Comodidade

6 Santo Luffy, o padroeiro dos pares encalhados


Empurrando um carrinho de compras que já estava cheio pela metade com diversos itens, Zoro seguia de perto o homem loiro que procurava algo na prateleira de especiarias. Se soubesse que esse era o destino deles, teria rejeitado o pedido que recebeu de Sanji mais cedo. Se fosse qualquer outro dia ele não teria se importado, mas naquele domingo Zoro possuía um compromisso importante às 19 horas e meia.

Bem, tecnicamente seu compromisso era um episódio de uma série policial que estava assistindo desde o último mês. Mas, o importante era que o episódio de hoje seria um ponto-chave na trama e revelaria importantes informações para a protagonista. E talvez, só talvez, ele também estivesse um pouco curioso sobre o desenvolvimento do triângulo amoroso, já que um dos integrantes do trio estava relacionado de alguma forma com o caso mais complexo do enredo.

De todo modo, Zoro queria estar em casa o quanto antes. Ele conferiu a hora no celular e não conseguiu evitar de bater o polegar no carrinho de compras com impaciência. Já era mais de 18 horas, precisava estar em casa antes das 19 horas para evitar a possibilidade de perder os minutos iniciais do episódio.

Originalmente Zoro nem planejava sair de casa, tinha até reservado algumas de suas cervejas favoritas para a ocasião, mas Sanji apareceu um pouco antes do meio-dia e o arrastou para almoçar fora. Depois foram levar os cães de uma senhorinha, que morava nas proximidades do restaurante familiar no qual foram comer, para passear no parque. Não era a primeira vez que faziam isso e nem seria a última, pois, segundo Sanji, era importante manter uma boa imagem entre os moradores do bairro para prevenir futuros problemas. Algo dizia-lhe que Sanji imaginava que algum dia veria Zoro envolvido com acusações de assassinato ou coisa pior graças a sua expressão natural de criminoso foragido da cadeia.

Por causa disso, com mais constância do que esperava, Zoro era arrastado por Sanji para realizar boas ações para qualquer pobre coitado que parecesse precisar de ajuda. Zoro já tinha perdido a conta de quantas idosas tinha ajudado a carregar as compras do supermercado ou quantas vezes fez aula voluntária de exercícios na praça arborizada. Comprou caixas e caixas de biscoito das crianças que apareciam em sua porta — eram todas dadas a Luffy, pois Zoro nem de biscoito gostava — passeavam com os mascotes dos moradores que possuíam quaisquer tipos de limitação de movimentos e comiam regularmente nos pequenos restaurantes do bairro para ajudar o comércio local.

O que diabos ele pretendia? Já não bastava os anos que Sanji o submeteu a lavagem cerebral de cavalheirismo? Sentia-se como um maldito escoteiro se esforçando pra ganhar ridículas insígnias. Empurrou o carrinho um pouco mais para a frente quando Sanji avançou mais alguns passos pelo corredor. Zoro só não reclamava mais porque ao menos Sanji o acompanhava em todas essas programações aleatórias. Eram vistos juntos com tanta frequência pelo bairro que algumas vovós sempre perguntavam por Sanji quando avistavam Zoro andando sozinho por aí.

Uma vez, inclusive, aconteceu a curiosa conversa:

“Querido, hoje fiz uma torta maravilhosa que é receita de família para uma reunião descontraída de alguns vizinhos lá em casa”, a mulher idosa de porte consideravelmente atlético tinha segurado seu braço quando se cruzaram em frente a floricultura. De rosto erguido, ela estreitara os olhos para encará-lo melhor. “Vocês me ajudaram tanto pintando a minha garagem e nem aceitaram pagamento depois. Venham comer uma fatia de torta e conversar um pouco. Prometo não roubar mais de duas horas do seu domingo. Se você buscar seu Sanji rápido, dá tempo de pegar a torta ainda quente.”

“Sanji não está aqui. Ele está em casa”, dissera Zoro, confuso. Afinal, a mulher parecia achar que Sanji estivesse por perto. Quanto ao ‘seu’ dito por ela, Zoro nem pensou em retrucar. Afinal, amigos também tinham certo grau de pertencimento, não é?

A senhora dera uma risada e um tapinha em seu braço. “A casa de vocês fica a menos de oito minutos da minha. Tenho certeza que vocês conseguem chegar a tempo”, comentara bem-humorada, mas depois seu rosto ficou sério. “Mas a verdade é que, além da torta, gostaria de pedir um favor a vocês. Meu neto é como... Como vocês, sabe. E está passando por um daqueles momentos difíceis da adolescência. Já vivi muito e tenho muita experiência de vida, mas não tenho como oferecer o consolo do qual ele precisa nesse momento.” Ela tinha um olhar complicado e ansioso. “Eu ficaria muito grata se vocês pudessem compartilhar um pouco de suas vivências só para que ele veja que o mundo é mais vasto do imagina e que ele é tão normal quanto qualquer outra pessoa. Desde que os conheci, sinto que vocês seriam ótimos exemplos para ele se espelhar.”

Zoro não pôde fazer outra coisa que não fosse franzir o cenho e inclinar ligeiramente a cabeça para o lado (um hábito aprendido com Luffy), totalmente sem palavras. Não entendera na hora e nem mais tarde o significado do neto dela “ser como eles” ou do porquê de ela achar que Zoro e Sanji moravam juntos. De todo modo, ele ligou para Sanji e contou sobre o estranho pedido. Zoro achou que Sanji acharia engraçado o engano da mulher, mas ele apenas soltou um murmúrio pensativo e disse que o acompanharia na tal reunião. No fim, os dois comeram a famigerada torta e Sanji conversou em particular com o neto da senhora. Zoro não tinha ideia do que eles tinham conversado, mas depois o rapaz magricela pareceu menos sombrio — apesar das roupas pretas que usava — e até ofereceu um sorriso quando Zoro e Sanji se levantaram para ir embora.

Ao menos a torta daquele dia era realmente boa. E como Zoro se esqueceu de esclarecer o mal-entendido, a mulher provavelmente pensava até hoje que os dois moravam juntos. Bem, não é como se esse mal-entendido fosse prejudicial, então Zoro não se importou muito com isso.

Zoro batucou mais um pouco no carrinho de compras, mas a impaciência venceu e ele se viu perguntando: “Acabou?”

“Temos quase tudo que preciso...” Sanji segurou o queixo pensativamente, voltando para conferir o conteúdo no carrinho de compras. “Bem, agora só falta passarmos na sessão dos vegetais frescos.”

Contrariamente ao tom animado e brilho malicioso nos olhos de Sanji, Zoro resmungou mentalmente um impropério enquanto se dirigiam a sessão dos legumes e frutas. Ele estava torcendo para que não precisassem ir ali, pois uma vez que Sanji ficava entre as bancadas de madeira e divisórias plásticas que separavam uma boa variedade de vegetais, a chance de passarem longos minutos naquela parte do supermercado se concretizava. Mas conformado que o atraso aconteceria inevitavelmente, Zoro encostou o carrinho em um canto e assistiu a cena se desenvolver.

Sanji andou despreocupadamente até estar de frente a bancada onde o atendente parrudo estava parado do lado oposto. Por causa das experiências anteriores, o atendente, que se chamava Patty e tinha reconhecido Sanji de longe, fechou a cara e apertou o avental em torno da cintura com a mesma energia de quem verificava as armas para ir à guerra. Em geral Patty era servil e bajulador com a clientela, pois parecia acreditar que esse era o meio ideal para conseguir vender mais. Porém, com Sanji essa máscara de docilidade caía por terra e ele revelava seu verdadeiro caráter.

Depois de uma troca de olhares com ar de desafio, Sanji abaixou o rosto para olhar os vegetais. Naquela bancada em específico havia hortaliças folhosas de diversos tipos e ele pegou um repolho que já passava do seu pico de viço e não aparentava tanto frescor.

“Por que eu deveria comprar esse repolho quando os que vendem no supermercado do bairro vizinho são mais... bonitos?”

“Aparência não é tudo. Nossos produtos são cultivados por mãos experientes e são livres de agrotóxicos, garantindo uma refeição mais saudável pra você e sua família”, Patty respondeu sem titubear.

Apesar da explicação, Sanji avaliou o repolho por longos minutos com o rosto franzido, mas acabou dando de ombros e passando o vegetal para Zoro, que o colocou no carrinho sem questionar. Em seguida, Sanji passou para outra bancada, essa era de frutas, onde pegou um caqui em especial que estava bastante amassado.

“Esse está bem amassado”, ele disse. Seu tom reprovador não passou despercebido por Patty e nem pelas pessoas que se aproximavam discretamente a fim de presenciar a discussão que se acercava. “E é um pouco deformado também. Não deveria valer o mesmo preço que os caquis bons.”

Patty rangeu os dentes, fulminando-o com o olhar, mas logo exibiu um sorriso tenso. “Como o senhor cliente já deve saber, as frutas amassadas ou que fujam da estética habitual possuem desconto de 30% no valor. Além disso, não é por serem visualmente diferentes que terão sabor diferente ou que terão menos nutrientes.”

Sanji assentiu devagar, sorrindo brilhantemente para Patty. “Ah, verdade. Tinha me esquecido.” E dito isso encheu uma sacola biodegradável com vários caquis deformados e jogou-os para Zoro.

Sanji então deu mais alguns passos e lançou um olhar feio para as bananas que estavam muito maduras.

“Essas bananas não estão estragadas?” indagou ele com petulância. De onde estava Zoro conseguiu perceber a mandíbula de Patty se tensionando com mais força. “Deveriam jogar fora logo.”

Mais pessoas haviam surgido ao redor daquela sessão, andando com tamanha lentidão que só poderiam estar ali para espiar. Uma mulher, sendo mais ousada, aproximou-se da bancada onde Sanji estava e demorou-se analisando um cacho de bananas verdes. Zoro a reconheceu como um dos frequentadores das aulas na praça.

Patty deu seu melhor sorriso falso. “Elas não estão estragadas, apenas estão maduras. Nesse estágio elas ainda estão boas para consumo e são ideais para receitas de doces, bolos, entre outras possibilidades. Caso o senhor cliente deseje algumas receitas para experimentar, temos um livro com receitas com dicas de uso de produtos maduros entre outras coisas. Temos tanto o físico quanto a versão digital também.”

Sanji assentiu suavemente. “Interessante. É bom ter um livro desses para nos ajudar a não desperdiçar alimentos que ainda estão aptos a serem consumidos.”

Zoro bufou uma risada quando uma criança perguntou a mãe o porquê de estarem ouvindo conversa dos outros se no outro dia tinham aprendido que isso era errado. A técnica de chamar a atenção realmente funcionava, afinal aquela era apenas uma das apresentações teatrais que vinham acontecendo ocasionalmente fazia 1 mês e meio. Ao conversar com o gestor do supermercado durante uma das aulas gratuitas de Zoro, alguém deu a ideia de fazer propaganda para promover a venda dos legumes e frutas que não estivessem em perfeito estado.

Porém, como queriam algo mais subliminar, eles elaboraram a ideia de incentivar por meio do exemplo em uma encenação. Resultou em Sanji se oferecendo para realizar tal papel e aparecendo no supermercado para questionar a qualidade ou o preço dos produtos, enquanto era rebatido com respostas confiantes e esclarecedoras. E para dar mais credibilidade a encenação, Patty não foi informado da dramaturgia, mas talvez nem precisassem ter ocultado isso visto que ele levava para o lado pessoal qualquer ofensa aos alimentos que eram produzidos e fornecidos pela pequena empresa da sua família.

“Já tenho uma edição, mas agradeço a oferta. É sempre um prazer conversar com você.” Sanji sorriu, para estresse do atendente, e chamou Zoro para irem para o caixa.

Assim que se afastaram do local, outras pessoas se aproximaram de Patty e perguntaram sobre o tal livro de receitas, mas Zoro e Sanji não prestaram muita atenção nisso pois já era o comportamento esperado. E como o caixa de autoatendimento estava com defeito, eles seguiram para o caixa onde uma atendente esperava. O cabelo loiro dela estava preso em um coque alto e havia um cartão de identificação na camisa do seu uniforme indicando que seu nome era Moodie.

Trocaram alguns cumprimentos rápidos e tomaram suas posições habituais: Zoro tirava os produtos do carrinho e colocava sob o balcão, Moodie pesava e registrava os preços, e Sanji ensacava os produtos que já tinham sido passados. Ao final, Moodie disse enquanto se curvava respeitosamente em 30º:

“Obrigada por toda a ajuda que tem nos dado, senhor Vinsmoke. O fluxo de clientes comprando frutas de aparências fora do padrão aumentou bastante na última semana e os livros, embora sejam vendidos por um valor simbólico, tem sido um bom incentivo para as compras e ainda funciona como propaganda do supermercado. Então agradeço em nome do meu pai, o gerente.”

Sanji, porém, largou as sacolas que usava para embalar as compras e impediu Moodie de permanecer mais tempo naquela posição. “Não precisa me agradecer. Fico feliz em ajudar a diminuir o nível de desperdício de vegetais e isso já basta.”

Zoro rolou os olhos, parando de ouvir aquela conversa sem sentido entre cliente e operador de caixa, e olhou outra vez para a hora no celular. Surpreendentemente não tinham passado tanto tempo como imaginou que passariam na sessão de vegetais frescos, então daria tempo de assistir sua série tranquilamente. Quando Sanji terminou de trocar despedidas, Zoro o arrastou para fora dali antes que alguma outra pessoa tivesse chance de chamá-los para uma conversa.

*

Quando chegaram em sua casa ainda faltava 5 minutos para as 19 horas, portanto Zoro relaxou e ajudou a guardar os mantimentos na cozinha sem pressa. Depois pegou as bebidas que reservara para aquele momento e acomodou-se no sofá, enquanto Sanji permanecia na cozinha para preparar mais uma das tantas sopas que andava se empenhando em fazer.

Porém, quando o episódio estava prestes a começar, faltava apenas o intervalo comercial chegar ao fim, a campainha tocou com insistência.

Sanji interrompeu a música que assobiava no automático. “Está esperando alguém, Zoro? Espero que não seja alguma namorada irritada por você ter esquecido de algum encontro com ela”, comentou divertido, mas Zoro teve a impressão de haver algo tenso em sua voz.

Zoro bufou. “Não estou saindo com ninguém, idiota.” Um suspiro se escutou da cozinha.

“Vá logo atender. Deve ser importante, visto a insistência com que estão apertando.”

A contragosto, Zoro se levantou e marchou para a entrada. Durante seu curto trajeto a campainha continuou tocando sem parar até que Zoro abriu a porta e uma pessoa passou rápido por ele, entrando em sua casa sem sequer pestanejar.

Zoro virou-se confuso a tempo de ver uma pessoa de cabelo preto correr em direção a bancada que separava a cozinha da sala e, apoiando os braços ali, a pessoa esticou-se para espiar o que Sanji lavava na pia. Porém, mesmo vendo apenas suas costas, Zoro reconheceu Luffy quase de imediato.

“Sanji! Esse cheiro bom é de quê?!” Luffy empinou o nariz, fungando o ar.

Percebendo que nem foi notado pelo invasor, Zoro deu de ombros e voltou para o sofá a tempo de ver o episódio efetivamente começar. Afinal, a conversa na cozinha continuava sem necessidade de sua participação.

“Hm, deve ser a lasanha de ontem que estou esquentando. Não tem muito, mas você pode dividir com Zoro por enquanto. Vou preparar uma sopa”, respondeu Sanji.

Na televisão passava a reprise do episódio anterior. Zoro abriu a cerveja e tomou um gole, relaxando as costas contra o sofá. “Não quero lasanha, pode dar tudo pra ele”, disse ele, sem interesse.

Como em um passe de mágica Luffy materializou-se atrás do sofá e abraçou o pescoço de Zoro, esfregando a própria bochecha na do outro. “Valeu, Zoro! Você é a melhor pessoa do mundo!”

Zoro sorriu, esticando a mão livre para dar um cafuné nos cabelos escuros de Luffy. “Melhor até que Sogeking?” Era de conhecimento comum o quanto Luffy, Usopp e Franky amavam Sogeking, um personagem secundário de RPG que ficou tão famoso que ganhou sua própria franquia de jogos e filmes. Zoro fez a pergunta apenas para provocá-lo, mas surpreendeu-se quando Luffy assentiu ao lado de sua cabeça.

“Sogeking nunca me deu comida”, disse Luffy resoluto antes de soltá-lo para voltar correndo para a bancada onde a lasanha já aquecida o esperava. Zoro se engasgou com a resposta de Luffy (a risada tentou sair ao mesmo tempo que o gole da cerveja tentou entrar), embora não tenha tirado os olhos da tela um só momento.

Sanji riu. “Acho que Usopp se sentiria traído se ouvisse isso. Melhor não deixá-lo saber ou você vai ter que encontrar um novo parceiro de jogo para trabalhar.”

“Ele nunca me deixaria, porque ele me ama”, Luffy sorriu largo.

Como não ouviu resposta, Zoro imaginou que Sanji estivesse sorrindo e meneando a cabeça pela resposta potencialmente sem malícia de Luffy. Às vezes era difícil entender a totalidade das ações e falas de Luffy, mas Zoro preferia não se imiscuir nisso. Deixou o resto da conversa deles ficar em segundo plano e voltou sua atenção para a série. A protagonista estava recebendo uma chamada telefônica onde o possível assassino informava onde aconteceria a próxima morte.

“De toda forma, se veio falar com Zoro vai ter que esperar ele terminar de ver o episódio”, continuou Sanji. “Desde que ele começou a ver esse drama, é impossível manter uma conversa a menos que o episódio tenha acabado.”

Luffy engoliu o último pedaço de lasanha e lambeu os lábios antes de responder. “Ah, eu vim falar com você.”

Sanji sacudiu suavemente as folhas e legumes recém lavados.

“Comigo? Então, você passou no meu apartamento antes de vir para cá? Poderia ter me ligado para saber onde eu estava. Por pouco não nos desencontramos.”

“Não passei lá, não. Sabia que te encontraria aqui”, disse com um ar confiante.

“Ah, é? E como você sabia disso?”

“Você passa mais tempo aqui do que no seu apartamento, Sanji. Ah, e hoje é domingo”, respondeu ele como se isso comprovasse sua linha de pensamento.

Sanji pigarreou. “Ah, certo.” Voltou a picar os vegetais batendo a faca ritmicamente na tábua de corte. Depois, quando os considerou suficientemente picados, despejou-os dentro da panela onde o caldo fervia. “Não é sempre que venho para cá. É que domingo é meu dia de cozinhar e minhas melhores panelas estão aqui... Enfim. Pode falar, Luffy.”

“É que Abby me pediu para te entregar uma coisa e avisar que daqui a dez dias terá uma exposição de fotos para arrecadar dinheiro para creches, só que um dos modelos cancelou de última hora. Aí ele quer saber se você pode substituir o modelo. Abby disse que você foi muito bem da outra vez”, acrescentou sorrindo. Luffy se levantou para deixar o prato na pia e buscou um envelope pardo dentro da mochila que estivera caída junto aos pés da cadeira. “

O apelido horripilante que Luffy deu a Absalom quebrou parte da concentração de Zoro no drama. Antes que pudesse se reprimir, ele observou de esguelha Luffy colocar um envelope pardo sobre a bancada.

“E por que Absalom não me ligou? Ele tem meu número.” Sanji deu um olhar rápido para o envelope, franzindo o cenho.

Zoro apurou os ouvidos, subitamente muito interessado no diálogo. Quando Sanji e Absalom tinham se aproximado o suficiente para trocarem contatos de celular? Claro, Zoro nunca tentou descobrir todos os passos que Sanji dava quando estavam separados, mas pelas reações anteriores, supôs que Sanji possuía zero interesse pelo homem que o devorava com os olhos. Seu maxilar tensionou com a mera lembrança do dia da piscina.

Luffy deu de ombros. “Ele me entregou isso quando estava entrando no quarto da inspiração e lá ele não usa celular pra não atrapalhar as ondas de ideias”, explicou enquanto gesticulava com os dedos de uma forma engraçada.

Zoro não sabia o que o deixava mais perplexo: se o fato de Sanji ter permitido que Absalom tirasse fotos dele ou se era a recente descoberta de Luffy ser íntimo o suficiente de Absalom para visitá-lo em casa. Ou talvez fosse um estúdio. De toda forma, Luffy nunca pareceu o tipo que frequenta esse tipo de lugar.

“Entendi.” Sanji mexeu o conteúdo da panela com uma colher de madeira e se afastou do fogão, enxugando as mãos em um pano de prato. Já imaginava qual era o conteúdo, mas ainda se surpreendeu quando abriu o envelope e viu as fotos. “Uau. Ficaram muito melhores do que eu esperava.”

Zoro, que estivera mais atento do que deveria a conversa dos dois, percebeu que havia perdido alguma cena importante do episódio, pois agora havia raios caindo ao redor da protagonista e, ao que tudo indicava, era culpa do amigo dela e não do vilão propriamente dito. Do nada o vilão se jogou e criou um campo de força para proteger a protagonista de um raio que a atingiria em cheio. Zoro não estava entendendo mais nada. Há poucos instantes era apenas uma série policial com triângulo amoroso, então de onde estavam vindo esses poderes?!

Desistindo de acompanhar o episódio daquele dia, ele se levantou e se juntou aos outros na cozinha. Zoro parou atrás de Sanji — não perto o suficiente para encostar nele, mas ainda assim bem perto — e olhou para as fotos por cima de seus ombros.

“Vai aceitar fazer essas fotos?”

Sanji sobressaltou-se de leve e Zoro percebeu que a pele clarinha no pescoço dele ficou arrepiada por ter falado perto demais de seu ouvido. Ele sempre teve uma curiosa sensibilidade ali.

Sanji tossiu e se afastou um pouco de Zoro, deixando as fotos sobre a mesa. “Não vejo porque não. Não me custa nada ajudar e é por uma boa causa.”

Embora Zoro tenha imaginado que fotos tiradas por Absalom seriam no mínimo imorais e pervertidas, a verdade é que as fotos sobre a mesa eram inegavelmente bem trabalhadas. Longe de serem imorais, as fotos mostravam um Sanji elegante de terno branco e camisa preta segurando uma taça de bebida de cor berrante. Em outra foto havia um homem de pernas longas junto a ele, também de terno, mas com cores invertidas das vestes de Sanji. Nesta segunda foto os dois estavam sentados em lados opostos de uma mesa de poker e se encaravam com expressões presunçosas.

Zoro fez um ruído insatisfeito.

Sanji, que tinha voltado a mexer na panela, virou o rosto para encará-lo de soslaio. “Qual o problema? Por acaso queria que ele tivesse convidado você?” Piscou e ergueu uma sobrancelha questionadora ao perceber a expressão de Zoro ficar ainda mais fechada. “Então, por que diabos está com essa cara de bunda, marimo?”

“Mas é a única que ele tem, Sanji”, emendou Luffy com uma risada nada discreta.

Os outros dois se viraram para encarar o terceiro integrante da conversa, um pouco surpresos. Tinham se esquecido da presença de Luffy por um breve momento.

“Bem, isso é verdade”, Sanji sorriu provocador. “De todo modo, a sopa está pronta. Vamos jantar.”

Ao mesmo tempo que Luffy comemorou, Zoro grunhiu uma reclamação. Não aguentava mais comer das sopas verdes que Sanji vinha fazendo na última semana. E tudo isso era culpa de Reiju, irmã de Sanji. O desejo mais recente de seu paladar de grávida se tratava de uma sopa verde que ela experimentou poucas vezes na infância e que era preparada por uma tia-avó que faleceu e não deixou receita em lugar algum. Como Sanji era a única outra pessoa que apreciou a tal sopa na infância e tinha uma memória gustativa mais decente que a da irmã, ele se ofereceu para tentar refazê-la. O resultado foi Zoro tendo que comer diversas versões das odiosas sopas verdes.

As fotos foram tiradas de cima da mesa e pratos fundos cheios de sopa foram servidos para os três. Zoro observava o movimento na cozinha com uma careta de desagrado. De repente Sanji parou na frente dele e apertou seus ombros, depois descendo os dedos longos para apertar os braços de músculo firme.

“Um homem adulto não deveria olhar assim para uma simples sopa, Zoro. Alguma reclamação? Sou todo ouvidos”, Sanji piscou com falsa inocência.

Zoro afastou as mãos dele e sentou-se à mesa para encarar o desafio em forma de sopa.

*

Durante o resto da noite, os três assistiram um filme que escolheram por meio de sorteio e depois assistiram episódios aleatórios de programas de variedades até perceberem que Luffy ressonava baixinho em cima do futon estendido aos pés do sofá. Estava tarde o suficiente para o metrô ter parado de circular e Zoro os convidou para dormir ali. O futon em que Luffy estava confortavelmente agarrado, inclusive, era o futon onde Sanji dormia nas raras ocasiões que permanecia para passar a noite.

“Posso dividir o futon com Luffy”, disse Sanji, desligando a televisão. “É só ajeitá-lo para que eu possa ter um pouco de espaço para mim.”

Apesar da proposta ter soado sincera, ambos sabiam que isso seria impossível. Luffy tinha o mal hábito de agarrar o que estivesse perto dele para dormir e nesse momento ele estava firmemente abraçado ao futon. Sanji ainda tentou desfazer o agarre com leveza (e depois com um pouco mais de força quando notou que Luffy não acordaria com facilidade), mas de nada adiantou. Então, acabaram deixando-o do jeito que estava e o cobrindo com duas mantas macias para Luffy não sentir frio.

“Bom, então hoje eu durmo no sofá.”

Zoro estalou com a língua. “Besteira, o sofá é duro. Venha.”

Sanji franziu as sobrancelhas, mas o seguiu pelo corredor. Na casa havia dois quartos e um escritório, sendo que, por morar sozinho, Zoro tinha transformado o quarto extra em um depósito para quinquilharias e o escritório virou um espaço para exercício. Ele não tinha parado para pensar antes, até porque Sanji não dormia tantas vezes assim em sua casa, mas talvez fosse melhor limpar e deixar o segundo quarto preparado para noites como essa.

Porém, quando Sanji percebeu que estava sendo guiado até o seu quarto, emperrou o passo no meio do corredor.

“Espere, eu posso ficar com o sofá mesmo ele sendo duro.”

Sem nem tentar convencê-lo com palavras, Zoro agarrou o pulso dele e o puxou para dentro do quarto, fechando a porta detrás de si assim que passaram por ela.

“A minha cama é grande o suficiente para nós dois”, disse Zoro.

Os dois se encararam em silêncio. Sanji vestia um pijama que havia deixado em sua casa em alguma das vezes anteriores — uma calça xadrez folgada e uma camiseta com um peixe dourado estampado na frente, e Zoro vestia um calção de algodão e uma camiseta regata que apenas usava por motivos de pudor alheio. Afinal, quando não havia visitas em casa ele dormia quase nu. Ao menos ele conseguiu tirar a cueca sem que Sanji percebesse e, desse modo, sentiu-se mais confortável em seu calção.

Sanji estreitou os olhos e Zoro achou que ele insistiria mais um pouco na questão de dormir no sofá — provavelmente por pensar que estava invadindo a sua privacidade — mas Sanji apenas suspirou e foi em direção a cama, ajeitando-se embaixo do cobertor. Zoro o mirou como se de repente Sanji tivesse criado um terceiro braço.

“O quê? Não vai deitar agora? Preciso acordar cedo” Sanji reclamou, amassando o travesseiro para a cabeça descansar melhor contra ele.

“Hm”, respondeu Zoro.

Em seguida ele apagou as luzes e se deitou do outro lado da cama. Pensou que dormiriam assim mesmo, imóveis e fingindo que o outro não estava ali, mas Zoro, que definitivamente não era o tipo mais conversador, se viu perguntando:

“A sopa... Você acertou hoje?”

Sanji moveu-se no colchão, provavelmente virando-se para ficar de frente para ele apesar de isso não ser muito útil na escuridão. “O sabor está próximo, mas ainda sinto que falta algo. Por quê? Não aguenta mais tomar as minhas sopas?”

Zoro nem se dignou a responder, então Sanji continuou: “Mas agora não precisa mais se preocupar com isso, pois Luffy se prontificou a tomar o restante das sopas.”

Zoro murmurou algo ininteligível como se não se importasse, mas no fundo ficou aliviado. Ainda sentia o gosto da sopa mesmo depois de ter feito sua higiene bucal. Por que as pessoas tomavam aquilo?

“Você não era obrigado a comer se de fato não queria, sabe...”

“Não desperdiço comida.”

A risada baixa de Sanji se espalhou pelo ar, leve e sinceramente divertida, e Zoro sentiu um calor estranho preencher seu peito. Não era exatamente desagradável, mas uma sensação que parecia expandir-se dentro de si sem motivo aparente. Zoro coçou a pele do peito onde o calor era mais forte, bem em cima do coração. Estaria doente?

“Acho que isso mostra que Luffy foi uma boa influência da sua vida” comentou Sanji, risonho. Zoro conseguia até imaginar o brilho divertido em seus olhos azuis. “Só espero que você não adquira a gula também, porque não sei se você conseguiria manter esse belo corpo tonificado se comesse tanto quanto ele.”

“Mas ele não engorda.”

“E isso pode ser uma habilidade especial que somente Luffy tem.”

Zoro rolou os olhos, cruzando as mãos atrás da cabeça. Não achou que precisasse responder, porque era óbvio que, caso comesse mais do que já comia, apenas precisaria adaptar os exercícios.

Os dois ficaram em um silêncio confortável, cada um perdido em seus próprios pensamentos.

“Zoro,” Sanji chamou depois de um tempo.

“Mn?”

“Se você tivesse me dito que queria tanto assim modelar, eu teria te apoiado e te indicado quando Absalom estava procurando um substituto...”

A frase pegou Zoro tão desprevenido que ele apenas pegou o próprio travesseiro e bateu com ele em Sanji. Desde o término do jantar que Sanji estava tirando sarro dele acerca de sua indisposição em relação as fotografias. As caretas que Zoro fazia cada vez que o tema era mencionado parecia alimentar o lado chistoso da personalidade do outro.

Sanji riu alto quando se torceu para escapar do próximo golpe de travesseiro, rolando e pegando seu travesseiro para se defender. Os dois ficaram nessa brincadeira até que perceberam que estavam sendo muito infantis e barulhentos para aquele horário da noite. Felizmente, isso não tinha sido o suficiente para acordar Luffy, senão ele já teria aparecido na porta para ver o que estavam fazendo.

Zoro e Sanji ficaram quietos, lado a lado, deixando a respiração normalizar.

“Não que você tenha feito um esforço para disfarçar, mas percebi que você não gosta de Absalom... Existe um motivo específico para isso?” Sanji ajeitou-se na cama outra vez, passando a mão pra aplainar as ondas no cobertor. “Ele não pode ser tão ruim já que é amigo de Luffy. E o trabalho dele é interessante.”

Zoro cerrou os dentes. Aquele homem não merecia qualquer elogio vindo de Sanji. “Luffy é amigo de todo mundo”, respondeu de má vontade.

“Isso não é verdade. Dentre nosso grupo de amigos, Luffy tem a melhor capacidade de julgar a índole dos outros.”

Zoro sabia que era verdade, ou algo próximo a isso, e que estava sendo estranhamente injusto com Luffy. Nem ele mais entendia porque estava agindo assim, mas preferiu direcionar seu dissabor para quem merecia.

“Luffy não é a porra de uma bússola moral. Aquele cara pode até ser legal com Luffy, mas isso não quer dizer nada. Você devia ficar longe daquele imbecil. Ele deve ter se aproximado de você com intenções ocultas.”

Um silêncio esquisito prolongou-se do lado de Sanji.

“Diz isso por que... Absalom me olha as vezes? Bem, tenho certeza que não sou tão desagradável aos olhos quanto algumas pessoas parecem achar e é bom que ao menos alguém seja capaz de perceber isso.”

“O quê?”

“Boa noite.”

“Oi! Eu não quis dizer isso”, Zoro apressou-se em se corrigir, pois sentia que seria pior se deixasse isso para o dia seguinte. “Mas você não devia confiar dele. Nunca se sabe quando ele pode se aproveitar para... Tocar em você quando, uh, tiram as fotos e...”

“Então acha que eu não saberia me defender caso ele tentasse algo comigo e eu não quisesse? Pois sabia que tenho plena capacidade de me defender caso fosse preciso, Zoro. E já pensou na possibilidade de ele estar simplesmente interessado em minha pessoa sem necessariamente estar com ‘intenções ocultas’? Ou você acha que não mereço esse tipo de interesse genuíno, Roronoa?” A voz irritada de Sanji não dava brecha para Zoro tentar se explicar. “E só para te informar: Absalom já me chamou para sair, mas eu rejeitei. Desde então ele tem apenas se portado devidamente profissional comigo.”

Diante essa última informação Zoro ficou calado.

“Boa noite, Roronoa Zoro”, disse Sanji e se virou para o lado oposto, cobrindo-se até a cabeça em um claro sinal de finalização de conversa.

Sem mais nem menos, Zoro foi deixado sozinho com seus pensamentos. Como o clima agradável entre eles virou aquela discussão tão sem sentido?

Ele repetiu e repetiu a conversa em sua mente até o sono atingi-lo, mas não conseguiu entender onde tinha errado.

*

Na manhã seguinte, tão logo despertou e piscou sonolento ainda com vestígios de sonho rastejando por sua mente, Zoro foi cumprimentado pelo rosto adormecido de Sanji bem diante do seu. A franja que costumeiramente cobria o olho direito estava caída sobre o travesseiro, revelando as duas sobrancelhas encaracoladas. Seu olhar seguiu para o nariz fino e arrebitado e dali passou para os lábios entreabertos que ressonavam baixinho. Zoro não entendia tanto de padrões e formas, mas a seu ver tudo no rosto de Sanji harmonizava perfeitamente. Então, quem diabos teve a capacidade de falar que ele era ‘desagradável aos olhos’?!

Zoro continuou observando-o com certa contemplação até que percebeu algo. Ele não dividia a cama com outra pessoa há anos. Nem mesmo dormia com seus parceiros românticos depois de transar com eles e somente iam para quartos de hotéis. Portanto, achou que não conseguiria dormir bem com Sanji ocupando o espaço ao seu lado, estava inclusive preparado para a dor de cabeça vindoura de uma noite mal dormida. Achou que o lado territorialista de sua personalidade não o permitiria relaxar muito com outra pessoa dormindo tão perto, pois enxergaria involuntariamente como uma invasão do seu espaço pessoal. Mas, percebia agora que conseguiu dormir muito bem e, ao encarar a face adormecida de Sanji, uma sensação de encaixe o fez assimilar a ideia. Era como se a presença de Sanji ali fosse simplesmente certo.

Franziu a testa enquanto voltava a encarar as sobrancelhas encaracoladas, sendo tomado por uma súbita vontade de tocá-las. Mas ao tentar se mexer percebeu que algo o prendia com firmeza. Só então ouviu um murmúrio em suas coisas que parecia bastante com a voz de Luffy.

“A carne... é minha...” Luffy grunhiu baixinho. Seus braços e pernas envolviam o corpo de Zoro com tanto empenho que Zoro não saberia dizer como não tinha percebido isso antes.

Esquecendo-se totalmente da vontade de tocar Sanji e a estranha contemplação no qual tinha imergido, Zoro começou a tentar se livrar do agarre de Luffy sem fazer barulho para não despertar Sanji. O contorcionismo silencioso durou alguns longos minutos, mas quando conseguiu se livrar, Zoro deixou Luffy ocupar seu lugar na cama (tendo o cuidado de fazer um muro de travesseiros entre os dois adormecidos para Luffy não rolar e sufocar Sanji) e saiu para preparar algo para o café da manhã.

Quando voltou para despertá-los Sanji já estava acordado e não havia o menor sinal de Luffy pelo quarto. Zoro ergueu a sobrancelha, perguntando-se para onde Luffy poderia ter ido naquele curto período de tempo, mas essa curiosidade deu uma esmaecida ao constatar que era alvo do olhar fixo do Vinsmoke.

Sanji tentou falar algo, mas Zoro o interrompeu com uma tosse.

“Desculpe por ontem. Eu não quis dizer o que pareceu” Zoro pigarreou, coçando a nuca. “É só que... Pessoas bonitas como você tendem a atrair gente ruim, mas eu não devia ter agido dessa forma. Sei que você pode se defender se for preciso. Não queria te desmerecer.”

Em resposta, Sanji afastou o cobertor de cima de si e sentou-se na lateral da cama, repousando o olhar no celular em cima da mesinha de cabeceira. O quarto ainda estava um pouco obscurecido pelas janelas ainda fechadas, mas estava claro o suficiente para Zoro ver o leve tom avermelhado em seu rosto.

“Eu exagerei também. Sou um homem adulto, não deveria ter reagido tão dramaticamente por causa de algumas palavras, então a culpa não é toda sua.”

Zoro bufou desconsiderando suas palavras e Sanji finalmente voltou o olhar azul para ele.

“Enfim... É verdade que me acha bonito, marimo?”

Seu tom indicava uma simples curiosidade, mas Zoro não conseguiu encontrar voz para ser sincero e respondê-lo. Então, em vez disso ele desviou o assunto para algo que pudesse manejar melhor.

“Você não precisava sair cedo hoje? Fiz café e esquentei água para o chá, além de algumas coisas para comermos.”

De repente, antes mesmo que Sanji pudesse responder, uma mão surgiu de debaixo da cama e um corpo começou a se arrastar para fora de lá. Os dois assistiram de olhos arregalados enquanto um Luffy arrepiado aparecia e resmungava um “comida...” como um autêntico sobrevivente de apocalipse zumbi onde não restavam mais alimentos consumíveis.

*

Os três se acomodaram na cozinha: Sanji e Luffy sentados à mesa e Zoro apoiado no balcão com uma caneca de café firme em seus dedos. Sobre a mesa havia algumas frutas dentro de uma cesta, bacon e ovos fritos, além de uma porção generosa de torradas quase queimadas. Luffy não demorou a amontoar uma pilha em seu prato e começar a devorar sem piedade, mas Sanji apenas observou as fatias de pãos em seu prato com uma sobrancelha erguida. Diferente das torradas lisas com bordas tostadas que Luffy se fartava, as duas fatias que estavam em seu prato possuíam estranhas imagens feitas com geleia de mirtilo no centro.

Sanji encarava o pão com concentração tentando entender do que se tratava a imagem quando Luffy espiou por cima do próprio prato e assinalou convicto: “Um peixe betta azul! Ficou muito bom, Zoro.”

Espera. Aquele desenho estranho era pra ser um peixe betta azul? Não sabia o que era mais espantoso: se o fato de Luffy ter reconhecido de imediato (talvez houvesse algum tipo de entendimento mútuo entre pessoas que desenham muito mal) ou se era o detalhe chocante de Zoro ter desenhado um peixinho em seu pão. Sanji piscou surpreso e encarou Zoro como se esperasse uma confirmação para poder acreditar, pois esperava que a qualquer momento alguém dissesse que era tudo uma piada.

Mas contrariando a sua expectativa de piada, Zoro disse: “Sei que você gosta de peixes azuis, então tentei fazer um. Não ficaram bons.”

Sanji ficou perplexo. As orelhas de Zoro estavam vermelhas!

De repente o toque de um celular ressoou da sala até a cozinha.

“É seu celular, Luffy”, Zoro deixou a caneca no balcão e cruzou os braços. “Tem alguém te ligando.”

Luffy deu de ombros. “Não é ligação. Esse é o som do lembrete de que preciso aparecer na casa de...” Ele parou de mastigar e falar ao mesmo tempo e olhou rápido para o relógio de parede. “Eita, estou atrasado!” E dito isso ele enfiou algumas torradas no bolso, agarrou a mochila que estivera abandonada no sofá e partiu tão rápido como quando chegou.

Vendo-o chegar e sair como bem queria era quase como ver uma força da natureza personificada. As duas pessoas restantes bufaram risadas de conformismo. Depois Sanji voltou-se sorridente para Zoro e apontou para o desenho feito de geleia.

“Então. Peixe betta, hein. Se estreitar bastante os olhos até dá pra achar bonitinho”, o sorriso aumentou à medida que o cenho de Zoro se franzia mais e mais.

“Se não quer pode jogar fora”, Zoro retorquiu irritado.

Ele saiu de onde estava e pisou duro na direção de Sanji para pegar as benditas fatias, mas Sanji foi mais rápido e rodopiou agilmente para longe da mesa com o prato em mãos.

“Quem disse que eu não quero? É claro que irei comer, mas antes preciso tirar uma foto desse presente que você fez especialmente para mim!”

Zoro estapeou a própria testa enquanto Sanji correu para o quarto para pegar o celular. Tirou tantas fotos quanto achou necessário e só então mordeu uma das fatias de pão. Depois cantarolou feliz enquanto ajudava a reunir a louça para lavar.

Fora os murmúrios cantantes de Sanji e os ruídos de água, a cozinha estava em completo silêncio. Ao seu lado, Zoro enxugava os talheres e canecas com um pano de prato que ganhou de Robin e que tinha caveiras bordadas nas laterais.

“Hm, estamos bem?”, perguntou ele de repente.

Sanji anuiu. “Sim, estamos bem. E seus peixinhos estavam ótimos, Zoro”, complementou dessa vez sem tom de troça.

Zoro não retrucou mais, porém Sanji viu de soslaio ele enxugar um prato com uma atenção exagerada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.