Confissões de Laly

8 6. O Baile (Laly)


Laly on/terceira pessoa off

Guaratuba, 04 de dezembro de 1991.

Segunda, terça, quarta-feira. O tradicional Baile do Verão seria realizado naquela noite. A Laly noiva era introspectiva e minimalista, mas alheia ao resto do mundo, ao meu próprio, a qualquer resquício de amor. Acordava mais cansada do que quando dormia, ou seja, lá pelas tantas da madrugada após pensar como seria a vida após o casamento, se é que existiria algo para esperar, se eu mesma suportaria sobreviver com aquele monstro pelo resto de meus dias.

Em dois meses eu iria me casar com Gustavo Figueira Antares e enquanto todo mundo me tratava como princesa, sabia que nada era real. O filho do futuro prefeito estava em êxtase, lidava com a burocracia enquanto eu quase nem me alimentava, pouco saía em público para não ter de dar satisfações a ninguém porque tudo que eu mais queria era desaparecer dali e apagar cada minuto, cada palavra dita, cada lágrima...

As visitas do Gustavo de esporádicas passaram a ser diárias. Pelo fato de ser meu noivo, meus pais simplesmente não se importavam em permitir que ele ficasse completamente a sós comigo. Ninguém jamais seria louco de contrariar o provedor do sustento do lar.

Minhas defesas estavam todas destruídas. Nem rezava mais, pois estava revoltada com Deus por Ele ter permitido que tudo aquilo acontecesse.

De tanto meus novos amiguinhos fazerem questão que eu fosse à festa, resolvi caprichar na maquiagem e sair para dançar. Se minha mãe fosse viva, sei que faria exatamente o mesmo.

Meus pais viveram o que considero como uma história de amor que emociona a qualquer geração e é fato quase raro hoje. Eles se casaram muito apaixonados e sendo proibidos de consumarem o amor, fugiram para longe dos olhos opressores dos pais, das irresistíveis restrições porque o amor que sentiam era mais forte do que qualquer obstáculo imposto.

Ingrid tinha dezesseis anos e Edílson, vinte ou um pouco mais, não sei exatamente. Eles escolheram Guaratuba como lar e enquanto estiveram juntos foram felizes. Do pouco que me recordo de papai, ele estava sempre ativo e sorridente, gostava de receber pessoas em casa, me deixava montar no pescoço dele e fazer de conta que era um cavalinho.

Quando mamãe desapareceu e foi dada como morta, tudo mudou, Eleonora foi morar em nossa casa e adaptou tudo à sua vontade, então se desfez dos discos da "falecida", quis móveis novos, tentou várias vezes dar ao marido um varão, felizmente nunca conseguiu.

Eu cresci odiando Eleonora, esperando que um dia meu pai se assombraria com a verdadeira face dela, mas eu já estava com dezoito anos e continuava aguardando algo que nunca iria acontecer. Ela tinha todo o poder nas mãos e Edílson era seu mais fiel súdito, chegando a se voltar contra a própria filha para não perder a esposa.

Eu já estava com quase dezenove anos e amava Iury. Se fosse preciso, me casaria com ele mesmo no auge da imaturidade e iria embora da cidade. Faria qualquer coisa para não ter de me casar com Gustavo. Qualquer coisa.

Todo santo fim de semana eu saía para dançar. Extravasava toda minha angústia na pista dançando com Iury até o amanhecer. Se meu (ex) namorado não podia me acompanhar, me encarregava de cuidar de Mayra e saía mesmo assim.

Modéstia à parte, eu era enturmada na cidade e por trabalhar no melhor salão de beleza, vivia recebendo convite para festas, por isso boa parte de meu ordenado era destinado a comprar roupas, maquiagens e discos. Conhecia todas as músicas que estavam no auge das paradas radiofônicas e sabia dançar como ninguém.

Uma semana antes eu dançaria até as solas do pé não suportarem mais meu peso e o cansaço por aproveitar o pique abençoado pela juventude.

Que nada!

Noivinha para lá e para cá, dezenas de perguntas bestas para saciar a curiosidade dos cidadãos deslumbrados. Era incrível ninguém duvidar do meu sorrisinho fajuto. Para quem já estava acostumada a esconder o choro com piada não era nada complicado fingir mais um pouquinho.

E Iury? Onde estaria?

Será que havia acontecido alguma coisa e ninguém queria me dizer?

Que Gustavo Figueira Antares sabia intimidar os inimigos sem deixar rastros, eu sabia muito bem, até porque ninguém teria envergadura para enfrentar o filhinho do prefeito emérito que se morresse iria querer levar no caixão a cadeira da prefeitura e todos os títulos de importância.

Todos dançavam, riam, mas meus olhos procuravam Iury. Quando o encontrei, estive certa de que Gustavo podia ter comprado os veículos de comunicação, o amor e a admiração dos conterrâneos, o silêncio dos inimigos, ludibriado meus pais e garotinhas tolas que se deixavam abalar por um par de olhos claros, me violado sem qualquer consentimento, todavia jamais teria a minha sincera admiração, nunca teria a minha adoração, nunca entraria no meu coração.

Meu coração quase parou quando reconheci Iury. Ele me viu, no entanto fez de conta que eu não passava de uma estranha, indo ao encontro de uma garota ruiva que correspondeu ao toque dele.

OS DOIS SE BEIJARAM COM A BOCA ABERTA PARA QUEM QUISESSE VER!

Não pude suportar a cena e parti. Com o coração em pedaços, certa de que eu não tinha mais qualquer controle sobre a minha própria vida.

O chão ruiu, mas não engoliu o corpo, deixou de lembrança o rascunho de uma vida arrasada.

De frente para o ponto final. Não poderia ser mais doloroso.

― Laly, Laly... Onde é que você vai? ― Mayra tentava me alcançar já na porta do clube.

― Eu bem, May. Pode voltar para a festa. ― respondi, soluçando, inutilmente borrando os resquícios de maquiagem ao enxugar as lágrimas com as costas das mãos.

― Laly, fala comigo, por favor... ― Mayra parou a minha frente, mas eu caminhei sem dar-lhe atenção.

Implorei para que Mayra retornasse à festa, mas conhecia minha melhor amiga o suficiente para afirmar de olhos fechados que ela não se conformava com aquele noivado repentino, com o abrupto término de namoro, tampouco com a minha retirada da festa, chorando como se Iury estivesse morto na pista da dança, sendo que o que estava morto de verdade era o sonho de viver para sempre com ele.

A história só continuava dentro de mim porque eu ainda alimentava a inútil esperança de desfazer aquele maldito nó com Gustavo. Meu coração sempre seria de Iury, mas ali naquela festa vi meu amor me provar que poderia muito bem viver sem mim. Isso machucou muito mais que qualquer palavra torpe proferida em discussões.

Voltei para casa aos prantos e então a luz da sala foi acesa. Edílson Moraes se levantou da poltrona nova (presente de Gustavo para o "sogrão") e me perguntou com fúria:

― Isso lá são horas de uma mulher de família estar rateando pela rua?

― Desculpe-me, pai. — abaixei a cabeça, controlando os soluços e as teimosas lágrimas que corriam do meu rosto.

― Você já está noiva e não pega nada bem para a imagem da noiva de Gustavo Figueira Antares ficar frequentando festinha... — advertiu Edílson, que adorava meu noivo como se ele fosse a face de Deus na Terra.

― Todo ano eu vou ao baile.

― Esse foi o último. ― lembrou Edilson. ― É bom mesmo que tenha aproveitado a ocasião do baile e terminado tudo com Iury...

O fim já estava subentendido. Eu só estava fingindo a mim mesma que poderia existir alguma chance de toda tristeza enfrentada ser apenas um pesadelo do qual logo despertaria. Infelizmente não era.

― Iury e eu terminamos.

― Bom mesmo que seja verdade. — ameaçou papai, ríspido.

― E por que mentiria?

― Ah se o Gustavo fica sabendo das suas saidinhas... Imagine só o que pensará a família dele...

― Ele que vá para o inferno. Não me caso com ele nem à força.

― Vai se casar sim, senhorita. Já que só me dá desgosto, que pelo menos uma vez na vida deixe de ser egoísta e faça algo por seu pai.

― Como se você fizesse algo por mim...

Levei uma forte bofetada no rosto. A dor maior estava do lado de dentro. Edílson não se importava.

― Ingrata, desgraçada...

― Eu não amo o Gustavo.

― Han... Ama o caixoteiro vagabundo que acha que tem chance de passar em Medicina...

― E ele tem... Tem sim...

― Quero só ver... Eu pago para ver...

Eleonora despertou com os gritos e foi até a sala, como sempre responsável a desunir mais ainda pai e filha, visto que era natural a oposição aos meus argumentos.

― O que significa isso? ― perguntou ela, levando uma das mãos até o peito.

― Acredita que Laly está dizendo que não quer se casar com o Gustavo? ― Edílson voltou-se para a esposa, vociferando.

― Lalinha, deixe de ser infantil e egoísta. Não sabe quantas mocinhas queriam estar no seu lugar agora? ― repreendeu a madrasta mais perversa que os céus arranjaram para meu pai.

Todas as garotas poderiam ser loucas por Gustavo Figueira Antares, mas felizmente eu não fazia mais parte dessa massa manipulada por um rostinho que nem era tão bonitinho assim, não se você olhasse pela segunda vez. Mais que um olho bonito, eu espero do caráter. Se essas moças que me invejavam quisessem tomar o meu lugar, que ótimo! Que se apossassem do meu noivo e me deixassem ser feliz com o Iury ou qualquer outra pessoa.

― Você ainda vai se arrepender por estar desprezando Gustavo.

Para ela, minha união com o filho de Jordano Figueira Antares era mais do que proveitosa, era como conferir um bilhete de loteria e acertar a todos os números, tornar-se a celebridade mais falada de toda a cidade, perdendo somente para os próprios Figueira Antares, sempre em evidência. Eleonora iria viver como rainha enquanto eu teria de renunciar meu amor, meus sonhos, minha juventude e liberdade para viver um casamento de fachada. Assim era muito fácil julgar.

― Que Deus um dia a castigue por fazer seu pai sofrer desse jeito. — amaldiçoou-me Eleonora com o dedo em riste: — Tenho até vergonha de pensar que Gustavo irá devolvê-la... Depois de fazer o diabo a quatro com o maloqueiro, vai se deitar com o homem decente que tem se guardado pra você, se dedicado a fazê-la feliz.

Fui para meu quarto onde chorei mais ainda ouvindo Eleonora me difamar para meu pai. A parede não possuía isolamento acústico, então cada expressão de minha madrasta contribuía para acentuar o desespero.

Essa menina é mesmo uma problemática sem cabeça. Trocar o Gustavo pelo tal Iury... ― murmurou Eleonora, atiçando a revolta de papai, forçando espanto para que ele pressionasse Gustavo a antecipar a data do casamento.

― Não sei onde foi que eu errei, Eleonora. Queria saber onde foi que eu errei...

― Você é um ótimo pai, Edílson. Laly é que não sabe valorizar a sorte que tem...

A reputação do filho do célebre Jordano Figueira Antares deveria jazer intocável. Minha honra não valia um centavo.

Ao que compreendo, o primogênito premeditou o ato, desde a abordagem, até o revólver colocado contra minha jugular.

― Para onde você está me levando, Gustavo?

― Eu já disse para você calar a boca e deixar comigo.

― Eu quero voltar pra casa. ― implorei, já sem qualquer controle sobre minhas emoções, pensando também que poderia não sair viva dali.

― Você não vai enquanto eu não implantar em você a semente do nosso amor.

Chorando, abri a porta do carro e tentei fugir pelo mato, mas ele me alcançou e me socou o rosto, me deu um golpe conhecido vulgarmente como gravata e me arrastou até o banco traseiro do carro.

― De mim você não vai escapar.

― Me leva pra casa, por favor. Leva-me para casa...

― Você pediu e é assim que vai ser. Você pensou que escaparia de mim? Sou mais esperto do que supõe, princesinha. Da noite de hoje tão cedo você não se esquecerá.

Sorriso maquiavélico, fala perversa e uma Lalinha sem qualquer chance de defesa. Determinação e frieza.

Gustavo Figueira Antares era um ótimo tirano.

― Para, Gustavo. Por favor... Não faz isso comigo... ― Com as mãos trêmulas, clamei: ― Por favor, Gustavo. Eu não mereço. Leva-me para casa, não faça nada que vá te prejudicar...

Gustavo arrancou minha blusa e apertou meus seios de modo que nunca senti tanta dor na minha vida. Suas pesadas mãos desceram até encontrar o botão da calça jeans. Por mais que eu tentasse desviar, já havia perdido a batalha, até recostar-me perto do porta-luvas, o mesmo abrir-se e encontrar um revólver.

― Vai, Lalinha, sente o clima.

Gustavo tirou a camisa e a jogou de qualquer jeito pelo mato. Eu, porém, sedenta por sobrevivência, apossei-me da arma. Não sabia como utilizá-la, mas instintivamente tinha de fazer alguma coisa, não poderia deixar aquele desgraçado me usar. Eu não era um brinquedo e não cederia a nenhum tipo de chantagem, sacrificaria a própria vida, mas não me venderia para ter uma posição na aristocracia de Guaratuba.

― Deixe-me ir ou eu te mato! ― ameacei Gustavo, histérica.

― Larga isso, Lalinha. Moça de bem não usa arma. ― Gustavo tinha de proferir mais uma das suas malditas ironias machistas.

― Eu tô falando sério... Deixe-me ir!

― Já disse para abaixar essa maldita arma.

― Eu vou atirar em você.

― Abaixa a arma. ― Gustavo ordenou como se fosse um policial a negociar com um sequestrador de bancos. ― Eu tô ordenando, mulher. Abaixa isso!

A droga da arma estava sem munição. Mais agravantes foram as coronhadas que me desacordaram. Gustavo colou meus lábios com fita crepe, amarrou meus braços com uma corda fedida e montou em mim como um animal. Se chorasse, apanharia mais ainda. Assim estava comprado meu voto de silêncio, o que me custaria muito caro posteriormente.

Minha ideia de perder a virgindade seria numa noite romântica ao lado de Iury, sabendo perfeitamente que seria um marco na vida de ambos, o encontro de um prazer que já tínhamos conhecimento e nunca chegamos a assumir.

Eleonora supunha sobre minha castidade, ridicularizava, maldizia. Ao contrário de suas expectativas, Iury e eu não passamos do beijo na boca durante os três anos de namoro. Isso, no entanto, pode não ser mérito, quando se entende que a virgindade vai muito além de um hímen lacrado. É a inocência da garota, aquela que desconhece o próprio corpo, que ainda não apanhou da vida.

Edílson pregava, como todo bom machista que se preze que sua menina deveria ser virgem até o dia do casamento. Caso tivesse um varão para assegurar uma sobrevida ao sobrenome (não tão) honrado e cheio das menções, o que mais desejava, era que o mesmo deveria se iniciar o quanto antes, fosse com prostitutas ou com a "filha de alguém", mulher essa que não serviria para esposa. Gustavo era sua projeção do que um varão deveria ser.

O partido perfeito tinha fixação por meninas com menos de catorze anos para fazer com elas o que fez comigo, armava embocada para espancar travestis, cheirava cocaína às escondidas naquelas festas mega luxuosas das quais os simples mortais acompanhavam nas colunas sociais "a parte mais bonita", perseguia e torturava qualquer pessoa que lhe despertasse incômodo. Ele era o líder de um grupo de rapazes igualmente ricos e sórdidos os quais eu detestava com todas as forças.

Diante de toda a cidade, Gustavo era o sujeito loquaz, o próspero agrônomo recém-formado que tirou o diploma por hobby e realização pessoal porque herdaria as empresas do pai e teria uma carreira extensa no mundo da política, podendo chegar ao Senado Federal.

Primogênito de uma numerosa e renomada família, Gustavo Figueira Antares era conhecido por ser o homem que se sentava na primeira fileira da paróquia nas missas de domingo, contribuía com o dízimo, pregava a palavra de Deus, sendo tão devoto aos pais que tinha o genitor como ídolo.

Moralista, considerava inconcebível que as irmãs não se casassem virgens, entretanto, podia muito bem sair com a filha dos outros porque tinha a justificativa de ser homem e ter desejos que deveriam ser saciados. Machista, sempre acreditou que a mulher não nasceu para sentir prazer. Esposa ideal seria aquela que vive em frente ao fogão, tem um filho por ano e só sai de casa para ir à igreja. Em dois meses eu me resumiria a isso.

Edílson Moraes consentia que a própria filha fosse desprovida de ambições, justo ele que apregoava tanto a importância do estudo no futuro de uma pessoa. Era um tanto quanto assustador que meu velho pudesse apregoar dois discursos tão contraditórios por natureza.