Confessionário
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Zelena estava quieta demais. Quer dizer, não que fosse uma tagarela ou algo assim, mas de repente ela andava pela casa, comia e fazia a maior parte das suas tarefas diárias em silêncio. Tratava Roland com doçura e o mais interessante é que passou a ter um cuidado especial com Abigail. Não que os tratasse mal, mas havia um cuidado quase excessivo que não estava ali antes.
"Zelena." Chamei e ela demorou a captar que eu estava falando com ela.
"Oi?"
"Onde você vai?"
"Eu... Preciso ir ao ginecologista."
"Como?"
"Médico de mulher, Robin."
Minha careta de confusão se desfez. "Que horas você volta?"
Zelena olhou para o relógio e pensou por alguns instantes. "Não sei querido. Mas pode ser que demore."
Eu assenti, observando-a. Estava linda, com uma saia lápis que contornava seu corpo fino. Me perguntei que tipo de médico é esse onde as mulheres vão tão bem vestidas. Mas não compreendo muito as coisas deste mundo, então, tudo bem por mim.
"Vou levar as crianças para dar uma volta."
Zelena não respondeu e eu entendi que talvez aquilo significasse tudo bem.
Estávamos caminhando pelas ruas de Storybrooke quando me deparei com Branca de Neve. Ela estava belíssima como sempre. Pelo visto, a gravidez também ia muito bem — a barriga era notória mesmo à certa distância.
"Robin!" Sorriu ela e eu a cumprimentei. Ela beijou a cabeça de Roland e fixou os olhos em Abby. "Oi. Quem é você?"
"Meu nome é Abby." O tom de voz dela era jovial e feliz.
"Seu nome é Abigail, na verdade." Corrigi. Ela se virou para mim e colocou o dedo indicador sobre os lábios, murmurando um shhhh.
Branca nos observava, interessada. "Vamos considerar o Abby." A princesa me olhou por cima das crianças. "O que ela é sua?"
"Filha." Assumi, orgulhoso. Abby olhou para mim sorrindo e eu tive certeza que ela gostava desse título.
"Ela é muito bonita."
"Ei, eu também sou!" Brincou Roland, e Branca apertou as bochechas dele sem fazer força.
"Sim, Roland. Você é o mais fofo de todos." Branca beijou o rosto dela, e Abby observou-a se afastar.
"Eu quero ver a Regina. Podemos ir lá vê-la?"
Abby sorria angelicalmente. Tratando-se de Regina, não era sacrifício algum aceitar a proposta.
Bati na porta do escritório dela e ouvi um intimidante "quem é?". Talvez a hora não fosse muito boa. Abri a fresta da porta, e entendi o que estava acontecendo. Ela estava chorando. " Eu... Eu volto outra hora." Comecei, mas Abigail empurrou a porta e entrou, levando Roland junto com ela.
"Abby, não é uma boa hora." Ralhei, mas ela não me deu ouvidos. Segundos depois, estava sentada na mesa de Regina, de frente para a própria. Usava seus dedos frágeis numa tentativa de enxugar as lágrimas da prefeita.
"Por que você está chorando?"
"Abby, isso não é da nossa conta." Corrigi. Mas Regina me encarou por alguns segundos, e sorriu discretamente. "Está tudo bem, Robin."
"Você é muito bonita para ficar chorando." Continuou Abby, acariciando o rosto de Regina. "Você não acha que ela é muito bonita, papa?"
Engoli em seco e meu olhar cruzou com o de Regina. Passamos algum tempo ali, olhando um ao outro, admirando o outro. Por fim, eu respondi. "Sim, querida. Regina é perfeita. Stunning, in every way."
"Meu filho esta de volta à Storybrooke e ele não se lembra de mim." Regina disse, acariciando os cabelos de Abby enquanto olhava para ela. "Ele acha que eu sou a prefeita. Somente isso."
"Você tem que dizer a ele." Respondeu Abigail, achando tudo aquilo bem óbvio. Regina sorriu e roçou seu nariz no dela. "É que ele precisa se lembrar sozinho, Abby. Precisamos quebrar a maldição mas não sou eu quem vai quebrá-la."
"Vai ser você sim."
"Você é muito metida a sabichona, mocinha. Vem, vou levar vocês à sala de brinquedos. Henry costumava ficar aqui quando era criança." Observei Regina levando-os para a sala ao lado mas não os segui. Pelos gritos alegres, soube que estavam bastante ocupados. Regina voltou para o escritório e nós nos sentamos à sua mesa, ela de um lado e eu do outro. Frente a frente.
"Me desculpe pelas crianças, não queríamos atrapalhar seu momento íntimo de dor."
Ela sorriu, e eu adorava aquela doçura em seus olhos. "Robin, eu gosto deles. Abigail tem essa coisa... Não sei, alguma coisa diferente. Como se soubesse de muitas coisas, como se olhasse através de nós e visse o que temos por dentro. Me deslumbra muito."
"Ela é adorável." Afirmei. "Sinto muito pelo seu filho, eu não sabia."
"Tudo bem." Ela abaixou a cabeça e mordeu o lábio por alguns segundos, e ao levantar a cabeça de novo, pude ver que ela se esforçava para tocar no assunto sem chorar novamente. "Henry é tudo o que eu tenho. Quando levei todos de volta para a Floresta Encantada, dei à Henry e à Emma a oportunidade de viverem uma nova vida. Uma vida feliz e relativamente normal numa terra sem magia."
"Mas a bruxa nos trouxe de volta."
"Sim." Assentiu ela, as sobrancelhas franzidas. "E por algum motivo que ainda não entendi, Emma e Henry também retornaram. Quer dizer, eu achava que nunca mais o veria. Mas vê-lo todos os dias, sem poder abraçá-lo ou dizer que o amo é tão penoso quanto."
Regina podia ter sido impiedosa e cruel em seu passado sombrio. Mas eu não conseguia ver uma sombra desse passado na mulher à minha frente. Nem nos mais loucos devaneios, um súdito do reino acreditaria em algo assim — a grande Rainha Má sacrificando sua felicidade por outra pessoa. Sofrendo como uma mãe. Era bonito e porque não, encantador.
"Como vai Zelena?"
A pergunta me pegou de surpresa. "Vai bem."
Regina me fitou por algum tempo, em silêncio. Será que falei algo errado? A gargalhada de Roland atravessou o ambiente e me deixou mais tranquilo. Foi quando me lembrei de uma coisa. "Você entende bastante de magia, Regina?"
"Acho que sim." Respondeu ela, debochando da minha pergunta. Realmente, tinha sido uma pergunta bem idiota.
"Eu... Quando voltamos para cá, eu tinha um pergaminho no bolso. É uma oração, ou poesia, sei lá. Queria que você me dissesse o que significa."
Ela se inclinou na minha direção. Observou atentamente enquanto eu retirava o pergaminho do bolso. Eu o abri, sob o olhar atento e minucioso.
"Diz assim: 'Nos vossos olhos, brilham...'".
"Robin! Não!" Me interrompeu, em um quase grito. Regina colocou a mão sobre a minha boca no impulso e nossos olhares se cruzaram. O toque dela era macio e quente, e eu respirava contra sua palma delicada. Rapidamente ela tirou sua mão, embora soubéssemos que aquilo havia sido alarmante.
"Não deve pronunciar. Se estou certa, essa é a famosa oração de Pandora. A carta de misericórdia feita para os homens." Regina mantinha a mão sobre a minha, e eu tentava respirar sem demonstrar o meu nervosismo. Ela não tinha ideia do que me causava. "É um artefato muito poderoso e muito muito antigo. Ninguém nunca viu um desses, por isso eram considerados lendas."
Encarei o papel velho com uma caligrafia bonita. Eu achava que era uma porcaria qualquer. "Mas para que serve se não posso pronunciar?"
Regina soltou minha mão e eu me senti frustrado. "Você só deve pronuncia-la quando estiver em profunda necessidade de ajuda. Somente nesse caso. Você entendeu?"
Balancei a cabeça para cima e para baixo, confirmando. Ela acariciou o pergaminho, analisando sua textura e conteúdo com admiração. "Onde você conseguiu? Você não roubou isso, não é?"
"Está me chamando de ladrão?" Perguntei, sorrindo e isso gerou um sorriso aberto naqueles lábios volumosos. "Eu não sei. Não lembro como o obtive, mas sei que foi durante o ano perdido."
"Eu espero que não tenha roubado isso. Para o seu bem."
"Por que diz isso?"
"Os Deuses que geraram os artefatos de magia celestial não são nem um pouco pacientes com ladrões. As punições são severas. As vezes, atingem civilizações inteiras."
Internamente, comecei a rezar para não tê-lo roubado de ninguém. Eu não queria uma penitência deste nível ao meu encalço. Regina me devolveu o pergaminho e novamente, seus olhos encontraram minha tatuagem e permaneceram ali. Ela parecia divagar sobre o desenho quando enfim eu lhe estendi o braço. "Pode tocar se quiser."
Regina analisou a proposta por alguns segundos antes de finalmente se dar por vencida. Ela deslizou os dedos pelo desenho, sem saber que causava arrepios por todo o meu corpo. Uma das mãos segurava meu punho enquanto os dedos da outra mão contornavam o desenho do brasão. "É bonita." Sem soltar meu braço, ela olhou nos meus olhos. "O que significa?"
"Lealdade."
"Só isso?"
Dei risada. "Você acha pouco?"
"Não, é que achei que fosse algo profundo."
"O leão é um dos poucos predadores que vive em bando e abrange o conceito de família. Cuida das fêmeas e das crias. Os protege. Além do mais, o leão quando escolhe sua parceira, é para sempre. Quer morra, ou fique viúvo, ou seja capturado — ele nunca mais procura outra, nem a leoa busca outro parceiro. São fiéis até o fim. Apesar de ferozes, sabem o que é o amor."
"Mas você já não está casado pela segunda vez?"
Segurei na mão que segurava meu punho. Senti que ela estremeceu com o toque, e talvez eu pudesse acreditar que ela sentia o mesmo que eu naquele momento. "Mas eu não sou um leão, Regina. Eu sou um homem. Eu amei a mãe do meu filho, mas ela morreu. Eu não sei se amo minha esposa, ainda mais sem me lembrar de como me casei com ela. Mas eu sei que se eu amar uma mulher, eu lutarei com mil leões por ela e nada será capaz de me fazer parar de amá-la."
Regina fitava meus lábios mas desviou o olhar assim que se deu conta que eu percebera. Eu precisava sair dali. Estávamos caminhando para um único resultado e eu não podia fazer isso, apesar de desejar ardentemente ultrapassar meus limites. Por ela, valia a pena. Mas não assim. Não hoje. Não da maneira errada. Regina era digna de algo melhor e eu tinha uma honra a zelar. Ela deve ter pensado a mesma coisa, pois retirou suas mãos de mim e se levantou da cadeira. "Meu Deus! Estou atrasada para uma reunião. Robin, me desculpe, vou ter que interromper nossa conversa."
"Tudo bem." Sorri e ela sorriu, relaxando gradativamente. "Vou chamar as crianças."
Era bem tarde da noite quando todos nos reunimos no meio da floresta. Granny ficara em casa cuidando das crianças, e Zelena me acompanhou. Apenas algumas tochas de fogo flamejante iluminavam aquela reunião. Vi Regina ao lado de Branca. Ela estava linda. Ela olhou para mim e trocamos um olhar breve, mas logo ela fixou sua atenção em minhas mãos entrelaçadas às de Zelena, o que fez com que ela limpasse a garganta e desviasse o olhar para longe de mim. Sabia o que ela estava sentindo. Eu sentia mesma coisa.
“Precisamos manter a vigilância. A Bruxa Má do Oeste está planejando algo.” Gritou Branca, e eu me perguntei onde estava David. “Ela quase tirou a vida de David esta tarde. Mas ficou com a sua espada. David disse que ele estava lutando contra ele mesmo, ou seja, era algum feitiço dela.”
“Ela roubou a coragem dele.” A voz de Regina era rouca contra a escuridão da noite.
“Um de seus macacos roubou a capa da Ruby.” Comentou Leroy. “Granny teve que trancar a neta na delegacia para evitar que possa se tornar um lobo novamente e machucar alguém.”
Emma estava encostada em uma das árvores, com sua jaqueta vermelha e um cigarro nos dedos. Ninguém entendia direito aquela mania dela, mas já haviam se acostumado. “Ela está se apossando de apetrechos potencialmente mágicos. Precisamos achar algo que nos defenda do próximo ataque dela.”
“Como vamos nos defender de quem não sabemos quem é?” Perguntei, e meia dúzia de pares se voltaram para mim. “Não sabemos como essa bruxa é, que forma tem, qual seu rosto, sua voz. Nada. Não temos nada.”
“Precisamos de uma isca.”
“Quem aceitaria ser isca de uma feiticeira louca que pode ter matado o próprio Rumpelstiltskin?”
“Eu posso ir.” Respondeu Regina, e eu senti meus batimentos desacelerarem por algum tempo.
“É uma escolha muito óbvia, Regina.” Retrucou Emma. Internamente, eu a agradecia por isso.
“Que escolha temos? Se um beijo de amor verdadeiro fosse o suficiente para quebrarmos essa maldição, ela já estaria quebrada. Mas ainda estamos presos e sem saber o que aconteceu. Alguém precisa fazer alguma coisa, Emma.” Ponderou Branca, caminhando até Regina e mantendo-se ao lado dela. “Seu pai quase morreu, Emma. Acho que isso quer dizer alguma coisa.”
“E o que vamos oferecer a ela?”
“Eu tenho algo que interessa à ela.” A voz de Belle surpreendeu a todos. Caminhando de dentro do matagal para perto deles, ela causava surpresa. Todos sabíamos que ela não saía da loja há meses. Estava mergulhada em seu luto doloroso. Com o cabelo preso em um rabo de cavalo, e uma jaqueta de couro preta sobre os ombros, nem parecia ela mesma. Tinha algo tóxico em seu olhar, mas preferi não falar disso naquela hora.
“E o que é?” Perguntou Regina.
“Vocês não precisam saber. Ela sabe o que é. Só passem o recado, e ela virá atrás de mim. Daí, vocês podem fazer o que tem que fazer.”
Todos se entreolharam e assentiram com o plano. Se Belle French estava certa disso, ninguém lhe diria o contrário. Estavam com mais medo de serem escolhidos como iscas do que com medo do plano não ser infalível. Eu assisti enquanto Regina se afastava sem olhar para trás. Ao meu lado, Zelena observava Belle desaparecendo novamente na escuridão da floresta. Um pensamento maligno a fez sorrir.
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