Confessionário
36 Capítulo 36
“E foi assim que tudo aconteceu, padre.” Robin olhou para o padre, que o encarava com surpresa. O homem parecia ter quarenta anos ou um pouco mais. “Essa é a minha história. Foi assim que eu conheci a mulher da minha vida. Foi assim que eu a perdi, foi assim que eu vim parar aqui neste confessionário.”
“Você teve uma vida muito nobre, meu filho.” Ele colocou a mão sobre a cabeça de Robin, com uma delicadeza paternal. “Sinto muito por... Regina? É esse o nome dela?”
“Sim. Regina.” Ele respondeu, ainda com a cabeça abaixada, por baixo da mão dele.
“Sinto muito por ela.”
“Eu também.”
“Você está perdoado dos teus pecados, filho. Pode descansar em paz.”
Robin se levantou, os pulsos algemados que tilintavam com o atrito da algema com a corrente de segurança. O padre afastou-se, encarando-o com pesar enquanto passava pela porta da prisão. Um dos guardas o acompanhou até um corredor escuro e silencioso. “Fique aqui. Eles chamarão o seu nome através daquela porta.”
O guarda deixou-o sozinho e entrou em um dos portões. Ele ouviu os diversos trincos e suspirou. Acabaria ali. Ele olhou ao redor, perguntando-se como podiam deixar um preso sozinho. Mas logo sua dúvida foi sanada. As paredes eram altas, com um pé direito inalcançável. A única porta de entrada era aquela por onde o guarda saíra e pelo barulho das trincas, atravessar aquela porta sem ser convidado era impossível. A outra porta era... a porta da morte.
Ele estava no corredor da morte e sabia disso.
“Eu só estou tentando memorizar essa imagem de você.” Robin sorriu com a lembrança. Ele não chorava mais. Havia superado esta fase da sua sentença. Negação, barganha, pesar, tudo isso havia passado. Ele havia aceitado seu destino. O que lhe restava agora eram as boas lembranças, que lhe acompanhariam até seu último suspiro. “Com amor em seus olhos.”
Começou a assoviar uma cantiga antiga que cantava com os meus homens na floresta encantada. Cantava baixinho, batendo seu pé contra o chão.
“O rei despertou a rainha do mar
O barco a acorrentou”
Pensou em toda a sua trajetória de vida antes de conhecer Regina. Pensou nas inúmeras noites que passou em bares, nas besteiras com a qual havia desperdiçado tempo e dinheiro. Um bando de inutilidades, pensava agora.
“Por onde andares, são teus os mares
Quem ouviu remou”
Pensou nas possibilidades que poderiam ter sido criadas se tivesse olhado para trás quando Regina entrou naquela taverna. As coisas poderiam ter sido completamente diferentes.
“Yo, ho. Todos juntos, nossas cores erguer
Ladrões e mendigos, jamais irão morrer”
Pensou em seu filho, na sensação quente e reconfortante, no amor incondicional que sentiu quando o viu pela primeira vez. A maneira como Roland se mexia, pequeno, indefeso em seus braços. Pensou em Marian, em seu sorriso, na maneira como ela o olhava com uma admiração infinita.
“Uns morreram outros vivos estão
Outros navegam no mar”
Ele sempre teimara com o pequeno John sobre a cantiga ser sobre piratas. Mas piratas eram apenas uma categoria diferente de ladrões. Não estavam tão longe um do outro. O crime era o mesmo.
“Com as chaves da prisão e o diabo de prontidão
Remando sem cessar”
Pensou em Regina. Pensou na guerra interna que travou, negando-se a admitir que se apaixonara pela rainha cruel e sem compaixão. Pensou em como era difícil olhar para ela todos os dias, ver o seu sorriso, ouvir suas gargalhadas misturadas às gargalhadas de Roland e fingir indiferença. Pensou nos beijos que negou a ela, em todos os desencontros que os cercaram.
“Da fossa profunda sobe o sino a tocar
Como um som sepulcral”
Como ele a amou! Pensou em como fora difícil pedir a ela que o aceitasse. Pensou nas terras secas, nas bestas que quase lhe comeram as pernas, pensou no terrível Smaug. Pensou em como foi difícil lutar contra si mesmo. Sorriu, pensando em como Regina estava bonita naquele esquife de vidro, cercada de flores em um belíssimo vestido azul claro.
“Vem convocar pra retornar
Ao destino final”
Pensou em todas as vezes em que se atraíram e se repeliam, sem saber o porquê. Sem saber que haviam se casado. Sem saber que se amavam, que haviam sido destinados, que pertenciam um ao outro. Que seus corações eram feitos do mesmo material, um material que nunca deveria ter sido repartido em dois.
“Yo, ho, todos juntos
Nossas cores erguer
Ladrões e mendigos, não aceitam morrer”
“Robin Hood. Qual sua matrícula?” Perguntou um homem parado à frente da porta. Ele vestia avental e uma máscara sobre a boca.
“753.345” Respondeu Robin, sem emoção nenhuma.
“É essa mesmo.” Ele encarou Robin. “Venha. Sua hora chegou.”
Robin entrou na sala. Era diferente de tudo que ele havia imaginado. Não se parecia com um matadouro. Não parecia com um local onde assassinavam pessoas inocentes. Parecia com um hospital. As paredes eram completamente brancas, assim como a maioria dos acessórios e poltronas.
“Sente-se aqui.” Orientou um dos rapazes. Havia guardas nos cantos da sala. Obviamente. Ou você morre como eles mandam, ou morre como eles decidem. Você morre, de qualquer jeito. Robin caminhou pesaroso até a poltrona. Por mais doentio que lhe parece aquilo, a poltrona era acolchoada. Confortável.
Ele se deitou ali e um dos homens vestidos de avental se aproximou. Um deles puxou uma tira e prendeu seus pés, imobilizando-os. Ele puxou com força, fazendo uma pressão desnecessária. Robin observava, enquanto suas mãos tremiam involuntariamente. Não estava pronto para morrer. Não como um assassino condenado. Mas ele jamais estaria pronto. O caso é que pronto ou não, era esse o destino que Zelena escreveu para ele e ele o preferia, se tivesse que escolher ficar com ela.
O rapaz puxou as tiras com força e imobilizou o pulso de Robin, atando-o ao braço da poltrona. “Não vai doer.” Ele disse, como se dissesse o valor do dólar na Dow Jones. “Você só é imobilizado caso aconteça alguma reação adversa, como convulsões ou paradas cardiovasculares.” Ele puxou as tiras do outro braço e imobilizou o outro pulso.
“Fiquei bem mais tranquilo agora. Obrigado.” Respondeu Robin, com os olhos marejados. O rapaz puxou uma tira que atravessava a cabeça de Robin, mantendo-a imobilizada também. Ele se certificou que todas as faixas estavam demasiadamente atadas e então olhou para Robin, analisando seu rosto por alguns segundos.
“As vezes eu odeio esse trabalho.” Resmungou ele. “Se você acredita em alguma coisa, recomendo que faça suas rezas e orações agora. Você tem alguns minutos.”
E com isso, ele se virou, caminhando para a bancada. Robin olhava para o teto branco. O que mais ele poderia dizer? Nada mudaria o que estava acontecendo ali. Ele fora condenado por dois assassinatos. Com premeditação. Por sorte, conseguira ser inocentado da morte de Henry. Mas nada mudaria a lei daquele mundo, e ele estava ali, prestes a pagar com a sua vida. E o homem queria que ele fizesse orações?
Orações.
A palavra ecoou em sua mente, como se de repente, algo tivesse se tornado óbvio demais. “Esse pergaminho contém uma oração muito importante, Robin. Você só terá a oportunidade de usá-la uma única vez.”
"Você só deve pronuncia-la quando estiver em profunda necessidade de ajuda. Somente nesse caso. Você entendeu?"
“Não perca o pergaminho, pai. Você vai precisar dele. As coisas vão ficar muito piores daqui para a frente.”
Sim, eu havia entendido. Eu tinha uma chance. Eu tinha uma saída.
"Nos vossos olhos brilham as infinitas galáxias do céu.” Ele começou a recitar, sem ter muita certeza de que aquilo funcionaria. Mas era tudo o que possuía. Não havia mais nada além da esperança que essa oração fosse mesmo muito importante. “Nos vossos dedos moram os destinos mais cruéis.”
O homem de avental havia se reaproximado, e a voz de Robin começou a soar trêmula, mas ele continuou. “Feche vossas pálpebras para a epifania dos homens, imersos nas calamidades originadas de ti.” Ele fechou os olhos, mas lágrimas escorreram das suas pálpebras fechadas. “Eles buscam na vida conquistas de outrora, são criaturas perdidas em seu próprio vazio...”
Sentiu quando o homem com o avental passou o algodão gelado em seu braço. Mordeu o lábio inferior, tentando permanecer calmo com tudo que estava acontecendo. “O tempo doravante se esgota agora, o exílio existencial do mortal é senil.”
Foi quando Robin sentiu a picada. Ele engoliu em seco. Começou a chorar, mas continuou recitando a oração que memorizara enquanto caminhava por terras áridas e secas em busca de Regina. “Perante a morte eu clamo, oh senhora, se tens um coração, maneje-o por mim!”
Uma sensação de formigamento começou a se espalhar, originando-se no local da picada mas alcançando seu braço todo e depois seu tórax. Uma dor calma, quente, quase doce. Seu corpo começou a amolecer, assim como a sua convicção. Apesar disso, Robin encontrou forças para recitar a última parte, antes de desmaiar em um mórbido sonho. “Imploro religiosamente, querida Pandora: abra tua caixa e permita-me vir."
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