Confissões de Laly
9 7. Danças e desencontros
Laly off/terceira pessoa on
Iury conheceu Aimée depois de quase atropelar a garota caminhando distraído de bicicleta pela praça principal. Comovido pela desatenção que poderia ter-lhe custado caro, o rapaz convidou a garota ruiva para conhecer a afamada lanchonete do Seu Joel, reduto dos jovens da cidade que no verão recebia muitos turistas vindos de vários lugares. Ela topou de prontidão e estava ávida por conhecer tudo sobre Guaratuba, encantada com as narrativas e mais ainda com o seu "guia" que lhe oferecia uma travessa de sorvete por cortesia.
— Está difícil encontrar um garoto legal assim que nem você, que é gentil, cavalheiro, educado e sabe conversar.
— Está falando sério? — comentou Iury, sentindo-se indigno daqueles predicados todos.
— Estou.
— De qualquer modo, obrigado.
— Garotos como você deveriam ser maioria e não exceção. — Aimée lamentou com uma doçura quase comovente.
― Obrigado pela gentileza.
― Eu não disse nada mais do que a verdade.
Aimée e Iury conversaram bastante e acabaram pedindo outra remessa de sorvete para continuarem ocupando a mesa do canto.
— Uma opinião masculina conta?
— Acredito que sim. — Aimée balançou a cabeça. — Ainda mais se for sua.
— Vocês garotas veem defeitos onde só há beleza. Não existe mulher feia, mas mulher sem caráter, independentemente do cartão de visitas chamar atenção ou não.
Iury não deixou de notar o anel solitário usado por Aimée, sem deixar de imaginar Laly com a aliança de noivado oferecida por Gustavo.
— Você será um ótimo médico. ― bajulou Aimée.
— Vamos ver se eu consigo entrar. Medicina é concorrido. — respondeu um modesto e consciente Iury.
— Se for o seu sonho, ele vai realizar. — encorajou Aimée, aquela que deu a impressão de ser uma companhia agradável.
— E qual é o seu sonho?
— Ah, não falo...
— Pode falar. Não existem sonhos bobos...
— Meu sonho era poder encontrar alguém que pudesse me fazer muito feliz...
— E se eu te dissesse que você já encontrou?
— Como assim?
Iury beijou Aimée antes que pudesse vir a mudar de ideia.
☮
Milene chegou ao local combinado antes de Gustavo, descendo da bicicleta e ajeitando o freio da mesma, percorrendo um caminho de mata fechada. A espera valeu a pena porque naquela quarta-feira à tarde o noivo de Laly não poderia estar mais feliz e tinha boas notícias para a prima despeitada.
— Depois daquela lição de moral, se o caixoteiro tiver um pingo de vergonha na cara, não chega nem perto da sombra da Lalinha. — declarou Gustavo, vitorioso em cada sílaba. Ele e seus capangas encurralaram Iury num beco próximo ao local de provas e realizaram o que costumavam chamar de "acerto de contas".
Os olhos de víbora cintilavam.
— Eu quero parte do prêmio, pois a ideia foi minha. — gabou-se Milene, abraçando Gustavo que geralmente não mantinha uma relação tão próxima com seus homens de confiança, mas abria uma exceção para a garota por conta da prestatividade sem fim dela.
— Eu te dou o que você quiser...
— Você sabe o que deve me dar.
— Agora sou um homem compromissado.
— Faz de conta que eu não sei? — provocou Milene. — Você tem mau gosto, mas eu posso te perdoar. Homens apaixonados são tão tolos.
Gustavo se esquivou das carícias convidativas de Milene. Para ele não era nenhum problema copular com uma garota da idade dela, mas não podia deixar-se envolver afetivamente, precisava concentrar as forças em destruir Iury para mantê-lo afastado de Laly. Qualquer distração o faria perdedor. Apesar de ser vaidoso, mantinha-se acautelado. Era cedo demais para declarar vitória.
— Faço o que você quiser, Gustavo. — suplicou Milene, de joelhos na terra. — O que você quiser.
Gustavo Figueira Antares era engenhoso, ardiloso e astuto, mas Milene Moraes, um embrião em matéria de perversidade, sinalizava ser uma aprendiz extremamente útil, uma vilã em potencial, uma criatura fria e inescrupulosa que ainda tinha uma arma infalível: a persuasão.
Ninguém desconfiaria que a aparência angelical escondesse um verdadeiro demônio. Ele apreciava isso. Tirar proveito do despeito sem fundamento. Ganhar uma aliada que trabalharia sem qualquer remuneração pelo simples prazer de enferrujar o sorriso da rival.
☮
Grazielle foi visitar Mayra assim que o expediente da amiga chegou ao fim. Sentadas em duas banquetas ainda dentro do salão, era a hora da verdade.
— May, você é mais chegada da Lalinha, certo? Por acaso você tem conversado mais sério com ela?
— Sabe, Grazi, a Laly não é mais a mesma. — Mayra contou tudo o que sabia. — Parece fria, distante, calada. Não é aquela Lalinha que namorava o Iury e gostava de sair pra night. Às vezes dá a impressão que a qualquer momento ela vai desabar e confessar que o noivado é uma farsa, mas em outras ocasiões parece mesmo que tudo mudou e nunca mais ela vai se pronunciar. Por que pergunta?
— Porque a Milene está a fim do Iury...
Mayra recebeu a notícia com incredulidade:
— Você não pode estar falando sério, Grazi.
— Infelizmente, sim, eu estou.
— Não por nada, mas eu sempre desconfiei. Sabe, o jeito que ela olha pra ele, como sempre inventa pretexto pra falar dele... Mas você está mesmo falando sério, Grazi?
— Mais sério, impossível, May. Milene está jurando de pés juntos que vai conquistar o Iury e não tem quem tire essa ideia absurda de sua cabeça.
— Lalinha tem que saber de um absurdo desses. — revoltou-se Mayra.
— Deus que me livre e guarde de um mal-entendido.
— Que tipo de amiga é você, Grazi? Como me pede para guardar segredo de uma coisa tão séria?
— A Mili pediu segredo. Não era nem pra ter te contado.
— A Mili te pediu segredo? Por favor, Grazi, corta essa!
— Eu não quero criar problemas com a Milene.
— E prefere me magoar bancando Judas, é isso?
— Claro que não!
— Então pare de ficar em cima do muro porque não tem coisa mais feia que gente que não se manifesta.
— Promete que vai ficar de bico calado?
— Não!
— May...
— Isso é muito sério...
— Pelo amor de Deus, Mayra. Não abra essa boca.
— Só não abro minha boca porque ainda espero que Deus se encarregue de dar um castigo bem horrível pra Milene. Deus que me perdoe, mas essa guria merece sofrer muito.
Laly, que já havia sido dispensada, retornou ao salão.
— Desculpe interromper a conversa, mas vocês viram a minha bolsa?
Grazielle abaixou a cabeça.
— Quer ajuda para procurar? — quis saber Mayra.
A bolsa de Laly estava caída ao lado do sofá.
— Desculpem-me, meninas. Ando meio avoada.
— A festa é hoje à noite, Lalinha. Você vai? — perguntou Mayra.
— Acho que vou... — respondeu Lalinha já saindo do salão, acenando para as garotas.
— Acha que vai ou vai mesmo?
— Acho que vou sim, May, mas, se quer saber, o Gustavo não vai.
— Melhor ainda! Assim você tem oportunidade para conhecer a Fernanda Gallardo, a nova vizinha. Ela é bem legal. Você vai gostar dela.
☮
Gilberto Gallardo estava inebriado com o aroma frutal de perfume que tomava conta da casa. Aimée e Fernanda, vestidas para a festa, recusaram o jantar e se sentaram ao sofá para esperar Gabriel terminar de se arrumar.
— Pelo visto vão sair. — comentou Gilberto.
— Festa... — anunciou Fernanda, radiante.
— Juízo, ouviram bem, meninas?
Gilberto aconselhou:
— Não vejo impedimentos em deixá-las saírem para dançar, desde que não excedam os limites. — E analisando um pouco mais friamente, refletiu: — Gabriel nunca foi de demorar tanto no banho. Vocês sabem o que está acontecendo?
— Sim. Tem nome, endereço e está namorando seu bebê. — sorriu Aimée.
— Gabriel já está namorando? E eu sou o último a saber? — inquiriu Gilberto.
A campainha tilintou e Gilberto pessoalmente foi atender, conhecendo enfim o motivo de Gabriel estar caprichando no banho.
— Está aí o motivo de tanta alegria do Biel... — disse Fernanda, cutucando Aimée para cochichar alguma coisa.
☮
Naira, Nilton e Iury estavam sentados nas escadarias da igreja.
— Vocês não deveriam ir a essa festa.
— Por que não? — indagou Nilton, curioso.
— O pecado. — narrou Naira. — O pecado estará encalacrado nas portas e janelas, em cada taco daquele chão. Nas músicas, nos olhares, nos gestos. Nossa juventude está se corrompendo e não pensa no amanhã, nas consequências do pecado.
— Todo ano todos os jovens vão a esse baile. Não é pecado se divertir.
— Há uma maneira de encontrar prazer e paz sem precisar da igreja? Eu digo que há!
Iury responderia algo relativo à masturbação, mas conteve-se, apesar de apreciar a reação furiosa de Naira. Ele sabia muito bem que Nilton, como garoto, tinha os mesmos desejos.
— Eu não sou bobo de perder essa festa. — Nilton exultou, ainda na expectativa de convidar Naira para ser o seu par: — Você não imagina o quanto da juventude está perdendo por viver rezando o dia todo...
— Aimée quer porque quer ir ao baile comigo. Será que eu vou? — Iury voltava a solicitar a atenção de Nilton.
— A ruiva está dando em cima de você, Iury. Ainda não se tocou? Mas não sei se você deveria se arriscar tanto. Laly também vai a essa festa.
A alfinetada de Nilton cutucou o orgulho de Iury e por esse motivo ele não apenas foi buscar Aimée em casa como passou numa floricultura aberta e comprou uma flor de lapela para oferecer à jovem ruiva cujos olhos cor de avelã ressaltavam uma sensualidade inocente e ao mesmo tempo tão provocativa.
Ela, obviamente, não tinha ideia do que se passava com o rapaz, porém apreciava um pouco de romantismo, crendo que dessa vez sua busca por um amor calmo e puro havia chegado ao final.
☮
Fernanda não havia se impressionado com a figura da Lalinha, chegando a pensar que exageraram nas descrições, mas portou-se com educação, apesar de desejar a atenção de Mayra só para si, uma vez que ansiava comentar alguma coisa sobre o novo vizinho que se mudara para a rua dela. Uma família enorme, para ser bem exata. O pai era pastor evangélico e o filho mais velho, aquele que lhe chamou a atenção pelas vestimentas exageradamente pudicas, estava se aproximando.
Mário, esse era o nome dele. Mário Lima.
— Ele está vindo à nossa direção. — Mayra cutucou a amiga. Àquelas alturas Laly já havia sido abordada por outros convidados para falar do noivado.
— Ah é? — desdenhou Fernanda.
— Eu acho que ele vem falar com você. Sou completamente invisível nessa cidade.
— Que drama, Mayra. Você só tem 12 anos. Quando chegar aos 14 vai passar o rodo.
— Para a sua informação eu tenho 14. Faço 15 em fevereiro. E a propósito, o gatinho está vindo mesmo pra falar com você. Até mais. — Mayra acenou, despedindo-se da amiga, lançando um olhar maroto, de quem sabia muito bem que uma das duas passaria a noite em ótima companhia.
As suspeitas de Mayra não poderiam estar mais corretas. Mário Lima havia andado por todo o salão para conversar com Fernanda que apesar de relutar, admitia a si mesma que o filho do pastor não era de se desperdiçar. Se não fosse pecado, ficaria com ele. Nunca ouviu dizer que gentileza matasse. Conversa não tirava pedaço e ela, nativa do signo de gêmeos, falava pelos cotovelos, sozinha, até dormindo.
— E o que o santo filho de um pastor está fazendo numa festa cheia de pecadores?
— Eu sou pecador tanto quanto qualquer um daqui.
— Não venha com essa.
— Talvez eu esteja a fim de pecar também.
— Só porque já está salvo e pode tudo?
— Você pode se salvar se quiser. — entoou Mário, no intento de flertar com aquela garota que o instigava com atitude e presença.
— Não sei. Em matéria de religião eu sou péssima, até porque sou católica e não frequento muito às missas, também acredito em horóscopo e de vez em quando tenho um papo cabeça com a lua.
Mário sorriu com o canto do lábio e Fernanda estremeceu.
— Eu já sei algo em que você é fantástica.
— Ah, não sei se sou "boa" em algo. — Fernanda enrolou uma mecha de seus longos cabelos no dedo indicador, charmosa e incisiva.
— Claro que é! Deus deu um dom para cada um de nós...
— E o seu é tentar converter pecadoras em festas?
— Eu vim me divertir como você.
— Aproveite enquanto sou anônima, pois em breve serei Miss Brasil e você poderá contar a todos os seus conhecidos que dançou com a Miss Brasil nesse baile.
Mário não perdeu a oportunidade de beijar Fernanda ali mesmo, sem pedir para ficar, porque nessas horas sempre se engasgava e fazia papel de bobalhão. Era melhor partir para o ataque, antes uma boa bofetada da beldade do que passar a noite toda tomando chá de cadeira, bebendo ponche e amargando a decepção de vê-la nos braços de um fanfarrão qualquer. Ela o correspondeu e o encontro dos lábios selou com sucesso a química que estava escondida por trás de uma primeira impressão falha.
☮
Aproveitando um momento de liberdade enquanto Aimée foi retocar a maquiagem no banheiro, Iury procurou por Nilton que sem cerimônias contou-lhe que Laly foi embora da festa aos prantos.
— Ela viu mesmo? — Iury empalideceu sem perceber.
— Viu e saiu chorando.
— Também não precisa exagerar, né, Nilton?
— Quem me dera fosse mentira, primão.
Nilton, desanimado, deu uma palmadinha de solidariedade nos ombros do primo:
— Acabou de perder Lalinha.
— Então quer dizer que ela me viu mesmo com Aimée?
Em exatos cinco minutos, Iury procurava pelas palavras mais refinadas para despedir-se de Aimée sem levantar quaisquer suspeitas:
— Já vai pra casa, Iury?
— Sim... — Iury beijou a testa de Aimée. — Preciso ir... Muito tarde...
Iury acenou enquanto se distancia de Aimée, saindo do salão de festas com a visão já embargada pelas lágrimas, apoiando-se no poste e repassando o instante em que seus olhos cruzaram-se com os de Laly, do quanto fingiu indiferença e se feriu, da consequência da revolta, não se importando em gritar de raiva.
— Eu sou um idiota. Um grande idiota. Imbecil...
Ao voltar para casa, caminhando na ponta dos pés, fechou a porta do quarto, descalçou os sapatos, colocando-os ao lado da cômoda de madeira e atirou-se na cama sem tirar a roupa, enfiando a cabeça nos travesseiros para fugir da culpa e vergonha, da dor de perder sua amada e de não saber o que dizer a Aimée.
☮
Mayra não conseguiu ficar com ninguém e perto da mesa de bebidas percebeu que Nilton estava prostrado pela mesma razão, não havia conseguido convencer Naira a acompanha-lo e não tinha tirado nenhuma menina para dançar àquelas alturas da festa.
— Quando é que você vai tomar a iniciativa, hein?
— Você está muito apressadinha, baixinha. — ralhou Nilton, encabulado, mas ciente de que Mayra não disse nenhuma mentira.
— Não estou não. Você é que está muito devagar. E aí? Por que está parado com essa cara de poucos amigos? É impressão minha ou Iury não está mais com a ruiva?
— Iury foi embora. Precisava acordar cedo.
— Lalinha os viu juntos. — revelou a irmã de Naira. — Não tiro a razão de Iury, mas não sei se você concorda comigo... Acho que Iury e Laly deveriam terminar formalmente o namoro. Do jeito como estão agindo só estão piorando tudo. Laly mal sequer se pronuncia e Iury parece muito tranquilo para quem acabou de sair de um longo relacionamento. Três anos não são três dias.
— Eu também acho a mesma coisa, pequena, mas Iury não quer criar mais problemas.
— Eu sinceramente não queria que Laly se casasse com Gustavo.
— Nem eu.
— Somos minoria, não somos?
Nilton meneou a cabeça confirmando a triste informação.
Estava começando a tocar Save the last dance for me, nos vocais de Bruce Willis, e Nilton, mesmo vendo Mayra como a irmã que não teve, considerou a ideia de tirá-la para dançar:
― May, eu tenho uma pergunta confidencial para fazer... ― iniciou Nilton.
― Qual?
— Não sei como começar.
— Por favor, Nilton, sem cerimônias. — pediu Mayra.
― Você já dançou com algum garoto antes?
― Não.
― Você me daria a honra de ser o primeiro? ― Nilton se curvou como um bom cavalheiro para cortejar a garota que aceitou o convite do amigo.
Nilton não tinha muito manejo para lidar com garotas, era a primeira vez que dançava música lenta e romântica com uma, ainda mais a irmã de sua amada, porém gostou de ser aquele que tomava a iniciativa.
Não seria um gesto soberbo considerar que teve um início bem sucedido. Não pareceu coisa de outro mundo deixar-se levar pelo ritmo da música, fechar os olhos e com muito respeito entrar em contato com o corpo feminino, com as formas de um pequeno botão de rosa, dar um passo para lá e outro para cá, de olhos fechados e desenhando luzes pelo salão quase escuro, tomado pelo romantismo, pela sede de fazer cada minuto da noite ser uma criança contente.
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