Confessionário
16 Capítulo 16
Por mais impossível que pareça, a adoção de Abigail foi rápida e descomplicada. De um modo incompreensível, a papelada toda se resolveu sozinha como num toque de mágica. Era como se fosse o meu destino, e o dela, ter nossos caminhos entrelaçados.
Caminhando pelo parque observo o modo como ela e Roland parecem ter nascidos como irmãos. Conversam, brincam, trocam olhares cúmplices de travessuras. Me sinto muito feliz por Roland ter agora uma companhia adequada para a sua idade. Quer dizer, meus homens são boas pessoas mas ainda assim, são adultos formados.
Roland corre para a frente, e Abigail o segue. "Roland! Volta aqui!" Eles continuam correndo e gargalhando, e eu os perco de vista. Quando os alcanço, Roland está no colo de Regina. Ela me olha daquele jeito doce e desconfiado e eu me sinto flutuar. Não entendo o que Roland faz no colo dela. Ele a conhece? De onde?
"Não sabia que tinha filhos, Robin." Algo nessa sentença marejou os olhos dela. Eu não saberia afirmar exatamente o quê. Talvez não pudesse ter filhos; talvez tenha perdido um; e na mais insana hipótese, talvez percebera que qualquer chance entre nós desaparecia com a adição de duas crianças.
"Sim. Você os conhecia?" Pergunto confuso.
"Eu não me lembro deles mas aparentemente, esse rapazinho aqui lembra de mim." Ela aperta a bochecha dele com carinho e Roland sorri, acariciando seu rosto. Isso não é típico dele. Na verdade, é muito estranho e está me deixando intrigado.
"Papa! Você conhece a Regina! E eu também!" Responde meu filho, mas não faço ideia do que ele está falando. Regina me encara com confusão no olhar, e eu sinalizo para que ela ignore as ilusões dele. Filho, eu me lembraria dessa mulher até o final da minha existência.
"Sua esposa deve ser muito bonita. Eles são encantadores."
"Ah, eles não são dela. Quer dizer, não biologicamente. Roland nasceu da minha ex mulher, na floresta encantada. E Abby foi adotada aqui."
"Aqui?"
"Sim."
"Como pode ser isso? Ninguém abandonou uma criança ou morreu no parto por aqui, desde que me lembro."
Me certifiquei que os dois pequenos estavam longe o suficiente, e sinalizei para que ambos nos sentassemos no banco de madeira ao nosso lado. "Ela estava escondida na floresta. Disse que seus pais viraram macacos voadores, o que provavelmente quer dizer que..."
"Estão mortos." Completou ela. "Pobre criança! Muito nova para lidar com tamanha perda."
"Ela não toca no assunto, nem nós. Parece ter se dado bem com Roland e isso é suficiente para mim."
"Ela é linda."
Observo Regina. Como sempre, está estonteante. Seus olhos são escuros, e sua boca vermelha como sangue. Seu casaco é azul e cai muito bem em contraste com sua pele branca. Regina é inteligente, gosto de conversar com ela. Sei que é perigoso demais passar muito tempo ao seu lado, mas não consigo calar tal desejo.
"Notícias a respeito da bruxa?"
"Nada." Responde, frustrada. "Mais pessoas tem desaparecido e ela não aparece, não diz o que quer. É frustrante."
"E o que fazia sozinha aqui no parque? Você tem ideia do quão perigoso é?"
Regina olhou em meus olhos e sorriu. "Obrigada pela preocupação mas eu sei me virar. Sou bem grandinha."
Abigail se aproximou de nós lentamente, os olhos fixos em Regina. Regina voltou se afim de encarar ela também. Elas estavam em silêncio, e Abby encostou nos joelhos dela. Regina sorriu enquanto acariciava o rosto da perfeição e Abby acariciava o seu. "Você é linda. Parece um anjo." Comentou Abby, sorrindo docemente para Regina.
"Não tanto quanto você, pequena." Abby a encarava com atenção, os pequenos e delicados dedos acariciando o rosto de Regina com cuidado e adoração. Abby sentiu a textura do cabelo dela e sorriu, admirada. Parecia estar vendo uma pedra preciosa pela primeira vez. Ou como se tivesse ganhado seu primeiro brinquedo ou primeiro animal de estimação.
"Porque seus olhos são dessa cor? Quer dizer, eles são impressionantes de tão bonitos."
"São olhos mágicos."
Regina sorriu para a criança. Com certeza, Abigail não sabia do que falava. Mas Regina estava se afeiçoando à ela e Roland, embora parecesse realmente hipnotizada por Abigail. Eu as observava em silêncio. De repente, Abby tocou seu peito e sorriu para ela. "Você é perfeita, sabe? Mais linda que todas. Mas não é por isso que ele vai se apaixonar. É pelo seu coração. Este coração."
Regina colocou a mão sobre a pequena mãozinha que estava sobre o seu peito. O que ela queria dizer com isso? Quem ia se apaixonar por ela? Antes que tivesse a oportunidade de perguntar, Abby desvencilhou se dela e correu na direção de Roland.
Entrei no antiquário e o familiar sino tocou, mas logo voltou ao silêncio. De dentro da loja, Belle apareceu. Ela não estava bem. Continuava bonita, porém havia sombras na parte inferior de seus olhos. Ela estava desnorteada pelo desaparecimento do traste do Rumplestiltskin, e os rumores sobre a sua morte só tinham deixado Belle mais fraca ainda. Ela era uma das minhas melhores amigas e eu queria muito poder ajudá la.
"Robin."
"Belle."
Eu a abracei com carinho, e ela correspondeu. Me guiou para os fundos da loja, e sentamos nas cadeiras ao redor de uma pequena mesa de madeira escura. "Quer chá, café, alguma coisa?"
"Não, eu estou bem. E como você tem passado? Parece que não dorme há dias."
Ela sorriu desajeitada, e confirmou minhas suspeitas. "Tem sido difícil não ter notícias do Rumple. Ainda se eu soubesse que ele está vivo e por aí fazendo atrocidades era melhor do que não ter notícia nenhuma."
"Eu ainda não entendo o que você viu nele."
"O amor não pode ser explicado, Robin. Mas você sabe disso. Olhe só, casou novamente e com uma mulher linda."
Sorri. "Zelena é ótima."
"Isso não soa como um marido apaixonado falando da esposa." Eu tinha me esquecido como Belle era inteligente. Sua sabedoria era notável e aliada à sua capacidade de observar, era invencível.
"Nós nos damos bem. Fisicamente, na maior parte do tempo. Ela parece ser uma boa pessoa, tem algumas características que eu não gosto muito mas nada sério." Belle assentiu, me encorajando a continuar. "Mas não há conexão, sabe? Não há laços que nos una. É como se eu até pudesse ser feliz mas há um buraco no meu peito. Um vazio, que por mais que eu tente preencher, continua ali. Como se faltasse alguma coisa."
"Você tem dois filhos lindos e uma bela esposa. O que acha que pode estar faltando na sua vida?"
Boa pergunta.
"Eu não sei, Belle. Juro que não sei."
Zelena estava sentada no sofá, lendo o jornal da cidade. São todos patéticos. Todos. E Regina é a mais idiota entre eles. Ela pensou em como Robin era bonito, viril e decente e sentiu vontade de rir, e ainda mais vontade de esfregá lo na cara da irmã. Sabia que não podia. Além do mais, Robin começara a demonstrar certa simpatia pela prefeita e isso indicava que Zelena deveria acelerar seu plano ou afundaria em miséria.
Algo chamou a sua atenção. Roland e Abby estavam em silêncio e isso não era bom sinal. Zelena subiu até o quarto deles, e posicionou se atrás da porta entreaberta.
"Como meu papa não lembra dela? Eu não entendo, Bi." Abby supostamente não era um apelido difícil mas Roland inevitavelmente o reduziu para uma única sílaba. "Eles se casaram lá na outra terra. E aqui ele ta casado com a Zelena. Mas eu lembro da Gina."
"Talvez seu pai tenha batido com a cabeça ou algo assim."
"Nossa, então bateu muito forte."
"Mas eu acho que você não deveria falar essas coisas perto da Zelena. Ela não vai gostar se souber que seu pai tem outra mulher."
"Mas ele casou com a Gina primeiro."
"Eu sei, Roland. Mas confia em mim. Não fala isso pra ela. É perigoso."
Zelena entrou no quarto e ambos olharam para ela. Roland parecia assustado, mas Abigail a olhava com atenção. "O que não é para o Roland me contar?"
"Nada." Respondeu a garota, resoluta.
"Não minta para mim, sua trombadinha catadora de lixo." Sibilou Zelena, os olhos cheios de ódio e fúria. "Não tem problema. Vocês não vão lembrar de nada, muito menos da queridinha Regina. Não vão lembrar de nada!" Os gritos de Zelena assustaram Roland. Seus olhos encheram de lágrimas. "E nem pense em chorar, Roland! Não vai ser vocês que vão me impedir de realizar meus planos!"
Roland correu até a porta, mas Zelena fechou a com magia. "Você não vai escapar! Eu não matei o Senhor das Trevas à toa!"
Com uma pequena quantidade de magia, Zelena atingiu Roland e a pequena luz verde adentrou as narinas dele, infiltrando a memoria do pequeno e apagando aquela discussão, assim como toda e qualquer menção de Regina. Ia bastar por enquanto. Ele adormeceu e ela o levitou, colocando o na cama e o cobrindo com o cobertor.
Zelena voltou sua atenção para Abby, que não havia movido um músculo em outra direção. Olhava para Zelena com um semblante sério, desprovido de emoção. "Sua vez."
Zelena criou uma pequena quantidade de magia e arremessou na direção dela. Mas a coisa mais estranha aconteceu. Sua magia pareceu ter encontrado um campo magnético, dissolvendo num feixe de luz lilás. Abigail olhava para ela e Zelena, irritada, criou um campo de magia ainda maior, jogando contra ela com mais força.
Zelena teve dois segundos para pensar. A magia chocou se contra o campo magnético levemente lilás em volta da garota e explodiu, fazendo com que a ruiva voasse contra a parede e caísse no chão. Lentamente, Zelena se levantou, o braço dolorido.
O que estava acontecendo? "Quem é você?" Sussurrou Zelena enquanto observava Abby levantando se, e caminhando até sua cama. Ela subiu, segurando a boneca em uma das mãos e se deitou por baixo do cobertor, abraçando sua boneca. A menina fechou os olhos como se fosse dormir.
"Feche a porta ao sair, tia Zelena."
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