Concurso Apocalipse 2012 - Quando as estrelas caem
1 Capítulo 1-Todos querem governar o mundo
Notas iniciais
Um momento, por favor. Precisava processar o que tinha acontecido nesta noite. É verdade? Tudo não se passou de um sonho? Tudo o que aconteceu não se passou de imagens processadas por meu cérebro? Cada pessoa, cada ação, cada pensamento... angústia que eu senti. Tudo isso não passou de uma ilusão?
Meu ar estava ofegante. Olhei para o lado e notei o relógio marcando 05:00 am. Havia um copo de água em cima do criado-mudo. O peguei e tomei alguns goles. A água já não estava tão fresca, e meu corpo pingava suor.
Levantei-me e fui-me até o banheiro. Precisava me refrescar um pouco. Tomei uma demorada ducha de água fria. Estava muito quente desde que o verão começara.
Sequei-me com uma toalha branca que estava ali perto. Abri meu guarda-roupa e peguei uma camisola branca. A vesti. Abaixei-me e peguei uma sapatilha branca que estava embaixo da cama. Andei até o banheiro e fiquei de frente ao espelho, e com uma escova, escovei meus cabelos médios, que iam até abaixo dos meus ombros. Eles eram castanho escuro. Uma tonalidade normal, para uma garota... bem.
Meu coração ainda estava um pouco acelerado com o sonho que tive. Decidi comer algo, até porque, acabei indo muito cedo para a cama na noite anterior, e acabei dormindo de barriga vazia.
Andei até a porta. Abri-a lentamente, e com cuidado para não fazer barulho, não queria acordar ninguém. Olhei para um lado e não vi pessoaalguma. Olhei para o outro e nada. Isso era assustador, pelo fato de eu estar num hospital psiquiátrico, cheio de pacientes, mas nenhum deles deu sinal de vida. As portas todas estavam fechadas, e o chão brilhava como diamante. Os raios de sol tocavam o chão que refletia toda a luz. Fui até o final do corredor, e lá havia uma escada que descia para o primeiro andar.
Desci as escadas e andei até a cozinha, então ouvi uma voz doce e serena que se dirigiu a mim.
—Olá querida. Dormiu bem?
—Nem um pouco, Renata. –falei me sentando à mesa de madeira, com uma fruteira em cima. -Toda vez que fecho os olhos, só me vem as imagens das estrelas. –continuei.
Renata puxou uma cadeira ao lado da minha e sentou-se.
—Querida, você chegou aqui faz pouco tempo. Os medicamentos ainda não começaram a fazer efeito. –ela me disse tocando minha mão.
—Será que ninguém acredita em mim? Eu fiquei sim diante do fim do mundo e eu vou provar! –gritei me levantando e saindo correndo dali.
Corri até o pátio central. Encontrei um banco e sentei-me. Eu ainda não entendia por que ninguém acreditava em mim. Todos dizem que isso não passou de minha imaginação fértil. Mas eu tenho 18 anos!
Eu observava o movimento do lado de fora pela janela. Aquelas pessoas caminhando, falando ao telefone, parecia que nós nem existíamos. É triste saber que ninguém conhece a realidade dentro de um hospital psiquiátrico. Que ninguém conhece seus pacientes. Todos nos tratam como loucos. Essa é uma triste realidade.
Ainda pela janela, pude observar uma jovem de uns 20 anos no máximo, entrando pelos portões. Aquilo me deixou curiosa. Nunca a tinha visto antes, já que os únicos visitantes naquele local eram os parentes dos pacientes, e eu posso afirmar que ela não era nenhum parente.
Corri até a entrada e a diretora do hospital logo foi dando as boas-vindas para a jovem. Eu fiquei escondida atrás de uma parede, não queria que ninguém soubesse de minha presença.
—Olá minha jovem! Seja bem-vinda! –a diretora Gabriela foi falando à jovem visitante.
Eu sempre admirei Gabriela. Uma mulher destemida e com uma forte personalidade. Claro que eu também admiro sua enorme beleza. Pra uma mulher de seus 42 anos, Gabriela ainda parecia estar entrando na fase dos 30. Sua pele morena ainda era suave e macia, seus cabelos continuavam cacheados e cheios de vida, acho que preciso perguntar o segredo.
—Obrigada senhora... –a jovem dizia.
—Gabriela!
—Me chamo Lorena.
Lorena. Que belo nome, pra uma bela jovem. Não sei por que estou usando tanto a palavra “jovem”, tenho apenas 18 anos! Mas o que me chamou a atenção em Lorena foi seu cabelo ondulado negro como o abismo da morte, porém sua pele era branca como mármore. E seus olhos encantavam qualquer um.
—Em que posso ajudá-la, Lorena?
—Eu vim fazer uma pesquisa com os pacientes. Eu sou do jornal e eles me pediram para aprofundar-me mais neste assunto.
—Tudo bem. Venha comigo. Vou lhe mostrar a casa.
As duas saíram andando. Gabriela foi mostrando cada canto daquele hospital. Bom, não gosto muito de usar a palavra “hospital”. Nem eu nem a diretora. Por isso ela deu o nome de “Casa das Estrelas” para aquele lugar. Muito mais prático do que usar “hospital” ou “hospício”!
Lorena se admirava com aquele lugar. Não era pra menos, o local foi cedido por uma das pessoas mais ricas da cidade, e quem sabe do estado. O senhor Pedro Corrêa. Ele é o prefeito da cidade de Patlos Altos. Meio estranho esse nome, deveriam reclamar com o fundador, mas acho que ele morreu já faz uns 202 anos.
—Onde estão os pacientes? –Lorena perguntou desconfortavelmente.
—Eles com certeza devem estar dormindo. Ainda são 05:10 da manhã. – Gabriela falou olhando para o relógio em seu pulso esquerdo.
Essa era minha chance. Eu queria saber o que Lorena queria ali, exatamente. Então eu dei alguns passos, queria me passar por despercebida, mas com o intuito de que alguém percebesse minha presença.
—Quem é ela? –Lorena perguntou apontando com os olhos para minha pessoa.
—Stéfanie! Venha cá, por favor. –Gabriela me pediu e eu logo obedeci. –Esta é Stéfanie, uma de nossas pacientes.
—Olá. –Lorena disse erguendo sua mão direita.
Apenas sorri e dei um aperto em sua mão. Pronto, acho que agora podemos começar a entrevista, ou sejalá o que isso for.
—Será que eu poderia falar um pouco com ela? –Lorena perguntou à diretora que assentiu com a cabeça e nos deixou a sós.
Lorena me puxou pelo braço até um pequeno banco encostado na parede. Eu queria ser direta, mas não sabia se poderia confiar nela para contar tudo o que sei. Por isso me fiz de frágil e tímida, com aquela aparência de inofensiva, mas apenas aparências.
—Bom, Stéfanie, meu nome é Lorena e eu trabalho no jornal da cidade. Eles me pediram para que eu fizesse uma matéria sobre como é um hospital psiquiátrico... –ela falava querendo conquistar minha confiança.
—Casa das Estrelas. –falei baixinho.
—O quê?
—Esse é o nome do lugar. Casa das Estrelas. –repeti.
—Como quiser. Pois bem, eu quero que você me conte como que é a sua vida aqui dentro, seus pontos de vista e tudo o que me quiser contar. –ela continuou.
Ela tirou de sua bolsa algo meio retangular e com arestas levemente arredondadas. Havia botões também. Deveria ser um gravado de voz. Ela iria gravar tudo o que eu iria dizer. Talvez não seja uma boa ideia de contar tudo a ela.
—Eu estou aqui já faz alguns meses. –comecei.
—E como tem sido sua experiência aqui?
—Normal. Conheço todos e fiz novas amizades, mas estou longe de minha família.
—Eles não vêm te visitar?
—Ás vezes.
—E quais os seus planos para o futuro?
Naquele momento um frio em minha barriga se formou. Eu precisava contar dos avisos para mais alguém, e por falta de opção deveria ser ela. Abaixei sua mão com o gravador, o que a deixou um pouco confusa, mas antes que ela pudesse fazer mais alguma pergunta eu respondi a sua última.
—Não haverá futuro.
—Como?
—O mundo está sendo consumido por trevas, falsidade, rancor e ódio. Tudo isso causado por uma simples raça, a humanidade.
—Por que diz isso?
—Olhe em sua volta. Você só verá pessoas ocupadas demais para assuntos simples. E em volta dessas pessoas, a destruição prevalece.
—Você diz isso como se soubesse de algo mais...
—E eu sei. Eu sei que eles estão para acabar com o sofrimento do planeta. Eles não permitem que tais atos fiquem sem punição.
—Eles quem?
Eu estava prestes a responder, mas Gabriela nos interrompeu. Isso foi tão chato! Eu estava quase me abrindo por completo, contando tudo o que sabia, mas Gabriela tinha que aparecer e nos atrapalhar.
—Chega de falar sobre isso Stéfanie! –ela falou.
Levantei-me do banco e sai rapidamente, mas parei um pouco para ouvir o que Gabriela diria a Lorena.
—Ela estava te importunado, não é mesmo? –Gabriela perguntou.
—Não, imagina. –Lorena disse.
–-Ela sempre espalha para os outros sobre seus sonhos que são como avisos de outros seres, avisando da destruição do mundo. Patético, não?
—Não, eu não acho. Acho que o ponto de vista dela é um dos mais reais possíveis. As palavras gentis que saíram daquela boca me motivaram mais. –Lorena respondeu se levantando do banco e saindo dali, indo mais a fundo da casa. Aquela atitude deixou Gabriela sem seu sorriso de sempre, finalmente alguém capaz de enfrentá-la.
Eu havia dito que admirava Gabriela em seus aspectos físicos e sua personalidade. Mas algo que sempre perturbou a todos na Casa das Estrelas, eram suas atitudes. Ela sempre foi perfeccionista em tudo. E acabava passando dos limites e pegando uma fama de malvada.
Minutos se passaram e todos que moravam naquele local já estavam de pé. A visitante decidiu tomar café conosco, o que deixou muitos pacientes inquietos com sua presença, já que ela era nova ali.
Estávamos todos sentados à mesa. O café da manhã estava completamente especial. Muitas frutas, sucos naturais, torradas, queijos e derivados. Tudo estava tão perfeito, até um surto.
—21 de dezembro. –sussurrei.
—O quê? –Lorena perguntou.
—21 de dezembro. 21 de dezembro. 21 de dezembro! –eu não sabia o porquê destas palavras estarem saindo de minha boca, só sabia que elas saiam por vontade própria.
—Stéfanie, por favor, se acalme. –Gabriela se levantou e começou a massagear meus ombros no intuito de me acalmar.
—21 de dezembro! –eu gritei pela última, levantando-me e saindo correndo pela casa, até meu quarto.
Assim que entrei, tranquei a porta rapidamente. Eu estava surtando. Já se fazia semanas que isso não acontecia. Por que tudo isso veio acontecer justo agora? Justo quando Lorena está aqui na casa! Talvez possa parecer loucura, mas eu me sinto segura com ela. Sinto que posso confiar nela pra tudo. Fui tirada de meus devaneios com alguma pessoa batendo na porta.
—Stéfanie? –a voz feminina falou.
—Lorena? –sussurrei para mim mesma.
Levantei-me lentamente, destranquei a porta e puxei Lorena rapidamente para dentro de meu quarto. Eu acho que ela estava assustada com a cena que acabara de presenciar.
—O que aconteceu lá embaixo? –ela me perguntou se sentando na minha cama.
—Eu, eu, eu não sei. –falei.
—Você teve um surto. A diretora Gabriela se preocupou com você e está chamando seus pais para...
—Não! – eu a interrompi. –Eles não!
—Por quê? O que há de errado nisso? –ela me perguntou.
—Eles não! Por favor, eles não. Não, não, não. –comecei a dizer e encolhi num canto do meu quarto, preocupando Lorena que vem em minha direção. --Eles são maus, muito maus. –continuei.
Em menos de trinta minutos, meus pais e meu irmão já estavam presentes e informados da situação. Aquilo era frustrante aos meus pais. Afinal, quem gostaria de ter uma filha com problemas psicológicos? Essa pergunta saía sempre da boca de meu irmão a fim de me atingir, e ele conseguia. Mas infelizmente ninguém entendia que tudo não passava de sinais. Eu estava sendo avisada, não sei por quem nem por que, mas era um aviso.
Meus pais estavam dentro da sala da diretora Gabriela. Ela explicou todos os fatos a eles. Meu irmão por outro lado, ficou do lado de fora junto comigo. Nós dois nunca nos demos bem, mas ele aproveitou a situação em que estávamos sozinhos e começou a me provocar, como sempre fazia.
—Que feio, irmãzinha! Mais uma vez tendo um distúrbio. –ele falava para mim como se não se importasse com meus sentimentos, espere, ele não se importa.
—Não foi um distúrbio! Foi um aviso! –gritei para que ele entendesse de uma vez por todas.
—Patético! Acha mesmo que vou acreditar nisso? Ninguém nunca acreditou, por que você acha que comigo vai ser diferente?
—Eu não acho que vai ser diferente, só estou recebendo avisos e...
—E o quê? De quem são esses avisos? Deuses? Aliens? Por favor, você é louca, isso sim! –ele gritou comigo.
Não pude suportar e acabei perdendo o controle. Levantei-me da cadeira que estava sentada e fui para cima dele. Porém ele era mais forte do que eu e me empurrou com tanta força que caí no chão. Aquele chão limpo, brilhante, mas ao mesmo tempo frio e gélido.
—O que você está fazendo? –Lorena gritou.
Acho que era um milagre. Ninguém nunca viu as atitudes de meu irmão comigo, Lorena foi a primeira a vivenciar isso. Ela correu até a mim e me ajudou a me levantar do chão. No mesmo instante a diretora e meus pais saíram da sala, todos curiosos.
—O que está havendo aqui? –a diretora perguntou.
—O que está havendo? Este garoto está machucando Stéfanie! –Lorena gritou em minha defesa.
—Impossível. Eles são irmãos, meus filhos. Isso só pode ser um engano. Talvez possa ser uma brincadeira. Eles já brincaram assim antes. –minha mãe falou um pouco sem graça.
—Quer dizer que você já sabia dos maus tratos? –Lorena reagiu.
—Claro que não. Isso é apenas uma brincadeira. –minha retrucou gaguejando e se entregando.
—Diretora Gabriela, eu sinto muito, mas não deixarei que ela vá para casa com estas pessoas. Ela ficará comigo!
Lorena me puxou pelo braço. Ela andava rapidamente. Ela queria me proteger. Proteger-me da minha própria família.
—Você não pode fazer isso! Ela é minha filha! –uma voz masculina, um pouco rouca, gritou.
—Não me interessa o que ela é do senhor, mas só sei que com vocês ela não irá!
—Diretora, ela não pode fazer isso! –minha mãe resmungou.
—Na verdade ela pode. –Gabriela respondeu.
Lorena me levou até meu quarto. Ela parecia um pouco nervosa, mas determinada.
—Arrume suas coisas. –ela me disse.
—Para onde iremos? –perguntei já sabendo a resposta.
—Para minha casa.
Eu iria para a casa de Lorena. Eu não sabia como seria essa experiência. Só sabia que talvez eu poderia me desligar um pouco do mundo. Não pensar em meus problemas, e apenas acompanhar Lorena nessa aventura de sua vida.
Minha benfeitora chamou um táxi, e o motorista nos ajudou a colocar minhas malas no porta-malas. Bom, eu não sabia para onde iríamos. Talvez Lorena morasse sozinha, ou com os pais. Eu não sei. Isso seria uma nova vida, um recomeço.
Dentro de alguns minutos chegamos a um prédio. Nunca tinha entrado em um, mas era bem alto. Parecia que tocava o céu. Tudo bem, esta última frase foi bem relevante. O edifício tocava apenas as nuvens cinzentas. Nuvens de poluição.Afumaça dos carros e das fábricas as tornavam tão acinzentadas assim.
Pegamos um elevador e subimos até o nono andar. Não era tão alto, mas poderia me causar náuseas. Lorena deu alguns passos e abriu uma das portas que estavam espalhadas pelo corredor. Logo entramos, e demos de cara com uma escuridão. O sol estava se pondo no horizonte e as luzes estavam apagadas, eis os motivos da escuridão. Com um simples toque ela acendeu as luzes e enfim pude enxergar cada móvel e decoração de seu apartamento.
—Bem vinda ao meu apartamento Stéfanie! –ela falou toda contente.
Eu ainda não acreditava. Teria uma nova experiência de vida. E longe da Casa das Estrelas. Lorena pegou as malas de minhas mãos, o que me tirou dos devaneios. Ela as levou a um quarto e as colocou no chão.
—Este aqui será seu quarto, espero que goste. –ela falou.
Lorena saiu andando e foi até a cozinha, provavelmente prepararia algo para comermos. Eu fiquei ali, de pé, parada, em frente à cama. A sensação era boa. Alguém se importava comigo, quanto tempo eu esperei por alguém que se importasse comigo. Fiquei admirando aquele quarto, com todos os lençóis em preto. Era charmoso e sombrio ao mesmo tempo.
—Quer comer algo? –Lorena me perguntou em uma voz mansa.
Saí do quarto e comecei a andar em direção da cozinha. Não sabia exatamente onde ficava, então apenas segui sua voz.
—Temos sanduíches de peito de peru e suco de caju. –ela disse sorridente apontando para dois pratos e uma jarra em cima do balcão.
Timidamente peguei um dos sanduíches na mão esquerda, e com a direita peguei um copo com o suco, que Lorena acabara de despejar. Dei uma pequena mordida e comecei a saborear aquele sanduíche.
—Vem comigo. –Lorena falou indo até a sala.
O preto se destacava como tonalidade da casa inteira, inclusive na sala. Havia uma janela enorme que dava uma vista privilegiada do horizonte. Aquele horizonte alaranjado, com tons quentes que nos confortava. Havia duas poltronas de living na cor azul marinho, nas quais nos sentamos.
Minutos se passaram e ficamos observando o horizonte perdendo sua ferrugem e ganhando um oceano azul. As estrelas começaram a iluminar o céu, junto da lua crescente. Realmente a beleza desse mundo é magnífica, porém, tudo está para acabar.
Lorena se levantou da cadeira, colocou o copo em cima de uma mesa de centro e se dirigiu ao seu quarto. Saiu de lá com uma toalha nas mãos e uma muda de roupas.
—Vou tomar banho. Fique a vontade. –ela falou entrando no banheiro e fechando a porta.
Eu ainda estava com um frio na barriga, nunca tinha passado uma noite fora da Casa das Estrelas. Será que eu sobreviveria a essa noite? Só preciso durar uma noite, pois amanhã... amanhã é dia 21 de dezembro.
Um barulho começou a ecoar pela casa. Eu fiquei pensativa, queria descobrir de onde vinha. Lorena por estar com o chuveiro ligado, deve não ter escutado. Então fui eu mesma atrás deste som irritante. Ali mesmo, na sala, em cima da estante de madeira, percebi um objeto estremecendo. Posso até ter sido internada num hospital psiquiátrico, mas sei que aquilo era um celular. O nome Renan era visível em sua tela. Dois botões, um verde e um vermelho. Com um pouco de curiosidade apertei o verde e uma chamada foi iniciada.
—Lorena meu amor, eu te peço perdão por tudo o que eu te fiz passar. Eu imploro por seu perdão e prometo-te que isso nunca mais acontecerá!
—Alô?
—Alô! Quem fala?
—Sou Stéfanie, amiga e colega de quarto de Lorena.
—Sou Renan o ex-namorado de Lorena. Por que você está com o telefone dela?
Eu estava pensando em algo para falar, quando Lorena saiu do nada e tomou o telefone de minhas mãos.
—Renan, quantas vezes eu já te disse que não quero saber de você! Não me importa se você está arrependido ou não! Não me perturbe mais! –ela gritou desligando a chamada.
Ela estava estressada. Acho que era comigo. Mas não pude notar que ela estava vestindo um roupão branco, e uma toalha branca estava enrolada em seu cabelo, que pingava água.
—Por que fez isso? Por que atendeu a ligação? O telefone é meu, e isso não te dá o direito de atendê-lo. –ela falou.
Aquilo me chocara, pensei que fôssemos amigas. Talvez eu tivesse me precipitado um pouco em relação ao sermos amigas. Não tive tempo em pensar em nada para dizer, pois minhas pernas me levaram até o quarto em que eu ficaria, e minhas mãos trancaram a porta. Corri e fiquei encolhida no canto do quarto. Lorena não me procurou, nem quis falar comigo, acho que ela estava muito chateada.
Olhei para o criado-mudo e encontrei uma caixinha de som em sua cor branca. Finalmente algo bem longe, mas que combina com preto. Um pen drive estava instalado nela. Havia alguns botões e eu curiosa decidi mexer, mesmo sem saber. Apertei um único botão, e um som baixo começou a sair. Logo depois as frases vieram a ser ditas pela cantora:
♪♫ Bem-vindo à sua vida
Não há como voltar atrás
Mesmo enquanto dormimos
Nós vamos encontrá-lo
Estando em seu melhor comportamento
Vira as costas para a mãe natureza
Todos querem governar o mundo ♪♫
E com estas palavras cai num sono profundo, num sono em que não saberia se poderia acordar. Um sono em que meus pesadelos prevaleceram. Neste sono tive um sonho que me esclareceu mais coisas que estavam por vir.
O dia amanheceu, e junto dele eu acordei. Não acordei porque eu quis, e sim porque o cheiro de bacon me despertou. Lentamente levantei-me do chão e andei em direção à porta. Encostei meu ouvido esquerdo nela para ver se ouvia algo, e ouvi. Uma conversa entre Lorena e seu chefe.
Abri a porta lentamente, com cuidado para não ranger. Logo me deparei com Lorena preparando bacons em uma frigideira, com o celular entre o ombro e a bochecha.
—Mas senhor, a história renderia uma ótima matéria! Sim... eu sei... mas pense na repercussão que isto pode dar! Ok, como quiser. –ela terminou de falar e desligou a chamada.
Ela se virou e me viu a observando. Lorena sorriu e eu sorri de volta. Decidi sair do quarto e assim fiz.
—Me desculpa por ontem à noite. –ela falou.
—Eu quem te peço desculpas por mexer em suas coisas. –respondi.
—Tudo bem. –ela falou colocando os bacons em um prato e servindo a mim. –Conversei com meu chefe e ele acha essa história do mundo acabar a qualquer momento uma loucura.
—Não é a qualquer momento, é hoje. –falei deixando Lorena um pouco tensa.
Sentamos-nos à mesa e comemos. Aquele café da manhã realmente estava delicioso. Bacon, torradas, iogurte. Tudo de muito bom gosto. Conversamos um pouco, até mesmo sobre Renan. Lorena me explicou que eles terminaram por ele ter sido infiel e desde então ele vem tentando reconquistá-la.
Lorena não pôde ficar muito tempo ali, conversando comigo. Ela tinha que ir trabalhar. Assim fez. De tardezinha liguei a televisão e comecei a assistir o telejornal. Notícias de política e guerra era o destaque. Muitos tentando conquistar um determinado cargo para ter poder sobre seu povo. Guerras para distinguir quem é o povo mais forte, e quem merece a idolatria. Francamente, todos querem governar o mundo.
Mais a noite Lorena chegou e se deparou comigo olhando para o horizonte. Peguei um copo de água e nele coloquei um pouco calmante sem ela perceber, ela não agüentaria o evento que estava para acontecer. Sentamos-nos nas cadeiras que ficavam de frente para o horizonte. Depois disso começamos um diálogo:
—O que está olhando?
—As estrelas. Elas estão brilhando mais do que nunca.
—Por que você acha que o mundo vai acabar hoje?
—Eu não acho, eu tenho certeza. Eles vêem me avisando já faz algum tempo.
—Eles quem?
—Os aliens.
—E por que eles destruiriam o planeta Terra?
—Porque todos querem governar o mundo.
Lorena deixou o copo cair no chão se estraçalhando em vários cacos de vidro. Ela olhou o horizonte e notou uma estrela caindo. Uma explosão. Depois outra. E mais uma explosão. Quando percebeu uma chuva de estrelas caía sobre o planeta destruindo tudo e causando enormes explosões. Duvido muito que alguém conseguiria escapar de tal desastre.
—Não se preocupe Lorena, será rápido. –falei calmamente.
—O que você colocou em minha bebida? –ela me perguntou um pouco tonta e sem obter resposta minha.
Em minhas mãos estava a pequena caixinha de som, tocando aquela mesma música da noite anterior:
♪♫ Há uma sala onde a luz não vai encontrá-lo
De mãos dadas enquanto as paredes desmoronam
Quando elas caírem, estarei bem atrás de você
Tão feliz, pois quase conseguimos
Tão triste que tiveram que disfarçá-lo
Todos querem governar o mundo ♪♫
Porque é assim, quando as estrelas caem, tudo o que sobra é apenas pó.
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