Confessionário
12 Capítulo 12
Abigail é uma senhora incrível. Entristece-me pensar que possivelmente nunca mais voltarei a vê-la. Já faz dias que estou caminhando, e tudo que vejo é vegetação atrás de vegetação, árvores após árvores. Existe algo completamente desesperador em caminhar sem saber para onde se está indo, confesso. Mas já vivi desesperos piores.
Vejo uma montanha a certa distância e minha intuição diz que devo ir até ela. Continuo caminhando, mas logo avisto o fim do matagal e o começo do rio. Um cheiro de podridão começa a se fazer presente, de maneira gradativa.
Quando me aproximo, percebo que o cheiro vem da água. Não é exatamente um rio ou lago, é um pântano nojento e repleto de carcaças. Mas é o caminho a ser feito. Ato minhas coisas à parte alta das minhas costas e entro no lamaçal com delicadeza. O cheiro me enoja, e seguro a ânsia de vomito com muito sacrifício.
O solo por baixo desse é completamente instável, como eu achei que seria. O mundo é feito de armadilhas mortais e um ladrão como eu tem por obrigação conhecer as tramoias da natureza. Um passo em falso e eu estaria submerso nesse líquido denso e podre. Com dificuldade, segurei meus pertences no alto e continuei atravessando-o. Levou algum tempo, mas cheguei a borda. Claro, estou fedendo como o próprio demônio locado no Hades, mas estou vivo — o que é uma vantagem imensurável.
A montanha parece estar um pouco mais próxima. Respiro fundo, tentando não vomitar. O cheiro é horrível.
Longe, vislumbro casas. Meu coração dispara! Um povoado! Eles saberiam me dizer alguma coisa. Onde estou, ou ao menos se Zelena passou por aqui. Corro, porque me sinto muito melhor e mais forte, e porque a esperança é um combustível potente.
Cerca de dois terços de hora depois, eu chego à entrada do pequeno vilarejo. O silêncio me intriga, logo percebo que há algo errado. O cheiro de enxofre é indiscutível. Como pode uma cidade ser tão silenciosa?
As ruas são cinzentas, assim como a superfície das casas. Aparentemente está tudo abandonado. Não há luz, não há som, não há ninguém. Pergunto-me o que pode ter acontecido. Uma epidemia? Uma guerra? Alguma bruxa ensandecida por vingança? Rumpel? Poderia ser a própria Rainha Má em ação, se eu não tivesse visto a transformação dela com meus próprios olhos.
Entrevejo uma igreja, e caminho até ela. Nesse tipo de situação é um local seguro. As pessoas têm por hábito respeitar a casa de Deus, de modo que enquanto você estiver dentro dela, tem maiores chances de permanecer vivo. Os bancos estão todos empoeirados, e eu sento em um deles. Há ouro nas paredes, esculpidos em grandes estátuas de santos. A pintura no teto é renascentista, e brilha aos meus olhos. Coloco minhas coisas no banco da frente e me deito. O silêncio começa a se tornar reconfortante. Retiro o pergaminho do meu bolso frontal e o abro.
Letras douradas surgem aos meus olhos, desenhadas com uma caligrafia perfeita. Pergunto-me como essas palavras vão me ajudar, mas Abigail parecia confiante e ela foi simplesmente maravilhosa comigo. Confiar nela é o mínimo que posso fazer.
"Nos vossos olhos brilham
As infinitas galáxias do céu
Nos vossos dedos moram
Os destinos mais cruéis
Feche vossas pálpebras para a epifania dos homens
Imersos nas calamidades originadas de ti
Eles buscam na vida conquistas de outrora
São criaturas perdidas em seu próprio vazio
O tempo doravante se esgota agora
O exílio existencial do mortal é senil
Perante a morte eu clamo, oh senhora
Se tens um coração, maneje-o por mim
Imploro religiosamente, querida Pandora
Abra tua caixa
E permita-me vir."
É uma oração bonita e envolvente. Quer dizer, ainda não sei como isso vai me ajudar. Conheço a história antiga sobre a caixa de Pandora, sobre os deuses mitológicos e suas aspirações sobre os homens. Leitura requintada para quem gosta de perder tempo com lendas antigas. Fechei os olhos, e respirei fundo. Voltei a ler, quem sabe a repetição torne o entendimento mais fácil? Olhei ao redor e me lembrei de que eu estava sozinho, em um local desconhecido e que essa pequena oração poderia ser minha única saída, em algum momento. Voltei a ler.
Um bramido horroroso me acorda. Novamente. Esse tipo de despertador não é o meu preferido, mas está se tornando comum. Ouvi o barulho familiar do fogo engolindo a madeira e percebi a fumaça dissipada por toda parte. Levantei rápido, peguei minhas coisas e saí da igreja.
Smaug.
O dragão Smaug estava na minha frente.
Como é que começa a oração mesmo?
Smaug é o dragão mais famoso de todos os reinos. Há muitas histórias sobre ele, sobre ter tomado a montanha e seus tesouros dos anões, sobre ter devastado a Cidade do Lago. Sua voz é grossa e aterrorizante e seus olhos são medonhos — algo me diz que ele pretende carbonizar todo o meu corpo em um sopro apenas.
"Quem é o asqueroso mortal que ousou pisar em meu território?"
Vejo a cauda dele movimentando-se sorrateiramente. Ele está me estudando. Seus dentes são anavalhados e pungentes.
"Meu nome é Salomão Kaine."
Smaug cospe uma bola de fogo, que só não me acerta porque me abaixo rapidamente.
"Facínora humano! Atreveste a mentir para mim, o Grande Smaug. Achas que não sei quem és, Ó príncipe dos ladrões?"
Merda.
"Morrerás aqui, Robin Hood." Smaug deu um passo a frente. "Só tocarás no tesouro da montanha por cima do meu cadáver!"
Nos vossos olhos brilham...
Corri para a direção dele e ele correu na minha direção. Com destreza, passei por baixo das toneladas de carne protegidas pela couraça mais dura que já vi. Imenso como é, Smaug não conseguiria me atingir estando embaixo dele. Corri para dentro da cidade, ouvindo atentamente os gritos enlouquecidos, enquanto o chão sob os meus pés vibrava a cada passo dele. A cauda dele me lançou para longe, mas eu levantei e continuei correndo.
As infinitas galáxias do céu...
Cada vez que Smaug abria a boca, labaredas de um fogo incandescente chegavam aos meus pés. Ele era incansável, mas esquecia de que eu vinha de muito longe e nada ia me derrubar agora. Eu não era páreo para o terrível e lendário Smaug. Às vezes, um homem de fibra necessita reconhecer suas limitações e assim escolher suas batalhas. A batalha com o glorioso Smaug era uma que eu não era capaz de vencer e eu sabia disso. Então eu corri. Corri por dentro das casas, pelas ruas e avistei a água.
Nos vossos dedos moram...
"Eu vou incinerar você, inseto repugnante!"
A voz de Smaug estava muito próxima. Parei atrás de uma coluna, para respirar melhor e criar forças para correr até os barcos.
"Eu posso sentir seu coração, Robin..." Alarmou o dragão, rastejando sorrateiramente entre as casas. "O sinto batendo, bombeando sangue para o seu corpo."
Nos vossos dedos… Moram… Merda, qual era a continuação?
Respirei fundo. Calculei a distância de onde estava até chegar à água. Um. Smaug respirava ruidosamente, derrubando casas por onde passava. Dois. Fechei os olhos e me lembrei do sorriso doce e evasivo da mulher que amo. Três.
Corri com a força de dez cavalos. Pulei obstáculos e senti quando Smaug me viu. Ele urrou completamente cheio de raiva e pelo vento que me acompanhou, eu soube que ele abrira as imensas asas. Continuei correndo. Desviei das garras dele, e precisei pular para que sua cauda não me derrubasse. Ele voou para a minha frente, e por segundos, o assisti no ar. Smaug era majestosamente colossal e assustador. Um monstro mortífero. Ele gargalhou antes de mergulhar em um vôo que vinha na minha direção.
"Beberei o seu sangue, príncipe dos ladrões."
Vi o peito dele enchendo-se de fogo. Continuei correndo. Ele estava se aproximando velozmente. Continuei correndo. Estávamos indo um na direção do outro com rapidez.
Quando o encontro parecia inevitável, avistei um buraco no assoalho de madeira do porto.
Sorri.
A última coisa que vi foi o lampejo do fogo na minha direção.
Pulei no buraco.
Caí no mar e senti a correnteza me puxando com força. Agarrei-me na primeira coisa que avistei e me deixei levar.
Pode ser que um dia você beba meu sangue, Smaug. Mas não será hoje.
"Eu não acredito! Não dá pra acreditar nisso! O atroz e hediondo Smaug? Que porcaria! Não foi capaz de eliminar esse arqueiro de meia tigela, tenha misericórdia!" Gritava Zelena, andando de um lado para o outro. Rumpel estava sentado, lixando suas unhas. Ele a olhou com soslaio, rindo. “Ele não foi capaz de matar esse idiota? O que esperar de um dragão que apanha de anões, não é? Que é enganado por um hobbit com cérebro de andorinha. Desperdício de tempo! Desperdício de magia!”
"Eu lhe disse, dearie. A magia do amor verdadeiro é mais forte do que o seu melhor feitiço. Não conseguirá derrotá-lo."
"Talvez eu consiga atrasá-los..." Sorriu ela, caminhando até seu livro de feitiços. Folheou algumas páginas até que um estupendo sorriso brotou em seus lábios, iluminando seu olhar.
"O que está planejando?" Perguntou ele e se aproximou dela, os olhos fixos na página que ela escolhera. Rumpel sorriu ao ver do que se tratava. "Isto é genial e cruel, dearie! Garanta um lugar no camarote. Quero assistir de perto.”
Zelena sorriu para ele. “Você verá, querido. Do lugar mais perto possível.” Ela olhou para o sol, que descia sobre o horizonte. “Vamos! Está na hora de lançar a maldição.”
"Em vossos olhos brilham..."
Eu estava sendo jogado de um lado para o outro e com certeza tinha bebido muita água. Segurando em um barril, eu tentava me localizar mas a correnteza estava bruta e me empurrava impiedosamente para o fluxo da água. Me deixei guiar, não havia outra escolha.
Senti meu corpo ceder e ouvi o barulho da queda d'agua. Uma cachoeira? Eu ia cair de uma cachoeira? Me afobei com o medo de enfiar a cabeça nas pedras e acabei me soltando do barril. Mergulhei e um galho de árvore me atingiu o rosto, fazendo com que eu esticasse o corpo e aceitasse o que aconteceu em seguida.
Caí de cima da cachoeira, mas por sorte, enterrei-me em terra. Não muito dura, nem muito macia. Senti uma dor sufocante nas costas por conta da queda. Mas levantei os olhos e avistei um muro feito de espinhos próximo à borda da água. Eu já tinha visto uma muralha de espinhos como essa no castelo da Malévola, eram difíceis de invadir porém não eram impenetráveis.
Algo chamou minha atenção. Corri até a muralha. Meu coração estava disparado. Olhei por entre os espinhos grossos e execráveis. Atrás deles, havia um belo esquife branco, revestido de um cristal refulgente e em volta dele, flores brancas e amarelas se abriam tímidas à luz do sol. Meus olhos pareciam não acreditar no que viam. Ela estava ali. Podia ver seu rosto perfeito em profundo descanso. Tudo que precisava fazer era derrubar a muralha. Tirei minha faca do cinto e comecei a cortar os espinhos. Não notei quando um deles entrou na minha pele. Não notei o veneno que escorria dos espinhos que eu havia cortado.
Estava surdo, cego e completamente desligado do mundo. Eu a estava vendo. Eu chegara até ela.
Eu encontrei você, Regina.
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