Conexões

5 Capítulo IV


Notas iniciais
Olá pessoal! Me desculpem pela mega demora de postar esse capítulo, mas só agora percebi que ela não havia sido postada... Sinto muito O.O Boa leitura a todos!

Terça, janeiro de 301620h00min

Um banquete infinito estava disposto a nossa frente, pilhas e pilhas de todas as comidas diferentes que se pode imaginar que encontravam ali, desde os pratos compostos por legumes cozidos e caldos cremosos, até os assados, como tortas de frango e de maça com canela. Havia também massas salgadas e doces, bolos com recheio de amoras silvestres e pêssegos maduros, litros de água com gotas de limão e cubos de gelo cristalinos dançando neles. Mas o mais saboroso de tudo era a deliciosa cascata de chocolate onde se mergulhava qualquer coisa que fosse comestível. Meu consciente não conseguia se decidir por onde começar a atacar, e sem mais delongas tratei de comer tudo que estava próximo a mim.

Amy a minha esquerda e Francis a minha direita, nem conseguem falar com as bocas empanturradas de pão, torta e cozidos que engoliam com a ajuda do suco de uva. Estávamos apostos em uma longa mesa espelhada que cobria quase todo o salão horizontalmente, sentados uns ao lado dos outros. A garota gorila — que descobrimos recentemente que seu nome é Úrsula — estava localizada na ponta extrema a nossa. Amy ficou aliviada com isso. A minha frente alguns garotos de rostos finos estranhamente parecidos, eles jogavam purê de cenoura uns nos outros, e só pararam quando uma garota de cabelos encaracolados os advertiu.

Antes de todos nós nos juntarmos para o jantar dos iniciados, estávamos em uma simulação que a própria OGE formulou, segundo o que sabemos, essa era uma nova maneira que eles tinham de se certificar de que todos nós cooperaríamos em demonstrar nossas ondas, pois no passado já tiveram problemas com esse “tipo de assunto”. E pensar nisso só fazia minha angustia aumentar. Mamãe disse que eu não conseguiria esconder que tenho controle das ondas, mas que eu poderia despistá-los em testes práticos – isso não é mais uma opção. Só conseguia pensar agora em como minha mãe me alertou para esse tipo de coisa, e eu apenas não a obedeci da maneira como deveria. “Não seja a heroína” deveria ser meu mantra, mas não tinha pensado a fundo sobre isso, não pensei no que realmente significava!

Empurrei meu prato para longe, com a certeza que se comesse mais colocaria tudo para fora, peguei o copo de água, triturando os cubos de gelo nos dentes, e quando dei por mim não existia mais nenhum para destruir, contudo o copo de Francis continuava intacto, furtei o gelo para mim.

— Você poderia ter pedido sabia — resmungou ele, mas continuei meu massacre dos cubos.

Amy ao meu lado jogou os pratos – sim, pratos — para longe também, com ar de satisfação, falou então:

— Eu poderia comer mais uma fatia daquelas tortas de coco, mas sei que não seria tão bom quanto foi à sexta.

— Você comeu seis pedaços de torta de coco? — indagou Francis surpreso e horrorizado.

Amy esboçou uma careta pensativa enquanto formulava uma boa resposta para dar a Francis, contudo ela teve que adiar, pois nesse exato momento o chiado de transmissão estática ecoou por todo o salão, induzindo todos ao silencio generalizado.

A mulher de cabelos pratas ressurgiu no grande palco, com o mesmo olhar calmo e boca retorcida revelando dentes alinhados em perfeita harmonia. Ela pensava em algo, seu olhar era vago e contorcia as mãos uma nas outras como se estivessem dormentes, piscou os olhos rapidamente, despertando de seus devaneios, andou até a frente do palco, seus sapatos não faziam nenhum ruído sequer. Madeira selada — pensei comigo, é um tipo de material emborrachado que protege a matéria prima, muito útil para a ressonância de som, mas não é apenas isso. Meu pai dizia que esse tipo de equipamento era usado para impedir a expansão de ondas elétricas, incluindo as psíquicas. Minha mãe discordava, dizendo que não era uma proteção realmente plausível, contudo reduzia o poder das ondas ou pelo menos a minimizava. A senhora de terno prata pressionou um pequeno botão que ficava meticulosamente camuflado na manga de seu blazer, fazendo com que a sua voz fosse audível a todos no lugar.

— Agora que todos estão muito bem alimentados, podemos prosseguir com as apresentações — incitou. — Chamo-me Marvel Escarlate, sou a representante da Academia OGE, coordenadora de pesquisas psíquica e organizadora de adaptações no ambiente acadêmico de encéfalos homo — hesitou. — Platão um dia disse: “você pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de conversa” — citou seriamente.

— As melhores ideias não são as novas, mas as que modelamos com o tempo, sim, certamente o incêndio falso não foi levado a tal ponto de ser comparado a uma simples brincadeira, mas devemos levar em conta a idéia principal disso, tenho a confirmação que se soubessem realmente o que estava acontecendo os seus extintos de sobrevivência não os ajudaria a se revelar — Marvel fez uma pequena pausa nos avaliando como um farol no meio do mar, prosseguiu. — Então modelando a frase de Platão, “você pode conhecer mais o potencial de uma pessoa nas horas de necessidade do que nas de treinamentos” — terminou com um sorriso orgulho da própria frase, certamente escreveria isso em sua agenda.

Amy se curvou a mesa, erguendo uma de suas sobrancelhas claras, cochichou:

— Ela acabou de dizer que não devemos ficar furiosos com a simulação? Pessoalmente acabei de ficar ofendida — disse revirando os olhos.

— Creio que seja mais do que “não deveríamos”, é algo como “se conformem” — sussurrei em resposta.

— Platão como todo filósofo nunca pensava em uma coisa de cada vez — reclamou Francis.

— O que isso quer dizer? — Amy se aproximou ainda mais, até mesmo eu me debrucei sobre a mesa.

— “Uma vida não questionada não merece ser vivida”... Quer dizer que qualquer frase da boca certa sempre será manipulada e jogada ao vento da maneira que preferir que preferir.

— Foi Platão que disse isso? — perguntei.

Francis concordou com a cabeça, voltei a minha atenção à senhora Escarlate.

Palavras têm poder– pensei comigo.

Marvel ainda recitava a importância que a simulação tinha para o OGE... É claro que tem. Com o canto dos olhos pude ver que Francis pensava o mesmo, voltei a minha atenção ao discurso.

— Fui mandada especialmente neste dia de hoje, para adaptar vocês, conhecer, avaliar e posicionar, mas principalmente para contar uma pequena história — completou-se com um sorriso enigmático.

Franzi o cenho, sentindo um frio na barriga. A última coisa que vi foi os dentes brancos da senhora Escarlate, e sucessivamente as luzes do grande salão foram se apagando, nos expondo a uma terrível escuridão. Não houve tempo para gritos ou reclamações, pois no mesmo instante uma luz ofuscante surgiu, ela dançava e corria como serpentes aos nossos pés.

Levantei-me assustada quando senti algo roçando minha perna, fitei o chão pensando encontrar o metal do piso, mas soltei um grito de surpresa quando me deparei com o asfalto de uma rua. Sei que ainda estou no salão, pois podia sentir a mão de Amy apertando meu braço, olhei em volta, percebendo uma metrópole a todo vapor, havia edifícios altos levantando-se majestosamente até o céu, veículos rápidos passando em constante movimento, pessoas transitando pelas ruas. Passei os olhos captando tudo ao meu redor, podia ainda ouvir as vozes dos iniciados, e Amy segurava-me tão forte que estava a ponto de parar o fluxo de sangue que corre em minhas veias.

— Amy — reclamei, puxando o braço.

— Perdão. — desculpou-se relaxando um pouco mais a pegada.

— Estou com um mau pressentimento — incitei enquanto observava um grande outdoor com uma propaganda de refrigerante que nunca vira antes, isso não era apenas uma simulação, era...

— O passado — Marvel completou meu raciocínio, se revelando como fumaça entre dois carros. Tentei focar em seu rosto que surgia e ressurgia por causa da estática, consequências da simulação. — Está é a cidade de Nova York, América do norte. Quando os países do mundo ainda dividiam suas terras por estados e regiões, esse lugar era chamado de Estados Unidos da América, ele se uniu a outros países, e tornaram-se um só, este que na atualidade chamamos de América Norte.

— Como uma pajeia — disse Francis ao meu lado, naquele seu estilo de pensar alto com ele mesmo.

A senhora escarlate confirmou seu comentário com um sorriso, e prosseguiu.

— Karl Marx foi um dos primeiros encéfalos descoberto, e desde o ano de 2045 cientistas do mundo todo vem estudando esses poderes — contou. — E foi a partir daí que a OGE foi formada, para o que hoje é universalmente conhecido, o melhor órgão estudantil para pesquisas e teorias sobre as ondas.

Em nossa casa não existia nenhum meio de comunicação por satélites, por isso meus pais e eu sempre estivemos desatualizados das programações televisivas. Minha mãe sempre gostou de ler livros em um tipo de folha creme, costurado em uma capa revestida, ela diz que era a fonte de conhecimento mais pura que existia, meu pai ao contrario, gosta das telas multimídias com as quais se pode interagir. Sempre fomos muito conectados a rede global, mas meus pais nunca quiseram me contar sobre os outros hemisférios ou o que podia haver do outro lado do continente, então saber que possivelmente existem outras OGE, com nomes diferentes, mas com os mesmo princípios me deixava surpresa com uma ponta de curiosidade sobre esta questão.

— OGE, Órgão Governamental Estudantil como sabem, é comandada pelo próprio governo — começou de novo. — No entanto no início era uma doutrina de propriedade única. O fundador dela foi o próprio Karl Marx, que depois de se formar em técnico nuclear começou suas pesquisas, no que resultou no que ela é hoje.

Francis mantinha os olhos vidrados, prestando atenção em cada palavra que Marvel dizia, Amy revirou os olhos com a cena.

A cidade começou a sair de foco e logo depois uma luz forte e branca nasceu, nos transportando de volta ao grande salão. Pisquei repetidamente, as luzes ofuscantes faziam meus olhos doerem, Amy ainda segurava meu braço, enquanto Francis segurava a si mesmo, mudando a cor da sua pele para um tom esverdeado. Talvez duas simulações ao dia seja demais para ele.

— Essa foi a primeira lição de vocês, curta, no entanto acredito que muito instrutiva — sorriu mais uma vez. — Agora peço que todos vocês permaneçam em seus lugares e estendam os braços para frente.

Todos exasperaram de surpresa, mas ainda sim fizeram o que a senhora de cabelos pratas ordenou. Francis deu de ombros quando o fitei com olhos curiosos. Ainda meio receosa estendi os braços para frente, como se estivesse segurando algo, em um segundo uma mochila de cor verde com tamanha precisão nos meus braços. Olhei em volta e todos tinham uma, a fitei, não era pesada, mas existia algo dentro dela que a deixava com um formato estufado, como se ela fosse forrada.

— Muito bem — disse Marvel. — Vejo vocês em terra firme.

Dito isso, desapareceu como fumaça mais uma vez, apertei os olhos não acreditando, em seu lugar uma imagem holográfica surgiu, era a mesma menina de grandes olhos cor de rosa.

— Por favor! — pediu ela, com a mesma voz doce que me lembrava. — Coloquem suas mochilas nas costas, alçando os braços pelas alças — todos seguiam suas instruções calmamente. — Quando a porta B-1 for aberta, com a força da nave, vocês serão sugados para fora...

— Para fora — choramingou Amy.

Todos começaram a entrar em pânico, como no incêndio falso, Francis de verde estava ficando para roxo.

— Pânico é desnecessário — flou a menina holográfica. — A mochila que se encontra em suas costas se trata de um paraquedas, a própria OGE que os fabricou, então não precisam se exaltar.

Não era bem isso com que todos estavam preocupados. Não conseguia raciocinar o que ela dizia, talvez meu cérebro tenha processado a ideia errado. Saltar? De uma nave em pleno vôo, somos totalmente incapacitados para isso, não recebemos treinamento.

— O paraquedas se abrirá automaticamente quando a altura recomendada chegar. Boa sorte!

A andróide se foi, e uma imensa porta se abriu, revelando um céu azul, e o barulho do vento em alta velocidade, pude sentir que meus pés estavam começando a ser puxados para a direção da porta B-1.

Os Jovens se distanciavam do portal e se seguravam em tudo que estava fixo no chão da nave. Amy e eu demos as mãos caminhando em direção a Francis, que estava debruçado contra o chão, com o rosto pálido e olhos fechados.

— Pega o braço dele — dirigi-me a Amy. — Eu pego o outro.

Com os braços de Francis enlaçando nossos pescoços fitei a porta, repassando tudo o que acontecera hoje, só podíamos fazer uma coisa.

— Tenho uma ideia — falei.

— Qual? — perguntou Amy, com a voz quase inaudível.

— Talvez você não goste — respondi olhando-a.

Não precisou nem de segundos para que Amy me compreendesse.

— Oh, meu Deus — gemeu Francis, e parece que o pobre menino de cabelos laranja havia entendido também.

Notas finais
Espero que tenham gostado e me desculpem pela demora de novo, e pela falta de atenção total. Obrigada por estar lendo. Beijos, e até mais ^.^