Confessionário
24 Capítulo 24
Notas iniciais
POV Regina
A campainha tocou. Eu sabia que Thomas estava chegando, mas não fazia ideia de que ele seria tão pontual. Chequei meu batom, e por um segundo, deixei minha mente divagar. Lembrei da minha conversa com Robin, no cofre. Da despedida que selou, de uma vez, o que poderia ter sido uma história entre nós. Eu havia acabado de conhecer Thomas e eu não tinha certeza se estava preparada para deixar alguém se aproximar. Robin havia me nocauteado com as suas limitações e proibições. Por muito tempo, achei que meu único destino era sofrer em silêncio desejando algo que não era meu. Mas eu fiz o que Henry me diria para fazer, se ele soubesse quem eu sou realmente. Diria que eu tenho que sair da zona de conforto e me arriscar, porque a felicidade não vai esperar que eu abra a porta e a chame para uma torta de maçã. E foi assim que conheci um dos cavaleiros de Camelot. Mais uma rodada de bebidas com Tinker, mais uma noite tentando esquecer meus fantasmas, mais uma noite despistando Humbert Graham. Eu estava descendo as escadas da lanchonete com enorme dificuldade e tropecei em meus próprios saltos – se não fosse Thomas me segurar, eu teria me esborrachado no chão. A temível Rainha Má com a cara no chão depois de beber mais do que devia. Que fracassada.
Me lembrei da maneira delicada como ele sorriu e perguntou se eu estava bem, para depois rir da minha cara e sugerir que eu tomasse água tônica para equilibrar o álcool em meu sangue na próxima vez. Sorri para o meu reflexo, recordando do bom humor dele. Arrumei meu cabelo, saindo apressadamente do meu quarto. “Um minuto!”
Desci as escadas com cuidado e abri a porta, me deparando com aquele sorriso travesso e o olhar intenso. “Você está deslumbrante, Regina.” Thomas debruçou-se e beijou minha bochecha com força mas sem machucar e se afastou, me encarando. “Vamos sair?”
“Eu estava pensando em ir até a Granny’s.” Sugeri e ele abriu aquele sorriso matador, estendendo-me a mão. Estendi o dedo no ar, pedindo um minuto e com uma leve carga de magia, trouxe a minha bolsa à minha mão. A mão dele apertou a minha e eu olhei para ele em silêncio, admirando a beleza dele.
“Onde você quiser.” Respondeu ele, passando a mão pela minha cintura e me segurando perto dele. Eu gostava da proteção de Thomas. Não que eu precisasse, eu nunca precisei. Eu sou forte o suficiente para lidar com qualquer coisa, mas havia algo adorável no cuidado e no respeito com o qual ele me tratava. Apesar de ser incrivelmente atraente, Thomas nunca foi além do que eu permiti e nunca tentou ultrapassar nenhum limite. Seus modos eram nobres como o de um cavaleiro.
Eu observei suas feições enquanto caminhávamos. Me pergunto como chegamos aqui. Talvez toda a minha desilusão com a história de Robin tenha feito com que eu parasse de me culpar pelo que acontecia aos outros. Talvez a indiferença de Henry. Talvez a incredulidade de Tinker. Ou quem sabe, todos esses fatos somados ao meu desejo primitivo por felicidade. Qualquer que fosse a razão, foi melhor assim. Após semanas, eu conseguia respirar.
Eu estava sentada sobre a banqueta que dava acesso ao bar. Thomas havia ido ao banheiro, e eu estava bebendo algo vermelho com gosto de framboesa.
“Posso me sentar aqui?” O bar está cheio de lugares vazios, por que não tenta atormentar outra... Engoli meus pensamentos quando encontrei os olhos azuis de Zelena. Seu cabelo ruivo estava liso, e ela tinha um batom magenta nos lábios, que a deixara ainda mais linda do que ela conseguia ser.
“Claro.” Foi tudo que pude pensar. Escutei sua voz atravessando por cima do balcão e pedindo um drinque. Olhei para o meu copo, tentando ignorar sua presença perturbadora e a ausência de Thomas. “Acho que nós precisamos conversar, você não acha?”
Engoli em seco. Puta merda, Thomas! Onde você se meteu? “Não acho que tenhamos algum assunto para conversar, Zelena.”
“Regina, eu...” Zelena bebericou sua bebida, que era idêntica à minha. “Eu vi como vocês olham um para o outro. Robin, e você. Eu quero saber o que está acontecendo. Você está tendo um caso com o meu marido?”
Engasguei com a bebida e encarei-a. Podia sentir minha garganta queimando. “Você sabe que o Robin é um homem de honra, Zelena. Nós não temos um ‘caso’. Nós nunca tivemos nada. Não sei o que você pensa ter visto, mas garanto que foi apenas impressão sua. Robin te ama, e ama seus filhos.”
“E você o ama?” Provocou ela, os olhos me estudando como um leão estuda a presa segundos antes de atacar seu pescoço.
“Eu não tenho nada com o seu marido, Zelena. Ele a ama, e quer ficar com você. Talvez ele só queira recuperar a memória e lembrar da história de vocês.” Tentei argumentar, já cansada. Essa conversa era desnecessária e aborrecedora. “Eu garanto a você que não há nada acontecendo entre nós. Eu estou com outra pessoa.”
Percebi uma mudança no semblante dela. “Outra pessoa?”
“Sim.” Respirei fundo e encarei a ruiva com firmeza. “Eu não gosto da ideia de ser amante de alguém. Eu... Preferiria ser escolhida do que ser encaixada no relacionamento de outra. É doloroso ter que viver das brechas proibidas da história de amor de outro casal e é por isso que garanto a você que Robin e eu não temos absolutamente nada.”
“Se você diz...” Provocou ela.
“Como está a Abby?” Perguntei, por via das dúvidas. Não via a garota há semanas, e isso me preocupava. Ela não parecia bem da última vez que a vi.
“Abigail está ótima. Não precisa se preocupar.” Respondeu Zelena, mas eu podia sentir o misto de desprezo e agressividade por trás de seu sorriso forçosamente simpático. Havia algo em Zelena que me incomodava muito, e nada tinha a ver com o fato de ser casada com Robin. Senti duas mãos pousarem em meus ombros, e sorri quando escutei a voz de Thomas preenchendo meus canais auditivos.
“Desculpe a demora, eu encontrei...”
“Thomas?”
Olhei para a frente, para uma Zelena completamente diferente da que estava flertando comigo. Ela parecia assustada, como se estivesse vendo uma aparição. Seu rosto estava ainda mais branco e seus lábios estavam semiabertos.
“Zelena.” Cumprimentou ele, o olhar sério. Poucas vezes havia visto Thomas com um semblante tão fechado.
“Vocês se conhecem?” Perguntei, tentando entender o que estava acontecendo ali.
“Zelena fazia alguns artesanatos para o povo em Camelot, e Arthur sempre comprava vários para nós cavaleiros.” Respondeu Thomas, sorrindo para mim enquanto acariciava meus ombros.
“Eu preciso... Ir embora. Robin. Isso, Robin está me esperando.” Respondeu Zelena. Ela encarou Thomas e depois apenas me fitou, afastando-se de nós com rapidez. Em segundos, ela havia desaparecido atrás de todas aquelas pessoas e eu tentei acompanhar sua fuga mas a perdi. Voltei-me para Thomas, que já estava sorrindo novamente. “O que aconteceu aqui, Thomas?”
“Não sei, talvez ela tenha se assustado com a minha beleza.” Brincou ele. Ergui uma sobrancelha, sorrindo com o canto dos lábios.
“Você é muito convencido. Deve ter sofrido alguma maldição narcisista.”
“Ou sou apenas realista.”
“Sei.” Brinco, e pego meu drinque. Ele puxa o copo da minha mão e bebe um pouco, me olhando daquele jeito intenso e descomedido que me deixa completamente sem jeito. Aposto que estou corando, mas não há o que ser feito. É o efeito Thomas Diggs. Ele se debruça e eu seguro em seu rosto com delicadeza, beijando-o e sentindo os nossos gostos misturados ao sabor da bebida, o que torna difícil escolher qual dos sabores é o mais gostoso.
Flashback ON
Desci as escadas de acesso ao cofre de Regina. Sabia que ela estaria lá, e eu realmente precisava falar com ela. Tudo que Tinkerbell havia me contado era extenuante. Eu queria olhar em seus olhos novamente, sabendo o que ela sabia. Só então seria justo. Todo esse tempo, ela sabia tudo. Era um jugo desigual, desde o começo. Assim que cheguei ao térreo, ela levantou os olhos e pareceu surpresa em me ver.
“Robin?”
“Regina.” Parei à sua frente, e observei a maneira como o semblante dela mudou, atenuando linhas de preocupação.
“O que você faz aqui?”
“Eu... Tinkerbell me contou tudo.” Suspirei.
“Tudo o quê?”
Caminhei um pouco mais na direção dela, e a vi recuar. “Sobre nós, Regina. Sobre a taverna. Sobre a tatuagem.”
Regina colocou o livro que estava segurando na bancada à sua esquerda e virou-se para mim, umedecendo os lábios. Seus olhos demonstravam cansaço, embora houvesse um brilho muito bonito neles. “Ela não deveria ter dito nada.”
“É injusto comigo, você não acha?” Questionei, sem pressioná-la. Eu não estava ali para brigar. Eu só queria saber a verdade. Só queria entender a verdade. “Não se trata apenas da sua história, Regina. Trata-se da minha também. Eu mereço saber a verdade.”
“É verdade.” Ela assentiu, me encarando. “Você está certo.” Sorriu amargamente, olhando ao redor, antes de fixar os olhos em mim novamente. “Mas essa profecia não se realizou, Robin. Você está casado e tem uma família linda, e com certeza tem um final feliz que muitos homens gostariam de ter.”
Talvez os outros homens. Eu quero você, Regina.
“Entendo.” Dei mais um passo na sua direção e ela recuou novamente, encostando-se no espelho. Ela mordeu o lábio inferior e me encarou com lágrimas nos olhos. “Você precisa ir embora, Robin.” Sussurrou ela, vulnerável. “A melhor coisa a fazermos agora, é nos afastar. Você tem uma vida para viver e eu não faço parte dela. Eu conheci uma pessoa e não quero estragar tudo agora. Todas as evidências apontam para o inevitável, que é cada um seguir o seu caminho e deixar o que quer que tivemos até hoje se transforme em uma boa memória.”
Regina conhecera alguém, e eu estava tentando me negar este fato. Regina Mills era a mulher mais linda que eu já vira, e não havia razões para eu me espantar com o fato de que outros homens se interessariam por ela. O absurdo seria não se interessar. Novamente, Regina havia sobrepujado minhas limitações e me feito perceber que eu era infantil. Que eu não tinha nenhuma maturidade emocional, me permitindo ficar perdido em supérfluas divagações sobre o que eu almejava da vida. “Você conheceu alguém.” Comentei, muito mais para o meu entendimento do que para ela.
“Robin, não torne isso mais difícil do que é.”
“Eu não vou.” E não ia mesmo. Eu não posso fazê-la feliz. Eu não sou o homem certo para ela e finalmente, eu entendi isso. Regina conhecera um homem, e talvez ele mostrasse ser alguém melhor e digno do coração adorável da redimida Rainha. Olhei para ela, que limpava algumas lágrimas. “Você merece ser feliz, Regina. Merece o mundo, todas as coisas boas que foram privadas de você por todos estes anos. Seja comigo, ou não. Eu torço para que este cara reconheça o tesouro que ele terá em mãos e que te faça muito feliz.”
“Robin...” Chamou ela, a voz trêmula. Eu caminhei até ela, mas Regina não recuou dessa vez. Beijei o topo de seus cabelos, acariciando-os pela última vez. Ela me abraçou, mas eu mantive meus braços no lugar. “Adeus, Regina.” Sussurrei contra seus cabelos macios, afastando-me em seguida, com os olhos fixos no chão e sentindo o que parecia ser o prelúdio de um colapso no miocárdio.
Flashback OFF
Zelena voltou para casa em silêncio. Era difícil compreender o que se passava com ela, já que comunicação era algo defasado em nosso relacionamento. “Aconteceu alguma coisa?” Pergunto, observando que ela encara o nada com alguma espécie de transe. “Zelena!” Chamo, com uma entonação mais forte e ela finalmente olha nos meus olhos.
“Oi querido.”
“Aconteceu alguma coisa?”
Ela sorriu. “Não, nada. Só estou cansada.” Parei o carro e ela saiu, caminhando para dentro de casa rapidamente. Peguei Roland no colo, mas percebi que Abigail estava tendo uma espécie de pesadelo. Ela gemia e chorava e eu me debrucei, observando o que acontecia.
“Moço! Saí daí, moço!” Ela se debateu. “Não....” Ela choramingava, entristecida. “Não, por favor!” Coloquei os braços ao redor dela e Abby pulou, debatendo-se. “Eu não podia fazer nada! Eu não... Não é minha culpa!”
“Abigail, acorda!” Gritei e ela abriu os olhos instantaneamente. Ela demorou algum tempo para fixar-se em mim, mas assim que o fez, se calou, aninhando-se no meu abraço. “Pai, eu estou com medo.” Sussurrou ela, apertando-se contra mim.
“Medo do que, Abby?”
“Eu estou com medo do que pode acontecer.”
Beijei sua testa com carinho. “Nada vai acontecer com você, Abby. Eu darei a minha vida pela sua, se for necessário. Eu prometo – papai vai proteger essa família, não importa o que aconteça.” Seus olhos violeta estavam fixos em mim, como se ela estivesse pensando no que eu disse. Acariciei sua bochecha, mas Abby não sorriu. Ela desvencilhou do meu abraço e desceu do carro. Eu a acompanhei, me ajoelhando e ficando na sua altura. Ela manteve os olhos nos meus e me abraçou. “Pai...” Ela acariciou meus cabelos, e depois roçou os dedos na minha barba rala. “Eu te amo.”
Beijei-a na ponta do nariz. “E eu amo você, sua pestinha. Mas vamos logo para dentro, porque está congelando aqui fora.”
“Pai, vou te dizer uma coisa mas me promete não fazer nenhuma pergunta? Por favor?”
“Eu prometo.”
“Tem que prometer com o mindinho.”
Sorri, cruzando meu dedo mínimo com o dela, num símbolo quase infantil de promessa. Mas, eu precisava ensinar lealdade e verdade para a minha filha. “Promessa feita. Pode dizer agora.”
“Não perca o pergaminho, pai. Você vai precisar dele. As coisas vão ficar muito piores daqui para a frente.”
Arregalei os olhos mas Abby colocou o dedo indicador sobre os lábios, lembrando-me da minha promessa. Não fazer perguntas. Mas ah, eu tinha um monte delas! Como ela sabia a respeito do pergaminho? Como sabia da sua importância? Como sabia que eu ia precisar dele? O que iria acontecer? Qual o segredo das revelações de Abigail? Ela sorriu e ergueu as mãos, como que indicando que também não sabia as respostas. Levei-a para o quarto e voltei para pegar Roland, ensurdecido pelos meus próprios pensamentos. Um péssimo pressentimento se formava em minhas entranhas.
O telefone tocou e eu acordei meio sonolento. Zelena estava inerte ao meu lado, totalmente alheia ao som gritante. Caminhei desajeitadamente pelo corredor e peguei o aparelho. Isso são horas de ligar para alguém?
“Alô.”
“Você tem dez minutos para se vestir. Estou passando aí.” Era a voz de David Nolan. Ah, Nolan! Sério?
“Robin! É uma situação de emergência! Você está ouvindo?”
“Eu ouvi da primeira vez.” Resmunguei, mal humorado. “Pare de gritar no telefone. É madrugada aqui.”
Ele bufou. “Eu vou passar aí em cinco minutos. Esteja pronto.”
“Qual é a emergência?” Ouvi apenas o silêncio do outro lado da linha, e isso me irritou. Príncipe ou não, xerife ou não, ele tinha que ser educado, isso estava além das necessidades básicas essenciais. “Escuta aqui, eu só vou sair da minha casa nessa madrugada gelada se souber o que está acontecendo. Fale de uma vez.”
“Killian Jones está morto.” Nolan cuspiu as palavras. “Emma não está em condições de nada agora. Preciso de você aqui agora.”
Killian. Engoli o mal-estar que se apoderou de mim. “Estarei pronto em cinco minutos.” Desliguei o telefone e corri para o quarto, vestindo minhas roupas com pressa. Zelena não acordou, o que me deixou um pouco aliviado. Coloquei a balestra sobre o ombro, e corri pelas escadas. Killian Jones estava morto.
De repente, o pesadelo de Abby voltou à minha memória. Não podia ser coincidência. Abby não diria aquelas coisas se não soubesse de alguma coisa. Saí da casa com as lembranças de seu pesadelo pipocando em minha mente, até que determinada frase ficou se repetindo vez após vez enquanto os faróis do carro de David não anunciavam sua chegada.
As coisas vão ficar muito piores daqui para a frente.
Entrei no carro assim que ele parou e logo sem seguida, David arrancou, apressado. Dei uma última olhada para a minha casa, e toquei o bolso frontal do meu colete, lembrando-me das palavras dela. Não perca o pergaminho, pai. Você vai precisar dele.
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