Storybrooke Maine — Presente

Nove semanas. É o tempo que se passou desde que voltamos da Floresta Encantada sem nenhuma lembrança do que aconteceu. Ninguém sabe como viemos parar nesse mundo novo. É um tanto frustrante perder as memórias de todo um ano, não entender como as coisas aconteceram. É como ter o resultado de uma equação sem saber qual cálculo, como receber um diploma de um curso ao qual você nunca apareceu.

Aparentemente, eu me casei. Me surpreende, porque eu nunca achei que conseguiria superar a morte de Marian. Mas minha esposa é uma ótima pessoa e se eu me casei, é porque nos apaixonamos — eu jamais assumiria um laço de tamanha proporção sem ser por amor. Eu só queria poder me lembrar.

Levanto os olhos e a vejo deitada na cama. Ela está sorrindo para mim, adoravelmente. "Bom dia, querida."

"Amor." Suspira ela. "Alguma notícia dos Charmings? Eles descobriram algo sobre o ano perdido?"

"Nada ainda. Mas vou acompanhá-los numa busca pelas propriedades de Storybrooke. Parece que acharam uma casa que pode ser o covil da Bruxa Má do Oeste."

Ela se espreguiçou e delicadamente saiu da cama, caminhando na minha direção. Senti seus dedos acariciando minha nuca, e ela beijou meus lábios com ternura. "Já que estará fora, vou até a câmara municipal. Emma Swan convocou uma reunião." Beijei seus lábios novamente. "Você busca o Roland?"

"Eu o pego no acampamento. Fique tranquila, Zelena."

Ela sorriu para mim enquanto caminhava seminua para o closet. Eu sorri, maravilhado com a minha sorte.



Estou no quintal da casa que provavelmente pertence ou pertenceu à Bruxa. O silêncio é mortal, até que escuto passos vindo de alguns metros.

"Apareça, esquisito alado."

Procuro a direção de onde veio essa voz profunda e rouca, e atiro a flecha. Supostamente deveria ser um tiro de aviso. Mas para a minha surpresa, ela pega a minha flecha no ar.

"Perdão, milady! Achei que fosse a Bruxa Má do Oeste."

Sorri. É uma mulher muito bonita vestida de azul num vestido justo e com um casaco preto. Seu cabelo é de altura mediana, preto e liso, e brilha mesmo neste tempo gelado.

"E eu achei que você fosse um dos macacos voadores."

Oh, um minuto. Eu sei quem ela é.

“Espero que este incidente não custe a minha cabeça.” Provoco. “Vossa majestade.”

“Então você sabe quem sou eu.”

“Sua reputação na Floresta Encantada lhe precede.” Também havia muitos boatos sobre sua beleza mortal e eu achava que se tratava de algum exagero daqueles lunáticos — mas confirmei sua veracidade naquele momento. Era hipnotizante de tão bela.

“Eu não entendi o seu nome.” Eu estava à sua frente agora, e podia ver a desconfiança em seus olhos.

“Robin de Locksley, a seu dispor.” Estendi minha mão calçada pela luva de couro, de maneira formal. Mas essa mulher apenas colocou a minha flecha ali, com leveza e cuidado.

“Ah, o ladrão.”

Minha reputação, pelo jeito, também me precede. “Bem, já que vamos nos tratar por títulos… Você não é, tecnicamente, a Rainha Má?”

Ela me fitou séria. “Eu prefiro que me chamem de Regina.” Ela fitou a balestra em minhas mãos. “Você acha que vai conseguir derrotar a Bruxa Má do Oeste com flechas?”

“Eu irei tentar.”

“Eu acho que chegamos tarde demais. Ela já se foi.”

Olhei para a casa por alguns instantes, e então voltei a encarar Regina. “Mas pode ter deixado alguma pista.”

Regina adquiriu um semblante de surpresa. “Eu estava pensando a mesma coisa.”

“Então você conseguiu um parceiro.”

Ela me encarou a contragosto e passou por mim, voltando para a casa. “Eu não lembro de ter pedido por um parceiro.”

“E não pediu.” Respondi, e a fitei. Ela parou e voltou a me olhar por cima do ombro. Rainha Má ou não, era uma mulher muito bela e agradável de se estar por perto. Era como estar em casa, você sabe? A sensação reconfortante de estar em um local seguro.

“Apenas não fique no meu caminho.” Ela sorriu, mas podia ver em seus olhos a irritação latente.

“Eu sequer sonharia com isso.”

Regina me encarou por extensos segundos, até que finalmente continuou. “Nós já nos conhecemos?”

Não, com certeza não. Quer dizer, olhe para você Rainha.

“Eu duvido muito que esqueceria de ter conhecido você.” Um sorriso brotou na minha face, sem a minha autorização. Ela respirou fundo, ainda me encarando e eu continuei. “A menos é claro, que tenhamos nos conhecido no ano perdido. Mais uma razão para acharmos essa tal bruxa. Quem sabe algo que nos dê um lampejo das nossas memórias.”

Regina concordou e caminhamos para dentro da propriedade.



Infelizmente, depois de uma busca minuciosa por dentro da casa, não encontramos nada.

“Quer dizer que nenhuma dessas coisas possui propriedades mágicas?”

Regina estava próxima de mim, e eu estava adorando a sensação. Isso deveria soar errado. Eu deveria me sentir mal por tal comportamento. Quer dizer, eu me casei há pouco tempo não? Mas não posso negar que há muitas falhas no meu casamento. Nove semanas depois e eu não me sinto conectado a minha mulher. Ela é uma boa pessoa e eu sei que em algum momento, vou me recordar das razões que me fizeram amá-la. Mas ainda, nada disso aconteceu. Sinto como se houvesse muitos nichos dentro da minha mente, faltam muitas peças e eu não consigo sentir o quadro geral porque está todo faltante.

“Uma bruxa boa esconde bem os seus truques. Mas uma bruxa muito melhor…” Enfatizou ela, sorrindo. “Pode encontrá-los.”

Me encosto na mesa e vejo Regina semidebruçada sobre o pequeno armário. “Vamos encontrar algo. Apenas seja paciente.” Pensamentos libidinosos passam pela minha mente, mas eu tento afastá-los. Eu não a conheço, ela não me conhece. Mas não posso impedir meus olhos de percorrer a magnitude desse corpo minúsculo e cheio de curvas. Merda. Eu não deveria estar encarando-a. “Eu ouvi muitas histórias sobre a terrível e medonha Rainha Má. Mas deste ângulo…” E eu queria dizer a ela, ‘que ângulo!’ mas mantive minha postura. “Ousada e audaciosa, possivelmente, mas não má.”

Estávamos tão próximos um do outro. O que eu estava fazendo? Regina sorriu e se recostou ao armário atrás de si ao mesmo tempo em que eu me levantava. “O título me serviu bem por muito tempo. O medo é uma ferramenta muito eficaz.”

Caminhei até me aproximar quase completamente dela. Eu não sabia o que estava acontecendo exatamente. Regina me atraía fisicamente, de maneira tão intensa que era quase quântica. Ela manteve os olhos em mim, mas não me impediu nem me perguntou o que eu estava fazendo. Podia sentir sua respiração próxima. Eu estava com arrepios pelo corpo todo, e meu estômago parecia formigar. Era injusto. Eu não me sentia assim com a minha esposa. De repente, lembrei-me de tudo. Minha esposa. Meu filho. O que eu estava pensando?

Afastei-me dela imediatamente. “Robin.” Ela segurou em meu braço, e seus olhos pousaram sobre a minha tatuagem de leão. Percebi a mudança no semblante dela. Algo no meu brasão deve ter lhe chamado muito a atenção, ou a lembrado de algo importante. Quando voltou a me encarar, ela estava em silêncio. Eu podia ver a surpresa e confusão em seus olhos. “Escuta, eu… Sou casado. Não posso fazer isso.”

Ela soltou o meu braço e eu deixei-a ali, caminhando até a porta da frente da casa. Não ouvi mais nenhuma palavra vinda dela. Nos isolamos em nossos próprios silêncios.

Estava à caminho do acampamento quando percebi a pequena garota fuçando na lata de lixo. Tinha cabelos loiros, quase brancos e possivelmente a altura de Roland. Talvez tivesse a mesma idade. O que uma criança como essa fazia revirando uma lata de chorume e restos apodrecidos – como desses cães de rua? Será que havia se perdido da sua família?

Abri minha mochila e retirei um pão.

“Ei.” Chamei-a mas ela se assustou e se escondeu atrás da lata de lixo. Só pude ver o topo de sua cabeça e seus olhos assustados. Os olhos. Reparei na cor púrpura. Nunca vira ninguém com olhos dessa cor, eram lindos, como se olhássemos para a névoa das galáxias. “Eu não quero te machucar, pequena. Só quero que coma este pão.”

Me aproximei apenas mais um passo, e me ajoelhei. Ela jamais viria até mim em pé. Crianças e animais tem quase o mesmo sistema instintivo. Se os intimidá-los, nunca vai conseguir nada. Se demonstrar igualdade, eles confiarão. Por isso fiquei algum tempo ali ajoelhado. Aos poucos, a pequena garota chegou perto, com sua roupa horrorosamente feita de trapos. O rostinho estava sujo e por baixo das suas unhas havia tinta preta. Fiz meus cálculos. Possivelmente, desde que retornamos para cá essa menina deve estar se alimentando de restos, revirando latas de lixo pela cidade. O que me entristeceu de uma maneira quase primitiva.

Ela chegou perto da minha mão e me olhou com aquelas íris incrivelmente surreais. “Posso?”

“Coma, é para você.”

A pequena criaturinha devorou aquele pão minúsculo com uma fome absurda. Ela era muito pequena e delicada. Me pergunto como ficou todo esse tempo vivendo invisível.

“Como é seu nome?”

“Abby. Na verdade, me chamo Abigail. Mas gosto mais de Abby.”

Abigail? Bonito nome.

“Abby, onde estão seus pais?”

“Voando.”

Suprimi uma risada para não parecer que não estava falando sério, mas foi bem doloroso. Não havia maneira madura de reagir a uma resposta dessas. Mas ela estava com um rostinho de quem falara algo completamente plausível, então aceitei como fato. “Como assim?”

“Eles viraram macacos e voaram para longe.”

Puta merda. Eu escutara o que acontecia com os pobres humanos transformados em macacos alados pela bruxa verde. Em sua grande maioria, morriam. Quer pela mão dos mocinhos, quer pela mão da própria feiticeira. Possivelmente essa pequena criança já seja órfã.

“E como você se vira, Abby? Você é bem pequena para estar na floresta, a essa hora.”

“Eu moro por aqui. Onde eu couber.”

A resposta me atingiu sem nenhuma delicadeza. Não podia deixa-la ali. Uma nevasca, uma tempestade, animais peçonhentos – havia tantos riscos para uma criança abandonada ao relento. Pensei em Roland e sabia que ele não teria essa desenvoltura se por acaso se perdesse. Ia leva-la para casa hoje, e amanhã levaria o caso à prefeita.

“Abby, você aceita ir dormir lá em casa essa noite?”

“Eu... mas eu tenho medo.”

“Eu tenho um filho mais ou menos da sua idade, chamado Roland. Vocês dormem no mesmo quarto, que tal? Assim fazem companhia um para o outro, e ninguém fica com medo. Eu faço chocolate quente para você.”

Ela sorriu e seus olhinhos brilharam em agradecimento. Balançou a cabeça em afirmação absoluta. Coloquei-a sobre as minhas costas e apertei suas pernas contra a minha cintura. Ela era mesmo muito leve e pensei no fato de ela não comer nada que prestasse. Era hediondo só de se pensar a respeito. Zelena talvez não fosse gostar muito da ideia, mas eu tinha certeza que Roland adoraria a surpresa.

Notas finais
1. Sei que muitas querem me matar. Já aviso que daqui para frente só piora. (calma, zoera br) 2. Obrigada por todos os comentários, responderei assim que possível. Muito obrigada pelo carinho de vocês. 3. Beijo especial para a minha assistente/cobaia/escrava sexual @swanperrylla. (Talvez eu tenha mentido sobre o escrava sexual. Ou não.) 4. E beijo para você, Anny, que lê a fic mas não tem a pachorra de comentar.