Confissões de Laly

31 Capítulo 28 - Revelações de réveillon


Emília Sanches e as filhas receberam os parentes em casa, enquanto a família Gallardo viajou para Chapecó e retornou no dia 27 de dezembro para virar o ano em Guaratuba.

Fernanda e Mayra, após persistirem muito, conseguiram o consentimento dos adultos para promover uma festa de ano-novo na rua e passaram os últimos dias do ano tratando dos preparativos nos mínimos detalhes. O evento atraiu a atenção dos jovens das redondezas. Apesar de Gilberto ter vetado o consumo de bebidas alcoólicas, não era pretexto para divertir-se menos.

Aquela era a primeira virada de ano que Fernanda Gallardo passaria acompanhada de um namorado. Emília Sanches não objetava o comportamento de Mayra porque enxergava potencial empreendedor naquela menina sapeca que crescia a olhos vistos e mostrava ímpar determinação quando se propunha a levar uma ideia adiante. Naira, no entanto, rejeitou a ideia de participar da festa e quebrou a própria rotina de dormir cedo tão somente para participar da missa de vigília que começaria às dez da noite, sem hora para acabar. À meia-noite haveria uma ceia especial regada a muitas orações.

Gabriel e Grazielle estavam de pleno acordo com a festa e sentados de mãos dadas no meio-fio em frente à casa de Gabriel, namoravam e planejavam, jurando sempre que o amor que os uniu seria eterno e imutável.

— Nesse ano o melhor ficou para o final. — refletiu Gabriel, dando colheradas de sorvete na boca da namorada.

— Nem acredito que depois de tudo que passamos iremos virar o ano juntos, Gabriel.

— O primeiro de muitos anos juntos, meu amor.

— Então quer dizer que ficaremos juntos para sempre?

— Só depende de você.

O casal trocava afagos no rosto, selando o momento romântico com um beijo que carregado de esperança, ousadia adolescente, do leve sabor floral que se prende aos lábios como prova de que cada página daquela história não padeceria as marcas do tempo, muitas vezes cruéis.

Anos antes, outro conhecido casal experimentou essa sensação.

Aimée Gallardo passou horas provando o guarda-roupa inteiro, fazendo e refazendo a maquiagem, tudo para impressionar e satisfazer Iury, mal se alimentou durante o dia em razão da forte ansiedade. Segundo cochichos, Iury viria à festa, mas já passavam das dez e meia da noite e não havia nenhum sinal dele.

— Fernandoca! — chamou Aimée.

Fernanda e Mário estavam se amassando num cantinho escuro da festa e demoraram um pouco para se recompor.

— Que, hein, Aimée?

— Viu o Iury?

— Não… Não sou babá dele, não.

— Estou procurando Iury há mais de uma hora. — disse Aimée, aflita. — Ele me jurou que vinha.

— Sei lá… Procure de novo… Ele deve estar por aí… — finalizou Fernanda, olhando com impaciência para Mário.

Amado Moraes não esperava ninguém naquela noite, detestava viradas de ano e se esforçava demasiado para cumprir o papel social. Em outros anos costumava passar na companhia de Edilson e Eleonora. Poderia esperar uma visita do irmão na última hora ou algum vizinho, mas reconhecer Iury Saciotti não estava nos planos.

— O que deseja aqui, mocinho?

— Sou Iury.

— Minha sobrinha já desfez o namoro com você e não está aqui em casa.

— Não vim ver Laly, vim ver Milene. Sinto muito informar, mas você errou de casa. Laly mora a três quadras daqui e está em Curitiba passando férias com os tios.

— Sim, eu sei disso, senhor. — sorriu Iury, vestindo branco da cabeça aos pés. — Não vim ver Laly. Vim ver Milene.

— Veio ver Milene? — inquiriu Amado.

— Ela está?

— Não!

— Como não? Ela me disse que eu deveria buscá-la em casa. Sabe, combinamos de ir a uma festa e…

— Minha filha não costuma ir a festas.

Até onde Amado tinha conhecimento, Milene detestava festas, som alto, bebidas, gritarias. Em partes continuava sendo verdade, mas a garota tinha um forte motivo para comparecer à festa promovida por Fernanda e Mayra. Estava esclarecido o enigma.

— Escute aqui, garoto: o que você quer com a minha filha?

— Milene não te contou?

— Contou o quê, rapazinho?

— Que… Eu sou o namorado dela… — gaguejou Iury, que não passou por temor igual nem quando assumiu ao senhor Edílson que namorava Laly.

— Namorado… — ralhou Amado, indignado demais para olhar nos olhos daquele rapaz e acreditar na sentença que rasgava seu coração ao meio, sem anestesia.

— Sim, com a sua permissão.

— Isso nunca!

— Eu te… tenho boas intenções com a Milene, senhor.

— Ouça bem, rapazinho atrevido: se eu fosse você, me afastava da minha filha. Conheço muito bem o que um rapaz da sua idade quer com as meninas. Além disso, já deixo bem claro que acabo com a sua raça se você aprontar alguma para cima da minha menina.

— Quero namorar a sua filha e espero que o senhor nos dê a bênção.

— Minha filha não me daria esse desgosto de namorar um pé rapado que não tem nem onde cair morto. Minha filha me deve satisfações!

Milene, usando um vestido de crepe branco e um arco na cabeça que sugeria uma menina inocente descobrindo a beleza e os encantos do primeiro amor, surgiu na sala. Sem perceber, Iury sentiu um nó apertar-lhe a garganta porque ao ver a namorada produzida para se divertir, foi inevitável não se recordar com exatidão do primeiro ano novo em que ele e Laly passaram juntos:

— Papai, está assustando o Iury por acaso? — quis saber Milene.

Amado voltou-se para a filha:

— Vê se tem cabimento esse fanfarrão dizer por aí que é o seu namorado…

Milene, segurando uma bolsa de mão, olhou para Iury, para o pai, para o chão e suspirou profundamente:

— Papai, eu acho que precisamos conversar.

— Filha, por favor, me diga que é mentira, que você não vai magoar o papai dessa maneira… — suplicou Amado, sentindo uma fisgada no peito como se estivesse sendo preterido.

— Papai, o senhor não vai dar sua permissão para eu namorar? — indagou Milene, apreensiva, lançando o olhar doce que fazia o pai curvar-se a todas as suas vontades.

Amado Moraes chorava de tristeza por perder a filha para Iury no sentido amplo da expressão.

— Papai, por favor! — admoestou Milene, revirando os olhos. — Eu não fui pedida em casamento, estou só namorando…

— Minha menina não pode namorar! — protestou Amado, mas Milene não o deu atenção, arrastando Iury para a porta a fim de não perderem um único minuto da festa. Ainda havia mais alguém que precisava ver o mais novo casal.

Mário Lima encarregou-se de preparar as caipirinhas que rapidamente caíram no gosto dos festeiros que dançavam, sorriam, beijavam e aguardavam como nunca a queima de fogos saudando o novo ano.

Naira abandonou Nilton na última hora para participar de uma vigília de ano-novo na paróquia, Milene Moraes monopolizava a atenção de Iury, restando apenas à companhia da doce e agradável Mayra que, assim como ele, estava sem par.

— Já decidiu o que vai pedir quando o novo ano chegar? — Perguntou Mayra, curiosa.

— Não sou muito bom em fazer pedidos, mas tenho lá as minhas ambições.

— E você acha ruim ter ambições?

— Não necessariamente!

— Tenho certas ambições.

— Já me convenci de não ser o melhor pagador de promessas do mundo porque todo ano prometo que serei mais ativo, mas falho na primeira ida à sorveteria.

— Todo ano prometo que não vou deixar para estudar toda a matéria na véspera das provas, mas na primeira prova já estou fazendo isso.

— Estamos juntos nessa, então!

Ela meneou a cabeça, compenetrada no assunto.

— Você acha mesmo que eu seja uma boa companhia na noite mais importante do ano?

— Do contrário eu não estaria aqui!

— E você, May? O que vai pedir?

— Já que você se comportou de um modo tão enigmático, isso me autoriza a ser enigmática também.

— Eu sou muito enigmático?

— Mais ou menos — gesticulou Mayra, sapeca.

— Bom saber…

— Não é ruim, mas também não é bom.

— Em que sentido?

— Quando você não consegue expressar os seus sentimentos, as pessoas acabam se prevalecendo disso.

Nilton continuou observando as feições serenas do rosto de Mayra enquanto ela se punha a divagar:

— Quando você está com a Naira, por exemplo, você consegue ser assertivo com ela e demonstrar que está levando o namoro a sério ou vocês continuam sendo amigos que beijam na boca?

Nilton se espantou com a reflexão sincera de Mayra a respeito do namoro. Ela ilustrou a verdade e a percepção ampliou a sensação de desolação. A Naira das imaginações pueris era a namorada tímida e medrosa, a real não terminava o namoro e, ao mesmo tempo, não deixava claro se queria mesmo namorar ou estava ali por estar, sem interesse real, sem pensar no futuro, sem se importar com os sentimentos dele.

— Sua irmã é muito tímida e eu preciso respeitar o tempo dela.

— Concordo plenamente com você, Nilton, mas não se anule. Tá?

— Tá bom, May. E obrigado pela terapia.

— Às suas ordens, amigo. Amigos são para essas coisas!

Aimée procurava Iury. Telefonou para a casa dele, mas o telefone tocou até o final e ninguém atendeu. Insistiu até concluir que ele devia ter se atrasado ou não viria.

Quando o viu beijando Milene com ardor para quem quisesse ver, não suportou a dor e entrou correndo em casa, logo no momento da contagem regressiva. As lágrimas destruíam toda a maquiagem, as esperanças, o ano que mal nascia e já prometia ser lembrado pela imensa dor. Nada humilhava tanto quanto viver uma ilusão e sofrer sozinha, sem compaixão, sem saída, porque das responsabilidades da maturidade ninguém está escape.

Chorando compulsivamente, Aimée entrou em casa e subiu as escadas numa disparada que assustou Gilberto, que acompanhava o especial de virada em uma emissora de tevê qualquer.

Enquanto na rua, os casais se beijavam, Aimée chorava no colo do pai atencioso que, além da presença, dava os mais belos e sábios conselhos, difíceis de serem colocados em prática.

Milene Moraes sentia-se satisfeita por estragar o ano-novo de Aimée, mas a alegria esvaneceu tão logo perdeu Iury de vista. Ele sumiu como que por encanto e a festa ia perdendo a graça porque ninguém prestava a menor atenção nela. A pecha de problemática e envenenadora a perseguiria para sempre.

Somente alguém que chegou recentemente à cidade e desconhecia o currículo de atrocidades de Milene consideraria confraternizar com a menina mais antipática do bairro, que não se esforçava nem sequer para ser cordial, sendo doce e gentil apenas quando e com quem convinha. Ou seja, para iludir àqueles que ainda se voltariam contra o mundo para defender o indefensável.

— Oi, Grazi! — acenou Milene, cínica. — Tudo bom?

— Tudo bom! — respondeu Grazielle, seca.

— Feliz ano novo, tá? — Milene se achegou para abraçar Grazielle, que não correspondeu. — Caramba, que festa mais parada!

Gabriel e Grazielle intermediaram um diálogo superficial com Milene para não darem muita abertura à garota.

— Vim mesmo saber se vocês podem me informar onde está Iury.

— Não o vi. — esclareceu Gabriel.

— Pensei que ele estivesse com você. — refletiu Grazielle.

— Ele estava comigo até pouco antes da virada, mas aí me disse precisar ir ao banheiro e até agora não voltou!

— Você não sente peso na consciência?

Milene fez uma expressão de espanto: — Por quê? Por que deveria?

— Para alguém que diz estimar a prima, ficar com o namorado dela não é a melhor demonstração disso!

— Iury agora é meu namorado! O tempo dela já foi, a barca dela já afundou. Rei morto, rei posto! Como você é quadrada mesmo, queria que o pobrezinho do Iury passasse o resto da vida esperando a Cinderela entojada desistir do príncipe ricaço para ficar com ele?

As feridas da injustiça culminaram para que Grazielle Rodrigues nunca mais visse Milene Moraes da mesma maneira. Sempre haveria desconfiança e temor. Nunca mais a amizade seria pura e desprovida de maldade. Diante de tamanhos agravantes, a indiferença era a melhor resposta.

Mayra, sempre muito diplomática, procurou curtir a festa sem sequer cumprimentar a antiga amiga. Perdoá-la pela mesquinhez de caráter era mais uma manifestação diplomática, fingir que nada aconteceu era outra. Impossível, por assim dizer.

Milene Moraes odiava ser ignorada.

Tão logo conseguiu, durante a contagem regressiva, Iury se afastou de Milene e se escondeu atrás do jardim da casa de Laly, com todas as luzes apagadas, onde se acocorou e chorou até não conseguir mais respirar, desaguando a alma porque não havia outra vontade maior naquele momento. Somente quando escutou movimentação se recompôs e procurou uma torneira para lavar o rosto e fingir que passou na casa dos pais para cumprimentá-los.

— Dei minha palavra de homem ao Sr. Amado e como o homem que sou não posso retroceder em minhas decisões. Laly é passado. Laly não existe mais para mim. Milene está decidida a me fazer muito feliz e eu farei o mesmo com ela! — suspirou Iury, decidido a continuar saindo com Aimée e Milene enquanto alimentasse o orgulho ferido com os prazeres da carne.

— Meu amor, quase pensei que já tivesse ido embora. — Milene se dependurou nos braços de Iury, apaixonada como poucas namoradas de primeira viagem saberiam ser.

— Foi difícil achar um banheiro, Mili. Aproveitei para saudar meus pais e acabei beliscando um pedacinho de pernil. Não se importa, né?

— Você foi visitar seus pais e não me levou junto… — bronqueou Milene lançando um olhar carente e repreensivo para Iury, olhando para o asfalto, para a sandália marrom de tirinha que ele usava, para os olhos castanhos dele e abaixando a cabeça.

— Meus pais ainda não sabem sobre você. — explicou o rapaz.

— Ou talvez você não goste de mim o bastante.

— Não é nada disso, Milene!

— Grazi pode ter razão no que disse sobre nós dois mais cedo. Ela disse que eu sou a pior pessoa do mundo só porque estou apaixonada por você.

— Não dê ouvidos àquela sebosa, meu bem.

— Ela disse que estou cometendo um crime e que você só está me usando porque a Laly está de casamento marcado com o Figueira Antares — lamentou Milene. — Posso ser só uma menina que pouco sabe sobre o amor, mas não aceito ser a sua segunda opção. Você tem que ser todo meu, só meu. Você tem que me prometer que não ama mais a Lalinha, que é a mim que você ama, só a mim!

— Não faz tanto tempo assim que começamos a namorar e eu ainda acho um pouco cedo para tornarmos a coisa toda pública.

— Então por que diabos me trouxe aqui? Esta é uma festa, estamos no meio de muitas pessoas. Se você não queria ser visto ao meu lado, Grazi deve ter mesmo razão: você ainda nutre esperanças de reatar com a Laly.

— Laly é passado, meu bem. — Iury beijou a testa de Milene, convicto de um dia acreditar nas próprias palavras. Fosse pelo amor ou pelo ódio, ainda estava muito ligado à Laly.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.