Conexões
7 Capítulo VI
Notas iniciais
A visão turva foi clareando aos poucos, estrelas brilhantes rodeavam as orbitas como faróis piscando ao longe. Um espaço totalmente branco com o aroma familiar de pinheiros me inundava gradativamente, e ao virar devagar a cabeça fui capaz de visualizar macas alinhadas uma ao lado da outra.
Voltei o rosto para frente outra vez, um tipo de vidro opaco circundava a cama onde estava deitada, sob uma espécie de coberta climática que parecia atender a demanda do paciente conforme a temperatura do ambiente aumentava ou diminuía. Puxei as cobertas para cima, já não usava o uniforme que havia usado na Nave, apenas uma simples veste cinza que me dava uma sensação desconfortável de tão leve que é. Levantei-me da maca tomando as maiores precauções possíveis.
Revistei todas as macas a procura de Amy ou de Francis, nada. Minhas pernas vacilavam enquanto tentava relembrar o que havia acontecido, minha cabeça começou a doer como se fosse um trauma que o cérebro tentasse eliminar para minha própria proteção.
Ouvi vozes vindas do fundo da suposta enfermaria. Corri para a maca onde estava segundos atrás, joguei as cobertas por cima e fechei os olhos fingindo que dormia. As vozes ficaram mais altas tornando mais evidente a aproximação. Continuei com os olhos fechados, apenas esperando que o som cessasse, mas para minha surpresa as vozes pararam em frente a minha maca, pude ver duas sombras pelo vidro, uma era alta e outra baixa.
A vidraça foi aberta, possibilitando ver as feições dos donos das vozes, mesmo assim permaneci na escuta, sem olhá-los.
— E quem é a menina? —indagou a voz, que logo reconheci como sendo de Marvel.
—Selena Trettel; América Sul. Uma das novatas que chegou hoje ao amanhecer — respondeu à segunda voz, esta é masculina, mas aguda. — Foi trazida para cá depois de ser resgatada da praia.
Não pude ver a expressão de Marvel, mas pude apostar que estava me analisando neste exato momento. Depois de alguns segundos de tensão, a mulher voltou a falar.
—E os testes? —perguntou. Algo de terrível tomou conta de mim.
—Realizei todos; desde as amostras de sangue, até a análise dos testes de interação na neve. O cérebro foi todo mapeando.
Mapeado? Fiquei com medo de saber o que aquilo poderia significar.
—E o resultado? —questionou Marvel com um “quê” de hesitação que não combinava com seu tom.
—Sem duvidas nenhuma é um Encéfalo-homo — respondeu calmo. — Tem o raciocínio rápido, principalmente sobre pressão, estrategista e... — hesitou.
—E? — indagou Marvel mais interessada que nunca. Admito que eu mesma quase não consegui ficar imóvel de tanta ansiedade.
—Não tenho exatamente a confirmação... mas é possível que seja uma nova espécie de Psíquica, embora seja só uma teoria, por enquanto — explicou.
—Excelente! Muito bom. Bom mesmo doutor! — falou Marvel com a voz assustadoramente animada. —Quero essa sua teoria confirmada o quanto antes possível — continuou.
Espiei por entre as pálpebras, vendo um grande sorriso estampado no rosto de Marvel. O doutor com quem conversava é um tanto baixinho, de cabelo cinza, usa óculos redondos, o que parece estranho, afinal ninguém mais precisa usar óculos, a menos que se queira usar por algum tipo de fetiche ou algo parecido.
—Por que ela continua inconsciente? — interrogou Marvel.
—Aspirou muita água. É normal que continue desacordada por mais algumas horas, por enquanto é melhor deixá-la repousar — respondeu o doutor.
—Certo — exclamou ela, fechando a vidraça e se afastando junto do homem.
Se alguma de minhas perguntas havia sido respondida ao ouvir esta conversa, outras mil dúvidas surgiram. Tenho certeza que esta tal tese do pequeno doutor seria apenas mais umas das coisas que mamãe queria que eu não me envolvesse, embora não fosse tão preocupante quanto o mapeamento que fizeram de meu cérebro.
Precisava sair dali de qualquer forma. Mas como?
Andando apressadamente pela enfermaria passei a procurar minhas antigas roupas, pois percebera, quase tarde demais, que não havia nada por baixo dos insignificantes trajes hospitalares. Revistei todos os armários que havia ali, mas aparentemente já haviam dado um fim em minha antiga vestimenta. Encontrei apenas uma peça, não era bem o que tinha em mente, mas teria de servir.
***
Ouviu-se um grito, Mason já sabia o que significava. Assim como em toda aula de combate, um dos seus alunos deveria ter quebrado o braço ou coisa do tipo, não se agüentavam se não competissem entre eles. Mason correu para o lugar de onde vinha o grito, e encontrou uma garota caída se retorcendo segurando o braço, provavelmente havia torcido o pulso. Todos os alunos se afastaram para lhe dar espaço, isso, ou talvez por medo, preferia que fosse a primeira opção.
—O que aconteceu? —perguntou para um dos meninos que estava próximo, o garoto se encolheu todo, mas por fim respondeu:
—Ela caiu do Labirinto.
Labirinto é uma estrutura alta, com diversos níveis de dificuldade, feito para que os alunos treinem sua habilidade de combate, contudo é muito comum que eles caiam.
—Certo — confirmou Mason mais para si mesmo, pegando a menina nos braços, era a segunda vez do da que fazia aquilo. — Vou levá-la para enfermaria, por hora continuem treinando — orientou ao sair, imediatamente todos os garotos voltarem as suas atividades.
A menina gemia de dor, e Mason tentou se apressar ao máximo, mas era difícil transitar pelos corredores com tantos novatos perdidos no prédio. Ao se aproximar da enfermaria viu o doutor Richard acompanhado por Marvel, Mason os seguiu com olhos até que saíssem de vista. Nunca aconteciam boas coisas quando o doutor se misturava com a cientista.
Apressou o passo e entrou na enfermaria rapidamente, havia uma única enfermeira, estava de costas amarrando os cabelos num coque bem no alto da cabeça, fazia isso rapidamente com dedos ágeis.
—Temos uma com o pulso quebrado aqui — informou Mason, a enfermeira parou de repente, petrificando no lugar, provavelmente sabendo de quem se tratava.
—Hum... bem... pode deixá-la em uma das macas — falou ela nervosamente. — Vou cuidar dela, assim que... esterilizar isso aqui — continuou, mostrando rapidamente um equipamento feito para medir o teor de adrenalina no corpo.
Mason percebeu que havia algo de errado com aquilo, e rapidamente caminhou na direção da mulher, pegou-a pelos ombros e a virou, era ela! Aqueles olhos eram únicos.
***
Aquelas mãos ásperas me viraram, e pensei que estivesse esbarrado em algo, mas na verdade de tratava de um jovem. Seus olhos escuros como a sombra do anoitecer e cabelos branquíssimos como nata, não me deixaram desviar o olhar do dele, minha pele pulsava no local onde me tocou. Ele continuava a me encarar, e eu não conseguia emitir som algum.
—O que pensa que esta fazendo vestida assim? — perguntou-me, desviando meus pensamentos. Como ele poderia saber que não sou enfermeira? Perguntei-me, talvez tenham algum sistema para identificá-las. Constatei.
—Eu...
—Espera um pouco — zombou ele, estreitei os olhos. — Por acaso pensa em fugir?
Distração é o plano dele, me distrair para que possa fazer sabe-se La o que comigo. Pelo canto dos olhos avistei uma pequena janela redonda, não mais que há dois metros do chão, voltei a fitar o garoto, ele me olhava com uma sobrancelha levantada como se perguntasse “E ai o que vai fazer?”. Propositalmente deixei cair o estranho aparelho que encontrei por ali, e no segundo em que ele se distraiu, corri em direção da pequena passagem, pulei em cima de uma das macas, dei um impulso e segurei na parte inferior da janela. Estava só com as mãos na abertura, enquanto meus pés escorregavam pela parede.
Senti algo me puxando para baixo, tentei escapar de seus tentáculos mais ele era forte, meus dedos estavam suado o que me fazia escorregar aos poucos, então me soltei, pensando que talvez meu peso o derrubasse, mais ele era mais forte do que imaginava, portanto acabei facilitando seu trabalho, pois cai no colo dele. No mesmo instante um choque me tomou e uma luz branca me cegou, só pude ouvir um rosnado de protesto.
Quando minha visão voltou ao normal, e as cores foram voltando ao seu devido lugar, me vi em cima do garoto, nos encaramos, e senti o rubor subir até minhas bochechas. Sai de cima dele sem jeito, ficando em posição de alerta. Ele se levantou também, esfregando os braços.
—Espera pequena selvagem — falou o menino fazendo um gesto apaziguador. — Não se preocupe, não vou te machucar.
—E como vou saber que está falando a verdade? — perguntei hesitante.
Ele coçou a nuca e suspirou cansado, o que me fez quebrar a defesa. Logo a recuperei de novo.
—Por que ele salvou a sua vida! — falou a voz estridente.
Virei para trás rapidamente, Amy e Francis estavam na porta, ambos com roupas diferentes, contudo com as mesmas cores de antes. Suspirei de alivio.
—Vocês estão bem? — perguntei baixinho.
—É claro que estamos! — respondeu Amy convicta. — Viemos te ver assim que pudemos.
—Mas vejo que você não precisa de ajuda. Parece estar tudo sobre o controle — comentou Amy com seu sorrisinho já quase familiar.
Eu não chamaria isso de controle. Pensei comigo, franzindo a testa.
—O que você quis dizer com “porque ele salvou sua vida”? — indaguei fazendo sinal de aspas com os dedos.
—Bem... — começou Amy, mas foi interrompida pela sombra de Marvel, ao adentra a enfermaria.
Ela nos avaliou primeiro antes de pronunciar qualquer coisa.
—O que está acontecendo aqui?
Dei um passo para trás instintivamente. O garoto de cabelos me olhou com certa compreensão, e para minha surpresa respondeu.
—Estou procurando uma das enfermeiras, uma aluna quebrou o pulso — informou, depois gesticulou para nós. — Quanto a eles eu não sei.
—Compreendo. Mason, você pode deixar a aluna, eu mesma me certificarei dos seus cuidados. — falou séria. O garoto acenou com a cabeça e saiu do cômodo, me olhando uma ultima vez, como se para se certificar de algo. — Quanto aos outros, podem se retirar se terminaram seus assuntos por aqui.
Como queira. Pensei aliviada. Fui em direção a saída junto de Amy e Francis.
—Menos você — disse Marvel me interceptando na porta.
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