Confessionário
27 Capítulo 27
POV REGINA
“Não me faça matar você antes de obter uma resposta, Thomas. Você não é um cavaleiro de Camelot.” Eu o encarei num misto de magoa e decepção. Ele havia mentido. Eu tinha finalmente me entregado á um relacionamento e ele havia sido uma mentira?
“Regina.” Pediu ele, e deu um passo na minha direção, mas eu o impedi.
“Fique onde está.” Ameacei. “Cavaleiros de Camelot eram homens comuns e isso você não é. Homens comuns não sabem manipular magia das fadas.” Respirei fundo, e com um movimento leve, prendi seus pés ao solo. De repente, pensei nas razões que o fariam mentir. Talvez ele quisesse o meu mal, ou o de Abigail. Talvez tivesse sido enviado pela Bruxa Má do Oeste. Talvez soubesse mais do que dizia. Não importava a variante, as opções eram todas ruins. Estendi a mão e apertei sua traqueia levemente. “Acho melhor dar a resposta certa dessa vez ou essas vão ser suas últimas palavras: Quem é você e por que mentiu para mim?”
“O feiticeiro de Oz.” Ele tinha dificuldade para respirar. Oz... O feiticeiro de Oz. Soltei seu pescoço e Thomas ofegou, passando a mão em seu pescoço.
“Por que mentiu, Thomas? Por que não me disse desde o começo quem você era?” Meus olhos estavam marejados. Droga!
“Regina.” Ele chamava meu nome como uma espécie de prece. Podia ver sua relutância. Thomas estava assustado. Não esperava que eu fosse descobrir tão cedo e nem estava preparado para ser confrontado por mim. Ele deu um passo para frente e eu recuei, e ele entendeu – ficando parado. Olhava-me com medo, e eu sabia que meu olhar não estava tão diferente do dele. “Tudo bem, me desculpe. Eu deveria ter falado. Mas assim que eu falasse sobre Oz, sabe como eles reagiriam. Logo iam de achar suspeito. Iam me acusar de ser aliado da tal bruxa que os atormenta.” Thomas respirou fundo, encarando o chão por alguns segundos antes de me encarar. “Quer dizer, olha como trataram você! Imagina o que não diriam sobre mim ao descobrir que eu sou um feiticeiro daquele reino.”
Eu entendia o que ele sentia. Realmente, as pessoas de Storybrooke não se esquecem de nada e são pioneiras na arte de acusar e desenterrar o passado. Eu sabia, já tinha sido ferida incontáveis vezes por eles. “Você mentiu para mim, Thomas. De todas as pessoas...” Eu estava chorando. Thomas estava devastado na minha frente. Ele estava em dúvida entre vir até onde eu estava e obedecer a minha ordem de permanecer parado. “De todos que eu esperaria uma traição, eu...” O que eu ia dizer? Eu não sabia o que eu estava sentindo, para ser honesta.
“Regina, por favor! Me entenda. Eu pensei que era a melhor atitude a ser tomada.”
“Mentir para mim?” Questionei, com desgosto escorrendo para o meu interior.
“Proteger você!”
Meus olhos fitaram o maxilar rígido e seus lábios. “Eu não preciso da sua proteção, Thomas. Eu sempre me virei sozinha.”
“Alguém alterou o curso natural das histórias, Regina.” Ergui os olhos e o encarei, surpresa. “Alguém...” Ele puxou os próprios cabelos, exasperado. “Não sei te explicar. Tudo saiu do lugar. As profecias não estão mais encaixando. As histórias estão incompletas.”
“O que isso quer dizer?”
“Que eu sei sobre você e Robin. Sei sobre a tatuagem de Leão e sobre o destino de vocês. É isso que estou falando. Se as histórias estivessem seguindo seu curso natural, ele não teria se casado.” Meu peito ardia. Havia informação demais naquela frase. Thomas sabia da profecia que me ligava a Robin e mesmo assim, havia permanecido ao meu lado. Ele sabia que o que eu poderia sentir sobre ele, e arriscou-se. “O destino de Belle French também era outro, Regina.”
“Como você sabe disso tudo, Thomas?”
“Eu tive acesso a um artefato que revelava o futuro.”
“E onde está esse artefato agora?”
“Em Oz.” Ele aproximou-se, parando à minha frente. “Mas você não entendeu? As visões que eu tive são diferentes do que está acontecendo. Tudo foi modificado. E quando se modifica o futuro desse modo, coisas horríveis acontecem.”
Levou algum tempo para que eu ligasse os pontos. “Quem é ela, Thomas?”
“Como?”
“A Bruxa Má do Oeste veio de Oz, então vocês se conhecem. Quem é ela?”
“Eu não me lembro. Você acha que ela deixaria minhas memórias intactas, Regina?” Ele sorriu amargamente, fitando o chão. Após um silêncio constrangedor e incriminatório, ele tornou a falar. “Eu estava com medo de estragar tudo com você, e bem, foi o que eu fiz.”
Eu não sabia o que responder. Meu silêncio se alojou entre nós, e nós trocamos um longo olhar. Eu ainda gostava demais de Thomas. Possivelmente, gostaria de continuar o que tínhamos. Mas não agora. Agora, eu precisava de tempo para pensar em tudo que eu havia descoberto. Thomas se aproximou e me abraçou, não obtendo nenhuma resistência minha. Ele beijou o topo da minha cabeça, acariciando meu cabelo. “Você sabe onde me encontrar.” Sussurrou, e lentamente soltou-me do seu abraço quente. “Eu nunca quis machucar você, Regina. Você é a melhor pessoa que eu já conheci, eu só quis protegê-la.”
Thomas pegou sua blusa no canto da sala e a vestiu, colocando o capuz azul marinho sobre a cabeça. Ele me olhou uma última vez antes de sair.
Deitei na cama, abraçando Zelena. Agora que Abby estava nas melhores mãos possíveis, eu estava em paz. Queria muito conversar com a minha filha e entender os motivos que lhe influenciaram a fugir de casa de tal maneira, mas entendia que nesse momento Regina era a melhor opção para ela. Regina acariciaria seus cabelos e lhe contaria histórias para dormir, lhe faria cócegas e faria um chocolate quente aparecer nas mãos dela com um estralar de dedos.
Eu estava pensando nela novamente.
Zelena beijou a base do meu pescoço e eu senti um arrepio atravessando minha carne. Realmente, fazia muito tempo que eu não tinha algo do tipo e meu corpo começava a denunciar a ausência de calor humano. Eu queria agradar minha esposa. Eu queria que ela se sentisse feliz ao meu lado. Debrucei meu corpo, jogando Zelena contra o colchão e me posicionando sobre ela, minha boca na sua. Eu a beijava com desejo. Senti suas unhas deslizarem pelo meu braço enquanto ela retribuía minhas carícias. “Robin...” Gemeu ela, e eu segurei seus pulsos pela cama.
Pensei que fosse te perder.
Desci os lábios para o pescoço de Zelena, sentindo-a se contorcer por baixo do meu corpo. Mas eu não estava aguentando. Por mais irônico que podia parecer, eu me sentia culpado ao tocar minha esposa. Eu me sentia infiel, mas isso era loucura, não era? Ela era minha esposa. De qualquer modo, rolei na cama e deixei que Zelena tomasse o controle. Ela rebolava no meu colo e eu sentia meu corpo respondendo, embora minha mente gritasse em contradição.
Você não é meu, e eu não sou sua, Robin.
“Roland?” Sussurrei, e Zelena avisou que ele já estava dormindo. Eu estava em uma guerra interna insana, lutando contra os meus sentimentos por Regina. Mas a derrota era iminente. Regina havia deixado claro que apesar do que sentia, ficaria com Thomas e eu deveria ficar com Zelena. Ela já havia dado o ponto final. Fechei os olhos e respirei fundo quando Zelena abriu o zíper do meu jeans. Virei-a na cama e retomei o topo novamente, alojando-me entre suas pernas e a beijando ferozmente.
O sol começava a aparecer quando bati na porta de Regina. Engraçado estar ali novamente. Eu havia esmurrado a porta dela no dia anterior, embora parecesse ter sido há uma eternidade atrás. Ouvi a gargalhada de Abby e sorri. Quando Regina abriu a porta, estava sorrindo e eu quis guardar aquela imagem para sempre.
“Oi.” Ela sorriu e eu sorri de volta. Roland correu para dentro da casa, sem nenhuma cerimônia. “Entra.”
“Tem certeza? Eu não quero...”
“Thomas não está. Entre logo.”
Acompanhei-a silenciosamente até a cozinha. Abby apareceu correndo e se jogou nos meus braços. “Papa!” Eu a abracei e beijei inúmeras vezes seu rosto. “Sua danada! Nós ainda vamos conversar.”
“Regina disse que você não ia brigar comigo...”
Troquei um olhar rápido com Regina e sorri para minha filha. “E não vou. Só quero conversar.”
“Não gosto de conversa de adulto. Vocês choram e alguém sempre tem que ir embora. Igual aconteceu entre a Regina e o namorado ontem.”
Regina encarou-a assustada e depois me encarou. Percebi que aquele comentário a pegara de surpresa.
“Isso foi inapropriado, Abigail.” Ralhei, tentando consertar.
“Desculpa, Regina.” Regina sorriu para ela, aceitando suas desculpas. “Agora vou voltar para a televisão?”
“O que está passando?”
“CSI.”
“CSI?” Perguntou Regina, assustada. “Não foi isso que você pediu para assistir, Abby. Isso não é programa de criança.”
Abby sorriu para mim e saiu correndo, o que fez Regina balançar a cabeça negativamente e sorrir. Pensei no que Abigail havia dito, e me perguntei se estava tudo bem entre eles, mas bem, a vida amorosa de Regina não era mais da minha conta.
“Eu queria lhe pedir uma coisa.” Comecei, e Regina virou-se para mim.
“Pode falar.”
“Eu...” Coloquei as mãos no bolso de trás da calça jeans escura que vestia. “Estava pensando em passar algum tempo com a minha mulher e você está me pedindo há tempos para ficar com as crianças, pensei que se não fosse um problema...”
“Eu topo.” Ela me interrompeu.
“Como?”
“Eu fico com as crianças por alguns dias, Robin.” Ela sorriu e fixou os olhos em sua xícara. “Aproveite, leve-a ao lago Russein... Nessa época do ano é um dos lugares mais românticos das proximidades.”
Engoli em seco. Regina caminhou até a pia, e eu a segui. Ela parou ali, de costas para mim olhando para o verde de seu vasto quintal pela janela grande. Eu caminhei até estar atrás dela. Apoei minhas mãos ao lado das mãos dela, na borda da pia. Nossos corpos estavam próximos, mas não se tocavam. Eu encostei a testa em sua cabeça e aspirei o cheiro maravilhoso do seu cabelo. “Robin...” Clamou ela.
“Eu sei.” Sussurrei. Desencostei-me dela, e apenas sussurrei na altura do seu ouvido esquerdo. “Se nós estivéssemos em outra situação...”
“Mas não estamos.” Sussurrou ela. Eu me afastei e deixei-a sair do meu abraço. Regina se recompôs e parou na minha frente. “É melhor você ir agora.”
“Só vou me despedir das crianças.” Afirmei, e caminhei até meus filhos que estavam completamente entretidos com a televisão. Beijei Roland, que não me deu nenhuma bola, e afaguei seus cabelos. Debrucei-me para beijar Abby e ela apertou os braços ao meu redor, num abraço forte e carinhoso.
“Até mais, Cinderela.”
“Credo, pai. Eu não posso ser a Malévola?”
“Pode, querida. Pode ser.”
Beijei-a na bochecha e Regina me acompanhou até a saída. Ela abriu a porta e eu retornei para encará-la novamente. “Qualquer coisa que precisar, pode ligar. Não estarei longe.”
“Eu não vou ligar, Robin.” Respondeu ela, sorrindo.
Fiquei em silêncio, observando-a. Eu poderia fazer isso por horas.
“Tire seu tempo, aproveite essa folga com a sua mulher. As crianças ficarão bem.” Afirmou.
Sorri e me aproximei. Percebi que ela se assustou com meu gesto, mas sua curiosidade foi maior. Beijei sua bochecha com cuidado, e me afastei, sem dizer nada. Não havia nada que pudesse dizer que nós dois já não soubéssemos.
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