Confissões de Laly

24 Capítulo 21 - O envenenamento - parte 4


Notas iniciais
Obrigada, minha amiga querida, por todo o carinho. Aqui está mais um capítulo para você! =)

Amado, Emília e Gilberto prestaram queixa pelo envenenamento e Milene, apesar de ser menor de idade, era testemunha cabal no caso, depondo sem precisar de intimação, considerando que Grazielle já fora condenada pela opinião popular.

― Ela queria que eu comesse aquele bolo, mas como eu não quis, ela me ameaçou de morte…

Milene chorou com tanta convicção e comoveu o escrivão daquele distrito, pessoalmente comovido pelo caso por ter uma filha da mesma idade das envolvidas naquela história macabra.

― Ela colocou um canivete contra meu pescoço e me disse que se eu viesse depor contra ela, mataria a mim e a meu pai…

Emília, para atenuar o coração partido de Mayra, convidou Aimée e Fernanda para passarem o dia com a amiga. Elas apoiaram uma maleta de maquiagem e de manicure, a primeira pintando as unhas de bordô, a segunda usava uma máscara de argila branca no rosto e a terceira hidratava os fios, enluvando-os com um creme.

― Amiga falsa nesse mundo é o que mais tem. ― desabafou Aimée.

― Às vezes a gente convive uns 30 anos com uma pessoa e acha que sabe tudo sobre ela, mas basta um acontecimento para você perceber o quanto estava errada. ― refletiu Fernanda com a amiga deitada em seu colo.

― É tão triste pensar que ambas as meninas que gostei tanto e cresci junto são tão más. Sempre as considerei tanto, dividi minha vida com elas e sou vista apenas como um estorvo em seus planos? ― Mayra não poderia estar mais indignada.

― Fique feliz por se livrar desse tipo de amizade. ― aconselhou Fernanda. ― Se Deus não te deixou ir, é porque tem muita coisa preparada para você e digo isso mesmo sem ser nenhuma religiosa.

― E não pense que você está sozinha, May. Você tem a gente agora.

Aimée e Fernanda abraçaram Mayra com força.

Gabriel estava arrasado. Grazielle foi sua primeira namorada e também a primeira garota por quem se apaixonou. Quando se mudou para Guaratuba, a última coisa em que pensava era no quanto uma simples festa onde entrou de penetra poderia modificar sua vida para sempre.

Até aquela noite de novembro considerava-se um moleque qualquer que gostava de jogar videogame, futebol, apostar corrida com os outros jovens no carrinho de rolimã e não havia importância se ao final do dia os joelhos estivessem ralados, desde que se divertisse.

E então, sem permissão, certa garota de cabelos cacheados, aparentando quinze bem vividos anos, lhe sorriu, intencionalmente talvez, mas o mais lindo sorriso, este que tocou seu coração para sempre. Poderia passar horas descrevendo o quanto foi bom beijar pela primeira vez, compartilhar a experiência com a também inexperiente Grazielle e o quanto esses dias estavam sendo mágicos, para os dois.

Estavam.

Doloroso golpe. O sonho durou tão pouco.

Tudo fazia com que Gabriel se lembrasse de Grazielle. As revelações dos últimos dias não deveriam condizer com o comportamento de uma garota aparentemente dócil e pacífica, tão amante da vida.

― Poderia perder o dia todo aqui. — admitiu Grazielle, delicadamente encaixando seus dedos por entre os de Gabriel.

― Vendo o mar?

― Você é sempre tão chato assim?

― Ver as ondas se balançarem?

― Ai, Gabriel. Parece que você anda meio enferrujado. Não gosta de meditar; pensar na vida?

― Pensar na vida me entristece muito.

― Não digo pensar na tristeza.

― Então no que vou pensar?

― A gente tem muito a agradecer. Estar vivo é um presente, não sabia não? Às vezes a gente ocupa a mente com tanta porcaria e acaba deixando de apreciar as coisas simples, o que realmente importa.

E era o que Gabriel Gallardo estava fazendo. Perguntando-se como a primeira desilusão amorosa podia machucar tanto. Se não amasse Grazielle, seria mais um a condená-la, difamá-la, disposto a fazer justiça com as próprias mãos, ainda que isso não engrandecesse a ninguém. Se não a amasse, não estaria com o coração comprimido, em silêncio. Rezando para tudo não passar de um pesadelo, para que esses dias voem como as andorinhas. Suprimindo as lágrimas.

Homens não choram. Não, não podem.



O recipiente usado para comportar os pedaços de bolo que intoxicaram Fernanda e Mayra foram submetidos a uma minuciosa análise da perícia. Concomitantemente, Sabrina e Grazielle depunham no distrito policial:

― Milene fez o bolo na casa dela. ― alegou Grazielle.

― Milene afirmou não saber cozinhar. ― interrompeu o delegado com rispidez.

― Milene não sabe cozinhar? Ela não só sabe cozinhar, como prepara algumas refeições para o pai dela e bolos quando tem muita vontade de comer algo doce — relatou Sabrina.

Grazielle viu fotos do recipiente com os outros pedaços de bolo, o frasco do veneno e continuou respondendo ao interrogatório sem demonstrar hesitação.

― O produto pertence a ela.

Grazielle estava determinada a fazer a verdade triunfar. Era lógico que as feridas abertas, o trauma da humilhação e a perda do amor de Gabriel não seriam ressarcidos de uma hora para a outra, mas se pelo menos pudesse ver Milene pagar pelo que fez, seria capaz de sossegar. Nunca foi criatura de desejar o mal a ninguém, uma vez que cada um atrai para si aquilo que deseja, porém, queria a punição da verdadeira criminosa.

— Grazielle tem uma ligação profunda com animais, senhor. Ela se dedica tanto ao trabalho voluntário, cuidando dos animais com tanto amor. Até se matar um besouro sem querer, minha filha fica toda sentida. Coloco minhas mãos no fogo pela minha Grazi.

― Você sabe também que este produto, se ingerido por humanos, pode matar uma pessoa em questão de horas? ― questionou o delegado.

― Claro que sei! Deus me livre fazer mal a alguém a troco de nada!

― Em seu depoimento, Milene Moraes frisou que a senhorita a forçou a ingerir o bolo envenenado e a ameaçou de morte.

Milene é o Lúcifer cuspido e escarrado!, Grazielle pensou, arrepiada de medo. Conhecia a amiga o suficiente para não colocar as mãos no fogo por ela, entretanto, naquele fatídico episódio do envenenamento, compreendeu que a prima de Laly não sentia empatia por ninguém e não esboçava arrependimento algum.

― Minha filha não tem inimigos. Grazielle sempre foi uma menina muito sociável e amigável. Seus coleguinhas de escola não me deixam mentir. Pode perguntar a quem for… ― Sabrina Rodrigues insistiu, mas as evidências não favoreciam Grazielle. O pedido de prisão preventiva dela e da internação da jovem em um reformatório foi o espetáculo a interromper a programação normal daquela tarde.


Notas finais
Continua no próximo capítulo… A propósito, antes de sair da página, aproveite e siga Confissões de Laly para receber as atualizações da novela e não perder nenhuma cena. Obrigada de verdade pela leitura. Até daqui a pouco.