Confissões de Laly
23 20 - O envenenamento - Parte 3
Notas iniciais
Mingau de aveia, esse era um dos pontos fracos de Milene. Amado Moraes recorria àquela receita para acalmar a filha, vinha funcionando desde a infância dela. Era tarde da noite, mas para quem encontrou uma mulher enforcada ao lado de uma criança de dois anos, todo cuidado era pouco, toda palavra poderia ser a última. Quando a única filha era acometida por algum choque emocional, chegava a ser invasivo para se certificar de que ela não fosse atentar contra a própria vida.
Amado encontrou a cozinha arrumada, contudo, ao se desfazer da caixinha de mingau, percebeu o cesto de lixo transbordando e estranhou aquele fato, porque sendo Milene obcecada por limpeza, não suportava bagunça e muitas vezes o repreendia por não ser tão organizado quanto ela, que sabia cozinhar bastante bem.
O que aquele frasco fedorento estava fazendo ali?
Qual era o interesse de Milene por aquela substância? Pensava ela em dar cabo da própria vida?
Não parecia.
Milene estava tão sorridente até antes daquele telefonema, disposta a dançar, fazer mil planos, mas Silvana também havia tido um dia tranquilo antes de se enforcar. Todas as noites em que o sono não o abraçava, a imagem de sua esposa o atormentava. De qualquer forma, pretendia investigar qual seria a relação da filha com aquele frasco.
Milene fingiu não ouvir ao primeiro chamado do pai, fora tomar banho para amadurecer alguma ideia para isentá-la da merecida punição, contudo Amado, insistente, repetiu a ordem até a jovem surgir na cozinha vestindo uma camisola com detalhes infantis e abraçando um ursinho branco de pelúcia.
― Papai? O que você quer comigo?
― Talvez nem você saiba, mas, em todo caso, gostaria de esclarecer o que esse produto perigoso está fazendo aqui. Sabe do que estou falando, não sabe?
― Eu não conheço esse negócio aí, pai. ― embromou Milene. ― Você sabe que morro de medo de bichos. Tenho trauma até hoje do pobre Coração.
― Sei, sim, mas encontrei essa substância extremamente nociva e tenho medo que se machuque ou algo assim…
― Papai, eu sei me cuidar. Não precisa ficar tão preocupado.
― Sei disso, minha flor…
Amado serviu mingau para ele e Milene em cumbucas especiais e eles se dirigiram até a mesa redonda onde faziam as demais refeições.
― Grazi esteve aqui nessa manhã. ― justificou Milene.
― Sim, sim. ― Amado aquiesceu. ― Você e Grazi são grandes amigas e eu a considero como se fosse minha filha… Algo errado?
― Não, papai. De forma alguma…
― Devo me preocupar?
Milene não acreditava em Deus, mas seria capaz de agradecê-lo mentalmente pelo dom da persuasão.
― Grazi estava fuçando na garagem e achou esse produto.
― Substância que não deveria estar ao alcance de duas jovenzinhas lindas como vocês…
― Sei disso, papai… ― concordou Milene, extremamente cínica. ― Foi Grazi que o encontrou e me pediu para usar. Eu a disse que não havia impedimento algum, pois não entendo nada sobre isso. Ela já gosta de lidar com essas porcarias e me disse querer matar uns “vermes”.
― Não temos ratos nessa casa.
Milene poderia usar toda sua imaginação para escrever grandes livros de mistérios policiais, pois a riqueza de detalhes com que condenou Grazielle atordoou Amado.
― Grazielle levou o bolo envenenado para as cunhadas?
― Grazi vem reclamando que é muito maltratada pelas cunhadas e queria dar um susto nelas. Eu tentei aconselhá-la, mas ela estava irredutível. Eu disse que as diferenças não se resolvem desse jeito, mas ela estava irredutível, disse que seria capaz de coisas piores para ficar com o Gabriel. Como uma boa amiga, não quis apoiá-la.
― E não agiu de forma mais correta. ― elogiou Amado. ― Grazielle só pode ter perdido o juízo, minha filha. Isso é coisa que se faça?
Amado, comovido com os dramas narrados pela filha, preparou um copo de água com açúcar para acalmá-la.
― Mayra quase morreu. Agora todo mundo está achando que sou má e a D. Emília me disse um monte de besteiras ao telefone.
― Assim que possível conversarei com Emília. Presumo que ela esteja fazendo julgamento precipitado contra a sua pessoa e sem provas, o que por si só já é uma acusação bastante grave.
Pela manhã, no entanto, Amado tomou conhecimento de outra versão do caso e envolveu-se em uma discussão com D. Emília.
― Milene é uma filha maravilhosa e incapaz de fazer mal ao seu semelhante. Por Milene sou capaz de colocar minha mão no fogo.
― Se minha filha tivesse morrido, Milene se responsabilizaria. Eu iria até as últimas consequências para ver essa criminosa atrás das grades.
― Não vou suportar que se refira a minha doce Milene com um termo tão pejorativo.
― Se a justiça dos homens falhar, que pelo menos a divina nos conforte.
— Digo o mesmo e fico no aguardo de uma retratação.
— Espere sentado por este dia!
☮
Grazielle dormiu à base de calmantes e acordou com Milene segurando uma faca contra seu pescoço. Até poderia se assemelhar com bastante fidelidade a mais um dos muitos pesadelos que teve durante as últimas horas. E não é. Para ser mais real, nada falta. Nenhum detalhe.
― É bom que não mude a versão do caso ou aí, sim, vai conhecer meu lado perverso. ― chantageou Milene com bastante ódio na entonação.
― Milene? ― sondou Grazielle, confusa se estava apenas delirando ou havia acordado.
― Não. É o coelhinho da páscoa… Dã! É claro que sou eu, sua imbecil.
Milene ameaçou cortar a jugular de Grazielle, movimentando-se bruscamente e rindo como se estivesse prestes a destilar um pedaço de carne.
― Não me provoque. ― sorriu Milene com malícia. ― Você não sabe do que sou capaz.
― O que você quer comigo? ― Grazielle estava paralisada pelo medo, não tinha modos de reagir, sequer de situar Milene e defender-se dela.
― Vai ser conivente com a minha versão ou vai para o inferno com a Aimée e as duas mortas de fome… ― determinou Milene, persuasiva.
― Você sabe que fez uma coisa errada, Milene. ― advertiu Grazielle. ― Precisa pagar as consequências por isso.
― Não quando todos pensam que é você a criminosa.
― Gabriel terminou comigo por sua causa.
― O quê?
Milene riu de propósito, satisfeita porque as suas tramoias eram tão bem-sucedidas que outras pessoas pagavam o preço por elas.
― Viu só? Já está pagando por sair envenenando os outros, falsa santinha.
― Você é diabólica!
Milene fez um pequeno risquinho no pescoço de Grazielle.
― Se você não falar a verdade, prepare-se para sofrer o dobro do que Lalinha, Aimée e as mortas de fome sofrerão.
― Não posso!
― Não pode por quê? ― obtemperou Milene, encarando Grazielle. ― Você foi minha cúmplice, queridinha!
Milene apontou a faca na direção do coração de Grazielle, que chorando e sem força nas pernas, se ajoelhou aos pés da garota em tom de súplica:
― Por favor, Milene. Não me obrigue a fazer isso.
― Não me obrigue a tomar atitudes mais drásticas. Queira, por favor, tirar suas patas imundas dos meus lindos pés antes que eu a chute.
― Milene, tenha piedade.
― Eu falo em grego, garota?
Milene desferiu pontapés para espantar Grazielle.
― Você está sem saída, queridinha!
Grazielle, antes de D. Emília sair para trabalhar, pediu alguns minutinhos para conversar com a cabeleireira, que reconhecendo as olheiras de abatimento da garotinha, não lhe negaria um consolo. Apesar do susto, Mayra estava bem e receberia alta hospitalar, necessitando muito da companhia das amigas para se recuperar mais depressa.
― Tenho algo muito importante para dizer. ― iniciou Grazielle, sentada numa cadeira da cozinha ao lado de D. Emília, que concordava com a cabeça, incentivando a menina a falar:
― Não faça cerimônias, criança. Você é uma irmã para May e ela está precisando tanto de carinho… Está tão assustada…
― O que tenho para falar é com relação à ontem…
― Fala… Fica à vontade… Se souber de algo, por favor, não tenha medo de falar. Não acoberte o mal, querida. Não seja conivente com essa atrocidade. O incidente de ontem mexeu mesmo com todos… Acredita que ainda nem preguei os olhos? May e Fernanda graças a Deus estão muito bem, mas…
― Fui eu que preparei os bolos envenenados…
Por conhecer Grazielle desde a infância, Emília sempre demonstrou ter grande confiança e consideração pela amiga de Mayra, mas a revelação a assombrou. Jamais esperaria tamanha atrocidade vinda de uma menina conectada com a natureza, envolvida pelo voluntariado, que parecia não nutrir ressentimento por ninguém, acima de qualquer suspeita.
Grazielle Rodrigues estava disposta a assumir a culpa que era de Milene por temer que seus entes queridos fossem atingidos pela falta de sanidade da prima de Laly.
― Estou muito decepcionada com você, Grazielle! Logo você? Jamais pensei que você pudesse ser capaz de fazer algo tão horrível contra seu próximo. Seu pai deve estar muito desapontado.
― Sei disso ― lamentou Grazielle.
― Não quero mais que você e Mayra se falem. Quero, por gentileza, que você se afaste da minha filha. Você não é uma boa companhia.
Para Mayra, a revelação de Grazielle soou como um golpe em cheio no coração. Queria crer que tudo não passava de um pesadelo, um grande mal-entendido que logo seria esclarecido e esquecido. A amizade entre ambas era muito forte para terminar por um motivo tão banal.
Banal?
A brincadeira de mau gosto quase lhe custou à vida.
Será que merecia perdão?
― Não entendo como foi capaz disso, Grazi. Aimée e Fernanda são boas pessoas.
― Eu… Sei… Eu também não sei… ― Grazielle estava em estado de pleno torpor.
― Espero que algum dia se arrependa disso.
― Já estou arrependida.
Aimée e Fernanda costumavam tirar sarro de Gabriel por ser o irmão caçula, mas nunca falaram mal de Grazielle. Muito pelo contrário. Alegravam-se pelo fato de o irmão estar apaixonado e cheio de vontade de viver. Gostavam da cunhada e sentiam-se felizes por receberem visitas, por verem aquele menino tímido despontando para o universo do primeiro amor.
Fernanda Gallardo era capaz de perdoar o envenenamento, mas jamais que partissem o coração de seu irmão mais novo.
☮
As versões aumentadas do incidente despertaram a fúria dos cidadãos, que, tomados pela forte comoção, almejavam fazer justiça com as próprias mãos contra Grazielle Rodrigues. As consequências atingiram Sabrina, que foi demitida do trabalho e da adolescente, proibida de colocar os pés na ONG onde prestava serviços comunitários.
Enquanto isso, a verdadeira autora do crime colhia os louros de sua manipulação assistindo ao noticiário da noite com o pai.
☮
No dia seguinte, a terça-feira, os muros em volta da casa de Grazielle amanheceram pichados, os vidros da sala e da cozinha estavam estilhaçados e pedaços gigantes de concreto destruíram objetos pessoais da família Rodrigues. Muitas pessoas telefonavam para insultar as mulheres.
Grazielle, por alguns momentos, desejou ter se fartado do bolo envenenado.
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