Confissões de Laly

21 18. O Envenamento - parte 2


Milene Moraes abraçou o pai pelas costas. Amado imediatamente interrompeu a leitura para corresponder ao gesto de carinho, impressionado por ter sido ela a tomar a iniciativa de conversar.

― Tudo bem, filhinha? ― Inquiriu Amado, descansando os óculos de leitura e o livro na mesa de centro, sentando a filha no colo.

― Não poderia estar melhor, papai. ― Argumentou Milene com os olhos cintilantes, esperando que o pai quisesse investigar o motivo de tanta alegria.

― Rindo tanto só pode estar feliz.

― E estou mesmo...

Adotando os trejeitos da criança inocente existente apenas para Amado e Laly, Milene acariciou o peitoral do pai de forma leve e repetitiva:

― Papai, o que acha de jantarmos fora hoje? ― sugeriu Milene.

― Você quer mesmo, querida? ― Repetiu Amado, esperando que a filha não percebesse sua agitação interior. ― Depende só de você...

― Hoje estou particularmente feliz e quero celebrar.

Aqueles eram os minutos mais desesperados das vidas de Emília Sanches e Gilberto Gallardo. Em um dia normal, Fernanda e Mayra teriam de esperar o dobro para serem atendidas, entretanto, a gravidade da situação delas acelerou a prioridade do atendimento, uma vez que as garotas corriam risco de vida.

Naira chorava e rezava muito pela irmãzinha. Aimée, abraçada a Iury, soluçava baixinho. Apesar de não amar a namorada, o futuro médico se via no dever de ampará-la, afinal, também se comovia com o drama das famílias Sanches e Gallardo e pessoalmente conhecia Mayra de toda uma vida, ficaria muito abalado se porventura ela falecesse.

Gabriel chegou ao hospital algum tempo depois e encontrou a todos na sala de espera, bastante indignado com o que aconteceu.

― Bolo envenenado? Como assim?

― Eu encontrei a substância no bolo que Fernanda preparou. ― Contou Gilberto, trabalhando a princípio com a hipótese de que Fernanda ainda estivesse sofrendo muito pela perda de D. Lílian e cogitasse a ideia de suicídio, mas julgava de uma extrema covardia levar Mayra junto.

― Fernanda estava com vontade de comer bolo, mas estávamos sem achocolatado e ela resolveu não fazer nada. Estou sem entender...

― Fernanda não estava pensando em morrer, estava? ― Indagou Gilberto por ter noção da proximidade afetiva dos dois irmãos.

― Fernanda ama a vida, pai. ― Gabriel abanou a cabeça, aliviando as expectativas sombrias do pai. ― Morte nem passa pela cabeça dela.

― Tem certeza? Ela não tem agido de forma estranha nos últimos dias nem nada? Mas vocês jovens quando dão para ficar de segredinhos é um problema. ― Gilberto discursou, ainda precisando que Gabriel o confirmasse enquanto não podia averiguar as respostas da própria Fernanda.

― Não tenho segredo nenhum. Fernanda não queria se matar.

― De quem diabos era esse bolo? ― Emília perquiriu.

― Talvez o pastor tenha mandado entregar. A Fer e a May são amigas das filhas dele... ― sugeriu Naira.

― E um pastor seria capaz de uma atrocidade dessas? ― retrucou Aimée.

― Nunca se sabe... ― Gabriel deu de ombros. ― Até que se prove o contrário, todos são inocentes e também culpados.

― Agora só nos resta rezar e torcer para que nossas filhas resistam. ― D. Emília concluiu, cansada de tanto esperar por respostas que não chegavam.

― Continuaremos rezando, mãe. Não rezo apenas pelas garotas, mas para tocar o coração dessa pessoa perversa que envenenou os bolos. ― incentivou Naira com a sua fé inabalável.

Milene e Amado estavam sentados de frente um para o outro na pizzaria que estava razoavelmente movimentada para uma noite de domingo. A garota não estava atenta às palavras do pai, mas tentando capturar entre um burburinho e outro alguma informação que pudesse possibilitá-la de saber se o plano malévolo obteve êxito.

― Que apetite, Milene. ― Amado conhecia a filha o suficiente para saber que aquele não era um comportamento habitual dela. ― Que houve com você?

― Estou feliz...

― Você está feliz?

― Sabe quando um grande sonho seu se realiza?

― Um sonho realizado... Poderia me contar?

Milene ensaiou durante o dia inteiro o choque para receber as notícias das mortes de Aimée, Fernanda, Mayra e Laly. Estava tudo esquematizado. O pai adentraria o quarto dela e pediria para ter uma daquelas conversas nas quais o principal argumento era o de que "precisaria ser forte para suportar o que ouviria". Amado Moraes era dramático e patético e nada a irritava mais do que ser subestimada, mas havia uma vantagem enorme de passar por boa garota: o fato de domar a arte de chorar. Forjaria uma tristeza tão tocante que ninguém no mundo jamais desconfiaria de sua autoria nos envenenamentos.

O velório de suas quatro inimigas seria coletivo. Milene podia imaginar a legião de hipócritas que estariam chorando as pitangas no cemitério, desconhecidos falando das falecidas como se elas fossem suas amigas de infância, todas aquelas coroas de flores apenas acumulando espaço.

Ela adentraria a capela de mãos dadas com o pai, vestida de preto da cabeça aos pés, enxugando as lágrimas e externando a indignação, olhando fixamente para o corpo inerte de Lalinha, sem chance de defesa, reação ou o que quer que fosse. Os fracos perdiam a luta. Agora a prima não podia mais nada, estava presa a uma urna funerária e seria devorada por vermes debaixo da terra. Um castigo justo por ter se aproximado de Iury.

Era difícil de esconder a satisfação.

― Milene... ― chamou Amado.

― Algum problema, papai?

― Você me disse que realizou um grande sonho...

Eu realizei?

Milene olhou para a televisão e em seguida para o pai, cortando lentamente mais um pedaço de pizza e deixando um enigma no ar.

Fernanda e Mayra foram submetidas uma lavagem estomacal e milagrosamente escaparam com vida do envenenamento. Emília e Gilberto foram autorizados pela equipe médica a visitarem as garotas assim que elas saíram da ala de observação e foram liberadas para um quarto comum.

― Pai... ― Fernanda se emocionou ao rever o pai.

― Não dá mais esse tipo de susto na gente. ― brincou Gilberto.

― Eu vou ficar boa? ― Perguntou Mayra a D. Emília.

― Vai sim, minha pequena. ― Confirmou Emília, afagando a cabeça da filha caçula. ― Seu anjinho da guarda é muito forte. Você podia ter morrido.

Gilberto Gallardo compreendia que Fernanda precisava de repouso para se restabelecer mais depressa, porém não conseguia se acalmar enquanto não inquirisse a filha do meio sobre a origem do bolo e a garota, muito lúcida apesar do cansaço, explicou-o o que se passou.

― Eu sempre te disse pra não aceitar coisas de estranhos. ― advertiu Gilberto.

― Milene me disse que foi a May que preparou o bolo...

― Mayra nem se aproximou da cozinha hoje. ― D. Emília defendeu Mayra.

― E que eu me lembre, Milene é quem gosta de bolo de chocolate. ― contou Mayra.

― Será que não foi Milene quem envenenou o bolo? ― Gabriel refletiu.

― Não sei se Milene seria capaz de um ato tão vergonhoso desses. ― atalhou Naira, tão inocente quanto uma criança pequena. ― Mili é sempre tão quietinha, reservada, boazinha...

Os mais caladinhos e bonzinhos normalmente são os mais perigosos. Desconfie de quem não faz barulho. ― recordou Gabriel que apesar de pouco ter conhecimento da conduta de Milene, não se sentia confortável na presença dela que com aquele sorrisinho de meia tigela parecia sempre estar debochando de todo mundo como se fosse superior.

― Também não vamos acusar sem provas, Gabriel. ― conciliou Gilberto, prezando pela justiça. ― A própria garota pode não saber da origem do veneno.

Mayra recordou as confissões de Milene nas semanas anteriores e um arrepio de medo percorreu o seu frágil corpo de menina.

Grazielle Rodrigues não parava mais de chorar em seu quarto, o que preocupou a D. Sabrina que foi averiguar o que se passava com a garota, supondo ingenuamente que se tratasse de algum problema com Gabriel.

― Algo errado, meu amor? ― Indagou Sabrina, sentando-se na cama onde a filha chorava deitada de bruços.

― Não precisa se preocupar, mãe. Eu vou ficar bem ― mentiu Grazielle.

― Bem você não está. Andou se desentendendo com Gabriel? ― Sabrina fez cócegas para animar a filha, mas a mesma não correspondeu, não riu, nem sequer se pronunciou. ― Acho que já sabe...

― Do quê, mãe?

― Pensei que tivessem te contado. Sinto muito pela May.

― Aconteceu alguma coisa com a May?

― Emília telefonou para cá. Mayra está no hospital.

― A May está hospitalizada?

― Por um triz que ela não se foi. ― revelou Sabrina, aturdida e comovida.

Grazielle sentiu-se enjoada demais para falar qualquer coisa e teve o amparo da mãe que jamais compreenderia o peso daquela culpa que a assombrava por ter falhado na missão de convencer Milene a não fazer o que pretendia, no entanto não lhe restava nem a lamentação. A prima de Laly estava destinada a ir até as últimas consequências para ter Iury Saciotti para si.

Meu pai comprou essa substância para matar os ratos que às vezes aparecem aqui na rua. ― Milene manuseava com muita cautela o frasco com uma substância que poderia matar um ser humano dependendo da dose ministrada. ― Mas o efeito não se limita a matar ratos... Ele pode liquidar alguns vermes que nos incomodam.

Grazielle conhecia Milene o bastante para saber pelas entrelinhas o que ela queria dizer com aquele deboche soberbo e descarado.

― Isso é muito cruel. Tem mesmo certeza de que quer fazer isso, amiga? Você pode se arrepender. Um menino não vale tanto empenho assim, Milene. ― aconselhou Grazielle. ― Isso que você sente pelo Iury não é amor, é doença. O Iury nunca vai gostar de você.

― Eu sabia que não poderia contar com você. ― Milene adotou o tom chantagista para amedrontar Grazielle.

― Por favor, Milene. Chega com essa inveja. Isso só está te destruindo.

Milene Moraes não tinha piedade de ninguém. Para quem afogou um inocente cachorrinho quando não passava de uma criança de oito anos, matar Aimée Gallardo por envenenamento era apenas um amadurecimento do espírito atroz.

Naquela manhã de domingo, Milene não foi à igreja com o pai, convidando Grazielle para ajuda-la pessoalmente a preparar um bolo de chocolate, o que a outra garota entendeu como uma chance de ter uma conversa séria com a amiga. Nunca lhe passou pela cabeça que Fernanda e Mayra poderiam ter morrido envenenadas.

Partindo do princípio de não saber que Milene já havia despejado veneno na cobertura do bolo, Grazielle não poderia ser punida por um crime que não cometeu, mas por ter ajudado a amiga a preparar a receita, a culpa recairia sobre ela. Era uma lógica justa, infelizmente.

Grazielle nem sequer esperaria amanhecer para sanar suas dúvidas a respeito do estado de saúde de Mayra. Gabriel a recebeu na sala de espera do hospital com um abraço longo e caloroso.

― Está tudo bem, Grazi. Está tudo bem. Não fique assim... O pior já passou...

Nada era capaz de acalmar uma alma tomada pelo remorso.

― Eu... Eu tenho uma coisa para te contar. ― disse Grazielle, soluçando.

Pois conte.

― Eu sei quem envenenou o bolo.

― Sabe?

― Sei. Foi Milene.

― Foi Milene? ― Questionou Gabriel, ainda incrédulo com a afirmação da namorada, não por não desconfiar da veracidade da narrativa, mas por se alinhar aos pensamentos do pai e crer que era sempre um ato errôneo e equivocado julgar os outros sem provas cabais para acusar.

― É isso, Biel. ― explicou Grazielle. ― Eu não sabia que o bolo estava envenenado.

― Essa história não faz sentido.

― Você tem que acreditar em mim, Biel. Eu não sabia que a Milene já tinha executado o plano malévolo dela. Eu nunca teria aceitado preparar o bolo se soubesse que ele provocaria transtornos para todo mundo.

― Você sabia que essa garota ia machucar minha irmã e não fez nada para detê-la. Você é cúmplice dela!

― Não sou!

― O que você fez não tem nome.

Grazielle não foi capaz de articular palavras que a absolvessem.

― Você sabia que essa louca ia matar minhas irmãs e simplesmente ficou de braços cruzados? Não sei se você merece meu amor, Grazielle. Se você é conivente com uma pessoa que comete uma atrocidade sem tamanho com essa, é tão culpada quanto ela.

― Eu juro que não sou. ― Grazielle se desesperou com a perspectiva real de perder para sempre o amor e admiração de Gabriel.

― Preciso de um tempo, Grazi.

― Biel...

― Por favor, Grazi. Dê-me um tempo.

― Eu posso me explicar.

― Isso não tem explicação.

Gabriel não tinha certeza se algum dia conseguiria perdoar Grazielle e ela, amuada, deixou o hospital. Ele, porém, foi procurar o pai para conta-lo a verdade. Fernanda e Mayra estavam dormindo e não faziam ideia de que Milene por pouco não tirou a vida delas.

Milene não sabia precisar se a demora era bom sinal. De qualquer modo deu a desculpa de ver televisão na sala tão somente para patrulhar o telefone. Quando este soou, ela, que nunca o atendia correu na frente do pai, anunciando:

― Pode deixar que eu atendo... Deve ser para mim...

― Para você? ― Amado disfarçou o descontentamento. Desconfiava de que a inesperada "alegria" de Milene tivesse o nome de algum patife. ― Mas a essa hora.

Milene tampou o bocal do telefone e apenas sorriu para o pai, que deu de ombros. Para Amado, em suas condições, restava abnegar quaisquer desejos de natureza adversa e compreender que a filha nunca aceitaria encarnar o papel que outrora foi de sua mãe, como acontecia antes de forma natural.

― Alô? ― atendeu Milene, com a voz infantilizada que faria Amado cair de joelhos e correr o mundo para satisfazer todos os desejos de sua menina-mulher.

― É com você mesmo que eu quero falar ― ralhou Emília, bastante exaltada.Sua criminosa. Criminosa. É isso o que você é, garotinha.

Milene olhou para o pai como se a pessoa que estava do outro lado da linha falasse latim.

― O que você cometeu é um crime terrível. Você podia ter matado Mayra, não sabia?

― Acho que a senhora se enganou de residência. ― respondeu Milene, alheia à culpa que lhe cabia.

― Não, eu não me enganei, Milene. Não seja cínica! ― Rebateu Emília, encorajada, pronunciando-se em nome da família Gallardo também, uma vez que não era novidade para ela a crueldade de que Milene era capaz, jogando limpo sem medo de chantagens.

― Eu não sei do que a senhora está falando, D. Emília. Sinto muito pelo infortúnio envolvendo a pobre Mayra, mas não aceito ser caluniada, difamada e acusada de um crime que não cometi, até porque de tanto sua querida filhinha me excluir de tudo, mal sei o que se passa. Além do mais, configura-se em falta de decoro telefonar para uma residência de família a esta hora da madrugada ou a senhora, além de caluniadora, mal-educada e rude, ainda por cima perdeu o pouco de modos que tinha?

― Menina insolente, seus dias de atrocidade estão contados.

― As informações não procedem, portanto, minha consciência está tranquila. Diga a quem quer que tenha me acusado que para fazê-lo é necessário ter provas concretas ou do contrário eu tenho todo o direito de acionar a justiça, posto que minha honra está sendo gravemente lesada.

Amado ilustrou pelas expressões de Milene que não era um bom momento para fazer perguntas.

― Algum problema, meu amor?

Milene não o respondeu.

― Pretendo ter uma conversa muito séria com seu pai... ― Ameaçou Emília, desejando que Milene fosse punida pelo que fez.

Milene deixou o telefone cair no chão e ao olhar dentro dos olhos do pai que não sabia o que se passava, teve uma crise de choro indo encontrar consolo nos braços dele.

― Não importa o que digam, eu sei que você jamais seria capaz de tamanha atrocidade, meu amor. Não precisa chorar, tampouco se justificar. Confio na sua idoneidade de caráter. Ora, não chore mais. Essas pessoas baixas não merecem suas lágrimas. Não molhe seu rosto tão lindo com lágrimas dolorosas.

― O mundo é muito injusto, papai. Sou acusada de maldades que não fiz e não tenho quem olhe por mim.

― Tem, sim. Eu. E eu acredito em você. Eu sempre te disse que o mundo lá fora é perigoso, que eu sou a única pessoa em quem você pode confiar, que te ama de verdade como ninguém jamais irá te amar.

― Grazielle Rodrigues, não pense que você ficará impune. ― pensou Milene, enquanto abraçava e acariciava o pai porque conhecia todos os meios para manipular Amado e ele seria um aliado importante.

Gabriel não podia disfarçar a devastação que seu emocional se encontrava por saber que Grazielle foi comparsa de Milene no caso do bolo envenenado. Apesar de ainda amá-la muito, preferiu dar um tempo no namoro e foi se aconselhar com a irmã mais velha que assim como ele não teve calma para dormir, ainda que Fernanda estivesse fora de perigo.

Os dois estavam sentados na sala de espera.

― Como é que alguém pode ser tão perverso assim? ― insistiu Aimée, horrorizada.

― Mais triste é quando a gente gosta de alguém e não quer acreditar, ainda mais quando a verdade está tão óbvia... ― desabafou Gabriel. ― Não sabia que o bolo era destinado a você...

― A mim? ― Aimée arregalou os olhos.

― Sim. Milene preparou o bolo com veneno para matar você.

Aimée se espantou. Não se lembrava de ter dado quaisquer motivos para que Milene a execrasse a esse ponto e mesmo que houvesse alguma rivalidade por conta de Iury, jamais se utilizaria de meios escusos para afastar a concorrente.

― E por quê?

― Até parece que você não sabe, Aimée. ― desdenhou Gabriel.

― Nem conheço essa garota. Por que ela iria querer me matar?

― I-U-R-Y...