la visto sair para brincar, fora há muito tempo, porém, coisas assim ele guardava muito bem. Os outros meninos a hostilizaram, ele a defendeu, não sabia se ela recordava dessa parte, mas provavelmente não, já que corria sem parar atrás do Cebolinha com um coelho de pelúcia. Depois desse dia eles nunca mais a viram sair para brincar, era apenas de casa para o colégio e do colégio para casa, saindo de vez em quando de carro com Carminha.
Entre todos esses pensamentos acabou visualizando a mensagem, porém, deixou de responder, quando voltou ao filme jurava ter respondido à menina, entretanto, só percebeu muito tempo depois que não.
Era quase hora do filme e ele se quer tomara banho, correu para o banheiro e fez tudo o mais rápido que conseguiu, se sentiu meio Cascão pelo tempo no chuveiro, mas não tinha outra escolha. Deu uma última olhada no celular para saber se ela havia respondido, só então percebeu que ele não havia mandado nada. Escreveu algo rápido, se sentindo culpado, e enviou, infelizmente não tinha tempo para esperar, colocou seu jeans de sempre, uma camisa preta, pegou dinheiro e saiu.
Quando chegou ao cinema encontrou os amigos a sua espera, viu Magali e Cascão conversando num canto, Cascuda conversava com Marina e Denise, mas não tirava os olhos dos dois um único segundo, o casal se separara fazia alguns meses, porém, pelo menos pela parte da moça, ainda existia uma pequena vontade de reatar o romance.
— Ai, finalmente podemos entrar! Tá atrasado, sabia? Já compramos os ingressos! – Denise falou entediada por esperar.
— Vocês já decidiram o filme? – DC perguntou torcendo para ter ouvido errado, os amigos nunca atendiam suas escolhas.
— Oi? Tá com problema auditivo, querido? Eu disse que já-com-pra-mos-os-in-gres-sos! – A moça voltou a falar pausadamente e ele revirou os olhos.
— Gente, ainda falta a Carminha! – Magali lembrou de repente momentos antes de entrarem.
— Eu não acredito! Essa garota é nova no grupo e ainda vai fazer a gente se atrasar? – Cascuda comentou já estressada também.
— Calma! Eu posso esperar aqui fora pra entregar o ingresso. – Magali avisou.
— Eu faço companhia pra Maga. – Cascão sorriu percebendo a oportunidade.
— Então eu também fico! – Maria Cascuda interviu entendendo a intenção do ex-namorado.
— Não precisa, nem queria ver esse filme mesmo, deixa que eu espero. – DC acabou a discussão puxando os ingressos dele e de Carmen da mão da Magali.
O menino nem sabia qual era o filme, entretanto, conhecia o gosto comum dos amigos e teve a sensação de que não fosse gostar tanto assim quanto eles, portanto, quanto mais a loira demorasse a chegar, mais tempo ele ficaria sem assistir quase duas horas de algo que detestaria.
Para o seu azar, a garota chegou cerca de vinte minutos depois que a turma entrara na sala de cinema. Ela o viu e aproximou-se praticamente desfilando naqueles saltos altíssimos, como conseguia, ele já não sabia!
— Não acredito que sou a segunda a chegar! Demorei tanto pra isso? – Carminha questionou-o surpresa.
— Então cê se atrasou de propósito? – Quando viu que a garota não responderia, completou. – Eles cansaram de esperar e já entraram, vamos logo se tá afim de assistir esse filme!
Carmen realmente estava com vontade de conferir a produção cinematográfica com seu artista de cinema preferido, mas logo percebeu que essa não era a vontade do rapaz de cabelos negros que estava em sua frente.
— Pra falar a verdade... A Mônica que tava super afim de assistir, eu não faço a menor questão!
Do Contra ficou um pouco desapontado ao saber que a baixinha gostava de coisas tão comuns iguais aquela, porém, tentou não demonstrar e fez cara de quem não se importava nenhum pouco com o que acabara de ouvir, se eles ficassem, tinha certeza que a menina acabaria encantando-se com filmes mais clássicos, como por exemplo, O Palhaço e a Panqueca.
— Já que cê não quer assistir, eu é que não vou insistir! Que acha de darmos uma volta no estacionamento enquanto esperamos eles? – Perguntou à loira.
— Estacionamento? Mas a gente tá no shopping! Tem milhares de vitrines pra olhar!
— Urgh! Já esperava por isso... Então vamos, né! – E foi acompanhar a moça que tagarelava sem parar. Havia coisa mais previsível do que ir ao shopping para olhar vitrines?
Os dois voltaram à parte do cinema quase duas horas depois e cheios de sacolas, Carminha não conseguia só ver as vitrines, também tinha necessidade de comprar o que estava ali, então a tortura durou mais do que ele imaginara, pegou-se desejando que estivesse assistindo ao filme com a turma.
— O que aconteceu com vocês? Ficamos preocupados, poxa! – Magali falou e dava para notar a sinceridade em sua voz.
— Só não queríamos assistir a esse filme tão out. – Carmen respondeu seca.
— E quem vai pagar os ingressos que compramos, hein? É muita falta de consideração... – Denise falou enquanto enrolava as marias-chiquinhas nos dedos.
Carminha começou a tirar o dinheiro para pagar, mas foi surpreendida com a mão do DC impedindo-a de fazer isso.
— Aqui! O meu e o dela. – Disse estregando o dinheiro nas mãos de Denise que se pôs a contar as notas rapidamente.
Como os amigos haviam comido muita pipoca, refrigerantes e doces na sala de cinema, ninguém mais quis lanchar na praça de alimentação. Carmen até se ofereceu para acompanhá-lo, mas ele recusou educadamente, não aguentava mais ouvi-la falar um só instante, preferiu voltar para casa com a barriga roncando.
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