Confessionário
47 Capítulo 47
O som do acordeão, combinado ao toque do pandeiro, preenchia o ambiente da festividade. Robin terminara de comer e estava bebendo, observando os homens se divertindo com quedas de braço. Sorriu. Estavam todos muito felizes. A caça fora bem sucedida, como sempre. Desde que Robin entrara na equipe, ele percebeu que aperfeiçoou em muito suas habilidades. Era uma dos melhores em sua equipe e sentiu-se orgulhoso por fazer parte dela.
Observou algumas crianças brincando na beira do fogo com seus pequenos gravetos. Por um instante, Roland veio à sua memória e isso o entristeceu. Sentia muita falta dele. Ouviu a risada de Regina e rapidamente a avistou do outro lado da enorme fogueira. Ela dançava com as senhoras idosas, rodopiando-as ao som da melodia. Usando um vestido azul florido, e os cabelos soltos, Regina era a imagem mais leve e mais pura que ele já vira. Ela estava rindo e ele percebeu que nunca antes a vira sorrir daquela maneira; aquela era outra Regina. Uma Regina livre da magia, livre da vingança, livre de um coração negro de ressentimento e morte. Uma garota e ao mesmo tempo, uma mulher irresistível.
Ela ergueu o olhar e percebeu que ele a encarava. Sorriu, de uma maneira acanhada e encantadora que o fez sorrir de volta, acenando a cabeça em afirmação. Logo uma das senhoras chamou a atenção dela e o contato entre eles foi quebrado. Robin continuou observando-a. A tensão entre eles beirava ao insuportável. Fazia semanas que eles haviam se instalado no pequeno casebre. Na primeira semana, quando saiu para caçar, ele ficou realmente preocupado com ela passando os dias sozinha. Mas ao contrário do que imaginava, ela se adaptou perfeitamente bem. Adotou aquela comunidade como sua nova casa e assim foi adotada. Permitiu-se conhecer os habitantes, permitiu-se ser conhecida; aprendeu a cozinhar com as velhas senhoras, aprendeu a costurar, ajudou-as a cuidar de suas crianças.
Robin sorriu lembrando-se das primeiras aulas que de arco e flecha que dera a ela. No começo, ele encarou aquele momento apenas como um pretexto para passar mais tempo com ela. Para poder enlaçar Regina em seus braços, ainda que para ensiná-la como segurar o arco corretamente. Ele podia sentir o perfume de seus cabelos quando ela alinhava a flecha, e esse era um dos motivos mais bobos para se ensinar algo a alguém, mas ele estava completamente bobo por ela de qualquer modo. Jamais assumiria para ela que Regina era uma aluna muito mais aplicada e talentosa que ele o fora; que ela aprendera com destreza na metade do tempo que ele próprio levara. Ela já era bem convencida sem motivos.
Observou uma das senhoras a abraçando, e acariciando seu rosto. Percebeu o semblante dela se desmanchando. Era triste saber que ela nunca tivera algo como aquilo, uma vaga lembrança do que era ter uma família. Até ele, um ladrãozinho fajuto em seus piores dias tivera o prazer de conhecer o amor de sua mãe. Ouviu a risada dela novamente – seu som preferido desde que o ouviu pela primeira vez. Era doloroso ouvi-la; fosse falando ou rindo. Todos os seus sons, até o simples suspirar quando finalmente chegavam em casa – era um motivo que o fazia desejar compulsivamente beijar aqueles lábios. Lembrou-se de quando deitou a cabeça no colo dela em uma noite quente e sentiu os dedos delicados acariciando seus cabelos. Queria que se odiassem; seria mais fácil aplacar a gigantesca atração que os magnetizava de volta ao outro. Ela brincou com seus cabelos e ele deixou, deliciado pelo toque dela. Percebeu quando o olhar dela caiu sobre seus lábios e ela suspirou, antes de desviar o olhar. Regina o queria e ele a queria e isso ficava cada vez mais evidente, em cada abraço, em cada toque, em cada olhar ou mesmo quando seus corpos estavam somente próximos um do outro, conversando, cozinhando ou simplesmente olhando para o céu. Ambos estavam cientes de que cedo ou tarde, as defesas cairiam por terra e não restaria mais nada entre eles.
Ele estava com medo. Beijá-la significaria abrir mão do passado. Abrir mão de seu conhecimento sobre ela, abrir mão das lembranças duras da jornada visceral que o trouxera à aquele momento. Beijá-la significaria recomeçar do zero sem nenhuma vantagem do passado. Significaria esquecer tudo, e tudo incluía uma família que podia não existir no presente, mas existia vividamente em seu coração. Roland. Mas ao mesmo tempo, sabia que estava privando Regina de ser verdadeiramente feliz. Se Pandora lhe dera uma segunda chance, era porque ela própria acreditava que Robin e Regina tinham tudo para serem felizes. Ela tinha fé em Robin, mesmo sem lembrança alguma dos dias passados.
Ele despediu-se dos homens à mesa e caminhou na direção dela. Embora Regina estivesse de costas, ela virou-se quando ele estava a um passo dela, de modo que seus olhares rapidamente se cruzaram quando ele a alcançou. “Eu estou indo para casa.” Começou ele. Ela o observou por alguns segundos, como que percebendo através de seu olhar os sentimentos tristes e difusos em sua mente. Regina segurou na mão dele, o polegar roçando a pele no dorso de sua mão delicadamente.
“Você está bem?”
“Só estou cansado.”
“Quer companhia?”
Ele sorriu. “Você terá melhor companhia se ficar. Eu vou dormir.”
“Tudo bem. Vou ajuda-las a organizar as coisas e vejo você em casa.” Com um movimento delicado, Regina debruçou-se sobre ele e beijou sua bochecha com carinho. “Tente não fazer muita bagunça.” Brincou, os olhos repletos de carinho.
“Vou tentar.” Assentiu ele, e acenou, despedindo-se das velhas senhoras. Ele se afastou na direção das casas com as mãos nos bolsos e a cabeça baixa. Regina o observou se afastar, em silêncio. Ela sabia que havia algo errado com ele, mas também sabia que Robin era orgulhoso demais para lhe contar.
Lágrimas e mais lágrimas. Elas explodiram compulsivamente assim que Regina fechou a porta atrás de si. Seu tórax ardia, e uma dor pulsante tornou-se presente no seu peito. Ela permitiu-se ajoelhar e os soluços apareceram. As tentativas de se controlar foram mal sucedidas e ela ouviu o som de passos no andar superior. Robin, um tanto sonolento, apareceu no topo da escada vestindo apenas uma calça fina.
“Regina?”
Os olhos dele se abriram rapidamente quando ele a viu ajoelhada; os olhos vermelhos e o rosto lavado pelas lágrimas que insistiam em cair. Ele pulou o lance da escada rapidamente e correu até ela, ajoelhando-se e puxando seu rosto para si. Seus dedos rapidamente encontraram caminho no meio dos cabelos dela e ele a abraçou, apertando-a contra seu corpo. Uma vez dentro do abraço dele, ela permitiu-se chorar. Robin havia se tornado seu porto seguro, seu refúgio quando sentimentos ruins ou tristes vinham lhe atormentar. Nunca antes ela se sentira tão segura com alguém. Tão protegida. Ele a manteve ali, acariciando seus cabelos em silêncio, sem pressioná-la a dizer nada. Essa era uma das coisas que ela mais amava nele. Robin respeitava-a, não somente em contexto físico. Ele respeitava seu emocional. Respeitava sua maneira de lidar com qualquer assunto; respeitava seu tempo e lhe dava espaço. Respeitava sua personalidade, mesmo não entendendo muito bem. Respeitava inclusive seus defeitos e era um cavalheiro, mesmo quando parecia seguir o código de conduta dos ogros.
Durante muito tempo, ela permaneceu ali; não poderia dizer quanto tempo eles haviam ficado ajoelhados no chão da cozinha. Ela não estava mais sentindo seus joelhos quando ele delicadamente a afastou para então a encaixar em seus braços, colocando-a em seu colo; um dos braços firme no meio de suas costas e o outro sobre o joelho. Regina nada fez a não ser deitar a cabeça contra o peito dele e fungar audivelmente. Estava cansada. Chorar definitivamente esgotou o restante de energia que possuía. Ela acompanhou-o com o olhar enquanto Robin a carregava até a antessala, sentando-se sobre o sofá enquanto a acomodava sobre seu colo. Com cuidado ele a sentou sobre si, as pernas esticadas e uma de suas mãos delicadamente pousou em seus cabelos, mantendo sua cabeça alinhada. Ele esticou suas pernas e sua outra mão parou delicadamente na altura do joelho dela. Ela o fitou, e percebeu o quanto estavam próximos. Eles eram definitivamente um caso excepcional de intimidade, mas eles estavam cientes de nunca antes estiveram tão íntimos. Tão perto um do outro. Robin estava sem camisa, de modo que quando ela deitou a cabeça em seu peito, sentiu a textura de sua pele queimada. Podia sentir a pulsação acelerada; podia sentir o olhar dele em seu rosto, analisando cada detalhe, admirando-a como ele sempre fazia.
“Você estava muito feliz quando eu saí da festa.” Constatou ele, e ela imaginava que ele não entendia o que estava acontecendo. Mesmo assim, sorriu internamente. Ele queria saber, mas não tinha intenção alguma de lhe perguntar. Ela não respondeu. Deitou ainda mais em seus braços e se aconchegou contra seu dorso; a cabeça enfiada na junção entre o pescoço e a clavícula dele. Sentiu o cheiro das árvores na mata e suspirou; Robin apertou-a contra si levemente e fechou os olhos, mantendo uma leve carícia em seus cabelos. Se ela não queria falar, ele não iria obriga-la. Conhecia Regina e sabia que pressioná-la a qualquer coisa só era a maneira mais fácil de afastá-la. Fechou os olhos e continuou acariciando-a até que adormeceu.
Um sonho estranho, feito de nuvens e raios o abraçou. Robin inquietou-se, quando os raios pareciam descer ao seu lado, tão próximos que ele podia sentir em sua própria pele. Por alguma razão, ele estava com seu arco na mão e avistou uma coruja; rapidamente alçou a flecha e tentou atingi-la vez após vez – não obtendo nenhum sucesso. As nuvens tornaram a mover-se, fechando ao redor dele. Relâmpagos se aproximavam, fechando um cerco ao seu redor até que um trovão assustador ressoou e ele acordou, respirando ofegante.
“Parece que alguém teve um pesadelo.”
Ele encostou a cabeça no batente do pequeno sofá, rindo com os olhos fechados. “Você estava me olhando dormir? Isso não se faz.”
“Bom, se serve de consolo no começo do sonho você parecia bem tranquilo. Depois as coisas ficaram estranhas.” Riu.
“Há quanto tempo você estava me observando?”
“Você nem chegou a dormir. Cochilou por alguns minutos... É incrível que tenha dado tempo de sonhar alguma coisa.”
Ele manteve os olhos nela e ela sorriu para ele quando percebeu. Aos poucos, ela ajeitou-se e deitou a cabeça no ombro dele de uma maneira que era possível a ele observar seu rosto. “Vou te contar o que aconteceu. Eu estava chorando por causa da Naomi.”
“Naomi? Uma senhora de 83 anos fez você chorar como uma criancinha?”
Ela franziu o cenho e socou o braço dele sem força. “Eu não chorei como uma criancinha.”
“Você se viu chorar? Não. Eu vi.” Ele abriu um sorriso lindo, a dentição perfeita encantando-a. “Você está certa. Você não chora como uma criancinha. Parece mais um bebezinho.”
“Eu não vou te contar nada.” Respondeu, emburrada. Robin segurou seu rosto pela lateral e acariciou sua bochecha direita com o polegar delicadamente.
“Não seja assim.”
Ela o fitou por algum tempo. Então ajeitou-se no colo dele, sentando-se no topo das coxas dele com as costas eretas e olhou-o nos olhos. “Naomi me trouxe em casa. Estávamos conversando e ela me contou a história de seu filho que morreu na caçada. Ela disse que desde a morte dele, ela manteve seu luto e nunca achou motivo para sorrir novamente. Até que nós chegamos na cidade.” Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas ele não a interrompeu. “Daí ela me chamou de filha. Disse que eu e você trouxemos vida à esse povo novamente, trouxemos riso, e que ela finalmente conseguia sorrir e dançar ao som do acordeão sem sentir culpa.” Lágrimas solitárias escorriam pelo rosto dela. “Eu nunca tive isso, Robin. Eu nunca fui amada assim. Quer dizer, meu pai me ama. E eu sinto tanta falta dele. Eu preciso vê-lo. Mas eu nunca tive uma família. Eu não sabia o que era isso, o que era uma pessoa me agradecer por fazê-la rir novamente. Não sabia o que era ter pessoas te dando as joias que as avós delas lhes deram, te chamando de família, de filha. Isso tudo é novo para mim, e eu nunca achei que ia merecer.... Eu nunca achei que teria nada disso. E se eu perder meu pai, Robin? E se ele morrer e eu não conseguir vê-lo, e ele achar que eu o abandonei?”
Robin limpou o rosto dela com seu polegar e então manteve a mão ali, em um gesto carinhoso. “Eu vou dar um jeito de irmos buscar seu pai. Tudo bem? Você confia em mim? Só me dê um ou dois dias para prepararmos tudo.”
Ela arregalou os olhos e o fitou. “Você faria isso por mim?”
“O que eu não faria por você?”
As palavras escaparam dos lábios dele antes mesmo que ele se desse conta. Ela o fitou, completamente imersa nos significados que aquela simples pergunta retórica havia causado. Como uma avalanche de um líquido quente e viscoso, o peso daquela declaração deslizou entre eles, fazendo com que ele mordesse o lábio e encarasse o olhar inquisidor que ela lançava contra ele.
“Robin... você me ama?”
Ele podia sentir a insegurança em suas palavras. Podia sentir, na fragilidade de sua voz, que ela tinha medo da resposta. Admirou a ousadia dela, pois podia sentir a cada inspiração que ela não havia pensando antes de fazer aquela pergunta. Havia sido um impulso automático, e ela estava estática desde então; os olhos cor de chocolate fitando os seus com uma espécie de paciência agoniada.
“Sim.” Respondeu ele, rendendo-se. Abaixou a cabeça, e fitou o olhar dela. Ela abriu a boca para falar algo, mas nada saiu. À primeira vista, pareceu-lhe que ela estava tentando convencer-se do que havia escutado; depois, um misto de sorriso e riso instalou-se em seus lábios. Ainda com os olhares cruzados, ele adicionou. “Mas ainda não podemos ficar juntos.”
Ela sorriu, um dos sorrisos mais bonitos que tinha e então abraçou-o, seus braços cruzados atrás do pescoço dele. Ela o apertou com força, tentando aplacar as explosões de felicidade que vibravam em seu peito. Ele a amava. Independentemente do que os mantinha separados, ela tinha uma certeza que mudava toda a sua perspectiva. Sentiu as mãos dele em sua lombar, de uma maneira quase casta. Quando se afastou, ela o segurou pelos ombros e olhou nos olhos azuis; e ele entendeu exatamente o que ela queria dizer, mesmo sem nem uma palavra ter sido dita. Os medos dele não tinham fundamento. Ele já possuía o coração dela. Regina deslizou a costa da mão sobre a barba dele, e seu olhar caiu sobre os lábios macios. “Regina...” Alertou ele, quando percebeu o que ela estava pensando.
Com cuidado, ela segurou-o pelo queixo e empurrou sua cabeça para o lado. Debruçou-se e deixou que seus lábios conhecessem a pele dele num beijo delicado. Beijou um pouco mais para cima, abrindo a boca e deixando que sua língua tocasse de leve a pele dele antes de fechar em mais um beijo. Ela continuou beijando-o, numa linha imaginária que seguia na vertical, até que chegou no lóbulo da orelha dele. “Não se preocupe.” Disse ela, e mordiscou o lóbulo da orelha dele, prendendo-o entre seus dentes e soltando-o logo depois. Com cuidado, ela deu um último beijo sobre a pele logo abaixo do lóbulo e então sussurrou. “Eu vou esperar por você.”
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