♫ Radioactive


Disseram que a Virada do Milênio traria consigo o apocalipse. “Disseram”. E não foi a primeira vez. Várias vezes durante várias décadas espalharam-se falsos boatos sobre o “Fim do mundo”, ou da raça humana como conhecemos — mesmo que para alguns, seu próprio fim e o fim de todos tenham o mesmo valor.
E, ao menos para mim, naquela vez não seria diferente. Quem dera estar certo.
Só queria que o ano acabasse logo. Que aquele clima incomodo simplesmente se dizimasse no céu junto aos fogos de artificio.

Para o meu aniversario de 17 anos eu não queria uma festa, diferente de quando pequeno, nem presentes. Eu fui um adolescente rebelde, ainda tenho algumas tatuagens no braço esquerdo e piercings, no nariz e na boca, que me lembrem disso. Como nasci no final de dezembro, meus aniversários não eram os meus melhores dias. Naquele ano eu já havia desistido, tal como os 6 anos que o antecederam, porem neste aniversario eu estava completamente possesso por conta dos boatos do fim do mundo. Malditos Maias. Tornando ainda pior a data em que nasci, insinuando que no ano em que finalmente completaria 18 anos o mundo acabaria. “Então que acabe logo”

☢

Desviei o olhar para o enorme relógio da estação de trem, 23:45, faltava pouco para a virada do ano. Com certeza receberia uma bronca por chegar atrasado, e nem a desculpa de que era meu aniversario conseguiria amenizar isso.
—Welcome to the new age, to the new age...— cantarolei, ajeitando meus fones enquanto esperava o próximo trem.
Revirei o lugar com os olhos, inquieto, até que um som alto ecoou pela plataforma indicando um aviso importante:
“Sentimos informar que por conta das previsões de diversas anomalias temporais todos os embarques estão cancelados até segunda ordem”
—Não..... Oh, não! Merda! Por quê agora?— gritei, correndo em direção a saída.
Não pode estar acontecendo. Não hoje, não agora. Droga! Se o mundo não me matar, minha mãe o fará.
Ainda correndo, arregacei a manga do moletom para olhar o relógio.
—Ahh não! Que porra que eu fiz pra merecer isso? — Apressei o passo, tinha apenas 5 minutos antes da virada do ano.
[...]
Ouvi fogos de artificio explodindo, vozes aliviadas e gritos de alegria que abafavam o som da musica que ouvia nos fones que quase caiam de meus ouvidos depois tanto correr. Eu não tinha duvida. Meu aniversario chegara ao fim, e um novo ano começou. 2012.
O ano começou e eu não havia sumido, nada desapareceu. Mas meus pensamentos foram subitamente interrompidos e tudo um minha mente desapareceu ao ouvir um barulho ensurdecedor atras de mim. Tudo dentro de mim estava branco, e na verdade, fora também. Nem que por uma fração de segundo, senti tudo em mim paralisar. Minha pulsação, meus batimentos, meus muculos... quase como se precisasse de uma pausa para arquivar em meu cérebro tudo aquilo que senti.
Quando me dei por mim já estava no chão, completamente abatido. Senti um vento extremamente forte pinicar-me com a poeira até doer. Com esforço, pus-me em pé. Ainda desorientado virei-me para ver o que havia acontecido.

I'm waking up to ash and dust
[...]
This is it, the apocalypse, whoa

“Impossível...”
Com os olhos arregalados, engoli em seco a imagem a minha frente. Era tão surreal, tão absurdo. A nevoa de poeira que pairava o ar e não se dissipara nem mesmo com o vento forte que soprava em minha direção, os destroços espalhados pelo chão em volta de uma enorme depressão no solo nu e rachado, e o céu... O céu. Eu não queria olhar para ele. Mas olhei, quem dera não ter visto.
Acima da minha cabeça choviam raios. O negro da noite faiscava incessantemente sobre a cidade. E a cada faisca, uma nova labareda nascia e devorava quem em seu caminho estivesse.
Por um triz não fui engolido pelas chamas. Estou vivo, eu senti isso naquele momento, senti o medo que cresceu dentro de mim naquele instante. Eu me senti andando sobre a linha tênue que me separa da morte.

I'm waking up, I feel it in my bones
Enough to make my systems blow
Welcome to the new age, to the new age
Welcome to the new age, to the new age


Meus fones já não estavam mais em meus ouvidos, mas eu ainda escutava a musica. Em minha cabeça ela tocava várias e várias vezes, como uma trilha sonora de meu delírio.

Eu já não ouvia mais a musica,
Eu estava vivendo-a.

☢

Quando finalmente consegui me levantar, corri. Corri com todas as minhas forças. Precisava chegar em casa o mais rapido possível. Eu não queria pensar. Se pensasse, pensaria em coisas ruins. Eles não podiam sumir. Mãe, pai e até mesmo a pestinha da Meggie. Eles tinham de estar lá. Não podiam desaparecer, não assim.
Tropecei de tão brusca que foi minha curva na esquina de casa. Ofegante, dei-me uns segundos para respirar. Estava tão aliviado, a casa ainda estava ali. Rapidamente, voltei a correr em direção a casa.
Cara a cara com a porta, Não aguentava mais esperar, entrei tão afobado que quase cai no chão. Todos estavam na sala, sentados nos sofás em volta de mesa de centro. Uns chorando, outros consolando. Quando entrei, olharam para mim como se fosse uma assombração, mas logo minha mãe se levantou num pulo para me acolher, atrás dela vieram alguns parentes em estado de choque, meu pai — que antes estava com uma expressão totalmente ausente — e minha irma que correu de seu esconderijo minusculo e se agarrou a minha cintura, tremendo. Percebi pelos seus olhares que achavam que eu estava morto — como são pessimistas, mas acho que a situação permite —, algumas tias minhas até deixaram escapar um “Ele ainda esta vivo!”

Lá fora, os raios haviam parado, porem o vento soprava tão forte que levava consigo até os destroços das casas que conseguira destruir. E assim continuou por um bom tempo, na verdade, por muito tempo. Nada naquele tempo era bom, era péssimo. Depois dos raios e ventania, começaram os tornados, tsunamis, furacões, nevascas, temporais... A temperatura completamente instável. Holocausto não era nada comparado a tudo aquilo. Pessoas morriam aos montes e a todos os momentos, com suas casas desabando ou por um dos milhares modos estranhos de se morrer. Minha casa não era diferente, obviamente não aguentou tudo sem nenhum arranhão. Nunca achei tão conveniente as excentricidades da minha família. Tínhamos muito dinheiro, e meus pais eram um tanto estranhos. Alem dos três andares normais da nossa casa, tínhamos dois no subsolo, o que nos deu um ótimo refugio.

☢

A primeira a ceder foi minha mãe. Ela era muito bonita, como uma boneca de porcelana. Mas tal como uma, também era muito frágil.
Foi muito pouco tempo depois do evento que provavelmente mais marcou o o maldito ano. Meio ano depois do começo das anomalias climáticas as usinas nucleares não aguentaram. Ao redor de todo o mundo elas explodiam uma a uma, espalhando a radiação pelo ar. No inicio a radioatividade era relativamente baixa, mas ainda afetava algumas pessoas. Como fez com minha mãe. Ela morreu doente. Morreu frágil e fraca, em seus últimos dias de vida eu via em seu rosto a morte, eu sabia que isso ia acontecer, eu tentei me preparar para isso. Mas eu realmete não consegui. Não consegui olhar para minha mãe, que sempre foi tão alegre e animada, deitada em uma cama num quarto vazio. Sem janelas, sem flores, e tão sem vida.
—Mãe? Posso entrar? — eu disse, quase que sussurrando.
—Claro... — ela falou, tentando parecer bem, e abriu um belo sorriso.
—Meggie esta triste, ela quer vê-la.
—Eu também, e muito. Mas não teria coragem de encontra-la, não assim. Diga a ela que estou bem e fale que mandei um beijo, e que a amo muito...
—Eu não vou dizer isso, mãe. Você sabe. E você também sabe que não esta bem.— Senti meus olhos começarem a trasbordar, mas segurei as lagrimas. A minha teimosia herdei de minha mãe.
—Sim... Eu sei, e você também não é ? — Ela já não conseguia segurar lagrimas como antigamente.— Cuide deles por mim, filho. Por favor.
—Não fale como se… Não! Você não diria isso. Nunca! Você só diria isso se você tivesse certeza!... Se você tivesse certeza que fosse morrer... — Essa palavra ecoou em minha cabeça por o que pareceu-me uma eternidade.
—Sim, e eu tenho... Me desculpe, filho. Eu queria tanto ver você se casar, queria tanto conhecer meus netinhos, ver você ser pai. Eu tenho certeza que você será um ótimo pai, e que sua mulher será uma otina esposa também. Me desculpe por não conseguir ver você se tornar um homem.— Ela soluçou, enquanto seus olhos azuis piscina trasbordavam como cachoeiras
— E-Eu já sou um homem mãe— gaguejei.
—Oh, verdade. É claro. Você já é um grande homem, filho. Olhe como esta forte, mesmo que tudo esteja assim, você ainda esta tão bem.—Ela riu, ainda afogando-se em lagrimas.
Fiz uma longa pausa, precisava contar a ela. Mas antes tinha de me recompor.
—Mãe, eu... tenho uma coisa importante para falar...

☢

Dois dias depois, minha mãe estava morta. Não pudemos enterrá-la decentemente, mas mesmo assim ela parecia tão em paz. Ela, que sempre colocou seus filhos em primeiro lugar, ficou muito feliz em saber que eu estava bem. Que Meggie estava bem. E que provavelmente nós ficaríamos bem. Sim, ela parecia aliviada, afinal, era tudo o que ela queria... Na verdade dois terços disso. Ela amava muito meu pai, e sabia que ele a amava tanto quanto. Ela sabia que ele ficaria mal, desolado. E ele estava disso para pior.
Meu pai sempre foi muito quieto e fechado, minha mãe falava pelos dois. Ele estava péssimo com a perda dela, eu não queria vê-lo assim, e ele também não queria que o víssemos assim. Durante duas semanas ele passou a maior parte do tempo trancado em seu quarto escuro, saia apenas para comer e nos olhar. Ora para nos vigiar, ora apenas para nos observar. As vezes enquanto nos olhava ele sorria, lembrando de nossa mãe. Ele era forte, mas não o bastante para aquilo. A cada dia ele saia menos do quarto, para não percebermos que ele tossia mais.

—Pai, serio, você esta bem?
—Você se parece tanto com sua mãe. Não vou mentir, eu não estou. Eu acho... que não vou poder ficar com vocês por muito tempo. Me desculpe, filho.
—Não se desculpe! Você não tem culpa, e ela também não tinha. Por que vocês se desculpam? Você vai dizer as mesmas coisas que ela.
—Provavelmente eu iria. É uma coisa que vem conosco a partir do momento que somos pais. Desde que sua mãe morreu eu já pensei varias e varias vezes em me suicidar... Mas eu não pude, porque tenho vocês aqui. Antes eu teria feito isso sem pensar. —Ele fez uma pausa — Mas quando conheci sua mãe eu mudei, quando vocês nasceram também. Eu não podia deixar vocês aqui, sozinhos... Eu queria continuar cuidando de vocês.
—Não se esforce tanto, pai. Eu posso me virar por aqui, mesmo com tudo isso acontecendo.
—Então, eu posso te pedir que cuide da Meggie por mim? Por favor.—Seus olhos lacrimejavam.
—Claro, eu vou cuidar dela. E nós ficaremos bem. Se tudo der certo ficaremos muito bem, na verdade, já estamos bem o bastante.
—Como... ? — Ele ergueu uma sobrancelha, como que duvidando.
—Sim, eu percebi uma coisa. Algumas pessoas estão bem, eu, Meggie e até agora mais 107 pessoas! Isso não é incrível?
—Sim, mas... eu ainda não entendi.
—A radioatividade. Ela não afeta algumas pessoas. Eu estive reparando nisso desde que as usinas explodiram.

☢

O ultimo mês da vida de meu pai foi bem agitado. Um mês e meio depois do inicio das explosões o ar já estava quase completamente contaminado em boa parte das regiões da cidade, nem mesmo ele conseguiu resistir. Antes de morrer ele já estava mais alegre, mas ainda podíamos ver a falta que sentia de nossa mãe. O enterramos junto a ela. Meggie chorou muito e estava desolada, então começou a se apegar ainda mais a mim. Eu tinha de protege-la, cuidar dela, prometi a meus pais que o faria.
Saiamos de casa muito raramente, não queria que Meggie visse o que estava acontecendo com o mundo bem acima das nossas cabeças. Muitas pessoas perderam suas casas desde que o ano começou. Ficar nas ruas não era seguro, mas era a única opção.
Para sairmos de casa tínhamos de usar as mascaras de gás (quando as usinas começaram a ceder aos desastres climáticos o governo fez o que pode para distribuir mascaras faciais para os que sobreviveram até ali). Meggie não gostava e eu achava desnecessário, mas tínhamos de usar para não levantarmos suspeitas. Era quinta, e como em todas as quintas, eu fui as ruínas no entorno da antiga fábrica da cidade, mas desta vez tive que levar Meggie comigo. Eu não a levaria até o local de encontro, era muito perigoso, deixaria Marie cuidar dela. Mesmo que Meggie estivesse reagindo bem as adaptações genéticas ainda não era seguro levá-la a um lugar como aquele.
Deixei Meggie um pouco depois de sairmos de casa, Marie parecia muito animada em vê-la. Andei mais alguns bons km debaixo do sol, mesmo que o dia estivesse frio, até chegar ao meu destino.
Quando cheguei lá já tinham alguns a minha espera, provavelmente eu era o penúltimo a chegar, ninguém consegue se atrasar mais que Kim.
—Eai, já estão aqui a muito tempo?— perguntei, sorrindo de lado.
—Não, não. Bem, pelo menos a maioria de nós. Já que o Hayato não gosta de pessoas ele resolveu passar a manhã inteira aqui.— disse John, debochando da personalidade estranha de Hayato.
—Pare de atazanar ele John. Temos coisas mais importantes par fazer— Fiz uma pausa, olhando em volta— E a maldita Kim? Onde ela foi se meter bem agora?
Atrás de mim surgiu uma sombra movendo-se rápido para me derrubar.
—Hoje não! — exclamei, derrubando-a no chão empoeirado n golpe só— Nem nunca.— eu disse num tom irônico, Provocando-a com meu sorriso sádico.
—Me solta seu merda!—disse Kim, frustrada
—Como quiser senhorita.— Desta vez eu sabia que aquela havia sido a ultima gota
—Senhorita?! Eu tenho a cara daquelas putas loiras que não sabem porra nenhuma?!
Dake decidiu se intrometer um pouco:
—Ern, não. Com certeza não né. Talvez se você deixasse solto essa sua cabeleira toda, usasse roupas menos… assim, fosse mais meiga...— Kim o interrompeu com um belo chute nas costas. E enquanto ele gemia de dor, caído no chão, ela brigava com ele e alguns membros que decidiram perturba-la.
Mas no final das contas, Dake tinha razão, Kim não era nada feminina. Em geral, poucos membros do grupo principal eram mais “delicados”, com exceção de Marie, Louis, Lena e Melody, nós eramos bem brutais (Ashley não era exatamente brutal, mas tambem não era delicada) e tínhamos personalidades fortes. Ao total eramos 11. Cada um com seu próprio jeito. Kim é violenta e impulsiva, Melody muito tímida, Dake é meio tosco e sempre pertuba os outros membros, Ashley tem um estilo de “patricinha” mas consegue manter uma boa relação com Kim, Marie ama crianças e tem um instinto materno de uma ursa, Loius veio de uma família rica e é um tanto afeminado, Scott esta sempre estressado, Lena é bem calma e tem um toque hippie— alias, foi ela quem fez a maioria das minhas tatuagens depois que o novo começou—, Hayato.... bem, ele é um tanto estranho, John não perde a chance de ser gentil com uma garota bonita sequer e eu mesmo, claro. Tínhamos de ser fortes para liderar nossas divisões. Eu principalmente.
—Hey, hey.... Chega! Temos coisas mais importantes para tratar, não é mesmo?— Eles estavam bem agitados, tinha que lidera-los firmemente.— Começando por... Kim, você!
—Ern, merda. —Ela me encarou por um segundo e começou— Bem, as coisas estão indo bem por lá, uns pegaram uma gripe mas já estão melhor. Ah, e achamos achei mais uma Creap, estamos cuidando dela por enquanto, mas temos que decidir pra qual divisão ela vai.—Ela mal terminou de falar e já se retirou da minha frente.
—Bem...Veremos isso depois— Eu olhei para ela e ergui a sobrancelha— Eu sei que vocês não se veem muito, mas precisam ficar assim tão grudadas?
—M-Me desculpe... — gaguejou Melody
—Não fode! Pelo menos eu tenho uma namorada
—Esta bem, Kim, você venceu. Próximo... vejamos...Scott, é com você!
—... Eu... Eh, por lá tá tudo... normal, eu acho. Não tivemos mortos, então tá tudo bem né.
—Ótimo, ótimo. — Soltei um longo suspiro, todos sabiam liderar bem, mas alguns não eram muito comunicativos — Scott?
—Oi? Não, nada de excepcional aconteceu por lá!—Ele, como sempre, estava nervoso.
—Okays, vamos tentar algo diferente. Alguém notou alguma mudança ou algo assim?
Hayato levantou a mão, como que pedindo permissão para falar, eu fiz um gesto com a cabeça, indicando que prosseguisse
—Algumas das crianças pegaram uma doença que parece uma gripe, duas delas morreram.
—Isso não foi... Kim, você não disse algo parecido?
—Hãn? Ah sim, disse sim.— Ela parecia bem distraída com sua namorada.
—Mais alguém sabe de algo sobre isso?— perguntei.
—Sim eu sei. — disse Lena, depois de acender o ultimo incenso que estava em sua mão—parece ser uma epidemia, não está afetando muitas pessoas, mas parece estar bem ruim pra quem foi pego.
—Já estamos quase no final do ano, era provável que isso acontecesse.— disse Lena
Quase no final do ano.... logo será meu aniversario, de novo... —falei tão baixo que minha frase não passou de um sussurro.

☢

Junto aos ares de setembro, chegava o aniversario de Meggie. É realmente uma pena que ela estivesse tão mal e não possa aproveitar seus 13 anos. Eu fiz um pequena festa em casa para comemorarmos, convidei os lideres de cada divisão. Marie estava muito abalada pelo estado de Meggie. Todos estavam preocupados.
Marie pulou para trás no momento em que viu Meggie, que estava dormindo. Ela saiu do quarto tão rápido que quase me derrubou. Sai para perguntar o que havia acontecido e me deparai com Marie sentada de costas para a parede do lado de fora do quarto, ela estava com a mão na boca e chorava muito.
—O quê aconteceu? — perguntei, preocupado.
No mesmo instante ela desviou o olhar para mim e começou a chorar mais. A forma como ela me olhou... Era como que com pena. Engoli em seco aquele olhar.
—E-Eu... Você se lembra da ultima reunião, quando conversamos sobre uma nova epidemia que parece uma gripe?
—Sim... lembro, mas disseram que quem pegou ela se curou rapidamente não é?
—Sim.... normalmente. Mas é porque na maioria das vezes a doença não progredia quase nada — Ela fez uma longa pausa, tão longa que fez com que eu sentisse de novo uma sensação que não sentia desde o meu ultimo aniversario— Mas a Meggie... Já está com a doença muito avançada, eu …. e-eu....
—O quê ?! Marie!
—Eu... já vi muitas crianças com isso e poucas no estado que ela esta. Mas todas que estavam assim... Elas não aguentaram muito.—Ela começou a chorar alto. Muito alto. Mas eu não ouvia direito, o som de seu choro estava abafado, igual a musica que ouvia quando o ano começou.
—Não... — Aquele sentimento invadiu todo o meu corpo, o sentimento que me faz sentir na pele que estou vivo.

☢

Contei a Meggie que ela provavelmente não viveria muito mais. Ela não chorou, não reclamou, nem sequer pareceu chocada ao ouvir a noticia. Ela somente confirmou com a cabeça e me sorriu. Ela estava tão calma, não parecia preocupada, muito menos triste. Ajeitou-se na cama para poder sentar e tirou de seu punho a pulseira que usava desde que nasceu, provavelmente. Olhou para mim e sorriu novamente, segurando a pulseira prateada entre seus pequenos dedos.
—Se eu te der ela, você jura que cuidara dela por mim?
—O que?...
—Não vou repetir, você ouviu! — disse, frustrada.
—Por quê?— Eu já não estava entendendo nada.
—Para você se lembrar de mim, oras.—ela disse, como se fosse a coisa mais obvia do mundo.— Você vai pegar ou não?
—Sim... — Fiz uma pausa— Me desculpe, Meggie. Eu prometi a nossos pais que cuidaria de você.
—Não seja ridículo, eu ouvi você conversando com papai aquele dia. Você mesmo disse que não havia nada a se desculpar, agora também não há!
—Eu... acho que entendi o porquê deles terem me pedido desculpas antes.
—Idiota, mesmo agora, você continua sendo bem mané— zombou, arqueando as sobrancelhas.
—Cala a boca, peste!
Um breve silencio tomou conta do quarto por um momento, mas não era um silencio pesado ou ruim, era agradável, como se nas paredes brancas do quarto estivessem passando cada um dos bons momentos que passamos. Sem me dar conta, eu já estava chorando. E ela também.
—... Eu... já disse que te amo? — ela perguntou como se estivesse inconsciente.
—Acho que não, não me diga que vai me dizer agora? — provoquei.
—Sim... Eu te amo, muito sabe.— ela disse, com um olhar serio e indiferente.
—O-O que?? — Fiquei tão surpreso que quase cai da cadeira, mas antes que eu caísse Meggie me agarrou dando-me um abraço tão forte que me tirou o ar.
—Você é um ótimo irmão sabe, pode não ser perfeito mas é bom o bastante.
—Você também é lealzinha, sabe— debochei
Então ela me empurrou e eu finalmente cai de costas no chão.
—Ah, sim, eu também te amo. Muito tá?

☢


Quando o ano de 2012 começou, ele trouce consigo uma serie de desastres. Como que se a natureza se rebelasse contra nós, casas foram derrubadas e pessoas mortas. Nevascas, tornados, tempestades, terremotos... Por todo o mundo, os desastres climáticos destruíam tudo, desde crianças até grandes metrópoles. Muitos morreram por esses acontecimentos, corpos sem vida eram empilhados aos montes nas ruas, e aos que resistiram um futuro melhor não os aguardava. Aproximadamente no meio do ano as Usinas nucleares começaram a ceder, cada vez mais e mais lugares ficavam inabitáveis a nós pela alta radioatividade, mas o problema estava longe de ser espaço para quem ainda vivia. A comida não chegava a ser escassa, não tínhamos tantas bocas para alimentar, o mais difícil era entregar o alimento a quem precisava dele.
Logo após as primeiras pessoas começarem a morrer por causa dos efeitos da radiação eu percebi algo. Alguns jovens não eram afetados pela radiação, na verdade, se adaptavam a ela. Somente alguns, que não tinham completado 10 anos, inclusive eu. Dei meu máximo para encontrar outros Creapers, nomeados aqueles que a mutação genética era positiva e os permitia viver no novo mundo. Juntei alguns da primeira linhagem, como eu , que eram os mais velhos e responsáveis para comandar as divisões para onde mandávamos Creapers mais novos que conseguíamos encontrar. Minha irma também era, mas foi pega por uma epidemia que a matou.
Todos os membros se esforçavam ao máximo para acharem novos Creapers e salva-los. Crescemos tanto, que conseguimos bases em outros países.
Durante o ano de 2012 o mundo mudou, muitos morreram, quase fomos extintos, quase. Em 2013, estávamos reconstruindo o novo lar da humanidade. Em 2014, a população estava se formando, escolas, hospitais, tudo que conseguimos resgatar da nossa antiga comunidade.
Em meu aniversario de 21 anos, estávamos comemorando nossa vitoria. Nossa sobrevivência. Estávamos indo rumo a 2015.

I'm waking up, I feel it in my bones
Enough to make my systems blow
Welcome to the new age, to the new age
Welcome to the new age, to the new age
Whoa, whoa, I'm radioactive, radioactive
Whoa, whoa, I'm radioactive, radioactive


Nós sobrevivemos. Nós mudamos para poderemos continuar aqui. Estamos vivos, respirando a química no ar, somos radioativos. Estamos na Nova Era, criamos a nova era.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.