Confissões de Laly
22 19. Por trás dos hematomas/Férias em Curitiba - parte 3 (Laly)
Notas iniciais
Terceira pessoa off/Laly on
Tia Conceição nem mesmo esperou passar o vestibular para conversar comigo. Assim que terminamos de jantar na primeira noite, Daniela e Tio Abílio se responsabilizaram pela louça enquanto Conceição e eu subimos até o quarto da minha prima e resolvemos conversar a portas fechadas.
Era a hora da verdade.
— Eu fiz algo de errado, tia?
— Não, mas sei que você não é a Lalinha de sempre!
— Sou a mesma de sempre! — Abri um sorriso débil para convencer minha tia de que aquela conversa era inteiramente desnecessária.
― Lalinha, eu te conheço mais do que o seu próprio pai e você sabe que desde a morte da sua mãe, sou o mais próximo que você tem de uma mãe. Quero que confie em mim!
D. Emília e Tia Conceição eram minhas mamães postiças. Elas sabiam quando eu estava mal sem que eu pronunciasse uma única palavra. E era o caso. Eu estava destruída, mas o orgulho me sustentava. Eu sabia que se caísse nunca mais me levantaria. Mesmo que ninguém se importasse com as ruínas do meu mundinho tolo, eu me importava.
— Seu tio está muito preocupado com você e eu também, Laly. Sabemos que tem relação direta com o Gustavo...
Estava tão óbvio até para um estranho!
Uma moça apaixonada não agiria como eu. Noiva à força e apaixonada por alguém que paquerava minha própria prima pelas costas. Eu tinha mesmo muito que comemorar.
― Eu juro que não tenho nada a dizer, tia.
Tia Conceição estava sentada junto a mim na cama de Daniela e percebia que o excesso de maquiagem pouco conseguia disfarçar os horríveis hematomas de minha face.
― Se não quiser contar tudo, então esclareça a origem desses hematomas e não me venha dizer que são olheiras de cansaço ou que teve um acidente porque eu não irei acreditar.
― Você não entenderia tia.
― Só não entenderei se você não falar...
Tia Conceição considerava bastante atípico o fato de eu não sentir saudades do Gustavo, não falar dele com admiração na entonação, nos trejeitos, sem sentir um pingo de paixão que tornasse viável a farsa com data e hora marcadas. Daniela deve ter relatado nossa conversa.
― Gustavo passou o dia fazendo campana aqui na rua. Deve mesmo estar com saudades de você... — Comentou Conceição sem saber se me fazia bem ou mal, mas não faltava com a verdade e eu apesar de amedrontada gostava disso.
Tia Conceição não tinha o poder de refazer o tempo e recuperar a minha honra estraçalhada, mas era afinal de contas uma exímia ouvinte. O ato de desabafar atenuava a dor por alguns instantes porque era materializada nas palavras e libertada daquele sufocante casulo tecido pela soberba de alguém que se considerava indestrutível e comprava a liberdade à custa de seu incontestável poderio que transformaria qualquer relato meu um delírio sem precedentes.
― Desde que eu tinha doze anos de idade ele fica me perseguindo sem parar...
― Doze anos de idade? ― Tia Conceição estava sem palavras para descrever a revolta por descobrir quem era Gustavo Figueira Antares.
Cresci ouvindo falar de amor, assistindo àqueles filmes e seus finais felizes que me faziam sair do cinema suspirando, sonhando alto, achando que quando crescesse tudo aquilo iria acontecer comigo. Mas não foi assim. Não foi com ele. Fui eu que inventei qualidade que Gustavo não tinha e nunca teria. O garoto que eu amei quando tinha doze anos era uma criação da minha cabeça, a minha nata habilidade de acreditar nas pessoas mais do que elas mereciam.
― E a partir daí ele começou a me seguir dia e noite sem parar...
― Edílson e Eleonora nunca desconfiaram de nada? ― Minha tia jamais permitiria que um desalmado tocasse em Daniela e pelos meus relatos, meus próprios pais estavam coniventes com os estupros, as agressões físicas, verbais e psicológicas, cujos efeitos que cedo ou tarde cobrariam juros no meu caráter.
― Nunca deixei que percebessem... ― Expliquei, retesando os ombros, dando todos aqueles relatos por um ato corriqueiro, o que não passava de uma armadilha do meu interior para não passar por coitada.
Com o passar dos anos, Gustavo Figueira Antares sempre que tirava férias, passava boa parte delas em Guaratuba, tendo tempo de sobra para estudar os meus pais e conquista-los. Tudo por debaixo dos panos, como se fosse um acaso, parecendo que era amor e eu a grande Cinderela. Lembro-me de voltar para casa diversas vezes e encontrá-lo sentado no sofá com as perninhas cruzadas tomando chimarrão e contando vantagens, forjando modéstia.
Meu pai endeusava o Gustavo. Para ele não existia partido melhor para mim.
Geladeira lotada, contas pagas, prazeres financiados. Definitivamente, outra mulher em meu lugar diria que tirou a sorte grande. Nada disso bastava para mim. Louca ou não, essa era minha verdade.
― Lalinha, isso é crime. Você deve denunciá-lo. ― Lamentou Conceição, sem qualquer palavra para acrescentar diante do estapafúrdio desabafo.
― E a senhora acha que vão acatar uma denúncia que incrimine o Gustavo? Numa cidade onde os Figueira Antares mandam e desmandam? Partindo da noiva dele?
― Dinheiro nenhum vale essa humilhação, querida. Você tem que falar com mais alguém sobre isso. ― Meu tio recomendou. ― Ele te abusou e tem que pagar por isso.
― O problema é que ninguém quer entender... Ele é tecnicamente o meu noivo, portanto falar isso soará como uma piada para qualquer pessoa, a menos que ela esteja a par da situação. Com um país como o nosso tão marcado pela impunidade, mesmo que acreditassem em mim por algum tempo e a justiça supostamente fosse feita, todo mundo sabe que ele se safaria da cadeia num instante por poder contratar bons advogados. E aí? Quem iria me defender? Quem provaria o que aconteceu? Quem não me acusaria de oportunismo, de querer meus quinze minutos de fama? Quem não tentaria encontrar uma brecha para reiterar que a culpa foi minha, que de alguma forma eu provoquei e mereci o que me aconteceu? Eu sou realista, Gustavo sempre vai se safar por ser o filhinho do prefeito.
― Ele pode ser rico, poder contratar um milhão de advogados pra se safar da cadeia, ser o seu noivo, filho do prefeito, mas é um estuprador e fez com você o que poderia fazer a qualquer outra moça, isso é se já não fez. ― comentou Conceição. — Não importa que ele seja o seu noivo, se você não queria ter feito, ele não podia ter passado por cima da sua vontade.
— Ele o faz o tempo todo, tia. E todos dão crédito a ele. Essa é uma dor que eu vou ter que carregar comigo até o túmulo.
Tia Conceição e eu demos as mãos. Nossos olhos estavam úmidos, nós já tínhamos chorado tanto juntas em outras ocasiões, mas o pranto de que compartilhávamos naquele dia era diferente. Aquela dor passava a ser dela também.
— Gustavo é um deus em Guaratuba. Mulher que queria estar no meu lugar é o que não falta. Todas são loucas por ele. Analisando por esse lado, eu deveria estar feliz por ter passado na frente das outras, mas não considero nenhum mérito e não estou sendo hipócrita. É tudo tão falso, mentiroso. Ninguém conhece o verdadeiro Gustavo. Ninguém desconfia de suas atitudes escusas.
— Faça as pessoas conhecerem. — pressionou minha tia, desejando esganar Gustavo, esperando nunca encontra-lo pessoalmente para não sujar as mãos.
Quando Tio Abílio e Daniela abriram a porta do dormitório, ambos estavam pálidos e preocupados com a choradeira, mas éramos uma família e por mais que fosse constrangedor ter que relevar a verdadeira identidade do meu noivo, ali eu tinha mais segurança do que com meus pais que com certeza me culpariam pelo que aconteceu, diriam que inventei a situação, como a maioria das pessoas costuma fazer quando uma menina/mulher conta que foi estuprada. A coação faz com que a vítima se sinta suja, culpada, mais humilhada do que foi durante o ato. Colocar em dúvida as lágrimas de dor é um gesto de extrema covardia.
Eu me sentia suja, má, um pedaço de carne sem valor, aquele monstro que Gustavo me fazia crer que eu era.
— Sinto muito desapontá-los, mas Gustavo tem a faca e o queijo na mão.
— Ele não é maior do que Deus! — lembrou Abílio, sábio.
— Muitas pessoas vão dizer que eu pedi para ser abusada, que inventei isso por despeito. Ninguém nunca vai acreditar em mim!
— Você não pode se casar com esse homem. Eu não vou deixar. — chorou Abílio.
— Eu não tenho pra onde correr, tio. Eu não tenho pra onde ir.
— Como é que não tem? — insistiu Abílio.
— Gustavo vai me encontrar.
— Ele não é a pessoa que vai te fazer feliz, minha querida. Você não pode anular todo o seu futuro por causa de um homem, ainda mais de um homem que não te ama, que nem sequer tem respeito pela sua pessoa, pelos seus sonhos. Ele não merece nem mesmo que você chore por ele. Se merecesse, estaria te incentivando a estudar, respeitaria a sua liberdade, a sua individualidade e o noivado seria a consequência de um projeto pensado a dois. O casamento é o projeto de vida pensado por duas pessoas, que mesmo com todas as suas diferenças, querem construir algo juntas, não é um álbum, uma festa, um bolo, um anel, vai além disso. Diga-me se ele está refletindo sobre o significado da união de vocês como uma pessoa sensata faria? Pelo contrário. Está te tratando como uma bonequinha, querendo que você faça as vontades dele porque ele quer ser o centro das atenções. Tenho certeza de que você sabe da resposta para isso.
Reviver aquela situação era mais humilhante que o ato em si. Fiz questão de não poupar detalhes. Daniela chorou junto comigo, me abraçou apertado, tanto que a partir dali fizemos um pacto de não tocar mais em assunto de noivado, embora meus tios já deixassem muito claro que qualquer fosse minha decisão, me apoiariam incondicionalmente.
Era isso que queria ouvir do meu pai.
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