Confessionário
20 Capítulo 20
POV Zelena
Meu tempo está se esgotando. Da última vez em que chequei minha barriga, as linhas negras haviam aumentado um pouco mais. Minha única saída fora adiar meu plano por algum tempo. Eu precisava de um antídoto. As consequências dos meus atos estavam alcançando meus calcanhares. Matei o único ser mágico que poderia me ensinar a criar um e matei a única pessoa que com certeza teria lido a respeito desse veneno e sobre como produzir uma defesa imunológica para ele. Bem feito.
Robin estava silencioso, entretido em seus pensamentos. Era o gosto do luto, e por um segundo senti-me tocada pela dor de meu esposo. Ele não havia chegado muito tarde do enterro, e isso soava agradavelmente aos meus ouvidos. Quanto menos tempo passasse com os mocinhos, e consequentemente com Regina, era melhor. Eu percebia a maneira que ela olhava para ele e isso me dava um prazer imenso, porque ele agora é meu e eu posso esfregar isso na cara dela e pisar o quanto for conveniente.
Robin saiu bem cedo. Todos os homens da cidade resolveram fazer uma ronda ao redor da cidade em busca da bruxa. Sempre que escuto estas pessoas falando sobre mim na minha frente, sem terem a mínima noção de quem sou eu, me dá uma sensação de alegria e orgulho. Quero memorizar a expressão facial de cada um deles quando descobrirem finalmente que sou eu quem procuram, e eu estive aqui o tempo todo.
"Eu quero ir até o parque." Clama Roland, me encarando com olhos cintilantes porém escuros.
"Não." Respondo simplesmente. Ele suspira, e seus lábios formam o começo de um bico — e prevejo uma crise de choro. "Se começar a chorar vai ficar de castigo."
Ele sobe para o quarto cabisbaixo. Abigail me encara, e posso ver que não gostou nada do que disse. "O que foi, Abigail? Quer ficar de castigo também?"
"Ele não fez nada." Abby colocou uma mecha de seu longo cabelo atrás da orelha em um gesto delicado. "Não é culpa dele se as coisas não estão dando certo para você."
"Se não quiser levar o seu trate de subir as escadas e ir para o seu quarto, Abigail."
Ela se levantou, pegando seus cadernos e o estojo repleto de giz de cera. "Você já deveria ter entendido que não eu não tenho medo de você, Zelena." Ela passou por mim sem sequer olhar para o lado. "Você não passa de uma mulher mesquinha sem nenhum objetivo de vida."
Assim que ela se virou, e começou a subir as escadas, uma raiva absurda se apossou de mim. Não sei exatamente o que me irritou mais. Talvez fosse o veneno se alastrando pelo meu corpo. Ou a impetuosidade de Abigail. Ou talvez eu tenha sentido algo de verdade nas palavras dela. Meu corpo moveu-se antes da minha mente e eu arremessei uma bola de magia enorme na direção da garota. Seu escudo a protegeu, rebatendo o reflexo da magia para as janelas e o som dos vitrais se estilhaçando se fez presente. Abigail virou-se na minha direção. Era a primeira vez que a via com uma expressão tão amedrontadora. Seus olhos pareciam ainda mais claros, intensificados pelas sobrancelhas franzidas e sua boca tornara-se uma linha impassível. Seu rosto refletia a essência do ódio. Por um segundo, achei que fosse me matar. Ela era com certeza, poderosa o suficiente. Essa garota era um mistério e definitivamente uma ameaça.
No entanto, ela colocou as pequeninas mãos por cima de seus olhos, como que os cobrindo. Achei que fosse chorar e deixei um sorriso escapar da minha boca. Uma criança é uma criança. Independente da magia que possua. Os móveis ao redor começaram a sacodir-se, enquanto os aparelhos eletrônicos pareciam sofrer uma espécie de interferência. Abigail apertou as mãos ainda mais contra os olhos e eu assisti todos os objetos da sala levitando para o perímetro ao redor dela. "Abigail, pare com isso!" Gritei e no segundo seguinte já havia me arrependido. Ela manteve os olhos fechados, mas agora colocara as mãos sobre os ouvidos, numa pose típica de quem almejava bloquear os sons. Os móveis mais pesados giravam acima da minha cabeça com mais força agora, embalados pela irritação dela e eu me ajoelhei, certa de que algo ia acertar minha cabeça. Quem era essa garota?
"Não. Me. Diga. O. Que. Fazer." Gritou ela, fazendo com que os objetos rodopiassem no ar com violência chocando-se entre eles e contra as paredes. A televisão acertou minha têmpora com força e eu caí no chão, certa de que aquilo deixara algum corte. Gritei com a dor extenuante. Rumpel teria adorado essa criança.
Olhei para a porta e vi Robin. Ele observava Abigail com espanto. Parecia hipnotizado por ela. Olhou para mim por um instante e gesticulou para que eu aguardasse. Como se eu tivesse outra opção, idiota. Ele entrou rastejando, desviando dos destroços que um dia foram a decoração da sala de estar. Quando finalmente chegou perto dela, tentou tocá-la mas algo queimou a ponta de seus dedos. "Abby!" Ele gritou. "Abby! Sou eu! Robin! Pare com a destruição por favor!" Robin arriscou-se e ficou de joelhos, igualando-se à altura dela. Ele respirou fundo e colocou as mãos sobre as mãos dela, afastando-as da orelha dela. A pele dela estava tão quente que queimou a dele. "Abigail!" Gritou ele e ela imediatamente abriu os olhos, fazendo com que o redeimonho desaparecesse e tudo caísse sobre o chão fazendo um barulho assustador. Abigail tinha o rosto coberto por lágrimas e abraçou-o. Ele a pegou no colo e se virou para mim com aquele pequeno demônio agarrado ao seu pescoço. Ela estava agarrada a ele com todas as suas forças, mantendo os olhos fechados. "O que aconteceu aqui?"
"O que aconteceu aqui é que eu avisei, Robin! Eu avisei você!" Gritei, aproveitando a deixa para derrubá-lo com um truque emocional. "Eu não quero essa garota aqui! Dê um sumiço nela! Eu falei que ela era uma bomba relógio! Você vai achar um lugar para ela ou eu vou embora dessa casa imediatamente!"
"Eu não vou sumir com a garota! Olha o que você está falando! Ela é uma criança, pelo amor de Deus!" Ele estava bravo? Olha quem resolveu mostrar que tem culhões...
"Não é você quem quase morreu num acesso descontrolado de magia, Robin! Você viu com seus próprios olhos! E na próxima vez? Vai se importar se ela me matar acidentalmente ou para você tanto faz?"
"Zelena, você precisa entender."
"É você quem precisa entender. E se ela machucar o Roland? Vai se perdoar por ter deixado?" Robin me encarou com raiva. "Abigail nunca machucaria o Roland e você sabe disso."
"Sei? Olhe para os seus braços, Robin. Queimados pela magia dela. Ela não consegue controlar, Robin! Vai matar todos nós se você não fizer nada e a culpa vai ser sua." Robin apertou a menina contra o seu corpo. Eu o odiava nesse momento. Deveria matá-lo de uma vez. Mas eu gostava do calor do seu corpo contra o meu durante as noites frias e isso era vantagem sobre Regina.
“Não precisa sair. Quem vai sair sou eu.”
“Como é?”
Só me faltava essa.
“Você está fora de si, Zelena. Depois nós conversamos.”
Robin é um idiota. Quer saber, vá. Leve esses malditos pirralhos com você. Deixo ele para trás, falando sozinho e vou para o meu quarto. Não estou com paciência para essa porcaria de drama matrimonial.
Cheguei ao quarto e senti uma pontada absurda vinda do meu abdômen. Tranquei a porta e corri até o espelho, erguendo minha blusinha até a altura do sutiã. As linhas negras haviam se ramificado em um nível muito maior agora. Meu coração batia pesadamente, e eu respirei fundo, lembrando-me das palavras ácidas de Rumpelstiltskin.
Toda magia tem um preço.
Bati na porta algumas vezes. A casa toda parecia silenciosa, mas eu apertei a campainha impaciente. Abby estava ao meu lado com um rosto completamente entristecido, e Roland parecia estar animado embora eu desconhecesse alguma razão para estar sorrindo. A luz da varanda acendeu-se sobre a nossa cabeça, embora ainda não houvesse escurecido exatamente. As tardes em Storybrooke estavam geladas e ventava muito na maioria dos dias. A porta se abriu e Regina arregalou os olhos assim que me viu, mas ela se recompôs rapidamente ao ver as crianças ao meu lado. Ela encarou Abigail, que permanecia de cabeça baixa, fitando seus pés.
“Robin...” Ela queria saber o que eu estava fazendo ali, obviamente. Talvez tivesse medo que eu a forçasse a abordar o assunto beijo. Mas eu apenas encarei seus belíssimos olhos e não sorri.
“Eu preciso de ajuda, Regina. Não tenho com quem contar.”
Ela aceitou, acenando afirmativamente com a cabeça. “Crianças, direto para a sala de brinquedos.” Brincou, e Roland saiu correndo para dentro da casa com um sorriso imenso no rosto. Abby caminhou atrás dele, sem demonstrar nada. Regina notara o comportamento atípico e puxou meu braço, chamando minha atenção.
“O que aconteceu com ela, Robin?”
“É sobre isso que preciso de ajuda.”
Regina me fitou, séria. Guiou-me para o escritório, e eu olhei pela porta, preocupado com o que os pequenos poderiam estar fazendo. “Não se preocupe.” Respondeu ela, aos meus pensamentos. Virou a tela do computador para a minha direção. “Eu tenho câmeras lá, podemos vigiá-los daqui.” Regina fitou Abby, sentada no canto da sala abraçada às suas pernas enquanto Roland divertia-se com os muitos brinquedos da sala. Eu via a maneira preocupada com que ela olhava para a garota e era belo de se olhar. Regina tinha o toque de uma mãe, tão claramente impresso em suas digitais. “Robin, aconteceu algo com a Abby?”
“Ela...” Como é que se explica o que eu vi? Fez todos os móveis voar pelos ares durante um acesso cego de fúria conduzido por uma magia tão poderosa quanto mortífera? “Regina, ela é muito, muito poderosa. Talvez seja filha de uma feiticeira poderosa, ou fruto de amor verdadeiro, não sei, não entendo dessas coisas.”
“E isso é uma coisa ruim?” Questionou ela, encarando-me com seus inquisidores olhos escuros.
“Não!” Exclamei rápido demais. “A questão não é o poder. Ela não consegue controlar. Fez todos os móveis da minha sala de estar entrarem numa espécie de redemoinho de magia. Quando tentei tirá-la do transe, ela não respondia. Tenho medo que ela machuque o Roland sem querer.”
“A Abby não faria isso, Robin. Me decepciona saber que você confia tão pouco em sua filha.”
“A Abby também não me machucaria propositalmente, Regina. Mas ela o fez, e eu sei que foi porque ela estava fora de si, mas não posso submeter Roland a correr esse risco.”
“Ela machucou você?” Havia uma incredulidade nata em seu olhar. Regina observou enquanto eu arrancava meu casaco, restando apenas a regata branca justa ao meu corpo. Ela fixou os olhos no volume em meus músculos por um segundo mas rapidamente fixou sua atenção nos meus antebraços e mãos. “Quando coloquei as mãos em Abigail para acordá-la do transe, as bolhas simplesmente surgiram.”
“Meu Deus, Robin!” Exclamou ela. Em um segundo, balançou as mãos no ar e as bolhas foram desaparecendo lentamente, até que desapareceram completamente. “Obrigado.” Respondo, solícito. Regina fitava minha tatuagem, distraída. Eu precisei trazê-la de volta à realidade. “Ela precisa de ajuda, Regina.”
Regina levantou-se, pensativa. Caminhou até as garrafas sobre uma mesa de mogno branco no canto da sala. “Quer um drinque?” Eu recusei e ela colocou duas pedras de gelo em um dos copos, uma rodela de limão e uma azeitona preta, preenchendo-o com um líquido dourado e viscoso em seguida. “Posso perguntar uma coisa, Robin?”
“O que quiser, majestade.”
“Primeiro, eu não sou rainha aqui.”
“O que quiser, prefeita.”
“Abigail estava sozinha com Zelena quando a crise aconteceu?”
“Estava.” Regina caminhou de volta até sua cadeira e olhou para o televisor, observando Abigail. “Por que me perguntou isso?”
“Apenas uma curiosidade que me passou pela mente.” Ela deixou de olhar para o visor e me encarou. “Deixe a garota comigo alguns dias.”
“Eu não vou abandonar a minha filha porque Zelena ficou um pouco assustada, Regina. Eu fiz um voto quando adotei essa criança e vou cumpri-lo.”
Ela sorriu e segurou minha mão. “Calma, eu não quero roubar sua filha. Sugeri deixá-la aqui até você acalmar Zelena e consertar as coisas. Abby gosta daqui e vai se sentir à vontade para me contar o que aconteceu.”
Regina retirou sua mão da minha rapidamente. Eu sorri. “Podemos passar a noite aqui?”
“Vocês... três?”
“Sim, se não for um problema.”
Regina mordeu o lábio inferior pensando no que fazer. Por fim, ela sacodiu os ombros. “Claro. Mas você dorme aqui embaixo no sofá. Temos problemas suficientes para ficarmos procurando mais algum outro.”
Fiquei observando pelo televisor enquanto Regina entrava na sala dos brinquedos. Ela retirou os saltos altos e sentou-se no chão ao lado de Abigail, e eu adorei sua atitude. Acariciava os cabelos loiros com carinho e logo Abigail deixou que sua cabeça caísse no colo dela enquanto chorava baixinho. Regina esticou os cabelos longos e loiros em seu colo e começou a escová-los com os dedos enquanto plantava vários beijos no rosto dela. “Por que você está chorando, querida?”
“Eu estraguei tudo, Gina.”
“Todos nós estragamos tudo as vezes, querida.” Regina deu uma breve olhada para a câmera antes de continuar, o que fez meu estomago revirar de ansiedade. Ela estava falando sobre nós? “Mas é assim que é a vida. Você erra, aprende e se torna mais sábia.”
“O Robin vai me devolver para a floresta, não vai?” Sussurrou ela, agarrando-se às pernas de Regina com medo de ser abandonada por esta também.
“Abigail, tenha dó! Você é bem mais inteligente que isso, meu amor. Sabe que o Robin te ama. Acha que ele ia te colocar de volta na floresta, para revirar latas de lixo porque alguma coisa deu errado?” Ela balançou a cabeça, negando. Regina continuava acariciando os cabelos dela. “Seu pai é um homem muito bom. Ele só ficou um pouco assustado. É assim mesmo quando as pessoas veem a força da magia.”
Abigail já havia parado de chorar. Levantou a cabeça e sentou-se no colo de Regina, que esticara as pernas para dar o colo à ela. “Você também tem magia?” Ela parecia animada e Regina balançou as mãos, fazendo uma boneca aparecer em sua mão. “Viu?”
“Mas eu não sei fazer bonecas, Gina. Eu só sei machucar pessoas. Machuquei os braços do meu papa.”
“Eu já curei os braços do seu pai, Abby.” Respondeu Regina, batendo o indicador na ponta do nariz dela. “Um dia você vai fazer um monte de coisas muito legais. Você é uma bebê ainda, precisa aprender a controlar essas coisas e aí tudo bem, pode fazer o que quiser.”
“Sério?”
“Sim, meu amor.”
Abby sorriu e Regina beijou sua testa. “É assim que eu gosto de ver esse rosto, Abby. Com um sorriso enorme. Promete para mim não ficar assim só porque algo deu errado.”
“Eu prometo.”
“Muito bom.” Roland veio correndo até ela e beijou Regina na bochecha. “A senhora é a pessoa mais legal do mundo todo.”
“Credo, Roland. Para de chamar ela de senhora, ela não é sua vó.” Ralhou Abby, sorrindo.
“Abby, deixe ele me chamar como quiser e vá brincar. Porque quando eu disser cama, é cama e ponto final.”
Abby correu até ela e a abraçou antes de correr de volta para os brinquedos. Regina estava saindo da sala quando o sinal da câmera desapareceu, dando espaço a uma tela cheia de ruídos e riscos. Espero não ter tocado em nada nem tirado nada do lugar. Regina vai me matar. Levantei-me, e estava chegando à maçaneta quando Regina entrou na sala.
“Onde vai?”
“A câmera parou de funcionar.”
Ela olhou por cima do meu ombro, sorrindo. “Acho que não.” Olhei para trás e vi o televisor em perfeito estado com sua imagem mais nítida. Eu nunca ia me acostumar com essa tonelada infinita de porcarias tecnológicas que as pessoas inventavam a cada dia. “Vamos, vou cozinhar alguma coisa.”
POV Regina
Desci as escadas em silêncio. Fui até a cozinha e bebi dois copos de água. Mas quando voltei, não encontrei Robin no sofá. Será que tinha saído? Essa hora da noite? Dei uma olhada por ali e não tendo nenhum retorno, subi as escadas novamente. Estava frio e eu vestia um pijama um pouco curto, de alças largas. Nada muito aconselhável para uma noite fria. Havia um feixe de luz vindo do quarto onde deixara as crianças. Sorri com a possibilidade de Abigail ainda estar acordada.
Caminhei até a porta, e a entreabri, encostando-me no batente. A visão me aqueceu. Ainda bem que a cama de Henry era grande o suficiente. Robin estava deitado de barriga para cima, com Abby deitada de um lado e Roland do outro, com seus braços por cima deles num instinto natural de proteção. Sorri. Observei a feição deles, calmas e serenas, embaladas pela leveza dos sonhos. Robin havia feito uma espécie de dossel com o abajur, transformando a cama em uma tenda cheia de estrelas desenhadas no lençol branco. Ideia de Abigail, com certeza.
Fiquei ali encostado no batente, admirando-os. Meus olhos rapidamente procuraram por Robin. Finalmente eu poderia olhar para ele sem que ele me encarasse de volta e sem precisar esconder de ninguém. Seus cabelos lisos e loiros caíam sem direção de sua cabeça, numa bagunça incrivelmente sexy. Seu maxilar tinha linhas retas, e a barba adicionava ainda mais sensualidade e virilidade à ele. Seus lábios, aqueles lábios, delicados e talentosos. Ele dormia tranquilamente, de modo que eu não podia ver o que mais amava naquele rosto. Seus olhos intensos e acalentadores, as írises azuis que me deixavam completamente desajeitada após fita-las por muito tempo.
Nunca tinha prestado atenção em quão musculoso Robin era até o momento em que ele arrancara o casaco para mostrar as queimaduras. Faixas de músculos trançavam-se ao redor de seus tríceps, o que o tornava apenas mais irresistível e tentador. Eu odiava a maneira como meu corpo se portava sob a influência dele. Odiava gostar dele. O problema de Robin é que ele tornava difícil eu me manter afastada. Ele era tão bonito por fora quanto por dentro, e aos poucos, eu estava me amarrando nele com mais afinco do que um parasita em sua hospedeira.
Fitei seu colete sobre a cadeira. Observei-os dormir tranquilamente. Caminhei sem fazer barulho até a cadeira e deslizei os dedos pelo tecido duro do colete. Tentei memorizar cada costura, cada dobra da vestimenta oficial de Robin Hood. Sorri, sem saber o porquê. Peguei o tecido com as duas mãos e o abracei. Tinha uma textura áspera contra a pele humana. Levei-o às minhas narinas e senti seu cheiro. O cheiro familiar se fez presente. Eu o adorava. Não apenas por ser o cheiro dele. Era o cheiro que me cercava enquanto corria pelas florestas montada em meu corcel Bartolomeu. Era a essência das caminhadas da minha carruagem pelas trilhas da Floresta Encantada. Era o cheiro que eu sentia quando deitava na campina com Daniel e tentávamos adivinhar que animal eram aquelas nuvens. De um tempo onde eu possuía inocência e talvez felicidade. Um tempo onde ninguém tinha destruído meus sonhos ou o meu futuro, ou minha chance de um final feliz.
“O que está fazendo?” Sussurrou Robin e eu me assustei, deixando o colete cair no chão. Eu rapidamente me abaixei, pegando-o e o colocando de volta à cadeira. Eu olhei para ele, que parecia curioso. Ele não podia se mover porque os acordaria e eu estava grata por isso.
“Você tem cheiro de floresta.” Sussurrei.
“E isso é ruim?” Sussurrou ele de volta.
“Não, eu gosto.”
Trocamos um longo olhar, tendo por companhia apenas a luz do abajur sobre o dossel improvisado e o reflexo da lua lá fora. “Boa noite, Robin.” Sussurrei e saí dali sem ouvir a resposta dele. Corri até meu quarto e fechei a porta atrás de mim, apoiando-me na porta. Eu estava sorrindo. Puxei meu pijama para cima e senti o cheiro dele contra a minha roupa, e isso fez com que um sorriso maior ainda se instalasse em meu rosto.
Puta merda. O que estamos fazendo?
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