Condenados [Interativa]
3 "As sete regras da sobrevivência"
Notas iniciais
Tsc, tsc, meus caros leitores. Eu esperava que vocês fossem mais sanguinários. aushauhsuhas
Dia O1
17:07
“Nos livrem do mal. Amém.”
A cara gorda e vermelha de Azazel desaparece no ar e com um pulso elétrico a porta de grade abre para o terreno vazio.
Em outras celas iguais à minha, nove condenados estão sendo libertados pra essa mesma terra.
“Matar ou morrer”, o presidente disse.
Bem.
Que sorte a minha eu ser uma maldita sobrevivente.
Corro pelo campo aberto o mais rápido que posso. Essa é uma péssima área pra se estar, é muito distante de qualquer abrigo e qualquer um fica completamente vulnerável. Não deve ser um problema já que não consigo ver nenhum dos outros participantes daqui. De toda forma, sigo a minha regra número 1. Conseguir proteção.
Ainda estou na metade do caminho quando ouço o primeiro grito. Uma garota está berrando em algum lugar bem longe. Minha cela nas grades está fechada, mas vazia. Não podem ter se passado mais do que três minutos, eu sei disso. Nenhum demônio foi solto antes da hora. O que quer que tenha acontecido, foi feito por um humano. Alguém já começou.
Corro pro sentido contrário, sem pensar muito. Regra número 2, fique longe do barulho. Deixe eles se matarem como quiserem. Diminui a concorrência e aproxima o fim.
O plano se desenrola na minha cabeça desde que o carrasco de chapéu e bengala me entregou a carta de convocação. Enquanto eu ouvia as outras detentas apontarem e cochicharem sobre como estavam aliviadas por ter a chance de voltar pra casa e ver a família de novo, eu criava estratégias. Eu não tinha pelo quê chorar. Nem pra quem voltar.
Repito sozinha a lista que criei, as minhas 7 regras da sobrevivência. Repito como se fosse uma oração.
Regra número 1, consiga proteção. Evite lugares muito grandes e com muitos cômodos, mais espaço significa mais chance de encontrar armadilhas. Conheça sempre a saída mais próxima. Prefira fugir a se esconder.
Regra número 2, fique longe do barulho, de lugares com muita luz e de grandes grupos. Em um jogo de gato e rato o fundamental é não chamar atenção.
Regra número 3, encontre comida. Comida segura. Não é segredo que a produção facilita o trabalho dos caçadores enchendo de drogas a maioria dos alimentos que espalham na Gaiola.
Regra número 4, não fique com nada que te atrase. Não carregue pesos desnecessários. Se arrumar uma arma, que seja de preferência uma apropriada e pequena que você saiba manusear, e se não souber, aprenda rápido.
Regra número 5, não fale com ninguém. Muitas pessoas sentem necessidade de se confortarem com companhia quando se encontram na desgraça. Eu não sou uma dessas pessoas.
Regra número 6, não acredite em ninguém. Há um motivo bem claro pra todos que estão aqui estarem aqui. Não existem mais inocentes.
Regra número 7, ataque sempre para matar. Perder uma chance significaria perder a vida.
Com as regras e a minha inteligência, eu sei que vou conseguir sobreviver nesse maldito jogo estúpido.
A primeira rua ao redor da cidade só tem paredes caídas, postes de luz sem os fios, muito reboco e um carro abandonado com a metade da frente caído num buraco de areia. Logo estou na rua principal e todas as casas ao redor tem dois andares, bem separadas, com cercas caídas em volta de jardins de grama amarela ressecada.
Entro em uma dessas casas que não parece prestes a cair. Tento o interruptor, mas, é claro, não tem luz. Um pouco de água sai da torneira, por sorte. Encho uma garrafa pequena do armário e prendo no meu cinto. A geladeira está aberta, as gavetas e comida estragada cheias de moscas espalhadas pelo chão. Aqui tem um buraco enorme aberto no teto, por onde os demônios poderiam entrar mas eu não posso sair, então procuro outra.
Já quase anoiteceu quando finalmente encontro uma casa que parece inteira. Sem nenhum buraco, paredes queimadas e ainda de janelas inteiras, parece o palácio real no meio desse lixão. Na entrada, atrás da porta, uma corda atravessa o piso e sobe até o teto, onde uma rede está armada.
É isso o que a produção preparou para nós? Francamente, é quase um insulto à minha inteligência.
Pulo a corda e vou verificar o segundo andar da casa. A parte de cima tem apenas dois quartos, o que é bom, e sem móveis nenhum além de um guarda-roupa em um e duas camas de solteiro pequenas em outro, que ainda tem uma enorme janela. Vou verificar se a altura da janela é segura caso eu precise pular para fora daqui fugindo e logo que entro meu pé esbarra em algo que assobia, me fazendo quase enfartar de susto.
É um maldito dinossauro de borracha amarelo. Giro o brinquedo idiota nas mãos, pensando se daria algum resultado atirar aquilo na cara de alguém, até que minha cabeça raciocina corretamente.
Um brinquedo.
Haviam crianças alí.
Meu olhar vai para as camas pequenas, uma em cada canto do quarto, e vejo o que não tinha percebido antes. Enormes manchas vermelhas marcam os colchões onde deveriam estar os travesseiros.
Pessoas moravam alí. E em todas as outras casas. Foram todos mortos e expulsos para que o Jogo pudesse acontecer. Pela primeira vez vejo a cidade como realmente é. Um maldito cemitério.
Eles foram o aperitivo. Nós somos o prato principal.
Agora que percebi, o cheiro de sangue seco está impregnado em todas as casas. Aperto o dinossauro amarelo nas mãos. Espero, torço, rezo, pra que os donos daquele brinquedo tenham tido a sorte de estar dormindo quando tudo aconteceu, embora eu tenha certeza de que não é dessa forma que os Caçadores costumam agir.
Um barulho enorme vem do andar de baixo. Meu instinto me leva automaticamente até a janela, para fugir, então percebo que o céu ainda está claro lá fora. Os demônios ainda não foram soltos. Quem quer que esteja lá embaixo, é só outro condenado, e esse lugar ainda é um abrigo muito bom pra ser largado tão facilmente.
Alguma voz lá embaixo fala rápido demais pra que eu consiga entender o idioma. Da escada não consigo ver ninguém então arrisco descer alguns degraus, até identificar a massa pendurada balançando dentro da rede, atrás da porta.
Que ótimo. Algum imbecil caiu na armadilha da rede. E eu contando que seria o abrigo perfeito. É melhor só sair pela janela e procurar outro lugar antes que escureça e deixar o idiota para os caçadores jantarem e-
O degrau range debaixo do meu pé. Muito, muito alto. Merda.
- Boa tarde! – A voz fala lá debaixo, com um forte sotaque francês. — Não sabia que a casa estava ocupada, perdoe-me os modos. A senhora por acaso tem um momento para ouvir a palavra do Nosso Senhor?
Prendo a respiração. Talvez ela não tenha me visto. Está bem escuro aqui em cima. Talvez ache que foi o vento e se distraia pra que eu possa ir embora daqui.
- Posso te ver aí, sabe. – A voz continua, menos brincalhona. — Seu cabelo brilha como lâmpada fluorescente, cabeça de prata. Poderia parar de fingir que é minha amiga imaginária e vir aqui dar uma mão?
Me aperto contra o corrimão, pra que ela me confunde com uma sombra ou qualquer coisa parecida. Está escuro. Só um gato me enxergaria tão nitidamente.
- É um belo dinossauro esse aí, também – ela divaga, eu nem me lembrava que estava apertando o brinquedo para usar como arma se precisasse. — Aposto que não é seu. Já começamos a saquear as casas dos mortos? Você deve ser uma menina bem má.
- Eu não roubei – digo, antes de conseguir me controlar, o orgulho falando mais alto.
A presa parece muito contente.
- Ora, vejam só, cabeça de prata também sabe falar! Será que sabe descer as escadas também? Ou está ocupada demais mexendo nos bolsos dos defuntos tentando encontrar algumas moedas?
Sei aonde ela quer chegar e sei que estou quebrando completamente a regra número 5, mas não parece ter importância, já que a pessoa em questão está pendurada a um metro do chão em uma rede, sem a mínima chance de escapar. Desço as escadas.
- Eu não sou uma ladra barata e você deveria ter mais respeitos com os mortos – falo, séria e impassível. — Logo vai ser uma também.
A pessoa presa na rede é, como eu já sabia, uma garota. Tem cabelos curtos de um preto escuro. O seu rosto é tipicamente francês: nariz empinado, olhos zombeteiros e um sorriso insolente na boca fina.
- Que gracinha você é, cabeça de prata! Cheia de moralidades e reflexões. Como pretende fazer? Vai atirar na minha cabeça com Barney o dinossauro até que eu sofra um traumatismo craniano?
- Eu não preciso. Os Caçadores vão cuidar de você.
- Oh, claro. – Ela solta as cordas e relaxa na rede como se fosse um gato preguiçoso, e não um condenado capturado. — Pra que sujar as próprias mãos quando um bicho feio pode fazer o trabalho por você, não é mesmo? É uma ótima ideia e eu com certeza faria igual. A menos, é claro, que a vítima fosse eu, o que, por sorte, vem a ser o nosso caso.
Eu conheço seu tipo. O modo de falar sedutor, se arrastando para tentar prender minha atenção e disfarçar a sua verdadeira situação. A francesa está tentando um jogo de poder. É engraçado vê-la tentar, então finjo estar curiosa.
- O que você poderia ter para me oferecer?
- Eu sei como sair daqui.
Sair daqui. Sair da Gaiola. A ideia é tão idiota que preciso morder as bochechas pra não rir. Ao invés disso, finalmente decido dar fim àquela brincadeira. Está ficando tarde e eu preciso de um esconderijo livre de franceses. Regra número 1.
- Não tenho tempo pra isso.
- Estou falando sério. Eu tenho um plano – os olhos da francesa brilham. – Um grande plano.
- Alguém que foi idiota o bastante pra perder a vida caindo em uma armadilha de criança – eu digo. – Sim, acredito, deve ser um plano magnífico.
A francesinha fica vermelha de raiva.
- Ótimo! — ela explode. — Pro inferno você e Barney o dinossauro! Você não faz ideia do que jogou fora, cabeça de prata. Eu posso me soltar sozinha mas você não tem chances de daqui sem mim.
- Te vejo do outro lado da cerca – aceno um adeus antes de subir e sair pela janela de trás, porque não quero que a francesa veja pra que lado estou indo.
Antes que eu comece a subir as escadas, uma única nota de uma sirene ensurdecedora ecoa por toda a cidade, tão alta que deixa meus ouvidos zumbindo. Ao mesmo tempo a porta bate, junto com todas as janelas, fazendo a casa estremecer e a francesa gritar. O mesmo barulho se repete ao redor. Em todas as casas, uma por uma, as portas batem.
- O que foi isso? – A francesa pergunta, sem conseguir se virar.
Tento abrir a porta mas a maçaneta nem mesmo se mexe nas minhas mãos. Um dispositivo preto de ferro está prendendo o trinco do lado de dentro, o mesmo com todas as janelas, e tenho vontade de bater minha cabeça naquilo por não ter percebido antes. É óbvio demais! Todas as casas em que entrei, tudo estava aos pedaços, menos pelas portas! As redes e as cordas eram só uma distração. As casas são a verdadeira armadilha.
- Merda! – Bato na porta, furiosa. Como pude ser tão estúpida? Como deixei isso passar? – Merda, merda, merda!
- Cabeça de prata, – a francesa sussurra às minhas costas. – você ouviu isso?
Estou com raiva demais pra entrar em outro joguinho por atenção mas, de fato, há um barulho estranho do lado de fora. Um sonido elétrico. Como as portas de grade da cerca de choque quando se abriram. Não pode ser. O céu lá fora está ficando roxo por cima do laranja do pôr-do-sol. Ainda não. Não, agora não.
Uma pancada abafada vem de longe. O som é forte e dá a impressão de que faz o chão tremer debaixo dos meus pés. Outra pancada. Outra. Não é impressão. O chão está tremendo.
- São eles, não são? – A francesa pergunta, em um fiapo de voz. Seus olhos muito grandes estão em mim, arregalados de medo e de compreensão.
Preciso sair daqui. Preciso fazer alguma coisa. Pego o maldito dinossauro do chão, porque já cometi muitos erros hoje pra confiar em deixar esse troço barulhento largado e corro pro segundo andar.
- Espera! – Ela força a voz para não gritar quando subo as escadas. – Me deixa sair! Não pode me deixar aqui!
O que é uma graça, porque é justamente isso o que vou fazer. Regra número 4. Nada que te atrase.
A grande janela do andar de cima está trancada. Não importa o quanto eu force, ou quanto chute, ela não se mexe. O céu lá em cima já está completamente escuro. Em outro canto da cidade, alguém, alguma coisa, uiva. O som começa como o lamento angustiado de um lobo e se transforma em uma gargalhada seca e cruel. Vou pro andar debaixo pra procurar alguma coisa que arrombe essa maldita tranca e pra sair de perto daquele som vindo do inferno.
- Eu tenho um trato – a francesa diz quando eu desço, sem todo o charme sedutor da última vez. Não presto atenção. Quebrar minhas regras foi o que me prendeu aqui. Não vou fazer outra vez. Que se dane a francesa.
Os sussurros dela me trazem de volta antes que eu chegue na cozinha.
- Se você não me tirar daqui, eu vou gritar.
Eu volto, devagar. Isso não pode estar acontecendo. Não era pra estar acontecendo. Não comigo. Eu sou uma sobrevivente.
- Todos eles vão vir pra cá. Atraídos como moscas. Você não tem como escapar.
Os olhos da francesa estão sombrios. Todo o rosto dela parece uma máscara dura do que era antes. Ela está blefando comigo. Só pode estar.
- Eles vão te matar.
- Se eu for pro inferno — ela condena -, você vai comigo.
- Está mentindo.
A boca dela se abre em um sorriso sinistro.
- Você quer tentar?
Quantas coisas uma pessoa é capaz de perder? A família, os amigos, a liberdade. Quanto mais penso mais observo como tudo é tão frágil. Você pode perder o dinheiro, o orgulho, a fé. Até que o único bem que você possua seja a sua própria vida e nada mais. É o seu último fio. Fora isso, você não tem mais nada a perder. Uma pessoa sem nada a perder é o tipo mais perigoso do mundo.
Posso ler nos olhos da francesa. Eu sou o último fio dela. E ela o meu.
Os passos pesados como socos de Deus estão mais perto.
- Vou pegar algo pra cortar a corda – sussurro e sumo na cozinha.
Miya Nashimura
Notas finais
O que acharam da Miya? E da francesa? Eu achei elas tão diferentes que fariam uma combinação ótima :3 Será que elas vão conseguir se entender, ou a Miya está tramando alguma coisa? Bwaha-ha-ha!
Quero agradecer a todos os comentários e ao apoio que tenho recebido, vocês são demais, realmente! Estou aberta a qualquer dúvida e ideias também, afinal, essa história é de vocês tanto quanto minha :3
Votação em aberto para o próximo capítulo:
O uivo x O grito
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