Como se fosse a primeira vez

1 Uma única desculpa apenas


Em uma pequena cidade chamada São Vicente, vive um casal com dois belos filhos. Eles têm uma vida comum, não há nada que se possa reclamar. Ele trabalha em um pequeno escritório de vendas e ela em uma empresa de cosméticos e maquiagem. São casados a um bom tempo, sempre houve respeito entre os dois, além de um forte sentimento de cuidado e zelo por parte de Edu fazendo ser um bom pai.

Como de costume, foi mais um dia comum na vida dos dois. Após chegarem em casa depois do trabalho se sentavam à mesa com as crianças para jantar e aproveitavam para colocar as conversas em dia como a escola das crianças, contas para pagar, alguns assuntos triviais ou familiares.

No entanto, havia um assunto recorrente a ser tratado e claro, deixava o ambiente com uma atmosfera diferente. Edu estava apreensivo, deixando transparecer transparecer um certo incômodo, parecia que ele pensava o aborrecia por não haver uma solução.

— Edu, algo está te preocupando?

— Eu?

— Sim, olha você nem está tocando na comida.

— Ah, eu estou longe mesmo.

— Posso saber? É o trabalho? Descansa. Pode ir deitar, eu coloco as crianças para dormir.

— Não, eu estou bem. É só um assunto familiar que envolve nós dois.

— Tipo oque?

— Um jantar em família que precisamos aparecer.

Eventos familiares como o da Família de Edu sempre são regados a situações imprevisíveis, mas havia situações que já eram normais e esperadas e era por isso que os dois temiam ir para esses eventos. Tina não queria ser indelicada, mas dentro de si surgia um misto de ansiedade e preocupação, pois ela não gosta muito desses eventos familiares.

— Ah, é isso? — o silêncio pairava na mesa, apenas os pratos chiavam com o farfalhar dos talheres nas louças. — Quer dizer que vamos?

— É, eu não sei Tina.

As respostas não foram o suficiente, Tina queria algo mais certo e não aquela coisa carregada de dúvidas. Edu recolhia os pratos da mesa para lavar na pia enquanto Tina retirava os resíduos de comida da toalha.

— Podemos não ir se quiser.

— Como?— disse surpresa. Tina ficou ao lado com o pano para enxugar as loucas conforme colocava para escorrer. — Está me dizendo que podemos não ir? É sério.

— É, não precisamos ir. Eu sei que você não se sente muito confortável nesses ambientes. E além do mais, já fomos no último que já teve, então.

— Não que isso! Não quero estragar nada, sabe.

— Não, pelo contrário Tina. Eu também não me sinto à vontade nesses lugares, ainda mais quando minha tia Ana está por lá.

— Sua tia Ana. Estava me esquecendo dela.

— Ela nunca falou nada pra você que te deixou desconfortável?

— Olha, acredito que sim. Não me lembro. Mas se não formos. Sua mãe não ficaria chateada? Ela sempre está empolgada tentando reunir a família toda.

— Não… ela supera. Além do mais não podemos ter tudo o que queremos. A mamãe é menor dos nossos problemas agora.

— Então, não vamos?

— Não vamos.

As louças estavam todas lavadas, Edu era um homem habilidoso com tarefas domésticas e sempre que podia, e fazia acontecer, tomava conta de todas elas. Tina conseguiu enxugar boa parte delas, mas não na mesma medida que ele lavava rapidamente. Tina respirava aliviada, as crianças estavam dormindo e ela lia o seu livro quando um detalhe surgiu em sua mente. Levantou-se rapidamente da cama e Edu se assustou pelo movimento dela.

— Tina?

— Edu, não consideramos uma coisa. — virou-se para ele.

— O que? É sobre a escola das crianças?— inclinou-se para ouvir a esposa com mais atenção.

— Não, é sobre o jantar em família na casa de sua mãe. Não temos uma desculpa para deixar mais consistente a nossa não ida para lá.

— Desculpa, motivo? Pensando bem da última vez, não fomos porque os meninos ficaram gripados.

— Sua mãe é ótima em descobrir as coisas.

— Não vamos mentir. Mas ela é mesmo ótima em descobrir as coisas.

No trabalho, Edu estava super pensativo sobre o que sua mãe poderia achar, não havia nenhuma desculpa boa o suficiente, e se eles não achassem uma seria complicado de responder caso ela pergunte o motivo. Além disso, eles teriam de ligar para informar o motivo da não ida deles. A mãe dele era ótima em arrancar verdades e descobrir as coisas, uma dessas foi quando por um acaso Tina se descobriu grávida.

— E o que foi Edu, parece que tá pensando longe.

— Ah, é o jantar em família da minha mãe. Não quero ir, estou odiando a ideia de que se nada der certo vamos ter que ir.

— Mas porque não quer ir?

— Tu sabe que eu não quero encontrar a tia Ana.

— Tia Ana é aquela mulher que te odeia, que você quebrou a janela dela não foi?

— Sim, foi. Eu ainda vou ter que ligar pra mamãe e despachar, mas não tenho uma boa desculpa para isso.

— Olha, é quando?

— Amanhã, sexta feira.

— Pois, é… que tal fazer umas horas extras?

— Horas extras? Não tinha pensado nisso. É uma boa ideia.

— Sou profissional em dar boas desculpas.

— Obrigado, Kevin. Eu nunca teria pensado nisso — Edu abraça o colega e dá um beijo na bochecha dele.

— Sai pra lá…— diz Kevin, desajeitado e risonho, limpando a bochecha.

Edu estava ansioso para contar à esposa o plano, ou melhor, a desculpa que ele pensou. E quando chegou em casa foi a primeira coisa que fez. Como de costume, ele sempre chega com algumas sacolas do mercado. A casa estava em silêncio. Os meninos dormiam nos quartos e ele se perguntava onde estava a esposa.

— Tina, onde você está?

— Estou aqui Edu, no banheiro.

Edu seguiu a voz dela e estava ansioso para lhe contar o que tinha pensado como desculpa para eles não irem ao jantar em família. A porta do banheiro estava fechada e ele tentava falar de fora para que ela escutasse, mas o som do chuveiro impedia que ela o escutasse, não dava para ouvir bem. Foi aí que ela entendeu que poderia ser alguma coisa sobre o jantar em família. Abriu a porta para Edu e ele acabou caindo, pois estava escorado na porta.

— Edu, você está bem?— Envolta na toalha Tina olhava para baixo e via o marido no chão com um certo nojinho de ter triscado as mãos no chão. Via ele olhar para ela com um brilho nos olhos. Ela sabia que ele tinha uma coisa boa para contar.

— Estou sim. Só foi uma quedinha.— Ele enxugava as mãos na roupa mesmo.

— O que foi? Você está tão animado. — Tina voltou a enxugar os cabelos delicadamente com a toalha enquanto Edu contemplava os belos cachos daquela mulher que iam se formando. — Não vai falar?

— Posso?

— Claro.

— Acho que encontramos uma boa desculpa.

— Falando nisso, eu não consegui encontrar nada pra fazer no trabalho esse dia.

— Não? Mas eu sim, vou fazer horas extras.

— Sério, isso é ótimo. — Tina deu um riso semicerrado bem terno. Coisa que fez Edu ficar um pouco envergonhado, envergonhado também ele já estava por estar em um momento íntimo da esposa.

Já era tarde da noite, com certeza a mãe dele já estaria em casa e era o momento ideal para ligar e avisar a ausência dele no evento da família. Mas ele tinha que ter cuidado com as palavras para não deixar sua mãe chateada. Tina estava ao lado dele esperando ele falar alguma coisa.

— Mãe?

— Edu meu filho! O que foi? Preparado para hoje?

— Era sobre isso. Eu, Tina e as crianças não vamos poder ir.

— Porque?

— Trabalho, surgiu um imprevisto, então…

— Ah não Edu, trabalho?

— Sim, eu queria ir, mas não vou poder — Edu estava um pouco nervoso, Tina estava perto e riu um pouco dele por ele conseguir fingir tão bem.

— Entendo. Queria muito que vocês fossem. Seria incrível ter vocês, como sempre.

— Desculpa mãe. Quem sabe em uma outra oportunidade.

— Tudo bem, vou desligar. Boa noite.

— Pronto, conseguimos. Não vamos para esse jantar.

Edu e Tina não seguraram os risinhos tímidos de que conseguiram se safar muito bem. Agora os dois deveriam seguir o plano e ficar descansados. Só que teriam de se preparar para a próxima oportunidade, e essa não passaria batido. Não haveria desculpas, eles teriam de ir como o prometido. Mas do que eles tanto querem fugir nesse jantar família?