Como se fosse mágica
2 A virada
Os mais corajosos concordarão que o que mais se aproxima de magia no mundo está no circo. Não apenas fazendo pessoas superar a morte , flutuar nos céus ou, o melhor de todos, desaparecer diante de seus olhos. Não. A grande magia está em conduzir os olhos atentos de dezenas de pessoas para uma viagem entre o possível e o impossível, então fazê-las retornar para casa abismadas pelo que viram e não ter alternativa se não acreditar.
O poder de fazê-las acreditar. Isso é mágico.
É claro, há uma visão alternativa sobre o mundo. Para os românticos, o amor seria o que há de mais próximo de magia. O amor pode não fazer alguém literalmente flutuar, mas há um lado abstrato nos sentimentos que só mesmo sendo mágico para fazer sentido.
Curiosamente, esse outro tipo de magia está presente no mesmo lugar: o circo!
—Mais uma vez?
—Com certeza!
O Weasley mais velho usava seu habitual casaco vermelho e cartola proeminente enquanto ajudava o mais novo a segurar no trapézio.
Se alguém tivesse de descrever quem eram os Weasleys, certamente seriam estas as características marcantes: cabelos ruivos, vestes escarlates e uma pequena dose de magia! Segundo Arthur, o Patriarca, a arte circense está em seu sangue por gerações. Foi quando conheceu Molly, a mais cativante vendedora de flores em toda Europa, que se deu conta do próximo passo: os Weasley não apenas estariam no circo, eles seriam "O Circo " dali em diante.
Tudo começou com o Show De Um Homem Só, um mágico nos fundos de um trailer acompanhado de sua bela dama. Logo nasceu o primogênito que antes mesmo de caminhar já usava cartola e agitava sua varinha de condão.
Quanto mais crianças vinham, mais shows surgiam e mais trailers eram anexados. Guilherme, o SemMedo, era capaz de enfrentar as mais selvagens criaturas, leões, ursos, serpentes… Caminhar sobre espadas, pegar balas com a boca e ainda enfrentar o Globo da Morte! Carlinhos, o Domador, roubou parte de seu show mostrando que não havia uma criatura na Terra que ele não fosse capaz de treinar. Percy, o Adivinho, era capaz de ler a mente mesmo do público mais cético… Exceto, é claro, da dupla anarquista de gêmeos que tinha de irmãos. Ninguém era capaz de adivinhar o que fariam, nem mesmo o Domador conseguia lhes colocar uma coleira. Felizmente, o Patriarca sabia exatamente o que fazer:
—Respirar, sorrir e saltar!
E do picadeiro viam-se duas cópias idênticas com seus 14 anos balançando entre os trapézios com suas peripécias. O medo e a loucura tinham um efeito epifânico no público, mas para isso, era preciso de um árduo treinamento.
—Aqui! — Fred, um dos Gêmeos, esticou as mãos para que o irmão segurasse ao soltar a barra de metal, mas por milímetros o encontro não funcionou — Jorge!
O outro Gêmeo caiu na cama elástica de segurança. Mas desta vez chegaram perto, muito perto.
—Muito bem, meninos! Do começo, de novo.
Assim seguiram-se os dias de inverno, com muito treino até que tivessem um espetáculo perfeito para rodar na primavera britânica.
Os Weasley contavam os dias para o fim das geadas que pintavam a terra de branco. Para sobreviverem ao frio, acampavam no celeiro de uma rica e generosa família: os Granger; em troca de ajudarem na colheita e alimentar os animais durante o inverno, recebiam abrigo, comida e dinheiro.
Poderiam ficar o ano inteiro, segundo a senhora Granger, mas não. A vida de um Weasley está na estrada.
Era fácil reconhecer como havia um amor mágico entre todos da família Weasley. Uma magia que transcendia o palco e os aplausos, era o que mantinha todos unidos enquanto faziam o que mais amavam.
Mas não, essa não é uma história sobre um amor abstrato e familiar, é sobre um pequeno acrobata que vivia a magia do circo, mas que estava prestes a conhecer outro tipo de magia...
—Bom dia… Senhor Weasley…
A história, é claro, parte de uma quebra da habitual rotina dos Weasley.
O Patriarca a respondeu com um aceno da cartola enquanto ajudava com a maquiagem do pequeno Ronald do seu primeiro número como O Palhaço.
—… Será que… Bem, um de seus filhos poderia me acompanhar até a estação de trem? Meu marido precisou atender uma emergência na cidade e preciso de ajuda com algumas malas.
A expressão ansiosa no rosto da senhora só poderia ser reconhecida por outra pessoa que também tinha filhos. Um misto de ansiedade, preocupação e euforia. Sim! A filha única do casal devia enfim ter chegado de uma longa estadia no internato francês para suas férias de natal.
Não foi preciso mais que um assovio para Fred saber o que fazer. Logo colocou um casaco de tricô e organizou a carruagem que levaria a Senhora Weasley para a estação de trem.
A pequena Hermione tinha cabelos castanhos muito cheios e os dentes da frente meio grandes. E um ar meio mandão, na opinião de Fred. Quando o rapaz se ofereceu para ajudá-la a subir na carruagem, ouviu um rabugento:
—Consigo subir sozinha!
A viagem de volta para a fazenda lhe custaram as últimas horas de sol do inverno britânico, Molly já deve ter separado uma quentinha para o filho e reservado as panelas ainda quentes sobre a fornalha para a recém chegada e sua mãe. A noite, infelizmente, também significava que o treinamento das acrobacias havia acabado e na manhã seguinte o ruivo passaria o dia limpando os cavalos.
De fato, contava os dias para voltar para a estrada.
Com todos dormindo, Fred se esgueirou para a cozinha na esperança de encontrar algum calor para aquecer as mãos nas brasas remanescentes do carvão. Por sorte ou destino, não era o único acordado durante a madrugada. Ali, ao lado dos armários, uma miúda se esforçava para alcançar o pote de biscoitos da prateleira mais alta:
—...Senhori…- O q… Shiu! Silêncio!
Aquele fora o sussurro mais agressivo que já ouvira, mas precisava admitir que também soava ligeiramente fofo. Só um pouco.
O ruivo se aproximou e com absurda facilidade alcançou o pote, entregando para a pequena, que mesmo emburrada, ainda possuía boas maneiras.
—Obrigada…
A resposta em sorriso maroto viria a se tornar uma marca registrada entre as conversas, as crianças só não sabiam disso ainda.
Num lapso de coragem, a jovem acenou para que o ruivo lhe acompanhasse até a varanda de fora casa e ele, num lapso de curiosidade, aceitou.
O silêncio preenchia a madrugada como um cobertor aconchegante, apesar do frio que, como uma navalha, quase rasgava a pele nua de suas mãos.
De sua bolsa, a morena pegou uma luneta de metal e um pequeno caderninho de notas, então apontou o cilindro com a lente para o céu como se procurasse ver algo além. Ora concentrada no caderno, hora obstinada para o céu. Esse pequeno malabarismo com os objetos seguiu até que um sorriso confiante revelou a Fred que havia encontrado… Encontrado o que quer que estivesse procurando.
—Ali, veja!
Mantendo suas luvas firmes segurando a luneta, a pequena abriu espaço para que o ruivo observasse as estrelas de perto.
—É Órion, o caçador. As três mais brilhantes são sua cintura, um pouco acima você pode imaginar um arco e….
— Então esse é o nome das Três Marias? Sempre achei estranho as três terem o mesmo nome…
Hermione lhe olhou abismada, como quem foi foi pega de surpresa:
—Você conhece constelações?
—Bem… Eu não entendo esses rabiscos no seu livro, mas aquelas estrelas nos ajudam a viajar a noite. Elas apontam para o Oeste, papai me mostrou isso outra noite.
— Isso é… Brilhante! — com os olhos vibrantes e o sorriso, mesmo dentuça, Hermione Granger poderia até parecer bonitinha aos olhos de Fred Weasley — Gostaria de conhecer outras? Eu sei o nome de um montão delas!
O ruivo sorriu, concordando.
Talvez as noites de inverno não sejam tão ruins afinal de contas.
Os dias passaram e, sobretudo, as noites seguiram repletas de encontros noturnos.
Fred ora ensinava alguns truques de mágica, como o truque da moeda ou o truque da colher mágica, outrora cabia a Hermione de explicar o sol e os cometas, ou a Aurora Boreal. Quando a mais nova descobriu que o outro sabia ler, mas muito pouco, logo se apressou para lhe arranjar um livro cheio de palavras e figuras coloridas de pássaros.
—Um dia eu gostaria de voar assim!
—Como um pássaro?
O ruivo perguntou.
—Sim! Como um pássaro!
—Eu não sei se vai conseguir voar como um pássaro um dia, mas você poderia voar como uma pessoa mesmo…
—VOAR? COMO? — notando sua gritaria, a morena escondeu o rosto com as luvas, ainda que sua empolgação ainda fosse nítida — Como se voa sendo uma pessoa?
— É um segredo de circo… — Apesar de fingir uma expressão séria, seu rosto deixava claro que estava fingindo — Eu até poderia te ensinar… Mas aposto que você consegue sozinha.
Como uma pequena leva de socos da amiga, o trapezista confessou:
—Ok, ok… Eu posso te ensinar, mas não pode ser a noite. E preciso da ajuda dos meus irmãos, eu jamais me perdoaria se te colocasse em risco, Hermione.
No instante em que percebeu que lhe tratou em primeira pessoa, suas bochechas ficaram tão vermelhas quanto seus cabelos, assim como Hermione que escondeu o rosto e se levantou constrangida.
—Eu… Aceito sua proposta, Fred. Me avise quando puder me ensinar a voar…
Se a mesma tivesse coragem de lhe olhar nos olhos, veria um rapaz de cabelos sujos, rosto cansado, mas com um sorriso absolutamente hipnotizante.
—Nos vemos amanhã, na mesma hora?
— … Até amanhã, Fred.
—Até amanhã, Hermione.
Como prometido, Fred ensinou Hermione a voar.
Como esperado, o natal passou e o inverno acabou.
Como ansiavam, continuaram a se comunicar por cartas.
Os Gêmeos foram um sucesso no circo daquela temporada! Em particular, todo o público se surpreendia com o “Vôo pelo céu estrelado” feito por todos os irmãos nos trapézios.
Logo um ano se passou e mais uma vez o inverno chegou. Pela primeira vez em anos, Fred Weasley ansiava pelo frio cortante, as mãos congeladas, os trabalhos cansativos e, sobretudo, ansiava por rever Hermione…
—Oh, querido. Não… Não desta vez. Hermione recebeu a honra de se matricular em um sofisticado curso de boas maneiras durante o inverno. Como mãe eu morrerei de saudades, mas preciso aceitar que está chegando…
—Chegando o que, senhora?
Fred perguntou durante o café da manhã.
—Ora…Chegando a hora da minha querida Hermione começar a ser cortejada, é claro. Num segundo é um bebê de colo e no outro já estará recebendo propostas de casamento! Você é sortuda, Molly, querida- Senhora Granger se dirigiu a ruiva que lhe servia o chá — Terá seus filhos ao seu lado pelo resto de sua vida!
—Tem razão, senhora Weasley. Tenho muita sorte.
Fred não tinha o direito de criar expectativas de nada, é claro.
Nunca houveram promessas em suas cartas, nem a simples menção de algum compromisso…Apenas… Não queria sentir tanta falta ver seus dentes tortos durante as madrugadas congelantes. Ele tinha, afinal de contas, muito mais com que se preocupar devido à "sorte" de sua família.
SemMedo havia selado sua vida ao lado de uma francesa que fugiu com o circo, Fleur Delacour, e a pedido da esposa, passou a ter mais medo do que fazia no picadeiro. Isso dava aos Weasley uma nova atração de um mágico e sua bela assistente, mas também criava uma lacuna.
Alguém precisava assumir os riscos e… Bem, 15 é de fato a idade em que se torna um adulto. Fred pediu para tomar sua posição, sob a alcunha de Fred, o Extraordinário, e seu gêmeo também conseguiu um show solo como mímico chamado de Jorge, o Excêntrico.Os continuavam trabalhando juntos, mas era nítido como o Extraordinário parecia mais obstinado a realizar grandezas no palco. Os truques nunca pareciam bons o suficiente, complicados o suficiente para atingir o verdadeiro sucesso.
O inverno passou mais rápido do que imaginava e, sem receber cartas, decidiu não informar mais a sua correspondente onde a estrada lhe levaria ao saírem da fazenda dos Grangers. Assim, seu tempo e dedicação foram colocados na verdadeira magia a qual poderia confiar estar sempre presente em sua vida: O circo!
* * *
E quem poderia imaginar que as várias estradas percorridas pelos Weasley os levaria a Londres 10 anos depois, no dia certo, na hora certa, como se as próprias constelações estivessem alinhadas ao seu favor. Alguns chamariam de destino, outros, como Molly Weasley, de muita sorte.
O que importa aqui, é claro, é que mais uma vez as duas melhores aproximações para magia neste mundo estariam mais uma vez no mesmo lugar: no Circo!
O Extraordinário, faria o grande show de abertura do circo Os Weasley com a ajuda da caçula, Gina, a Escapista, que teve a brilhante ideia da assistente do mágico ser alguém da plateia.
Um spoiler: o grande truque, é claro, era fazer o público acreditar que todos aqueles truques de mágica podiam ser executados mesmo por uma moça da plateia. Tudo se tornava ainda mais surpreendente!
No fundo, se a plateia acreditasse ser uma pessoa da plateia ao lado do mágico, a mágica seria um sucesso, mesmo que para isso fosse preciso hipnotizar a escolhida e ser Gina todo esse tempo no palco. Mesmo que fosse preciso fazer uma troca durante a chegada das esferas de demolição. Mesmo que o risco da mágica incluísse colocar uma pessoa aleatória em risco.
Valeria a pena, pois a mágica seria um sucesso.
Ao menos, era assim que Fred pensava até ver a jovem de cabelos castanhos e dentes não mais tortas se levantar na plateia.
Se seus pulsos não estivessem presos, poderia esganar Gina naquele momento (não estavam realmente presos, mas era preciso acreditar na mágica, certo?). Ali, caminhando em sua direção, de vestido vermelho e o mesmo sorriso hipnotizante, encontrava-se Hermione Granger.
Não. Não Granger. Hermione Malfoy. Mesmo itinerantes como os Weasley viram a notícias nos jornais impressos: A família Malfoy, um dos reis da Pólvora ainda no mercado, acaba de adquirir mais um terreno com o matrimônio do primogênito Draco Malfoy com Hermione Granger, agora Malfoy.
Fred mantinha sua persona de mágico, mas no fundo começava a rachar em nervosismo. Como ela poderia estar tão calma?! Como ela agia como se não nos conhecesse?! As questões levavam sempre a mesma resposta: Hermione não se lembrava dos Weasley.
Depois de tantos anos, era natural que tudo aquilo não passasse de uma fútil lembrança de infância… Certo?
—Milady, preciso de uma ajudinha para sair daqui… O show tem que continuar!
Por alguns segundos estiveram próximos o suficiente para se encarar. O ruivo procurava alguma resposta eu seus olhos, mas não havia saudade ou algum remorso ou nostalgia, apenas… Uma espécie de zombaria. Eram os mesmos olhos, o mesmo sorriso de quando surpreendeu o acrobata ao se soltar dos tecidos no meio do “vôo” e cair. Hermione o desafiava, restava saber em quê.
—Bem… Preciso testar as habilidades da minha nova assistente, não concordam, senhores?! Meu primeiro teste com nossa querida assistente de palco é a respeito de sua fé. — a fala se dirigia ao público e em seguida encarava sua assistente — Você acredita em mágica? Acredita em mim? Porque agora… Vai precisar.
O mágico empurrou levemente a assistente para o centro do palco e o show seguiu como planejado. Hermione foi “colocada na jaula” aos olhos do público, mas já estava segura sendo conduzida para fora do palco enquanto Gina a substituí usando a mesma roupa, mesma máscara e uma peruca castanha.
Ao menos, era o que o mágico acreditava. Então ocorreu o espetáculo grotesco das esferas destruindo a jaula vazia.
—Agora, iremos checar se a fé da senhorita Assistente foi suficiente para salvá-la.
O mágico simula tentar trazê-la de volta e caminha até a escada com compartimento escondido, assim, mesmo aqueles que adivinham truques, podem acreditar que a assistente da plateia de fato foi colocada lá, quando na verdade o truque vai muito além! Por fim, pega o tecido que cobria a gaiola para criar uma distração.
—Como um bom mágico, tenho sempre comigo algumas palavras mágicas — com a mão esquerda agitava o tecido e a direita apontava para o mesmo com se lançasse uma magia — Pateta! Chorão! Desbocado! Beliscão! Obrigado.
E bum!
A assistente se revela intacta entre os tecidos, surpreendendo a plateia e, mais ainda, a Fred, ao perceber que ali ainda se encontrava Hermione.
O mágico, por um segundo, perdeu as palavras. Mas como todos dizem: o show tem que continuar! É daí que se ouve da forma mais inocente possível:
—Qual será o próximo truque, senhor Extraordinário?
Era exatamente as falas que Gina diria se estivesse como assistente.
— Depois de ser esmagada, acredito que seja uma boa hora se ser serrada ao meio, não?
Essa era a deixa para seus irmãos entrarem e trocarem os equipamentos para poder serrar a assistente, onde sua cunhada, Fleur Delacour, já se encontra posicionada em uma das divisórias.
Fred conduz a assistente para a caixa, mas Hermione não é uma contorcionista como Gina, como poderia manter suas pernas em segurança do serrote? Fred não poderia… Não poderia dar continuidade ao show… E agora?
Sua mente barulhenta logo se calou antes do silêncio externo.
O público esperava uma ação, o mágico deveria conduzir a mágica, certo? O ruivo ofereceu a mão para ajudar a assistente entrar na caixa e ela aceitou. Não deve ser Hermione, certo? Hermione nunca aceitaria sua ajuda assim… Certo?!
A assistente se posicionou da maneira correta, o que no mundo do circo quer dizer dobrando todo seu corpo para caber num espaço feito para caber apenas metade do seu… Exatamente como Gina fazia nos ensaios.
Logo as pernas de Fleur com a mesma meia arrastão da assistente se posicionou dando a ilusão ao público de ser uma única pessoa.
Parecia seguro.
O show continuou. A assistente gritava enquanto era cortada e o público interagia novamente, então, por mágica, suas metades eram novamente unidas por mágica diante de todos.
—Como sabia o que fazer?
Fred sussurrou, da mesma forma que faziam quando estavam juntos na varanda há anos atrás.
—Eu sou sua assistente, Fred. Claro que sei o que fazer no show.
Encerrando o sussurro com um piscar de olhos, ambos ergueram as mãos ganhando as palmas por mais um espetáculo bem sucedido.
—Agora, senhoras e senhores, era minha vez de testar a fé. Será que eu confio nesta assistente? É isso que pretendo provar sendo seu novo alvo particular!
Com o cenário todo montado, as espadas e até mesmo a arma de fogo sobre uma mesa ao lado da assistente, o mágico ficava à frente de um grande alvo de arco e flecha e torcia para a mesma saber que não precisa arremessar as espadas de fato, basta fingir e um sistema manual com o ruivo irá inseri-las no alvo. O alvo controlado é apenas metade do truque, no fundo, é preciso também uma grande sincronia entre a ação de arremessar e a reação do alvo ser acertado.
Mais um momento de perder o fôlego, mas um momento de poder encarar Hermione nos olhos e o que mais Fred queria naquele momento era a capacidade de decifrá-los.
Uma faca. Duas. Três.
Logo todas foram arremessadas com a exímia precisão de parecer desastrada, incluindo uma faca arremessada acima do alvo, como foi feito nos ensaios. Fred pegar a bala (que nunca foi atirada de verdade) com a boca foi o toque final do truque seguido para ovações do público. A assistente agradecia tal qual o mágico.
Ela agia como Gina, mas era Hermione… Tinha que ser! Seria a mente de Fred lhe pregando peças? Seria sua irmã todo esse tempo no show?
Não há como ter certeza, não até o final. Olhar para Hermione daquela forma por tanto tempo acabaria deixando-o completamente louco.
Agora era o momento do truque mais arriscado. Mesmo Gina teve dificuldades nos treinos para conseguir “cair” de maneira natural; O truque consistia de uma base na qual a sustentação se escondia dentro das cortinas e por meio de roldanas, a assistente era erguida e decida. A assistente levitada: um clássico! No fundo, todos imaginavam como ele poderia funcionar, mas ninguém acreditava que uma tecnologia poderia estar assim tão avançada… Um truque do futuro como era conhecido.
Até aí, tudo ocorreu como planejado, a assistente estava erguida a 10 metros de altura. O Patriarca operava da coxia o equipamento e logo um tecido de acrobacias foi solto para o mágico “provar” que não há um sistema erguendo a assistente. Com trocas ágeis de pistões, o tecido conseguia passar com naturalidade pelo sistema que a erguia.
Assim, resta a parte difícil. Fred devia girar o tecido de forma a prender a mão da assistente, então, num truque de mágica, a base que a sustenta some encolhendo e ela deve se segurar pela mão presa até que o mágico agita o tecido para que “caia” até o chão.
O que não aconteceu no palco.
Quando o suporte desapareceu, a assistente se agitou prendendo sua cintura no tecido, enquanto se agitava tentando se soltar. Era exatamente o tipo de erro que acontecia nos ensaios e depois de muito treino e quedas em cama elásticas, estava pronta para fazer ao ao vivo.
Mas aqui não havia sistemas de seguranças. Se a assistente caísse de verdade, poderia ser fatal.
O mágico, é claro, se preocupou e tentou acalmar a assistente. O público acreditava ser parte do show, mas quem conhece o ruivo sabe que ele jamais faria isso numa parte tão delicada do espetáculo, ele não era sádico a esse ponto.
—Consegui!
Enfim, a mão da assistente havia se soltado do tecido, mas era seu único ponto de segurança para não cair, então seu corpo começou a se desenrolar descontroladamente, o que fez Fred Weasley se preparar para segurá-la. Ele precisava salvá-la. Ela não poderia cair. Não de novo.
E o truque se revelou.
Milímetros antes de chegar aos braços de Fred, o tecido foi segurado pela própria assistente. Pausa, para todos recuperarem o fôlego. Então, lentamente, terminou de se desenrolar chegando aos braços de Fred Weasley.
Ele sabia que era Hermione, agora não poderia negar. Somente ela poderia fazer seu coração palpitar daquela forma e ainda sorrir como se houvesse ganho um desafio.
De fato, tinha.
Fred Weasley continuava absolutamente apaixonado pela garota que conhecera a muitos invernos atrás. Ali, em seu colo, estava exatamente aquela que desejou todos esses anos.
A plateia aplaude, os dois agradecem. Agora, de mãos dadas, mesmo com todos os gritos e ovações, era como se um silêncio confortável os envolvesse e podiam ouvir apenas a respiração um do outro, a pulsação um do outro. O tão sonhado reencontro das crianças de 10 anos atrás.
O gran finale aconteceu. Durante o truque, Fred saiu por um alçapão no palco e seu irmão assumiu a posição como O Extraordinário. Uma tragédia bem vinda, os últimos e mais belos aplausos sempre ficavam com seu irmão após realizarem o truque do teleporte, mas é um preço justo a se pagar em nome do show…
O mágico tinha outras prioridades no momento. A assistente sumia junto com o mágico no meio do show, e ele sabia aonde levava aquele alçapão, sabia onde encontrar sua Hermione. Ao menos assim pensava. Entretanto, a assistente passando pela pequena porta era a ruiva que cresceu ao seu lado toda a vida: Gina Weasley!
—Onde ela está?
—Onde está quem, Fred?
—Hermione. Você sabe… Sabe que era ela, certo?... Certo?!
—Fred…
* * *
Não muito longe dali, poucos minutos antes do Lorde perceber o que sucedeu ao espetáculo, um vulto encapuzado corre pelas ruas até chegar a uma carruagem puxada por dois cavalos. Uma das últimas remanescentes com as ruas preenchidas por carros, mas a morena insistia em usar carruagens.
Havia um charme especial em poder seguir para casa apreciando a visão do céu com as poucas estrelas visíveis em Londres. Ela sabia que, se não fossem as nuvens cobrindo o horizonte, veria ali três estrelas formando o Cinturão de Orion, ou como um velho amigo conhecia, as Três Marias.
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