Confessionário
49 Capítulo 49
Regina abriu os olhos, deparando-se com o painel azul acima da terra. Por alguns instantes, observou o céu azul, cintilante, decorada por duas ou três pequenas nuvens. O que havia acontecido? Sua última lembrança era de Robin a beijando. Robin machucado após ter defendido seus companheiros de um urso. Robin. Ela se lembrou dele beijando-a nos fundos da lanchonete da Grannys. Lembrou-se de vê-lo como o marido de Zelena. Mas... O que era aquilo? Ela se lembrava deles, na Floresta Encantada. Lembrou-se do casamento às pressas da maldição da irmã; os votos apaixonados com Roland abraçado à sua perna. Lembrou-se do homem que atravessou reinos, florestas e desertos e a retirou de um esquife sobre o feitiço do sono.
Porque ela demorou tanto a se lembrar dele? Como que ela voltara ao passado se havia enfiado o punhal em seu peito?
“Mãe?”
Ela apoiou os cotovelos no chão e levantou a cabeça num sobressalto. Seus olhos a estavam traindo? Ela levantou-se rapidamente, e o encarou com os olhos cheios de lágrimas. Não sabia o quão real era aquilo. Ela podia estar delirando, mas ela sentia que não estava. Ele sorriu com os olhos verdes brilhando na sua direção, o cabelo castanho escuro caindo sobre os olhos.
“Henry?” Lágrimas escorreram enquanto ela parecia estar paralisada. Ele estava vivo, bem ali à sua frente. Seu coração batia descompassado, e ele veio em sua direção com rapidez, abraçando-a forte, estreitando os braços ao redor da mãe. Regina sorriu, o rosto lavado pelas lágrimas que caíam sem parar. “Henry meu amor, você está mesmo aqui.” Ela o apertou contra si. Não tinha noção nenhuma do que estava acontecendo, mas o que quer que fosse, havia trazido seu filho de volta e ela não podia sentir-se mais grata. Ela se afastou apenas para segurar o rosto do garoto entre suas mãos, afagando-o. “Eu achei que tinha perdido você, querido. Não me deixe de novo, por favor.”
“Nunca, mãe. Nunca.” Repetiu ele, beijando-a na bochecha antes de puxá-la para outro abraço apertado. Por algum tempo eles permaneceram nos braços um do outro, revivendo o calor e o amor incondicional entre mãe e filho. Regina sentia que seus pulmões haviam se expandido novamente. Como se Henry representasse um sopro de ar fresco em sua traqueia fechada.
“Regina?”
Ela só teve tempo de desvencilhar-se de Henry. Mary Margareth a abraçou com força, os braços firmes ao redor do seu pescoço. Sentiu as lágrimas da professora em seu pescoço e a segurou contra si, com cuidado. Elas nunca tiveram aquilo. “Alguém me explica o que aconteceu?” Questionou Regina, e David apenas a fitou por alguns segundos. Regina arqueou a sobrancelha para ele e ele suspirou.
“Nós vimos você morta. Na cabana, com Zelena e as crianças.”
Mary a soltou, permanecendo na sua frente. Regina finalmente encarou a princesa nos olhos, e elas trocaram um longo olhar. “Eu encontrei você sem vida em uma poça de sangue, Regina. E sabe o que eu mais senti? Arrependimento. Eu amo você. Eu amei você desde que você me salvou daquele cavalo...” Mary começou a chorar, e Regina acariciou seu rosto, limpando uma lágrima. “Eu sinto muito por Daniel. Se eu pudesse corrigir aquilo, se eu pudesse voltar ao passado, eu faria tudo diferente. Eu parti seu coração e destruí sua fé no amor. Espero que algum dia você possa me perdoar pelo que tirei de você... Eu sei que você não acredita, mas eu realmente sinto muito. Eu a amo e vê-la morrer foi como perder uma parte de mim. Eu não sei quem nos trouxe de volta à Storybrooke mas eu só posso agradecer.”
“Você está errada.” Respondeu Regina e Mary entreabriu os lábios com medo do que viria a seguir, mas ela sorriu. “Eu acredito em você.”
Elas se abraçaram e Regina apertou-a firme contra si, sentindo seu coração batendo forte. Sorriu para David, que as observava em silêncio. Ouviu uma voz e então o viu. A alguns metros, abraçando Belle French com um sorriso maravilhoso nos lábios. Os cabelos loiros, a barba por fazer. O sotaque, os olhos azuis, o aljava sobre os ombros. Ele a rodopiou no ar e a pequena garota sorriu. Foi quando ele a viu.
Como se o tempo houvesse congelado, e todas as propriedades do universo ao redor deles houvessem parado, eles se fitaram. Robin a encarou com incredulidade, e Regina sentiu o ar abandonando seu corpo. Ele estava ali. Robin correu até ela, e ela fechou os olhos quando ele a abraçou; os braços firmes a segurando, o cheiro familiar ativando pontos de lembranças em algum córtex de seu cérebro. Ele deixou uma lágrima escapar quando sentiu o aroma do cabelo dela, a maciez de sua pele contra seu corpo. “O que aconteceu, Robin?”
“Eu não sei...” Sussurrou ele, e enfiou os dedos na nuca dela antes de trazer suas bocas a uma fusão quente e desesperadora. Regina segurou com força na borda do colete dele, desejando nunca deixá-lo ir. Eles estavam em casa, eles voltaram a ter um lar. Eles tinham um ao outro, e era tudo que o que precisavam. Quando por ausência de ar eles quebraram o beijo, Regina deitou a têmpora contra a dele, e eles permaneceram assim, os rostos unidos, o som da respiração de ambos sendo o único som ao redor deles. Como se juntos, eles pudessem isolar todo o universo ao seu redor. Como se juntos, não precisassem de mais nada.
“Eu me lembro de tudo.” Confessou ela, e ele abriu os olhos com surpresa, acariciando o rosto da sua amada.
“Tudo?”
“Tudo.” Eles permaneceram em silêncio, como se pudessem dizer exatamente o que sentiam através daquele olhar inquebrável que mantinham. Na verdade, havia muito a ser conversado, mas nada que fosse indispensável. “Eu... Me lembro de um homem que travou batalhas com dragões, com bruxas, consigo mesmo, e até mesmo com Cora Mills por mim. Um homem que se apaixonou por mim não somente uma vez, mas diversas vezes, em diversos universos. Em todas essas realidades, esse homem encontrou algo em mim para amar. Talvez por isso eu tenha me casado com ele.”
Robin sorriu, os olhos marejados. “Eu amo você, Regina Louise Mills.” Ele estava prestes a beijá-la novamente quando ouviu o som mais inesperado e mais maravilhoso que ele se recordava.
“Papa?”
Regina observou-o retirar Roland dos braços de Emma com cuidado, abraçando-o com a mesma intensidade que ela mesma havia abraçado Henry, as mesmas lágrimas de amor e saudade, de incredulidade e carinho. Sorriu. Ainda não sabia o porquê de eles terem sido trazidos de volta, ou nem mesmo como, mas sabia que seria um dia maravilhoso. Um dia de reencontros e de reconciliações.
Mais tarde, naquele mesmo dia, todos se reuniram no Grannys. De uma mesa posicionada nos fundos, Robin observou as pessoas envoltas com suas famílias. Observou Henry e Emma, Mary e David, Killian com os braços ao redor de Emma. Havia musica tocando ao fundo, embora o som das risadas fosse mais agradável.
A primeira coisa que cada morador de Storybrooke havia notado era que eles haviam sido banidos de qualquer tipo de magia. Tudo, absolutamente tudo, desde livros a artigos e até mesmo os corações no cofre de Regina, tudo havia desaparecido. Não restara nada que pudesse reproduzir qualquer essência mágica. Ele se perguntava o que poderia ter acontecido. Havia brechas em sua memória, como se pequenos fragmentos houvessem sido apagados. Ele não entendia como havia sido transferido de uma morte iminente por injeção letal para um recomeço na taverna, no passado. Não sabia o que havia acontecido. Tentava entender o que havia acontecido com a pequena Abby. Possivelmente havia reencontrado os pais mortos e estava feliz em algum lugar. Suas lembranças pareciam cobertas por uma nuvem; lembrava-se de que tentara vez após vez beijar Regina e parecia que havia um motivo sério para isso – mas ele simplesmente não conseguia se lembrar.
Talvez fosse proposital, ele pensou. Talvez seja melhor não lembrar algumas coisas. Ele havia reconquistado a felicidade perdida. Olhou para a frente, Roland sentado no colo de sua esposa, os dois conversando e rindo sobre algum assunto que ele não prestara atenção. Regina acariciou os cabelos do pequeno, que sorriu admirando-a como se Regina fosse a pessoa mais bonita que o pequeno já vira em toda sua vida. “Está tudo bem, Robin?”
A voz dela despertou-o do transe. Ele ergueu os olhos e a viu sorrindo, enquanto Roland também o encarava com um sorriso engraçado nos lábios. Ela estava ainda mais bonita do que ele conseguia imaginar. “Eu estava distraído.”
“Talvez você possa me contar enquanto damos uma voltinha sob a luz do luar?” Brincou ela, erguendo uma sobrancelha.
“Talvez.” Respondeu ele, sorrindo.
Eles estavam caminhando pela calçada com os dedos entrelaçados. A noite estava serena e o clima ameno. Belle aceitou alegremente a função de olhar Roland enquanto eles saíam por alguns minutos e Robin não pode sentir-se mais grato.
“Você é muito paciente.” Comentou Regina, encarando o chão. Ele não respondeu, e ela também não esperou resposta. “Eu não fui uma garota muito agradável. Eu era terrivelmente teimosa. Como conseguiu me aguentar?”
“Eu amei você.” Respondeu ele, e ela parou de andar. Virou-se para ele, e ele a observou. Seus traços, delicados e femininos, e ao mesmo tempo, fortes como ninguém mais sabia ser. “Eu amei a pessoa que você é no coração e isso nunca mudou.”
“Alguém tem muita fé em nós.” Brincou ela, sorrindo.
Robin deu um passo à frente, e acariciou o rosto delicado, plantando um beijo sobre a sua testa. “Não vamos decepcionar essa pessoa.”
Ela sorriu, e delicadamente passou as mãos para dentro da jaqueta dele. Robin gemeu, alcançando a boca dela e capturando-a num beijo quente. Eles estavam distraídos no sabor um do outro quando alguém passou rápido por eles, esbarrando nas costas de Regina.
“Me desculpe.” O homem falou, mas Regina afastou-se de Robin e segurou-o pela jaqueta.
“Thomas?”
Ele parecia assustado, e ela não entendia o por quê. “Meu Deus, Thomas! Eu achei que estivesse morto!” Regina o abraçou firme, e ele correspondeu de maneira desajeitada, sob o olhar atento de Robin.
“Dizem o mesmo de vocês dois.” Brincou ele, e Robin assentiu com um sorriso. “Parece que finalmente vocês se encontraram. Eu fico feliz por vocês...” Ele encarou Robin. “Espero que não tenha ressentimentos, eu não irei lhe causar problemas.”
“Nós estávamos sob o efeito de um feitiço. O passado ficou no passado.”
“Thomas, eu...” Ela começou a falar sentindo o olhar dele em si. Ele era um bom homem e havia feito Regina feliz. Ele a respeitara e cuidara dela mesmo sabendo que ela estava apaixonada por outro. Não podia ficar com ele, seu coração e alma pertenciam a Robin, mas desejava que ele fosse feliz. Ele merecia. “Obrigada por tudo que fez por mim.”
“Você merece ser feliz, Regina.” Ele aproximou-se e beijou seu rosto com carinho. “E ninguém fará isso melhor que o homem atrás de você.”
Thomas afastou-se rapidamente e Robin abraçou-a por trás, sem dizer nenhuma palavra. Ela manteve o silêncio, pensando nos pacotes na mão dele. Duas refeições. Ela passou o braço ao redor da cintura do arqueiro, e eles continuaram sua caminhada.
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